domingo, 2 de junho de 2019

O desfecho da espera


A longa espera,
De tão longa
Esquece-se que é espera.
Despe o peso de sê-lo
E se crê eternidade.

Como um tolo,
Ou um sábio,
Passa assim a fruir
O que em si pode haver
De mais trágico 
E mais belo:

A certeza do desfecho
Com indiferença,

Como a negação do tolo,
Ou do sábio a crença,
Ou vice-versa.

Esperar se faz então 
Esperança, 
Ou sua ausência.


terça-feira, 14 de maio de 2019

as urnas de Pandora




Em duas urnas,
Faces de Jano,
Guardavam-se
Opostas substâncias:

Numa, todos os bens do mundo.
Todos os males na outra.

A primeira das mulheres,
Que se chamava Pandora,
Uma e outra deslacra
E desrolha,
Libertando
O que nas urnas
Havia:

Tudo,

Exceto,

Em ambas,

A Esperança.









domingo, 5 de maio de 2019

Pela Universidade Pública! Pelo SUS! (não curta as palavras de ordem sem ler o texto)

Vendo de fora, a crise das verbas para as Universidades Federais e para a Pesquisa no Brasil é instalada - e politicamente estimulada- por quem a gerou: os grupos de uma esquerda populista e primária. 
Eles têm desenvolvido uma confusão linguística: público tornou-se igual a gratuito.
Ainda, o investimento em educação passou a restringir-se ao nível universitário (onde se concentram as bases políticas destes grupos), por interesses estratégicos (saudade do Leonel de Moura Brizola).
Assim, ninguém paga nada nas Universidades Públicas, incluindo o estudante morador de uma favela e o filho de um industrial milionário.
Como as melhores Universidades são as públicas e os "burgueses" (como a esquerda gosta de dizer) têm as melhores escolas de ensino básico, raros pobres conseguem beneficiar-se na competição por uma vaga nestas universidades.
O sistema de "cotas" é uma grosseira e humilhante falsa solução. Sem melhorar a educação básica se mantém o clima de injustiça social que vigora há séculos no Brasil.
O mesmo em relação ao atendimento de saúde: há "burgueses" internando nos excelentes hospitais públicos do Brasil.
Obviamente, os "burgueses" têm direito a frequentar uma universidade pública, ou a serem atendidos num hospital público. Mas que paguem e de acordo com sua faixa de ganhos.
Aqui em Portugal e em outros países europeus, o ensino e a saúde são públicos, mas se paga mensalidades ou um valor pequeno para consultas de atendimento básico.
Ensino básico sim, é gratuito. 
E, no caso de o aluno não ter condições da pagar uma universidade, ou o paciente ser economicamente desvalido, ou ainda aposentado, não paga. 
De resto, se paga!
E os impostos aqui são tão ou mais elevados que no Brasil.
O governo deve direcionar seus bilhões ao ensino básico, e as Universidades precisam, pelo menos em parte encontrar fontes de sustento, garantindo seus gastos estruturais, entre outras medidas, através do pagamento de quem mais tem.
O mesmo em relação a pesquisas: o processo tem que se inserir em áreas bem definidas de interesse prioritário, e não servir como fonte de sustento para professores pouco produtivos ou para turismo pelo mundo de mestres e alunos.
Esta política paternalista que ensina a exigir tudo para todos sem definir como se mantêm as finanças é uma das causas destas crises recorrentes dos serviços públicos brasileiros, que poderiam ser muito melhores, se bem geridos.
O resto, a gritaria, é dos responsáveis pela ineficácia e a confusão.





quarta-feira, 17 de abril de 2019

Notre-Dame em chamas e as memórias


Notre-Dame em chamas!

Uma memória surge: minha primeira visita à Catedral. Estava sozinho e era bem garoto. Havia perfume de incenso no ar e o imenso templo era silencioso ainda que repleto de gente. Consegui um lugar perto do pórtico da entrada e, ao levantar a cabeça, dei-me conta de que estava diante da estátua de Joana D’Arc, figura que sempre me emocionou. 
Começou a missa. Em Latim. O imenso órgão vibrou com uma melodia belíssima e um coral entoou canto Gregoriano. Coisas atávicas brotam na gente numa situação assim: a Catedral inundada de música e litanias, o perfume do incenso, as orações dos fiéis, a luz pelos vitrais, Joana D’Arc representada à minha frente. Grande emoção, nó na garganta e lágrimas que o gaúcho aqui tentou esconder.
Eu estava no palco mesmo da História, na catedral construída em homenagem a Santo Estevão em pleno século VII e reconstruída no século XII. Atacada e vandalizada no período da Revolução Francesa, num ritual de entronização de uma prostituta no templo cristão, aos berros de ‘Deus está morto”, quando todas as grandes estátuas que decoravam seus portais foram destruídas, com exceção de uma escultura de Maria, no altar-mor.

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Ali fora, ao lado esquerdo do Sena, antes de entrar na Catedral, eu percebi pela primeira vez algo que reconheci posteriormente como sendo o Espírito Europeu, sintetizado numa imagem: a belíssima Île de la Cité onde se situa a Catedral tendo como vizinha na outra margem do rio, uma loja onde se vendiam frangos, porcos, aves, e aquele tipo de produtos e bugigangas de mercadinho de cidade pequena. O Louvre, perto dali, ainda não tinha pirâmide de vidro e era cercado por terra sem jardinagem, sem aquele asfalto horroroso aparentemente higiênico que caracteriza Londres. Terra abençoada de pequena cidade mantida no coração de Paris. A megacidade, ultramoderna como se podia já então ver em La Défense, era ainda e para sempre, enquanto existir a Civilização Ocidental,  a vila, a pequena comunidade de Lutetia Parisiorum, que foi cristianizada por Saint Denis, mártir executado no Mont Martyrum (Montmartre), santo patrono de Paris, cidade protegida por Sainte Genevieve, transformada depois em capital do Reino dos Francos por Clovis. Ali estava viva a História, como em qualquer antiga cidade ou aldeia europeia.

Na missa eu senti novamente isto:  História viva nas construções da Arte e da Religiosidade Ocidentais, componente preciosa do desenvolvimento Humano. Mesmo sem ser católico, esta experiência que eu poderia chamar de mística, ou ainda cultural, movimentou minhas estruturas, ampliando-me a compreensão.

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Não houve neste lugar somente beleza e grandiosidade humanas, foi o que nos cantou Victor Hugo na sua obra popular Notre-Dame. Houve fanatismo, amordaçamento de consciências. Mas, como ensinou Jung, a Igreja é a representação simbólica da Mãe. Um povo, um indivíduo, demonstra maturidade somente quando, ao reconstituir o passado, é capaz de compreender os erros, aceitar, amar mesmo, a humanidade das pessoas, das comunidades e de si próprio, numa espécie de perdão. Especialmente, os erros e a grandeza dos próprios pais.

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A grandiosidade de Notre-Dame, a luz histórica e espiritual da Donzela de Orleans que eu admirava naquela estátua, a missa e o canto religioso são minhas memórias de algo que foi perdido em meio às chamas.

Perdido?

Se é verdade que a pedra esculpida é a representação do Espírito Humano e que só este permanece, nada se destruiu, pois vive ali, como mensagem na memória, o símbolo da atávica história do sacrifício por amor e da necessidade do perdão. 

E, sem qualquer dúvida, propaga-se e segue vivo, aquele chamamento ao amor, que se mostra maior do que todas as revoluções que recorrentemente tentam destruir com ódio ao Humano, além das obras de Arte, a liberdade e os indivíduos. Revoluções iconoclastas que culminam sempre em Terror e genocídio, falhando no seu intento pueril de edificar um Novo Tempo, um Novo Mundo, um Novo Homem.
Se houve terrorismo, falhou. Falhará sempre!

Segue viva a catedral de Santo Estevão e São Denis, fundada em homenagem a Maria, no coração de Paris, da Europa, da Humanidade. Para sempre.