sábado, 11 de julho de 2020

As fases de Kluber-Ross e a pandemia no Brasil

Analisando os posts que recebo do Brasil sobre o COVID 19 ao longo do tempo, lembrei das fases de adaptação às más notícias estruturadas pela Dra. Elisabeth Klubler-Ross.
A maior parte são fases claramente neuróticas como a negação ("no Brasil não", ou "o clima quente nos protege" ou "isto não nos diz respeito", ou "não é assim como dizem"...), a raiva ("não aceito!", "por que isto?", "por que eu?"), a barganha ("poderoso Deus, se tu me livrares disto vou construir uma Igreja em teu louvor!" ou "se me livras disto serei outro!", ou ainda "como eu faço o Bem, estou a salvo").
A resolução emocional destas fases neuróticas constitui a aceitação, um estado em que, apesar de descontentes, nos calamos e vivemos o que temos, seguindo adiante, cuidando-nos, sem tanto escândalo. Um lúcido "eu aceito o cálice, faça-se a tua vontade".
Mas a aceitação não é para todos. Há quem viva com raiva, há quem transforme sua vida num objeto de barganha como fazem os fanáticos políticos e religiosos, e há os que habitam o reino da negação.
Pois os brasileiros são os reis da negação. Vivem a inventar a partir do nada, uma realidade falsa para manter na cara um esgar que, aos que não conhecem o Brasil, parece um inalterável sorriso de vitória. Um samba para "enaltecer a favela".
Conheci amigos que morreram de câncer imaginando que prece ou canções de roda seriam sua cura e não aceitaram tratamentos adequados. Mães que perderam seus bebês por buscarem métodos "humanizados" de parto. Gente que bebia a própria urina para tratar-se de SIDA (seguindo o terapeuta, ou doido do momento). Vi de tudo no meu país ao longo dos anos. 

Nestes dias, há brasileiros que usam ervas, chás, óleos, água dinamizada, pílulas que previnem e tratam COVID, inventam curas, para evitar desconfortos como usar uma máscara,  respeitar um distanciamento físico, ficar em casa.

No contexto desta pandemia ainda sem tratamentos eficazes ou vacina disponível, vamos aos poucos observando os resultados esperados da negação.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

sobre os pobres brasileiros aprendendo com a classe média do primeiro mundo

Confesso que vivi uma experiência iluminadora com um visitante do Primeiro Mundo. E não morro sem narrar o "causo", como diz o gaucho.

Foi durante um dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, aqueles espetáculos midiáticos que o PT e as esquerdas latino-americanas ofereciam aos europeus de Esquerda. Havia muita cannabis na orla do Guaíba, os estudantes universitários lavavam seus cérebros em discursos idiotas e aproveitavam as horas livres para visitar a miséria dos "sem terra", queimar lavouras produtivas e mesmo laboratórios da UFRGS prestigiados mundialmente por produzirem conhecimento em genética das espécies vegetais. Ah! e rolava um intercâmbio sexual à gauche que divertia ainda mais a garotada.

Eu confesso que era ainda um pouco ingênuo, apesar das leituras que fazia sobre filosofia política.
Pois, repito, tive uma iluminação com base numa situação única: recebemos em nossa casa um visitante ilustre, um ativista francês, idealista radical, cujo nome não citarei. Filho de um importante médico de Lyon, membro da alta burguesia francesa. Como naqueles fóruns a hospedagem era por conta da população, uma família francófila pediu-nos para recebê-lo. Aceitamos. E aí começa a iluminação literalmente "pé-no-chão".

Chegou o rapaz, um jovem bonito apesar das roupas e do cabelo. Entrou em nossa casa com um olhar, digamos, surpreso de encontrar confortos "de nível europeu" em meio ao país selvagem da Amazônia e do Carnaval. Sentou-se numa cadeira na ampla cozinha e, de repente, nossa cachorrinha Tinta, uma cocker spaniel que tinha uma infecção crônica nas orelhas veio me fazer carinho. Esta infecção nas orelhas dava-me um trabalho imenso, incluindo dois curativos diários, limpeza, etc...era uma alegria da vida cuidar minha amada cocker preta. Pois eu comecei a sentir um cheiro tão desagradável naquela cozinha que acusei minha Tinta de ser a fonte...mas o fedor não vinha da minha filhota. Dei-me conta, surpreso, de que o nobre idealista francês, empestava minha  cozinha com odores, não da falta de uns banhos nos últimos dias devido à viagem. Era um odor indescritível de semanas sem banho. Em pleno verão porto-alegrense, que obriga a gauchada, ricos e pobres, a pelo menos um banho além do matinal, diariamente. Um hábito herdado dos índios, banhos e banhos, nem que seja com água de mangueira.

Conversando com o representante do Primeiro Mundo, fiz a besteira de falar, como um perfeito idiota terceiro-mundista, de Política e fui por ele devidamente esclarecido que "em se tratando da difusão dos ideais revolucionários à gauche, e só à gauche, tudo vale, inclusive utilizar táticas nazistas". Visitou, ao sair de Porto Alegre, a Venezuela de Chaves e a Argentina, sabe-se lá para quê. Havia uns padres franceses e belgas, representantes de instituições europeias, envolvidos com os tais fóruns, além dos ecologistas incendiários.

Contudo, a situação mais divertida desta visita exótica foi o contato da nossa querida doméstica na época, vou chamá-la de G.,  uma moça de família muito pobre, moradora de uma destas favelas da zona Norte de Porto Alegre, que criava seus dois filhos e os mantinha super bem cuidados, e muito estudiosos numa escola pública. Trabalhou em nossa  casa por uns 20 anos...no dia em que veio limpar a casa defrontou-se com o visitante que, nas semanas em que foi nosso hóspede, tomou apenas um banho e, só então, trocou as roupas.
Em um dia anterior ao raríssimo banho, G. me disse, com um olhar debochado que usava muito frequentemente:

- Doutor Jorge, me desculpe lhe falar sobre seu hóspede, mas no chão onde este francês pisa fica mau cheiro. Sou obrigada a ir aos lugares depois que ele sai, com um pano com lixívia perfumada, para que não empeste a casa.

E, diante da gargalhada que dei, rematou com uma frase muito brasileira:

-"Eu sou pobre, mas eu sou limpinha".

Anos depois, quando a encontrei na rua, lembramos disso, com muitos risos.

Esta foi minha iluminação sobre os pobres brasileiros, entre os quais eu e G. nos incluímos, e um nobre idealista à gauche, representante da alta burguesia do primeiro mundo.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

leituras de Pessoa a Platão

“o poeta é um fingidor”
Fernando Pessoa

Amo poesia, como amo música, bom vinho,
Mas não creio numa poesia, não sigo poesias e
Muito menos o poeta.

A poesia não revela verdades,
Ou dúvidas, ela extasia,

Contagia de espanto ou melancolia
Com graça, elegância, ritmo,
Das palavras em paixão.
Para isto serve a poesia,
A Criadora de ídolos e mitos.

Pregar verdades, não.

Não peço verdades ao poeta,
Nem humana grandeza,
Ele não precisa ser o sábio,
Santo,
Mas o esteta
Produtor de beleza.

Pedir-lhe verdades
É matar a liberdade
Da farsa e da loucura,

Da irresponsabilidade
Da poesia,
Em sua inteireza
Impura.

sábado, 23 de maio de 2020

oração

«Le visage du prochain me signifie une responsabilité irrécusable, précédant tout consentement libre, tout pacte, tout contrat.» 

«(...) j'ai toujours pensé que l'élection n'est pas du tout un privilège; c'est la caractéristique fondamentale de la personne humaine, en tant que moralement responsable. 
La responsabilité est une individuation, un principe d'individuation. Sur le fameaux problème, «l'homme est-il individiué par la matière, individué para la forme?», je soutiens l'individuation par la responsabilité pour autrui.»


Emmanuel Lévinas



Quero ir além
Da felicidade
Que me deste,

Quero servir-te,
Senhor, pelo tempo
Que reste.

Minha alma
É inundada
Do Amor que
Ofereces,

Quero levar
Este dom a
Quem padece.

Fruo na mente
O que aprendi
E o que ensinas.

Que minha ação
Seja instrumento
De tuas mãos divinas.

domingo, 17 de maio de 2020

Poema da quarentena V

Menos filosofias sobre o Ser,
Menos carisma, inconsistências,
Menos discurso, mais ciência,
Menos palavra, mais silêncio
E alguma dose de inocência.

Há quem confunda intelecto
E consciência, lucidez e poder.
Mas o poder é um sopro apenas,
A lucidez é o espanto de viver
Na fluidez das coisas pequenas
Que imaginávamos reger.

O que somos? O que guarda
O futuro? Qual o sentido? Haverá?

Silencio e vivo alegrias e penas
Antes que o fim me varra, adiante,
Antes que tua voz não mais me beije
O ouvido. O sentido é mais amar,
O resto é menos.



domingo, 3 de maio de 2020

Canção de Seikilos

Música/Poesia grega antiquíssima (200 aC), composta por um marido para sua esposa que morrera.  É a mais antiga composição musical completa incluindo notação musical.

"Enquanto vivas, brilha,
Não te aflijas além da conta.
Pois tua vida é tão curta

E o tempo cobra o seu preço."




No epitáfio gravado em pedra lê-se:
"Eu sou uma lápide, uma imagem. Seikilos me pôs aqui como símbolo duradouro de uma recordação eterna"

Hino Órfico a Dioniso

Evoé, ninfas! evoé, Baco!
"Vem, bendito Dioniso, deus de múltiplos nomes,
com face de touro, filho do trovão, famoso Baco,
De poder universal a quem espadas, sangue e ira sagrada
deleitam com euforia, ó louco, ó deus da voz ruidosa,
Ó furioso inspirador que carrega a vara:
Reverenciado pelos deuses,
Ó deus que coabita com os humanos,
Vem benigno, com ânimo alegre, 

Suavemente".


Os gregos reverenciavam também a face telúrica, violenta, aparentemente absurda e sensual da Natureza, e que coabita conosco neste mundo.

Segundo Hino Délfico a Apolo

Por volta de 130 aC, poesia-música (ainda eram a mesma coisa) sobre o nascimento de Apolo (Phoebo para os romanos), filho de Leto:

"Venham, musas macedônicas que habitam os penhascos cobertos da neve do Helikon, a esta encosta do Parnaso de amplas vistas, onde os dançarinos são bem-vindos, e me transportem nas canções.
Cantem em homenagem a Apolo, arqueiro e músico habilidoso de dourados cabelos, a quem Leto gerou nas margens do pântano apertando com as mãos um grosso galho de oliveira verde-acinzentada enquanto paria."


Eu me arrisco a interpretar: o nascimento do deus da luz, do sol da lucidez, ocorre no ambiente de um pântano e envolve castigo divino de ter que sofrer as dores de um parto...ou seja, o processo do lento, doloroso, desenvolvimento Humano.

domingo, 26 de abril de 2020

nostalgia

Hoje meu coração inundou-se

de uruguai, carmelo, colonia
del santisimo sacramento,
playa seré, y las calles todas
Adonde anduvimos enamorados y felices,
con amigos amados,
en nuestras raíces,
y flores, dalia que extraño,
y frutos, uvas y arándanos,
y gatos y perros, y tilos.

Hoy mi corazón se desbordó
de pasados presentes,
regalos guardados en el alma,
Por siempre.

Para sempre.


Quarentena IV - sou o que sou

אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה, pronunciado Ehyeh Asher Ehyeh

Santo não sou, nem gênio. Sou humano,
Nem o maior, ou o menor: eu não compito.
Se eu quis ser o melhor foi meu engano,
E o pior é tudo aquilo que eu evito.

Sou o que sou e, isto sendo, vou adiante,
Carvão transformando-se em diamante,

Mais que isto, lentamente, aprendendo
Que o Mistério, centro em mim, é que incita
A criar a minha história ao estar vivendo
O que sou, da minha forma, a mais bonita.

E disto não abro mão, tenho o bom gosto
De distinguir entre o que é o Belo, o Bem,
E o que parece precioso mas é o oposto
Confundindo a quem se espelha em outrem.






domingo, 19 de abril de 2020

Poema da Quarentena III - Cuida-te

Cuida-te! Precioso dom que a vida nos deu, cuida-te!

Tu és maior que toda profecia, política, filosofia,
Ou mensagem divina.

Tu és único,
E teu respirar revive a Vida 
Desde bebê, 
Até adulto, 
Velho,
Decrépito, 
Até o último suspiro,
Enquanto a vida puder.

Cuida-te!

Deixa que falsos-sábios eructem bobagens,
Políticos defequem politicagens,
Homens que não amam humanos
Calculem se deves viver,
Dividindo a unidade 
Pela tua idade.

Lava as mãos, banha-te em água pura,
Veste a máscara sagrada que protege,
Permanece contigo e com quem amas:
Joia rara guardada no estojo de veludo.

Tu és, para ti, e os que te amam, tudo!

Cuida-te!


sexta-feira, 10 de abril de 2020

"o maior dos homens é o que serve a todos"

As tradições são geradas ao longo de séculos pela ação dos povos e seus expoentes: heróis, génios inspirados, homens justos, santos. E ao longo dos séculos, as tradições cristalizam-se, envelhecem, tornam-se incompatíveis com os tempos novos, enrijecem ao tentar barrar o que há de melhor no que lhes parece distinto do que elas contêm: o outro, o diferente.
A tradição torna-se então o cadáver do espírito que a gerou.
As grandes almas, pessoas que espontaneamente expressam o melhor da essência humana e, portanto, da essência das tradições, poderão ser elementos perigosos aos olhos de uma tradição que se tornou o oposto de seus ideais. Vejo assim Jesus, não somente em relação à tradição judaica, mas em relação as demais tradições. 
Não foi o Herói grego, vencedor de batalhas, mas mostrou o ápice do heroísmo ao confrontar os formalismos religiosos e os conluios políticos, mantendo-se íntegro, defendendo o que acreditava até a morte.
Não foi o doutor da lei, mas viveu a lei do Deus que amava, a cada momento.
Não foi o poderoso Messias libertador de algum povo, pelo contrário, mas com sua vida, transformou a Humanidade.
Não foi o rico cidadão romano, mas seu poder penetrou as almas sensíveis, modificando a história.
E assim, viveu o que ele mesmo era e acreditava, narrando parábolas, simples lições de vida, numa língua arcaica e desconhecida para o grande mundo, ensinando para pescadores, alguns deles analfabetos, numa apagada região do Oriente Médio. Não criou uma religião, viveu a sua própria.
Todo o Evangelho tem a marca de sua personalidade, incluindo arroubos juvenis, gestos de amizade terna, palavras de um enorme coração e de uma mente sábia, a dolorosa confrontação com o sacrifício, quando a grandeza se mesclou à perplexidade, a humildade imensa, o silêncio honesto diante da pergunta crucial que lhe fizeram: o que é a Verdade?
Um personagem poderia ter sido criado para gerar a nova religião, mas jamais essa personalidade pujante, verdadeira, amorosa, humilhada e vencedora. Tudo ali é absolutamente humano, inesperado, autêntico, como os atos de algumas pessoas especiais que passam em nossa vida, criando e enriquecendo incansavelmente a comunidade, sem grandes discursos, ou brilhos. Gente simples, silenciosa e maravilhosa. O Homem pode ser assim.
E ele foi também o sensitivo, o curador, o vidente. Ele também demonstrou, escandalosamente, aos homens comuns os grandes potenciais da espiritualidade. Talvez por isto, após sua morte, tenha sido entronizado como Ídolo, à maneira das divindades romanas e a Igreja, bem como os posteriores cultos cristãos que a seguiram, tornaram-se o oposto daquele espírito inicial, a sua Sombra prepotente, rígida, moralista, mercantilista, fanática. Contudo, o surpreendente é que a personalidade de Jesus foi e é tão grande que consegue transcender à Ideologia e ao Império, ambos decaídos, estando ainda hoje a propor caminhos a toda a gente, confortando a qualquer um, independente de ortodoxias e cultos.
E qual a essência da mensagem que rompeu a História e mudou o mundo? Que o amor que age no mundo em benefício dos outros, independente das diferenças entre os homens, é o remédio necessário, o bálsamo oferecido pelo Criador, para os sofrimentos e perigos que recorrentemente põem em risco a frágil Humanidade.
Nada mais atual.






sexta-feira, 3 de abril de 2020

sobre as origens do COVID


Em anexo, artigo da revista Nature, como sempre excelente, discute os aspectos moleculares do COVID, em comparação com os demais coronavirus para analisar as prováveis fontes da epidemia. Aparentemente, um pangolin, animalzinho da Malásia ilegalmente comercializado na China, contaminou algum(ns) humano(s) e houve mutações adaptativas nos vírus produzindo a cepa responsável pela epidemia. Por diversos motivos há fortes evidências de que a fonte não foi laboratorialmente provocada. Nature, porém afirma que, embora seja improvável uma origem laboratorial, não há como refutar a hipótese completamente. Óbvio.
E aí três questões éticas e legais se levantam:
1) Experimentos com vírus, e com quimeras (híbridos de genes humanos/ de animais) deveriam ser fortemente regulados em todo o mundo,  eventualmente proibidos por uma Corte Internacional. Pasmem, diferentemente dos países Ocidentais, a China, não dispõe de regulação de pesquisa!  Nem penso em Bioterrorismo, penso em incompetência humana na manipulação e armazenamento de vírus e tecidos. Diz a Nature:
"Basic research involving passage of bat SARS-CoV-like coronaviruses in cell culture and/or animal models has been ongoing for many years in biosafety level 2 laboratories across the world, and there are documented instances of laboratory escapes of SARS-CoV-2.
We must therefore examine the possibility of an inadvertent laboratory release of SARS-CoV-2.
In theory, it is possible that SARS-CoV-2 acquired RBD mutations during adaptation to passage in cell culture, as has been observed in studies of SARS-CoV. "
2) A absurda demora na notificação pelo PC Chinês da epidemia para o mundo, a prisão do médico que detectou pela primeira vez a doença, e sua morte, deveriam causar repúdio internacional e sanções pelos países democráticos.
3) a venda liberada, independente de um controle de qualidade, de produtos médicos de baixíssima eficiência pela China que, por exemplo, não diagnosticam adequadamente a infecção do COVID (veja-se o imbroglio da venda de testes rápidos de COVID com valores de falsos-negativos em torno de 70%), tendo o PC Chinês se manifestado por twitter (!!!), acusando o governo espanhol de haver comprado produtos em empresas não qualificadas (mas que vendem livremente!), fazem-nos pensar que estamos confiando na mercadoria de um lojão chinês, destes existentes em qualquer cidadezinha, vendendo bugigangas com a qualidade que conhecemos perfeitamente.
Nesta hora, do ponto de vista ético e legal, selecionar o mais barato, pode ser destruir comunidades humanas, matar pessoas!

terça-feira, 31 de março de 2020

COVID

Eu gostava muito de filosofia quando guri. Pré-Socráticos, idealistas gregos, Voltaire, Kant, Nietzsche, o escambau aos meus 16, 17 anos e até mais tarde. Com o tempo e o envolvimento com a Ciência Médica, minha visão sobre filosofia mudou. A filosofia, esta criadora de Sistemas, com seus aprofundamentos prematuros e seu palavrório refinado levou a imensos absurdos como os conceitos de Hegel e as desgraças dos totalitarismos. Estes pensamentos que deduzem possibilidades a partir de intuições, insights misturados com literatura, erudições livrescas, preconceitos, religiosidade e bondade, ou maldade, da alma humana, me deixam incrédulo, pois seus métodos são falhos. Minha única excessão é Hannah Arendt, que ainda leio de joelhos.
Aprendi a apreciar o pensamento indutivo, que retira das experiências, num laboratório, ou na vida, algumas reflexões ou conclusões, reconhecendo a falibilidade das mesmas. Sempre uma visão retrospectiva sobre a aparência dos dados percebidos. Como dizia Wilde, "só os tolos não crêem nas aparências".
Neste momento, o que eu consigo retirar da experiência COVID?
Que nunca, como agora, torna-se clara a importância, literalmente vital, dos conhecimentos científicos, das vacinas, da experimentação séria. É evidente a incompetência dos "curadores de tudo", dos explicadores profundíssimos sobre tudo, que resolvem o mundo em casa, sentados.
Fica clara para mim a maravilhosa ferramenta criada nas garagens de uns jovens americanos que revolucionaram de tal forma a História Humana que um império totalitário como a URSS veio abaixo. Possibilitaram a nós, seres humanos isolados por milhares de quilômetros, trocar sorrisos e afeto, como se estivéssemos numa mesma sala, assim desfazendo nossos medos e solidão. Criação dos novos tempos, desde antes deste vírus.
O mundo do amanhã começou neste passado recente, através do método científico e das novas tecnologias, e a mente humana, instrumento da alma, é maravilhosa ao solucionar problemas e gerar soluções para a vida de todos. E é justo confiar nisto.
O que eu tiro desta experiência?
É que todas as ferramentas dos tais "novos tempos" estão já agora em nossas mãos. Este momento é a tomada de consciência destas conquistas.
Basta nos irmanarmos para o futuro melhor, indo além das ideologias que têm produzido tanto mal.
E que venha a vacina, e os novos tratamentos!
Sem filosofices.

Dr. Carlos Chagas, minha homenagem

domingo, 29 de março de 2020

Poema de quarentena II


Móvel, o céu se redesenha
Em formas, cores,
Nuvens brancas, róseas, prata,
Que na imensa tela azul
São flores

Impermanentes 

Como as vidas e as dores
Da gente.

Fico a mirar a beleza
Que se cria, neste quadro
A transformar-se todo o dia,

Nesta abóbada que
Algum Michelangelo celeste
Pintaria.

Passam horas,
O azul entorna violetas
E tons de mar profundo,
Até que o cósmico negror
Recobre o mundo:

Negrume etéreo,
Engastado de mistérios
E diamantes,

Para a viagem dos sábios
E gozo dos amantes.





domingo, 22 de março de 2020

Poema de quarentena I

Olho a paisagem da varanda:
O paraíso próximo e distante
Brilha na luz de prata e diamante
Desta primavera que desanda.

O gato e eu seguimos os ciprestes,
Móveis braços de um regente
A conduzir as horas lentamente
Enquanto haja vento e tempo reste.

Somos grãos de poeira conscientes,
E, então, somos olhos do Universo,
Por uns dias, ou talvez eternamente.

E somos o que somos, luz e treva,
Lançando mensagens nestes versos
Para saber onde a correnteza as leva.


quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Vida indigna de ser vivida?


Fundamental aclarar que é um absurdo (uma vergonha) alguém, especialmente um político, bradar o lema a favor do "fim de uma vida indigna de ser vivida".
Este foi um slogan do Partido Nacional Socialista, ou seja, do "Mal" em sua configuração ideológica e política (sic Arendt), ao lado do Totalitarismo Soviético.
A expressão "Vernichtung lebensunwerten Lebens", traduzido para Português como citei, é um lema eugênico, desenvolvido durante a República de Weimar pelo psiquiatra Alfred Hoche e pelo advogado criminal Karl Binding, que publicaram em conjunto o folheto "A Liberação da Interrupção da Vida Indigna de ser Vivida", em 1920. Durante a era nazista , a "Lei para a Prevenção de Distúrbios Hereditários " (1934) permitiu a esterilização forçada de supostos "pacientes hereditários " e alcoólatras. No início da Segunda Guerra Mundial , o conceito foi expandido para: assassinatos de doentes, especialmente "Eutanásia infantil" (1939), esquizofrênicos, políticos inimigos, redundando finalmente no Holocausto.
Por trás disto, enraiza-se um distúrbio do pensamento materialista que gera a Medicina Desumana (”Medizin ohne Menschlichkeit). que é favorecida pela equiparação, em termos de valor, entre seres humanos e animais (Elkeles, B. Medizinische Menschenversuche;135).
O grande médico Julius Moses, precursor da Bioética, desmascarou em 1932 (Pross and Aly, Der Wert des Menschen, 92) os planos do Nacional-Socialismo:
“A missão do médico será criar o Novo Mundo, a Nova Nobre Humanidade. Só os curáveis sobreviverão.
Os doentes incuráveis, as existências peso-morto, o lixo humano, o indigno de viver e o improdutivo serão eliminados.
Em outras palavras, o Médico se tornará o Carrasco.”
Um sábio. Obviamente, o grande Julius Moses, acabou morto num campo de concentração por algum vagabundo ou "idealista" do Partido que "cumpria ordens", como gostavam de se justificar.
Podem suavizar o nome do homicídio, disfarçá-lo como "misericordioso", mas o crime continua.
O risco de por nas mãos do Estado, de um bando de deputados, senadores e legisladores (sabe-se lá quem são, ou serão) a liberdade de dispor da vida humana e poder matar dentro da lei representa o fim do que conhecemos como Civilização.
Holanda e Bélgica, nazistas de carterinha até 1945, estão provando isto.
(referência interessante sobre o tema, disponível na Internet: DOES THE BELGIAN MODEL OF INTEGRATED PALLIATIVE CARE DISTORT PALLIATIVE CARE PRACTICE?
The Dossiers of the European Institute of Bioethics, publicado pelo European Institute of Bioethics - www.ieb-eib.org )



sábado, 1 de fevereiro de 2020

Livre de fé




Ouvindo músicas da década de 80
Veio-me alegria enorme das memórias,
Amores, amigos, abraços, histórias,
Além dos mil trabalhos da existência,

E vi que na minha alma sobrevive
Tudo de bom que a vida e eu trocamos,
Fieis amantes que há tantos anos somos.

Tudo valeu, como agora tudo vale,
Pois o coração, trema ou resvale,
Caia ou se perca, saberá levantar,
Seguir estrada, subir monte, pular cerca,

Coração jamais vencido, e há a voz
De um anjo a falar ao meu ouvido:

Serve ao Bem no trabalho que tu fazes,
Sê o que és da melhor forma que tu possas.

Esta é a Fé que a um Homem livre vale.