segunda-feira, 25 de agosto de 2025

Imigrantes

 Fora de Portugal negros, brasileiros e paquistaneses!

Frase escrita numa parede da Covilhã



Escrevo este texto porque nossa família é um delicioso fruto da imigração europeia ao Brasil. Uma mescla de italianos da Lombardia, com ramificação pela vizinha Áustria, e de portugueses algarvios e transmontanos. Foram todos ao Brasil em busca de melhores condições de vida, lá pelo século XIX e início do XX.

Minha avó paterna, Maria Rosa Januário dos Santos, portuguesa, era analfabeta, como uma boa parte dos imigrantes de Portugal. Perdeu seu marido, meu avô António dos Santos, dez anos mais jovem que ela, quando tinha 4 filhos pequenos a criar. Lavou roupas no rio Guaíba para obter sustento, conseguindo levar adiante, sozinha, sua família. Meu pai, Waldomiro, e meu tio Manoel, este nascido em Portugal, tornaram-se marceneiros e criaram pequenas indústrias de móveis. Com talento sustentaram seus filhos, alguns dos quais, incluindo eu mesmo, tornaram-se profissionais liberais, com curso universitário, graças ao sistema de ensino público do Brasil (qualificado, pelo menos, naqueles tempos). Meu pai era um homem brilhante e talentoso, que nunca conseguiu realizar seu sonho de tornar-se médico. De algum modo, eu cumpri sua vontade. Na sua pequena indústria, situada na rua Rodolfo Gomes, bairro Menino Deus, recebia seus amigos, incluindo pessoas de elevada cultura, que iam à nossa casa não apenas para comprar móveis, mas também para discutir temas de política e história. 

Meu pai casou-se com a linda Rosa Carminatti Miz, minha mãe, filha de Luiz Miz e Lucrécia Carminatti, esta última nascida no Vêneto, mas filha de cidadãos bargamascos. Do lado materno, outra tragédia: a pequena Rosa ficou órfã de mãe aos 3 anos. Meu avô casou em segundas núpcias com uma senhora napolitana, e minha mãe, como minha tia Iolanda, construíram suas histórias familiares de modo isolado, com grande bravura e capacidade. 

Por que recordo isto? Porque me impressiona a ignorância de uma boa parte dos portugueses, relativamente à realidade brasileira, limitando-se a identificar somente os clichês da TV Globo, no “oba-oba tropicalista” das regiões praieiras desde o tempo do Brasil-Colônia, como Rio de Janeiro, Nordeste, especialmente Bahia. Compram – e vendem- a narrativa fácil de um brasileiro malandro, safado, preguiçoso, quando não perigoso. Gente a ser evitada, enfim. 

Enquanto isto, o Brasil jamais negou-se a receber os irmãos portugueses, muitos deles analfabetos como meus avós. Para ter-se uma ideia, apenas entre os séculos XVI e XVIII cerca de 700 mil portugueses chegaram ao Brasil e, do final do século XIX até 1903, entraram no país uns 390 mil portugueses. A imigração portuguesa alcançou seu auge entre 1904 e 1930, com a chegada de cerca de 800 mil portugueses. Entre 1820 e 1963, foram os portugueses o povo que mais imigrou para o Brasil, com mais de 1 milhão e 700 mil pessoas, mesmo à frente dos italianos, que incluíram em torno de 1 milhão e 600 mil imigrantes. Além deles, entre 1820 e 1963, foram construir suas vidas no Brasil, mais de 700 mil espanhóis, 260 mil alemães, 250 mil japoneses, além um milhão de pessoas de outras origens.

No caso dos alemães e italianos, o que houve foi mais que imigração, constituindo um processo de colonização massiva. 

Os primeiros a chegar no sul do Brasil foram os alemães, graças à atuação da Princesa Leopoldina, da Áustria, e seu esposo D. Pedro I (Dom Pedro IV para os portugueses).  Em julho de 1824, os primeiros 39 alemães chegaram ao Sul, sendo assentados em São Leopoldo, no vale do Rio dos Sinos, e iniciando a chamada “Colônia Alemã”. Recebiam um lote de terras e subsídios para viver e produzir, sendo então “naturalizados”, tornando-se cidadãos brasileiros. Foram, desde então, conforme já descrito, 260 mil alemães a optarem pelo Brasil. Desde o início, seu luteranismo foi respeitado, apesar da religião católica ser a oficial no país. Quanto ao critério de seleção de “falar a língua do país ao qual se imigra”, os alemães mantiveram e falaram seus idiomas e dialetos próprios, embora lentamente fossem aprendendo a comunicar-se em português, o que se tornou uma realidade ampla apenas no século XX, durante a segunda grande guerra. Mas com muito sotaque, e mantendo o alemão no reduto dos lares. Em 1986, cerca de 3 milhões e 700 mil pessoas eram descendentes de alemães no Brasil, especialmente no Sul do país. Em 2004, a Deutsche Welle descreveu que em torno de 5 milhões de brasileiros descendem de alemães. 

Quanto aos Italianos, vale lembrar a Canção dos imigrantes, criada no final do século XIX:

"América América

lá se vive que

é uma maravilha

vamos ao Brasil

com toda a família

América América

se ouve cantar

vamos ao Brasil

Brasil a povoar"


Entre 1820 e 1963, entraram no Brasil mais de 1 milhão e 600 mil imigrantes italianos, os quais geraram, lá por 1999, uns 30 milhões de descendentes, segundo a Embaixada Italiana no Brasil, metade dos quais apenas em São Paulo. No Rio Grande do Sul, a colonização pelas comunidades originadas de todas as regiões do Norte da Itália, foi marcada pelo estabelecimento de um sem número de cidades rurais, que deram origem às metrópoles da “Colônia Italiana” onde, com o desenvolvimento do Cooperativismo e da Agricultura familiar, concretizaram indústrias poderosas e comércio internacional, incluindo marcas como a Tramontina e a Marcopolo entre tantas outras. Além de uma Língua original, mesclando os dialetos do norte italiano com português, o "Talian".

Um dado extremamente relevante para o desenvolvimento atual do Brasil foi a migração interna dos descendentes destas Colônias Italiana e Alemã desde o Rio Grande do Sul para o Centro-Oeste brasileiro, passando pelo oeste de Santa Catarina e Paraná, aonde levaram sua tecnologia na agro-indústria, sua cultura e religiosidade, de modo que o Cerrado Brasileiro, o qual o antropólogo francês Claude Levi-Strauss denominou de “Tristes trópicos”, prevendo, de modo completamente equivocado, que aquele deserto humano e cultural passaria da “selvageria à decadência, sem atingir a civilização”, tornou-se um dos maiores pólos agro-industriais do mundo, isto sem destruir matas por tratar-se de um bioma de savana, sem floresta.  E lá estão os descendentes do imigrante, esta joia que produziu milagres em pleno deserto, que fundiu continentes com cultura, talentos e inteligência, levando ao florescimento dos potenciais de pessoas de todos os tipos, cores, línguas e níveis educacionais. 

E a produzir profissionais qualificados a partir das humildes famílias de imigrantes, muitos destes analfabetos, mas com grandiosidade cultural viva nas almas.

Há, sim, que planear quem entra, selecionar quem chega em termos de honestidade e capacitação; regular claramente o processo de imigração e cumprir as leis de forma estrita, de modo a evitar sofrimento tanto para os portugueses quanto para os próprios imigrantes. 

Mas, os vândalos, ou "ativistas", que escrevem estas e outras  frases estúpidas nos muros das cidades portuguesas ignoram que negligenciar por preconceito o potencial humano que busca - e traz - qualidade ao país é desprezar um futuro melhor.



3 comentários:

  1. Parabéns pelo posicionamento e pela qualificada explanação sobre a importância dos imigrantes na formação dos povos e países.
    Admiração!!!

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