quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Flamenco (poema de 1993)

Inigualável par de olhos negros,

Fundos, sombrios,

Vales frescos, rios,

Nuvens estelares,

Arabescos,

Danças de bailarinas

 Árabes, flamenco,

O teu olhar 

De Espanha à noite,

E eu o comendo 

De tanto olhar

Que eu entendo

Porque é oblíquo 

O teu olhar,

Exíguo em tempo,

É só um flerte,

Algo no ar

Por um segundo,

Mas como é enorme 

O teu olhar

E como é fundo.






Onde (poema 1995)

Onde está ser feliz?

O quanto e quando?


Ser feliz é ser

Ao estar buscando.


Não é o porto que busco,

Mas ser barco navegando.

Não é o quadro que eu quero,

Mas usar as aquarelas.


Mesmo o amor perfeito,

Encontrar é menor

Que querê-lo.








 

O amor desatento (poema de 1995)

 O amor desatento

Vai deixando os seus rastros:

Pedaços de ilusão,

Usados e esquecidos.

Brasas da paixão,

Chamas consumidas.

Botes de salvação,

Entradas e saídas.

Brisas de emoção

Que já foram tempestades.

Palavras ditas em vão

Que calaram mil verdades.

Fotos em preto-e-branco

Que já foram coloridas.


Bilhetes, cartas,

Presentes, e as coisas 

Escondidas

Dentro de caixas guardadas

A sete chaves, no armário.


Ursinhos de pelúcia, bombons, 

Os santos sudários,

Manchados com o sangue quente

Dos amantes incendiários.


O amor desatento

Vai deixando os seus rastros,

Que têm a tristeza da terra

E o fogo eterno dos astros