domingo, 22 de novembro de 2020

Abutres ideológicos

Quando vi ontem a mistura midiática de um "Dia da Consciência Negra", o afro-Halloween que desvaloriza o 13 de Maio, data da História do Brasil em que se comemora a Abolição da Escravatura, com o resultado trágico de uma briga na frente de um supermercado entre uns seguranças covardes, pois eram 2, com um homem sozinho, redundando na morte deste último, senti que ali estava o dedo (dos 9 que tem), a assinatura, daquele que depois deu entrevistas para jornais internacionais e da sua oportunista candidata à Prefeitura de Porto Alegre. A luta pela Abolição da Escravatura foi desenvolvida por grandes intelectuais negros brasileiros, como Luis Gama, José do Patrocínio e André Rebouças. Sem falar de Rui Barbosa. E as figuras luminares da princesa Isabel e seu pai Pedro II foram cruciais para o fim de quatro séculos de crueldades, período que abrangeu desde o Brasil Colônia ao Império em que 5 milhões de pessoas foram levadas à força ao Brasil para serem exploradas como mão de obra. Pessoalmente, se se tratasse de alguém da minha família, além de processar os seguranças e a empresa que os contratou, eu processaria também aqueles que usassem a morte do meu familiar como propaganda política eleitoral, e os seus respectivos partidos. Abutres ideológicos alimentando-se do drama alheio.

sábado, 7 de novembro de 2020

Lembranças de um guri do Menino Deus

O Menino Deus, lá por 1960, era outra coisa, muito menos sofisticada que hoje. Bairro de famílias de imigrantes portugueses, espanhois, árabes, judeus, poloneses, russos, italianos, alemães...o mundo de pós-guerra a circular pelas ruas. Muitos de nós éramos pobres e nossos prazeres eram simples, incluindo o chimarrão compartilhado entre vizinhos nas ruas seguras e tranquilas. No Inverno, fogueiras de São João, e quentão. Procissões com velas acesas até a antiga Igrega do Menino Deus, que naquele tempo era um precioso prédio neo-Gótico. Muitas conversas, aniversários, cães e gatos. Naqueles dias, a rua Rodolfo Gomes dividia-se em duas extremidades inimigas: os “de baixo” e os “de cima”. Os “de baixo”, como nossa família, moravam na direção da Avenida Praia de Belas, próximo às margens do rio Guaíba, que depois viemos a saber, é um lago. Os imensos aterramentos que criaram a orla de grandes avenidas, parques e edifícios modernos de hoje ainda não existiam e nós todos, usando câmaras de pneu como boia, usufruíamos do grande rio nos verões. Por outro lado, “os de cima”, que viviam na direção da Avenida Getúlio Vargas e mesmo além, para as bandas da Azenha, eram aqueles esnobes que andavam de nariz empinado. Os rapazes mais velhos achavam motivo para disputas: os “de cima” contra os “de baixo”, mas éramos todos bons vizinhos, "buona gente". Toda uma parte desta região do bairro era ainda campo desabitado, cheio de árvores, o qual chamávamos de “a Chácara”. Brincávamos na Chácara e era uma alegria ter um campo livre para correr, junto dos amigos e cuscos. Algo que nunca entendi é porque alguns meninos matavam passarinhos com fundas. Eu era o "estranho no ninho" que coletava gatos e cachorros abandonados e me deliciava em admirar pássaros vivos.
Havia na parte “de cima” da Rodolfo Gomes uma família de alemães, os Vontobel Neugebauer, que criaram uma indústria de chocolate para alegrar nossas vidas e, creio, até hoje existe esta empresa em outra região da cidade. Lembro das barrinhas de chocolate amargo, forradas num envoltório branco com a imagem da Neugebauer estampada. Na Avenida Praia de Belas desfrutávamos as piscinas do Grêmio Náutico Gaúcho onde, além de nadar, tínhamos espaço para brincar, conversar com vizinhos, “pular o Carnaval no Clube", tomar Guaraná, Grapette, Fanta e Pepsi-Cola ao sol. Não me perguntem por quê, mas de Coca-Cola ninguém gostava. Todos queriam Pepsi. Neste clube, meu irmão Tônio, que era campeão Estadual de Natação (e enlouquecia a mulherada com seu corpaço de atleta) me ensinou a nadar aos 6 anos. Eu treinei Natação desde então e participava de competições e torneios, por estímulo do mano, o que me trazia algum desconforto, pois, por algum motivo congênito, nasci essencialmente avesso à competição. Nossa escola, na rua ao lado de casa era a Presidente Roosevelt, colégio excelente que o Brizola nos deixou (além do Ginásio Infante Dom Henrique, de segundo grau, que lhe era acoplado). Nestas escolas aprendi a amar o estudo. Mas queria falar do período em que era muito, mas muito pequeno. Eu era um guri magrinho, de olhos azuis e de cabelos “platinum blond” quase brancos, que mais tarde, por algum motivo, tornaram-se castanhos. Pois tive que enfrentar “bullying” por ser como era devido a uma circunstância histórica. Naquela época, pelo menos para a garotada, a grande ofensa era ser um “alemão-batata”. A segunda grande guerra tornou ser alemão no Brasil algo complicado. O hábito germânico de comer batatas também seria? A verdade é que, sem entender bem do que se tratava, eu ficava chateado por ser um “alemão-batata” embora minha família fosse uma mescla de portugueses e italianos. Tenho lembranças muito precoces, sei lá porquê. Lembro-me de, no meu primeiro aniversário, estar no colo da minha mãe no quarto dos pais e ela me mostrar os presentes que eu ganhara. Até hoje reflito sobre este mistério da nossa consciência: como pode ser que, naquele momento, eu era já consciente de mim mesmo, era eu mesmo, tanto quanto agora? O que diferia era um clima de magia e a intensidade das cores e sensações.
Lembro-me de uma outra situação em que fui levado, à noite no colo de minha irmã a uma festa numa grande casa que creio existir até hoje na Avenida Getúlio Vargas. Fiquei encantado com a sala tão bonita, seus grandes cortinados e lustres. Eu teria uns dois anos. Recordo que alguém me deu para provar um gole de Champanhe e, em certo momento desabou um forte temporal. Fomos rapidamente para casa quando amansou a chuvarada e ao chegarmos no pátio, vimos que a parreira havia despencado devido ao vento. Abrindo a porta da casa, um sapo entrou na sala e minhas irmãs, ainda garotas, subiram em cima da mesa, aos berros. Ao final, todos riam. Bem, desta situação tragicômica tenho motivos para lembrar, mesmo com dois anos apenas. Recordo dos dias em que tive sarampo, sentia-me febril e entendi que a febre me deixava triste e com um sentimento de estranheza. Foi meu primeiro contato pessoal com uma doença e com a relação corpo-mente. E das árvores de Natal montadas com pinheiros verdadeiros, bolas de vidro com coloridos magníficos e velinhas de verdade acesas. E o cheiro de minha mãe, sua voz ressoando na caixa torácica enquanto eu estava em seu colo começando a dormir. A imensa intensidade de percepções das crianças. Na esquina “de baixo” da Rodolfo Gomes havia uma família de russos cuja filha, Mariana, era minha amiga querida, embora não falasse Português, aliás como os pais, que viviam trancados em seu casarão. Mariana, ao me ver, curvava o corpinho numa saudação delicada em sinal de carinho, me olhava com seus olhinhos azuis e seus cabelos cacheados muito loiros e dizia algumas palavras que eu não entendia. A família, soube depois, havia conseguido escapar da União Soviética. Deviam ser ricos, pois tinham enviado seu dinheiro para um banco em Nova Iorque, para onde se mudariam logo depois. Na despedida, Mariana me trouxe de presente um relógio de bolso, que fui saber mais tarde era de pura prata e com preciosos rubis no interior. Eu, então com 5 ou 6 anos, destruí a tal joia que fazia tique-taque para desvendar-lhe os mecanismos. Deveriam ter-me proibido de mexer, mas...Meus irmãos, bem mais velhos, sofriam com meus ímpetos criativos: não havia caderno (deles) ou papéis que eu não rabiscasse com desenhos e garatujas. E mesmo paredes, móveis. Eu desenhava meus esboços por todo canto, aliás, como até hoje faço. Eu era, de algum modo, filho dos meus pais e dos meus irmãos, por isto, era mimado demais. Nem sempre, porém, era assim. Por exemplo, ao ser levado ao Jardim de Infância, eu sofria muito com o afastamento de casa, e era uma choradeira. Minha mãe foi chamada à escola e envergonhada, me disse: “Ah é? Então agora sou eu que te proíbo de ir à escola!” Pois, diante de tal punição, fiquei temeroso. Olhava, desde este dia, os coleguinhas e os alunos maiores, com seus uniformes e gravata borboleta azul-marinho, carregando livros, portando suas pastas, de banho tomado, camisa branca, calça azul e sapato preto. Olhava-os pela janela, já com inveja, e pensava: “não vou poder ir à escola, não vou poder ir”. Disse, então à minha mãe: “Desculpe, mãe...eu não choro mais no colégio. Quero também ser aluno”. Aprendi que na vida as minhas coisas "eram da minha responsabilidade". E fui, com todo ânimo...No primeiro ano, era muito aplicado, sério, o primeiro da classe, o "como se deve ser". Pois, de repente, me dei conta que eu estava certinho demais e um tanto solitário. Lobo da estepe. Assim, com sete anos percebi que ser “o primeiro” nem sempre é vantagem e que viver envolve também conversar, apreciar estar com os outros, aventurar-se na mágica dos amores, inventar a poesia que pode haver. Viver é também (im)preciso. Fiquei mesmo honrado quando a professora do segundo ano primário disse à minha mãe: “Dona Rosa, seu filho é o primeiro da turma, mas fala nas aulas e faz bagunça com os colegas...”. Assim tem sido desde então.

domingo, 18 de outubro de 2020

Eutanásia e a Medicina Desumana (ou os vícios incuráveis da Filosofia)

A Criança é o Pai do Homem (Machado de Assis)

Aprovou-se há poucos dias na Holanda a nova lei de eutanásia que libera o "assassinato piedoso" para menores com idade entre 1 ano e 12 anos de vida, por solicitação dos pais. Bebês com menos de 1 ano podiam ser sacrificados desde há algum tempo e maiores de 12 anos tem sido mortos pelos holandeses há outro tanto. Quem mata? Os médicos, cumprindo tarefa delegada pelo Estado, seguindo solicitação dos pais. Na França, há bem pouco, foi liberado o assassinato de bebês em situações de "estresse psicossocial" materno. 

Não vou me estender na questão do infanticídio, um hábito que remonta aos nossos ancestrais mais primitivos. Abandonados nas estradas para serem devorados pelas feras, atirados de abismos, selecionados para viver ou morrer pelo Conselho dos Anciãos, de acordo com certas características pessoais em Esparta, ou pelos pais em Atenas. Isto com apoio dos filósofos, como em relação aos velhos, doentes crônicos e doentes mentais. 

A palavra "infantil" significa imaturo, tendo a mesma origem da palavra "enfermidade". 

O Cristianismo nascente não foi muito melhor: criança era filha do pecado. Paulo de Tarso, comparou-a a um escravo.  Lá pelo século XVIII ainda se discutia se criança tinha alma. De modo interessante, Freud em pleno início do século XX, postulou que a criança é um perverso polimorfo, demonstrando que o pai da psicanálise não se livrou da arcaica obsessão religiosa.

Apenas no fim do século XIX, seguindo o caminho de Rousseau, passou-se a ver a criança como o primórdio da pessoa madura, criando-se o interesse pela proteção aos menores. Somente décadas após, criou-se um atendimento médico específico para as crianças e, lentamente, ao longo do século XX, surgiu a proteção aos seus melhores interesses (bem depois das leis de proteção aos animais, diga-se de passagem). Apesar das leis de proteção aos menores, ainda assim, na profissão de Pediatra, atendi a crianças espancadas, violadas sexualmente, humilhadas por abuso psicológico. Por seus familiares, cuidadores, ou por qualquer um. Seus agressores, geralmente, ficaram impunes.

A Medicina, de algum modo, participou desta história, ou como assassina a pedido dos pais ou do Estado, ou como protetora da criança. Nunca como nas últimas 6 décadas tantas terapêuticas foram  desenvolvidas para tratar a criança doente e aliviar suas dores, não a abandonando no caminho. 

Há quem imagine que criança não tenha doença grave. Pois não é assim. Há crianças que nascem enfermas por doenças congênitas, outras padecem de enfermidades crônicas adquiridas, além dos acidentes graves como as queimaduras. E há os transplantados, que exigem imensa atenção para sempre. 

São pediatras que as atendem, são cientistas que desenvolvem medicamentos para curá-las ou tratá-las e mitigar suas dores. Alguns governos com dignidade, como o do Brasil e da Europa, fornecem medicamentos de última geração para melhorar sua qualidade de vida. 

Estas crianças portadoras de doenças crônicas necessitam dos melhores cuidados paliativos por toda a sua vida. Eu tive a honra de participar de algumas destas situações, envolvendo equipes médicas devotadas, famílias amorosas, heróicas, Isto me ensinou o que é o amor verdadeiro, só percebido e expressado nestas situações limites. 

Contudo, repito, este esforço da Medicina, que podemos considerar como um novo paradigma civilizatório em relação à criança, certamente o mais elevado, tem menos de 60 anos!

A Medicina embrenhou-se nos últimos tempos com a Filosofia para gerir e desenvolver a Ética Médica. Isto tem possibilitado algum avanço na relação entre médico e doente, buscando valorizar princípios éticos, morais, humanitários. Ocorre, porém, que a filosofia tem seus vícios. Baseia-se em um reflexão sistemática de referências bibliográficas e, não raramente, confunde-se com seu discurso, transformando texto em verdade, sem a  capacidade de fazer uma clara observação da realidade para chegar a conclusões adequadas. A Filosofia tem sido a mãe de ideologias políticas, que usam discurso filosófico para gerir comunidades da pior forma com desastrosos resultados, em nome de algum sistema a prometer o Novo Mundo. 

Esta fusão da Medicina com doutrinas filosóficas, buscando desvendar situações humanas com axiomas e deduções, por exemplo baseados no princípio da autonomia, da liberdade individual de escolha, pode ser lamentável. 

A questão da liberação legal de matar alguém, não pode ser resolvida numa reunião de intelectuais especialistas com filósofos. Como ousam? Serão os "novos deuses do Progresso?" De novo?

A liberação de assassinar, com ou sem piedade, é um ponto sem retorno na Civilização humana.  O caminho atual estava sendo o da tentativa de eliminar guerras, genocídio, pena de morte, resquícios de um mundo bárbaro, embora tão próximo.

Como gosto de Filosofias, embora seja intrinsicamente desconfiado dos seus métodos e resultados, uso aqui uma reflexão de Jean Baudrillard no excelente livro A Transparência do Mal, que analisa a Sociedade ocidental Pós-Moderna. 

Baudrillard diz que a Civilização Ocidental tem buscado destruir seus conceitos fundadores através da generalização que dilui estes conceitos. Tento explicar: passou-se a afirmar que Tudo é Sexo. Ora, se tudo é sexo, o conceito de sexo, como o conhecemos e praticamos, foi destruído. Fumar um charuto, ou amamentar, são também sexo. Precisamos de um novo conceito para explicar o que sabemos claramente o que é "sexo"? 

Outro conceito destruído, com tristes consequências para os estetas, é o da Arte, afirmando-se que tudo, mesmo um vaso sanitário colocado no piso de galeria, pode ser Arte. Em nome da "liberdade de criação", uns rabiscos mal feitos, tintas atiradas na tela, se bem explicados pelo "intelectual especialista" ou marchand, valem milhões.  Sobre este tema, Baudrillard faz uma afirmação certeira sobre o atual estado da arte no Ocidente: "Uma Arte que desconhece o valor do Belo, merece um Mercado que desconhece o valor da Ética". Concordo, de corpo e alma. 

Em nome da liberdade de escolha individual, a valorização superdimensionada da autonomia relativiza os valores construtores da civilização, destruindo o que a cultura Humanitária de melhor qualidade produziu com tanto esforço.

E aí está a questão: se assassinar passou também a ser tratamento, ao invés de se investir sempre mais na cura ou nos cuidados paliativos, então está decretada também a Morte da Medicina.  Como predizia o Dr. Julius Moses, morto num campo de concentração: O médico torna-se o Carrasco. 

E bem mais fácil para as finanças e o conforto do Estado e de algumas famílias.


 

sábado, 10 de outubro de 2020

Outono, ao sol

Nada digo, até pensar evito,
Em explicações, ou em motivos,
Quando me sinto pleno ao ser finito,
Pelo simples fato de estar vivo.

Sou o que sou, como é a vida,
Contemplo com doçura erro e acerto,
Esforço, queda, júbilo e ferida,
Amando o que se foi, ou está perto. 

Nada falo, ou concluo, nada rezo
Deixo a luz de um sol brilhar no peito
Deixo voar a ave que mais prezo.

Fluo, como um rio flui no seu leito,
Apenas gozo o que a vida oferece
E que, ao seguir vivendo, eu aceito.

 


sábado, 3 de outubro de 2020

meu Deus, genial!

 Há quem goste de textos religiosos para reforçar a fé. Pois eu me encanto mesmo é com leituras de Anatomia, Embriologia e Fisiologia! A Inteligência destes elementos e processos, para nós inconscientes, que são subjacentes e indispensáveis à vida é incomensurável. Lendo aqui sobre os mecanismos reflexos do controle do sistema cardiovascular, ou sobre os controles moleculares da formação de novos vasos, ou das defesas imunes, eu fico pasmo, e não tenho como evitar pensar: "meu Deus, que genial!"





Reflexões sobre queimadas na Savana Brasileira, o Cerrado (sem falar em mudanças climáticas)


Países europeus ardem nas estações quentes e secas. Boa parte disto são queimadas, além de eucalipto (praga importada da Austrália para gerar grana com a venda da madeira). Raros países da Europa tem alguma floresta e, em termos, de mata nativa é quase nada. Na “ecológica” Alemanha, cerca 10%, no máximo, é mata nativa. O resto é eucalipto e milho (este, para nutrir o gado e gerar biodiesel). As queimadas nas savanas brasileiras (o Cerrado), os Tristes Trópicos descritos pelo Levi-Strauss são tão inevitáveis, pelo clima quente e seco, quanto as que infernizam os verões da Europa, Austrália, África, Estados Unidos e o Pampa seco. Usar algo assim como ferramenta política é demonstrar ignorância ou mau caráter (no sentido de política de baixo calão, politicagem, etc).

Além do clima, além da geografia há as práticas lamentáveis das queimadas.
Quem queima? O indígena sempre queimou, mas no Brasil, são os gaúchos e seus descendentes, principalmente os da Serra Gaúcha, que transformaram os Tristes Trópicos em imensas plantações de soja e outras culturas, incluindo uva (e vinho) no cerrado baiano e de Pernambuco, e desenvolveram a Pecuária extensiva, levando qualidade e riqueza aonde não havia nada. Somos nós os gaúchos, que fizemos do Brasil uma potência agropecuária e de agroindústria ao longo de décadas. A nossa cultura de queimadas saiu da Europa, neste caso do Norte da Itália, e se instalou no Cerrado. Na Europa, tenta-se modificar este hábito, punindo com altas multas os agricultores que fazem “limpeza de terreno” (como chamam por aqui) com fogo. Com multa parece resultar (um pouco). Começa a haver investimento em indústrias para uso de biomassa.
Mas olha o tamanho do cerrado Brasileiro, amigo! É dois terços da Europa. Têm que ser fiscalizadas as queimadas por satélite.
Acho impossível obter um controle total, mas vale a pena a tentativa que se inicia de monitorizar com satélites da NASA e do nosso país.
Contudo, o uso político ao nível internacional de um certo grupo de pessoas (do Brasil e da Europa) é algo criminoso contra o Brasil.

domingo, 27 de setembro de 2020

O poder das redes

Documentário do Netflix denuncia o "uso que as redes fazem das pessoas", ao viciá-las na internet, transformando-as em "consumidores" e produzindo "visões políticas" polarizadas.

Estas redes realmente são lamentáveis: um bando de pessoas desconhecidas, sem fama, sem partido político, colocando suas ideias próprias, seus poemas, suas fotos, falando de si, de seus cantinhos no mundo.
Bons tempos em que acreditávamos na Zero Hora, éramos influenciados por um intelectual gabaritado como Paulo Santana, um livre-pensador apartidário como LF Veríssimo, um Jô Soares, uns músicos libertários drogaditos que depois, ou viraram ministro, ou morreram de overdose e AIDS. Heróis da contracultura.

Tirávamos sabedoria e julgamento lúcido, livre, a partir de um Jornal da Globo e as novelas da Globo faziam nossa cabeça, sem cobrar nada, sem querer nada. Por amor. Amor à prostituição feminina e masculina reconhecida como bacana, seguindo os passos da Holanda, entre tantas pérolas lançadas à adolescência do Brasil.

Não éramos consumidores. Embora já houvesse o PROCON e o Horário político fosse chamado de Propaganda Política.

A qualidade de reflexão, a liberdade que perdemos: um Sílvio Santos, com sua grandeza intelectual, durante um domingo inteiro. Um Chacrinha e suas chacretes revelando o que de melhor a cultura carioca tinha a dar ao país.
E não éramos consumidos como se fôssemos um produto. O consumo não enfeitiçava a ninguém, embora vivêssemos em plena Sociedade de Consumo, expressão criada por McLuhan e difundida nas décadas de 60, 70.

E não havia vício com televisão. Crianças e adolescentes não ficavam horas na frente da telinha, nem os pais emburreciam, livremente, vendo novela. Todos assistiam tudo, todo o tempo, pelo menos passivos, quietinhos, satisfeitos, como deve ser o bom público.

As propagandas eram de alto nível, desinteressadas, como a inesquecível Lei do Gerson no comercial de cigarros. Lembram da famosa frase: "O importante é levar vantagem". Cultura e caráter.

Não éramos sorrateiramente pesquisados para informar às empresas jamais, e IBOPE era a sigla de uma irmandade de franciscanos.

Polarização? Isto é realmente novo! Bons eram os slogans e palavras de ordem dos partidos de antigamente, os discursos dos políticos irmanando a todos independente de ideologias. A primeira metade do século XX não ocorreu, nem nazistas versus comunistas, ou vice-versa. Só as fake-news das oposições tentam nos dizer que estas coisas existiram. Nunca existiu a frase: Brasil, ame-o ou deixe-o. Nunca houve racismo, preconceito contra minorias (as minorias eram amontoados de seres invisíveis e mudos). Nunca ouvimos políticos conclamando à luta contra os valores burgueses e de classe média.
Até uns políticos brasileiros importantes acabaram no xilindró. Como ousas, populaça!

O paraíso em que vivíamos se desfez.

Parece que tudo isto veio à tona, veio à luz, devido aos computadores. Por que será? A internet e suas redes realmente prejudicam. A pergunta que fica é: a quem?

sursum corda


To be "high" 

Is to be

Above the crowds.



domingo, 20 de setembro de 2020

Portugal


 Amo Portugal, de cá das beiras

Onde contemplo serra e vales,

Enamorados desde a vez primeira

Os meu olhares.


O clima ameno, as suaves gentes,

Límpido céu e seu colar de estrelas,

E as águas cristalinas de rios verdes,

Frias e belas.


Amo a vida segura que me envolve,

Mesmo nos dias em que o mundo exploda:

Estou em casa, Portugal, e amo viver-te

Por esta vida toda.



sábado, 19 de setembro de 2020

Semana Farroupilha

Tratado de Tordesilhas, padres jesuítas espanhóis criando as missões redutoras dos indígenas pampeanos na imensa região que seria mais tarde a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Gado europeu trazido pelos jesuítas espalha-se e prolifera livremente no pampa gaucho (cerca de 12 milhões de cabeças de gado). As coroas portuguesa e espanhola expulsam os Jesuítas e destróem "las Misiones". Os Jesuítas não eram santos e tentaram dizimar as nações indígenas não-evangelizadas. Índias e europeus entrecruzam-se e surgem seus bebês, renegados pelos brancos e pelas tribos: o solitário Gaucho original, tentando sobreviver no deserto pampeano.

Na Revolução Farroupilha dos rio-grandenses contra o Império, dentro de espírito republicano e anti-escravagista, o gaúcho tornou-se o "herói farroupilha".

Acho interessante que os europeus que chegaram depois ao Rio Grande, os italianos, alemães, judeus, poloneses, etc. adotaram o espírito deste solitário herói fundador. Os Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) são uma homenagem, um tanto estilizada, destes europeus ao miscigenado gaúcho, neto de portugueses, espanhóis e índios charrua, minuano, tupi-guarani. Os CTGs espalharam-se por boa parte do Brasil, levando pecuária, agricultura, religião e boas escolas.
Nas saídas de Porto alegre e outras regiões gaúchas há as reservas indígenas protegidas. No Uruguay e Argentina, as tribos pampeanas foram dizimadas, num absurdo genocídio programado para produzir uma "Civilização europeia" sem "Barbárie gaucha, indígena" (vale ler o livro "Facundo, Civilização e Barbárie" do Domingo Sarmiento). Dizimadas exceto nos polimorfismos genéticos analisados no projeto Genoma Humano, e visíveis no delicioso tipo físico dos "cabezitas negras" de boa parte da população dos dois países hermanos.
Gostei muito deste excelente site do "indio misionero" Marcelo Valerao, experto na história do Rio Grande, em anexo, e adorei aquele alter-ego, o bichinho de pelúcia.



quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Picaretas espirituais


Entrei no youtube ontem para ouvir alguma música. Deparo-me com um vídeo intitulado: "zumbido nos ouvidos é causado pela ativação da glândula pineal", algo muito espiritual. A sábia senhora veste-se bem, cabelos bem cuidados, fala bem, com um sorriso bondoso...conheço o tipo. Nunca sei bem se é apenas incapacidade de julgamento, ou envolve algum traço sociopático, eventualmente apenas a busca de financiamento. Se eu fosse um pouco mais ignorante confesso que levaria a sério.
Amigos já perderam a vida, a sanidade, ou o trabalho pelas lorotas de gente assim. Alguns destruíram sua profissão ao enfiar-se na Amazonia para usar um "chá sagrado" e mirar Virgem Maria. Outros, estando doentes, preferiram fazer o ritual da dança de roda. Outros ainda, se meteram a experimentar os poderes curativos da cannabis sagrada e enlouqueceram. Conhecidos se mudaram para Brasília com medo das inundações decorrentes da "mudança de fuso do planeta". Há quem ainda olhe o céu esperando a chegada dos OVNIS prevista para 2019. O caos cultural brasileiro pode ter para-efeitos graves.
Dei-me, porém, ao trabalho de escrever no debate que segue o vídeo da senhora iluminada uma frase (humilde) de orientação aos que sofrem de zumbido:
-Zumbido nos ouvidos é uma manifestação de perda auditiva. Se sofres de zumbido, busca um Otorrinolaringologista!
Mas duvido que algum seguidor dessa senhora, literalmente me dê ouvidos.


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Etapas (tradução do poema Stages, da fase final da obra de Hermann Hesse)

 "Como cada flor murcha e toda a juventude se vai,

Assim a vida em cada fase,
Assim toda virtude,
Assim nossa compreensão da verdade
Florescem no seu momento
E não podem durar para sempre.
Já que a vida nos convoca em todas as idades
Esteja pronto, coração,
Para a despedida,
O novo empreendimento,
Esteja pronto com bravura e sem remorso
Para encontrar uma nova luz
Que os velhos laços já não podem dar.
Em todos os começos habita uma força mágica
Para nos proteger e ajudar a viver."

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

os brasileiros

Minha gratidão ao Brasil é imensa!
Neste país, vindo de uma família muito pobre (com toda a honra) de imigrantes europeus recebi ensino da melhor qualidade desde a Escola Primária à Universidade, sem jamais pagarmos um centavo. Nos Estados Unidos, estaria fadado a ser um americano de segunda categoria. No Brasil me fiz médico, investigador. E tive a honra de atender aos conterrâneos no maior Sistema de Saúde Pública do mundo, o SUS que envolve 200 milhões de pacientes do Oiapoque ao Chuí. Nos Estados Unidos não conheceria um sistema assim qualificado e amplo, pois lá inexiste. Tive a chance de trabalhar no melhor hospital público brasileiro, convivendo com as tecnologias mais avançadas, aprendendo com gigantes da Medicina, e tendo à disponibilidade laboratórios de pesquisa de alto nível, onde pude despertar meus interesses de cientista e fazer pesquisas que me puseram em contato com investigadores internacionais.
No Brasil financiamos nossa primeira casa e vivemos com a melhor qualidade.
No Brasil, aprendi que negros, brancos, amarelos, índios, não precisam, nem devem ficar separados em guetos raciais. O "caos" social brasileiro é o maior experimento sociológico do mundo, aos poucos sendo copiado por outros países. O Brasil gerou os mulatos, esta gente linda. Há quem diga que o Brasil chama os negros de negros por um tipo de maldade atávica, pois o negror seria a representação de coisas negativas. Dizem que os "afrodescendentes" deveriam ser denominados pretos. Não no Brasil: os afrodescendentes brasileiros não são pretos, são lindamente coloridos, numa infinidade de tons da cor do café-com-leite. E também os descendentes europeus: no Brasil tomam um tom dourado, aprendem um sorriso sedutor que em suas terras de origem inexiste. E os descendentes do Japão e da Ásia são brasileiríssimos.
Nossa alma se colore de Brasil, de uma certa doçura de coração, de uma nostalgia herdada dos lusos e modificada pelos trópicos. Tendo todos os defeitos conhecidos, quem é capaz de negar a grandiosidade deste país, deste povo que não disfarça suas mazelas nem mesmo em filmes e romances, ao contrário, corajosamente, se apresenta sem máscara. Raridade num mundo de aparências.
Ter nascido no Brasil foi a maior das oportunidades, foi a melhor das múltiplas vidas. Ah! sim estas crenças espiritualistas dos brasileiros fazem parte do preciosíssimo pacote. Graças a Deus!

sábado, 22 de agosto de 2020

Criança-objeto

Fiquei surpreso em relação ao caso da menina brasileira grávida aos 10 anos. Não pela questão da necessidade óbvia de aborto até pelo risco de vida de ser parturiente nesta idade. A reação estúpida em relação à interrupção da gravidez vinda dos fanáticos religiosos não me surpreendeu. É de esperar.
O verdadeiro drama permaneceu obscuro e a lição principal deste caso não foi aprendida.
Explico: em 1993 eu criei o Grupo de Proteção à Criança e ao Adolescente do HCR junto a uma equipe multiprofissional. Até 2015, quando vim para Portugal, atendemos dezenas de casos de abuso sexual em meninas e meninos, além de violência. A primeira lição, já descrita em literatura, e observada na prática, incluindo este caso é:
- o abuso sexual de menores, incluindo bebês, ocorre, geralmente, no contexto familiar: avô, padrasto, pai, tio. Não são estranhos. Neste caso, foi um tio e o avô.
A segunda lição:
-frequentemente, a mãe ou a avó cuidadoras, tem conhecimento do que se passa e mantêm o “segredo familiar”, para evitar a prisão do abusador (eventualmente para manter a fonte de sustento familiar).
A terceira, esta de característica bem brasileira é:
-depois de muita luta, com apoio do Ministério Público, conseguíamos isolar a criança e protegê-la, esperando que a justiça se encarregasse do(s) parente(s) abusador(es). Mas, qual não era nossa surpresa, ao ver que sempre um juiz “progressista, com fé na pessoa e defendendo o direito do cidadão” restituía a menina ou o menino, ao “sagrado” ambiente do lar, para que o abusador, um psicopata irrecuperável, voltasse a conviver e “proteger” sua vítima. Foram anos disto.
E quando ouvi gente como o sr. Paulo Paim, do PT, afirmar que “todo o infrator, incluindo um psicopata, merece uma segunda chance” (talvez se referindo ao chefão de seu bando), quando ouvia a doida Maria do Rosário defender meliantes e traficantes (outros contumazes abusadores de crianças e adolescentes nos bairros pobres), quando vi a campanha em defesa da pedofilia nas redes sociais e na TV (vide o ex-BBB Jean Willis, confundindo pedofilia com direitos dos homoafetivos) algo se quebrou dentro de mim e eu resolvi abandonar o barco. Aposentar, sair do país. Muito nos desgastamos, a equipe e eu, vendo a Injustiça contra os menores ser a vitória dos inescrupulosos. Algum de vocês acha que o aborto da menina resolveu algo, ajudou em algo a vida semi-desfeita já nos seus parcos dez anos? A discussão nem deve ser o aborto, neste caso uma proteção indispensável à vida da menina.
A questão é: o tio e o avô estão presos (crime hediondo, sem qualquer direito à liberdade antecipada)? Houve um julgamento para apurar as responsabilidades individuais dos familiares como um todo? O país garantirá a esta pequena vítima um apoio psicossocial, um tratamento ou escola decentes, incluindo, quem sabe adoção por uma boa família?
Se os que se aproveitam da tragédia pessoal da menina para defender ou atacar o aborto, soubessem da dimensão social do abuso de menores (em todos as classes económicas) eu creio que exigiriam isto sim uma mudança radical no trato deste tipo de crime pela Justiça Brasileira.



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

"aborto tardio", "aborto pós-natal", aborto...

Como reconhecer que um País, uma Cultura perdeu completamente suas referências humanistas e se tornou capaz de qualquer coisa por interesses egoístas?
Talvez quando libere, por força da lei, o assassinato de seus idosos, seus enfermos e suas crianças. Quando se aprova uma lei de "aborto tardio" que permite o assassinato intra-útero de crianças até os 9 meses de gestação (França, a partir desta semana) por solicitação de uma mãe que está sob "estresse psicossocial". Ou o que se passa na Holanda: o chamado "aborto pós-natal", que significa o infanticídio até os dois anos de idade de crianças com alguma doença (havendo agora a proposta de que se libere para o tal "estresse psicossocial").
O auto-denominado "progressismo" contemporâneo demonstra ser aquele mesmo espírito dos regimes (idealistas) totalitários da primeira metade do século XX. Coincidentemente, Holanda e França foram, e voltam agora a ser, capazes de "liberar-se de inibições civilizatórias (burguesas? cristãs?)" e se lançarem à selvageria infanticida.
Prova que a riqueza, sofisticação, educação universitária, não substituem os verdadeiros valores humanos, hoje desprezados.

sábado, 8 de agosto de 2020

a corrida pela vacina e os novos heróis gregos

As notícias deste momento nos informam que a vacina de Oxford já está na fase 4 de investigação clínica, tendo sido testadas sua eficácia e segurança em grandes amostras de população. Ou seja, pronta para ser comercializada. A vacina Russa que também chegou a esta etapa começará a ser distribuída logo. A Americana, que informam ser muito boa, segue em fase 3, sendo testada agora em 30.000 pessoas. Outras estão a caminho.
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A mais bela competição da História ocorre nestes dias. Do mais alto nível. Uma guerra sem armas e genocídio. Uma luta olímpica dos intelectos brilhantes, dos grandes centros de investigação de países que investem na produção de conhecimento e tecnologia, dos cidadãos mais criativos, estudiosos e dedicados, os mais bem preparados.
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Que vença aquele que produzir a melhor vacina, capaz de curar a maior porcentagem de pessoas, com os menores e menos frequentes efeitos adversos. Que enriqueçam, equilibrem a economia de seu país, após tantos percalços.
Que sejam os heróis vencedores, segundo o Espírito Grego.
Desta vez a Olimpíada é de Ciência pela vida.
A Humanidade, exausta de tantas mortes, aplaude agradecida, pronta a eternizar na História o nome dos vencedores.




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Degustação (do que houver)

Aprecio o conteúdo
Do cálice: aceito-o
E me calo. Não afasto
O que a vida oferece.

Degusto os momentos
Gole a gole, a língua
Do animal satisfeito 
Lambe os lábios,

O homem sábio
Acata o que há

E a ele apetece

Apreciá-lo
Como é, 
E como se é
Apreciar-se.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

silêncio sobre a Verdade

" Não se deve confundir a Verdade com a opinião da Maioria" Jean Cocteau

Mas o que é a Verdade, com letra maiúscula? A presunção dos intelectuais, dos crentes religiosos e fanáticos ideológicos, é que os sistemas que eles adotam seja a Verdade, digna de fé e, portanto, de Poder. Este tem sido o grande drama da estupidez humana, tanto dos homens letrados como dos incultos, a nossa história fratricida, eventualmente genocida: a luta em nome da Verdade.

Uma passagem do Evangelho, que leva a refletir sobre isto é aquela em que Pontius Pilate, talvez testando os poderes do "suposto Messias“, ou por sincera curiosidade, perguntou a Jesus: “o que é a Verdade?” E Jesus, baixando a cabeça, calou-se. A melhor resposta possível.

Há a Verdade sobre algum tema? Milênios depois de Jesus, vemos que há verdades, dados que podem ser verdadeiros se nossa pergunta é a certa e nossos métodos de pesquisa, adequados; mas mesmo esta verdade, obtida com esforço a partir das aparências, sofre a ação do tempo.
A opinião tomada como Verdade, porém, é o pior, o mais imperfeito e fútil dos métodos, para obter algum conhecimento sobre um fato, pessoa ou fenômeno.

O conflito das opiniões, quase sempre, é a linguagem falada no reino obtuso da Verdade.











terça-feira, 28 de julho de 2020

sabe-se lá

Assim que surgiste,
Vindo do sul ao sul,
Foste o mate amargo, amor agreste
Que me trouxeram o que tu trouxeste:

A Vida como ela é, sem ideal, definição exata, fé,
Ou, por que não, a pura fé na vida fruída sem datas
Passadas ou futuras: vida real pré-(in)definida.

Eu já te vira dias antes em sonho: tu chegaras,
E, juntos, viajávamos, desde quando? 
De onde? 

Sabe-se lá.


Mas o lugar onde estaríamos
Neste amanhã do ontem, 
A casa de hoje, a vida já montara.

O sonho me contava
Da tua chegada:

Sem promessas, ou discursos,
A vida, senhora dos mistérios,
Empurrou-nos ao que há.

sábado, 11 de julho de 2020

As fases de Kluber-Ross e a pandemia no Brasil

Analisando os posts que recebo do Brasil sobre o COVID 19 ao longo do tempo, lembrei das fases de adaptação às más notícias estruturadas pela Dra. Elisabeth Klubler-Ross.
A maior parte são fases claramente neuróticas como a negação ("no Brasil não", ou "o clima quente nos protege" ou "isto não nos diz respeito", ou "não é assim como dizem"...), a raiva ("não aceito!", "por que isto?"), a barganha ("poderoso Deus, se tu me livrares disto vou construir uma Igreja em teu louvor!" ou "se me livras disto serei outro!", ou ainda "como eu faço o Bem, estou a salvo").
A resolução emocional destas fases neuróticas constitui a aceitação, um estado em que, apesar de descontentes, nos calamos e vivemos o que temos, seguindo adiante, cuidando-nos, sem tanto escândalo. Um lúcido "eu aceito o cálice, faça-se a tua vontade".
Mas a aceitação não é para todos. Há quem viva com raiva, há quem transforme sua vida num objeto de barganha como fazem os fanáticos religiosos, e há os que habitam o reino da negação.
Pois os brasileiros são os reis da negação. Vivem a inventar a partir do nada, uma realidade falsa para manter na cara um esgar que, aos que não conhecem o Brasil, parece um inalterável sorriso de vitória. Um samba para "enaltecer a favela".
Conheci amigos que morreram de câncer imaginando que prece ou canções de roda seriam sua cura e não aceitaram tratamentos adequados. Mães que perderam seus bebês por buscarem métodos "humanizados" de parto. Gente que bebia a própria urina para tratar-se de SIDA (seguindo o terapeuta, ou doido do momento). Vi de tudo no meu país ao longo dos anos. 

Nestes dias, há brasileiros que usam ervas, chás, óleos, água dinamizada, pílulas que previnem e tratam COVID, inventam curas, para evitar desconfortos como usar uma máscara,  respeitar um distanciamento físico, ficar em casa.

No contexto desta pandemia ainda sem tratamentos eficazes ou vacina disponível, vamos aos poucos observando os resultados esperados da negação.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

sobre os pobres brasileiros aprendendo com a classe média do primeiro mundo

Confesso que vivi uma experiência iluminadora com um visitante do Primeiro Mundo. E não morro sem narrar o "causo", como diz o gaucho.

Foi durante um dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, aqueles espetáculos midiáticos que o PT e as esquerdas latino-americanas ofereciam aos europeus de Esquerda. Havia muita cannabis na orla do Guaíba, os estudantes universitários lavavam seus cérebros em discursos idiotas e aproveitavam as horas livres para visitar a miséria dos "sem terra", queimar lavouras produtivas e mesmo laboratórios da UFRGS prestigiados mundialmente por produzirem conhecimento em genética das espécies vegetais. Ah! e rolava um intercâmbio sexual à gauche que divertia ainda mais a garotada.

Eu confesso que era ainda um pouco ingênuo, apesar das leituras que fazia sobre filosofia política.
Pois, repito, tive uma iluminação com base numa situação única: recebemos em nossa casa um visitante ilustre, um ativista francês, idealista radical, cujo nome não citarei. Filho de um importante médico de Lyon, membro da alta burguesia francesa. Como naqueles fóruns a hospedagem era por conta da população, uma família francófila pediu-nos para recebê-lo. Aceitamos. E aí começa a iluminação literalmente "pé-no-chão".

Chegou o rapaz, um jovem bonito apesar das roupas e do cabelo. Entrou em nossa casa com um olhar, digamos, surpreso de encontrar confortos "de nível europeu" em meio ao país selvagem da Amazônia e do Carnaval. Sentou-se numa cadeira na ampla cozinha e, de repente, nossa cachorrinha Tinta, uma cocker spaniel que tinha uma infecção crônica nas orelhas veio me fazer carinho. Esta infecção nas orelhas dava-me um trabalho imenso, incluindo dois curativos diários, limpeza, etc...era uma alegria da vida cuidar minha amada cocker preta. Pois eu comecei a sentir um cheiro tão desagradável naquela cozinha que acusei minha Tinta de ser a fonte...mas o fedor não vinha da minha filhota. Dei-me conta, surpreso, de que o nobre idealista francês, empestava minha  cozinha com odores, não da falta de uns banhos nos últimos dias devido à viagem. Era um odor indescritível de semanas sem banho. Em pleno verão porto-alegrense, que obriga a gauchada, ricos e pobres, a pelo menos um banho além do matinal, diariamente. Um hábito herdado dos índios, banhos e banhos, nem que seja com água de mangueira.

Conversando com o representante do Primeiro Mundo, fiz a besteira de falar, como um perfeito idiota terceiro-mundista, de Política e fui por ele devidamente esclarecido que "em se tratando da difusão dos ideais revolucionários à gauche, e só à gauche, tudo vale, inclusive utilizar táticas nazistas". Visitou, ao sair de Porto Alegre, a Venezuela de Chaves e a Argentina, sabe-se lá para quê. Havia uns padres franceses e belgas, representantes de instituições europeias, envolvidos com os tais fóruns, além dos ecologistas incendiários.

Contudo, a situação mais divertida desta visita exótica foi o contato da nossa querida doméstica na época, vou chamá-la de G.,  uma moça de família muito pobre, moradora de uma destas favelas da zona Norte de Porto Alegre, que criava seus dois filhos e os mantinha super bem cuidados, e muito estudiosos numa escola pública. Trabalhou em nossa  casa por uns 20 anos...no dia em que veio limpar a casa defrontou-se com o visitante que, nas semanas em que foi nosso hóspede, tomou apenas um banho e, só então, trocou as roupas.
Em um dia anterior ao raríssimo banho, G. me disse, com um olhar debochado que usava muito frequentemente:

- Doutor Jorge, me desculpe lhe falar sobre seu hóspede, mas no chão onde este francês pisa fica mau cheiro. Sou obrigada a ir aos lugares depois que ele sai, com um pano com lixívia perfumada, para que não empeste a casa.

E, diante da gargalhada que dei, rematou com uma frase muito brasileira:

-"Eu sou pobre, mas eu sou limpinha".

Anos depois, quando a encontrei na rua, lembramos disso, com muitos risos.

Esta foi minha iluminação sobre os pobres brasileiros, entre os quais eu e G. nos incluímos, e um nobre idealista à gauche, representante da alta burguesia do primeiro mundo.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

leituras de Pessoa a Platão

“o poeta é um fingidor”
Fernando Pessoa

Amo poesia, como amo música, bom vinho,
Mas não creio numa poesia, não sigo poesias e
Muito menos o poeta.

A poesia não revela verdades,
Ou dúvidas, ela incita e extasia,

Contagia de espanto ou melancolia
Com graça, elegância, ritmo,
Das palavras em paixão.
Para isto serve a poesia,
A Criadora de ídolos e mitos.

Pregar verdades, não.

Não peço verdades ao poeta,
Nem humana grandeza,
Ele não precisa ser o sábio,
Santo,
Mas o esteta
Produtor de beleza.

Pedir-lhe verdades
É matar a liberdade
Da farsa e da loucura,

Da irresponsabilidade
Da poesia,
Em sua inteireza
Impura.

sábado, 23 de maio de 2020

oração

«Le visage du prochain me signifie une responsabilité irrécusable, précédant tout consentement libre, tout pacte, tout contrat.» 

«(...) j'ai toujours pensé que l'élection n'est pas du tout un privilège; c'est la caractéristique fondamentale de la personne humaine, en tant que moralement responsable. 
La responsabilité est une individuation, un principe d'individuation. Sur le fameaux problème, «l'homme est-il individiué par la matière, individué para la forme?», je soutiens l'individuation par la responsabilité pour autrui.»


Emmanuel Lévinas



Quero ir além
Da felicidade
Que me deste,

Quero servir-te,
Senhor, pelo tempo
Que reste.

Minha alma
É inundada
Do Amor que
Ofereces,

Quero levar
Este dom a
Quem padece.

Fruo na mente
O que aprendi
E o que ensinas.

Que minha ação
Seja instrumento
De tuas mãos divinas.

domingo, 17 de maio de 2020

Poema da quarentena V

Menos filosofias sobre o Ser,
Menos carisma, inconsistências,
Menos discurso, mais ciência,
Menos palavra, mais silêncio
E alguma dose de inocência.

Há quem confunda intelecto
E consciência, lucidez e poder.
Mas o poder é um sopro apenas,
A lucidez é o espanto de viver
Na fluidez das coisas pequenas
Que imaginávamos reger.

O que somos? O que guarda
O futuro? Qual o sentido? Haverá?

Silencio e vivo alegrias e penas
Antes que o fim me varra, adiante,
Antes que tua voz não mais me beije
O ouvido. O sentido é mais amar,
O resto é menos.



domingo, 3 de maio de 2020

Canção de Seikilos

Música/Poesia grega antiquíssima (200 aC), composta por um marido para sua esposa que morrera.  É a mais antiga composição musical completa incluindo notação musical.
No epitáfio gravado em pedra lê-se: "Eu sou uma lápide, uma imagem. Seikilos me pôs aqui como símbolo duradouro de uma recordação eterna"


"Enquanto vives, brilha,
Não te aflijas além da conta.
Pois tua vida é tão curta

E o tempo cobra o seu preço."




Hino Órfico a Dioniso

Evoé, ninfas! evoé, Baco!
"Vem, bendito Dioniso, deus de múltiplos nomes,
com face de touro, filho do trovão, famoso Baco,
De poder universal a quem espadas, sangue e ira sagrada
deleitam com euforia, ó louco, ó deus da voz ruidosa,
Ó furioso inspirador que carrega a vara:
Reverenciado pelos deuses,
Ó deus que coabita com os humanos,
Vem benigno, com ânimo alegre, 

Suavemente".


Os gregos reverenciavam também a face telúrica, violenta, aparentemente absurda e sensual da Natureza, e que coabita conosco neste mundo.

Segundo Hino Délfico a Apolo

Por volta de 130 aC, poesia-música (ainda eram a mesma coisa) sobre o nascimento de Apolo (Phoebo para os romanos), filho de Leto:

"Venham, musas macedônicas que habitam os penhascos cobertos da neve do Helikon, a esta encosta do Parnaso de amplas vistas, onde os dançarinos são bem-vindos, e me transportem nas canções.
Cantem em homenagem a Apolo, arqueiro e músico habilidoso de dourados cabelos, a quem Leto gerou nas margens do pântano apertando com as mãos um grosso galho de oliveira verde-acinzentada enquanto paria."


Eu me arrisco a interpretar: o nascimento do deus da luz, do sol da lucidez, ocorre no ambiente de um pântano e envolve castigo divino de ter que sofrer as dores de um parto...ou seja, o processo do lento, doloroso, desenvolvimento Humano.