domingo, 12 de agosto de 2018

a esfinge





O medo medra na terra vazia de si-mesmo
Onde o homem é uma parte e a outra é degredo.
Cindido, ele odeia o que reconhece em segredo,
Tolhe-se, culpa-se e castiga-se com o medo.

Só quando os opostos fundem-se lá dentro,
O que o homem quer de si e o que é indesejado,
O seu melhor e o mais vil, a virtude e o pecado,
Ele então é o que é, habitante de seu centro.

Flui a vida como vier pois o homem se aceita
E seu melhor pode ser o que hoje ele rejeita.







segunda-feira, 30 de julho de 2018

Tolerância / intolerância

"Eu odeio a Classe Média"
Marilena Chauí

Aprecio a tolerância para as diferenças de pensar e de ser, exceto quando: a tolerância é para com sistemas que buscam apoderar-se do que é dos outros; manter no poder governos ditatoriais ou totalitários; eliminar a preciosa liberdade de pessoas e grupos; semear ideologias que dividem um país ou um povo; dar poder de vida e morte a grupos e categorias; dilapidar o patrimônio de uma nação.
Ser tolerante, neste caso, é compactuar com a intolerância, o abuso, o roubo e a institucionalização do crime.





terça-feira, 24 de julho de 2018

naco de ânfora




Quero um poema símbolo
Do que seja ritmo apenas,
Sapateio num tablado
E perfume de açucenas.

Que seja descompromissado
De quaisquer lemas,
Só coração, vaso sagrado,
Sem dó nem penas.

Quero poema helênico,
Naco de ânfora quebrada,
Poema antigo como credo
De algum renascido grego.

Que seja um poema suave,
Versos de gozo e alento,
Que seja homens dançando
Nas praias do Egeu de dentro.






sábado, 14 de julho de 2018

sentidos da manhã


Vi nascer a manhã e era luz
De prata rósea, brisa fresca
E suave névoa lá na serra, 
Como a primeira manhã
Que vi na vida.

Dei ao meu coração a alegria
Do renascer de olhar menino
Fruindo a seiva da beleza
Por todos os sentidos
De haver uma manhã.




domingo, 1 de julho de 2018

a Voz


Espalha-se a Voz.

Quem a ouve pequena,
Piados de ave, 
Gotejos, chiado
De água corrente, 
Suspiro de gente,
Passos no piso,
O beijo preciso,
Bons-dias, olás, 
Não sabe ouvir
A Voz, o que isto é 
E o que isto diz.

Só quem percebeu
O imenso em que imersos
São campo e cidade,
Consegue entender
A simples verdade
Que a Voz enuncia

E o que é a Poesia.






sábado, 23 de junho de 2018

percepção




Abre-se espaço no meu peito,

Uma memória a dilatar-se,
Rio que retoma o seu leito,
Rota a couraça de um disfarce.

Sinto emoção que reconheço,
Menina iluminada de Rembrandt,
Luz que havia ali desde o começo
E eu pensava vir do amanhã.

Era momento de espera
E eu confundia com Esperança.
Não era alguma Nova Era,
Mas sentimento de criança.