sábado, 22 de agosto de 2020

Criança-objeto

Fiquei surpreso em relação ao caso da menina brasileira grávida aos 10 anos. Não pela questão da necessidade óbvia de aborto até pelo risco de vida de ser parturiente nesta idade. A reação estúpida em relação à interrupção da gravidez vinda dos fanáticos religiosos não me surpreendeu. É de esperar.
O verdadeiro drama permaneceu obscuro e a lição principal deste caso não foi aprendida.
Explico: em 1993 eu criei o Grupo de Proteção à Criança e ao Adolescente do HCR junto a uma equipe multiprofissional. Até 2015, quando vim para Portugal, atendemos dezenas de casos de abuso sexual em meninas e meninos, além de violência. A primeira lição, já descrita em literatura, e observada na prática, incluindo este caso é:
- o abuso sexual de menores, incluindo bebês, ocorre, geralmente, no contexto familiar: avô, padrasto, pai, tio. Não são estranhos. Neste caso, foi um tio e o avô.
A segunda lição:
-frequentemente, a mãe ou a avó cuidadoras, tem conhecimento do que se passa e mantêm o “segredo familiar”, para evitar a prisão do abusador (eventualmente para manter a fonte de sustento familiar).
A terceira, esta de característica bem brasileira é:
-depois de muita luta, com apoio do Ministério Público, conseguíamos isolar a criança e protegê-la, esperando que a justiça se encarregasse do(s) parente(s) abusador(es). Mas, qual não era nossa surpresa, ao ver que sempre um juiz “progressista, com fé na pessoa e defendendo o direito do cidadão” restituía a menina ou o menino, ao “sagrado” ambiente do lar, para que o abusador, um psicopata irrecuperável, voltasse a conviver e “proteger” sua vítima. Foram anos disto.
E quando ouvi gente como o sr. Paulo Paim, do PT, afirmar que “todo o infrator, incluindo um psicopata, merece uma segunda chance” (talvez se referindo ao chefão de seu bando), quando ouvia a doida Maria do Rosário defender meliantes e traficantes (outros contumazes abusadores de crianças e adolescentes nos bairros pobres), quando vi a campanha em defesa da pedofilia nas redes sociais e na TV (vide o ex-BBB Jean Willis, confundindo pedofilia com direitos dos homoafetivos) algo se quebrou dentro de mim e eu resolvi abandonar o barco. Aposentar, sair do país. Muito nos desgastamos, a equipe e eu, vendo a Injustiça contra os menores ser a vitória dos inescrupulosos. Algum de vocês acha que o aborto da menina resolveu algo, ajudou em algo a vida semi-desfeita já nos seus parcos dez anos? A discussão nem deve ser o aborto, neste caso uma proteção indispensável à vida da menina.
A questão é: o tio e o avô estão presos (crime hediondo, sem qualquer direito à liberdade antecipada)? Houve um julgamento para apurar as responsabilidades individuais dos familiares como um todo? O país garantirá a esta pequena vítima um apoio psicossocial, um tratamento ou escola decentes, incluindo, quem sabe adoção por uma boa família?
Se os que se aproveitam da tragédia pessoal da menina para defender ou atacar o aborto, soubessem da dimensão social do abuso de menores (em todos as classes económicas) eu creio que exigiriam isto sim uma mudança radical no trato deste tipo de crime pela Justiça Brasileira.



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

"aborto tardio", "aborto pós-natal", aborto...

Como reconhecer que um País, uma Cultura perdeu completamente suas referências humanistas e se tornou capaz de qualquer coisa por interesses egoístas?
Talvez quando libere, por força da lei, o assassinato de seus idosos, seus enfermos e suas crianças. Quando se aprova uma lei de "aborto tardio" que permite o assassinato intra-útero de crianças até os 9 meses de gestação (França, a partir desta semana) por solicitação de uma mãe que está sob "estresse psicossocial". Ou o que se passa na Holanda: o chamado "aborto pós-natal", que significa o infanticídio até os dois anos de idade de crianças com alguma doença (havendo agora a proposta de que se libere para o tal "estresse psicossocial").
O auto-denominado "progressismo" contemporâneo demonstra ser aquele mesmo espírito dos regimes (idealistas) totalitários da primeira metade do século XX. Coincidentemente, Holanda e França foram, e voltam agora a ser, capazes de "liberar-se de inibições civilizatórias (burguesas? cristãs?)" e se lançarem à selvageria infanticida.
Prova que a riqueza, sofisticação, educação universitária, não substituem os verdadeiros valores humanos, hoje desprezados.

sábado, 8 de agosto de 2020

a corrida pela vacina e os novos heróis gregos

As notícias deste momento nos informam que a vacina de Oxford já está na fase 4 de investigação clínica, tendo sido testadas sua eficácia e segurança em grandes amostras de população. Ou seja, pronta para ser comercializada. As Americanas, que informam ser eficazes, seguem em fase 3, sendo testadas agora em 30.000 pessoas. Outras estão a caminho.
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A mais bela competição da História ocorre nestes dias. Do mais alto nível. Uma guerra sem armas e genocídio. Uma luta olímpica dos intelectos brilhantes, dos grandes centros de investigação de países que investem na produção de conhecimento e tecnologia, dos cidadãos mais criativos, estudiosos e dedicados, os mais bem preparados.
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Que vença aquele que produzir a melhor vacina, capaz de curar a maior porcentagem de pessoas, com os menores e menos frequentes efeitos adversos. Que enriqueçam, equilibrem a economia de seu país, após tantos percalços.
Que sejam os heróis vencedores, segundo o Espírito Grego.
Desta vez a Olimpíada é de Ciência pela vida.
A Humanidade, exausta de tantas mortes, aplaude agradecida, pronta a eternizar na História o nome dos vencedores.




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Degustação (do que houver)

Aprecio o conteúdo
Do cálice: aceito-o
E me calo. Não afasto
O que a vida oferece.

Degusto os momentos
Gole a gole, a língua
Do animal satisfeito 
Lambe os lábios,

O homem
Acata o que há
E lhe apetece
Apreciá-lo
Como é, 

E como ele é,
Apreciar-se.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

silêncio sobre a Verdade

" Não se deve confundir a Verdade com a opinião da Maioria" Jean Cocteau

Mas o que é a Verdade, com letra maiúscula? A presunção dos intelectuais, dos crentes religiosos e fanáticos ideológicos, é que os sistemas que eles adotam seja a Verdade, digna de fé e, portanto, de Poder. Este tem sido o grande drama da estupidez humana, tanto dos homens letrados como dos incultos, a nossa história fratricida, eventualmente genocida: a luta em nome da Verdade.

Uma passagem do Evangelho, que leva a refletir sobre isto é aquela em que Pontius Pilate, talvez testando os poderes do "suposto Messias“, ou por sincera curiosidade, perguntou a Jesus: “o que é a Verdade?” E Jesus, baixando a cabeça, calou-se. A melhor resposta possível.

Há a Verdade sobre algum tema? Milênios depois de Jesus, vemos que há verdades, dados que podem ser verdadeiros se nossa pergunta é a certa e nossos métodos de pesquisa, adequados; mas mesmo esta verdade, obtida com esforço a partir das aparências, sofre a ação do tempo.
A opinião tomada como Verdade, porém, é o pior, o mais imperfeito e fútil dos métodos, para obter algum conhecimento sobre um fato, pessoa ou fenômeno.

A luta das opiniões que divide um país quase sempre é a linguagem falada no reino obtuso da Verdade.











terça-feira, 28 de julho de 2020

sabe-se lá

Assim que surgiste,
Vindo do sul ao sul,
Foste o mate amargo, amor agreste
Que me trouxeram o que tu trouxeste:

A Vida como ela é, sem ideal, definição exata, fé,
Ou, por que não, a pura fé na vida fruída sem datas
Passadas ou futuras: vida real pré-(in)definida.

Eu já te vira dias antes em sonho: tu chegaras,
E, juntos, viajávamos, desde quando? 
De onde? 

Sabe-se lá.


Mas o lugar onde estaríamos
Neste amanhã do ontem, 
A casa de hoje, a vida já montara.

O sonho me contava
Da tua chegada:

Sem promessas, ou discursos,
A vida, senhora dos mistérios,
Empurrou-nos ao que há.

sábado, 11 de julho de 2020

As fases de Kübler-Ross e a pandemia no Brasil

Analisando os posts que recebo do Brasil sobre o COVID 19 ao longo do tempo, lembrei das fases de adaptação às más notícias estruturadas pela Dra. Elisabeth Kübler-Ross.
A maior parte são fases claramente neuróticas como a negação ("no Brasil não", ou "o clima quente nos protege" ou "isto não nos diz respeito", ou "não é assim como dizem"...), a raiva ("não aceito!", "por que isto?"), a barganha ("poderoso Deus, se tu me livrares disto vou construir uma Igreja em teu louvor!" ou "se me livras disto serei outro!", ou ainda "como eu faço o Bem, estou a salvo").
A resolução emocional destas fases neuróticas constitui a aceitação, um estado em que, apesar de descontentes, nos calamos e vivemos o que temos, seguindo adiante, cuidando-nos, sem tanto escândalo. Um lúcido "eu aceito o cálice, faça-se a tua vontade".
Mas a aceitação não é para todos. Há quem viva com raiva, há quem transforme sua vida num objeto de barganha como fazem os fanáticos religiosos, e há os que habitam o reino da negação.
Pois os brasileiros são os reis da negação. Vivem a inventar a partir do nada, uma realidade falsa para manter na cara um esgar que, aos que não conhecem o Brasil, parece um inalterável sorriso de vitória. Um samba para "enaltecer a favela".
Conheci amigos que morreram de câncer imaginando que prece ou canções de roda seriam sua cura e não aceitaram tratamentos adequados. Mães que perderam seus bebês por buscarem métodos "humanizados" de parto. Gente que bebia a própria urina para tratar-se de SIDA (seguindo o terapeuta, ou doido do momento). Vi de tudo no meu país ao longo dos anos. 

Nestes dias, há brasileiros que usam ervas, chás, óleos, água dinamizada, pílulas que previnem e tratam COVID, inventam curas, para evitar desconfortos como usar uma máscara,  respeitar um distanciamento físico, ficar em casa.

No contexto desta pandemia ainda sem tratamentos eficazes ou vacina disponível, vamos aos poucos observando os resultados esperados da negação.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

sobre os pobres brasileiros aprendendo com a classe média do primeiro mundo

Confesso que vivi uma experiência iluminadora com um visitante do Primeiro Mundo. E não morro sem narrar o "causo", como diz o gaúcho.

Foi durante um dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, aqueles espetáculos midiáticos que o PT e as esquerdas latino-americanas ofereciam aos europeus de Esquerda. Havia muita cannabis na orla do Guaíba, os estudantes universitários lavavam seus cérebros em discursos idiotas e aproveitavam as horas livres para visitar a miséria dos "sem terra", queimar lavouras produtivas e mesmo laboratórios da UFRGS prestigiados mundialmente por produzirem conhecimento em genética das espécies vegetais. Ah! e rolava um intercâmbio sexual à gauche que divertia ainda mais a garotada.

Eu confesso que era ainda um pouco ingênuo, apesar das leituras que fazia sobre filosofia política.
Pois, repito, tive uma iluminação com base numa situação única: recebemos em nossa casa um visitante ilustre, um ativista francês, idealista radical, cujo nome não citarei. Filho de um importante médico de Lyon, membro da alta burguesia francesa. Como naqueles fóruns a hospedagem era por conta da população, uma família francófila pediu-nos para recebê-lo. Aceitamos. E aí começa a iluminação literalmente "pé-no-chão".

Chegou o rapaz, um jovem bonito, apesar das roupas e do cabelo. Entrou em nossa casa com um olhar, digamos, surpreso de encontrar confortos "de nível europeu" em meio ao país selvagem da Amazônia e do Carnaval. Sentou-se numa cadeira na ampla cozinha e, de repente, nossa cachorrinha Tinta, uma cocker spaniel que tinha uma infecção crônica nas orelhas veio me fazer carinho. Esta infecção nas orelhas dava-me um trabalho imenso, incluindo dois curativos diários, limpeza, etc...era uma alegria da vida cuidar minha amada cocker preta. Pois eu comecei a sentir um cheiro tão desagradável naquela cozinha que acusei minha Tinta de ser a fonte...mas o fedor não vinha da minha filhota. Dei-me conta, surpreso, de que o nobre idealista francês, empestava minha  cozinha com odores, não da falta de uns banhos nos últimos dias devido à viagem. Era um odor indescritível de semanas sem banho. Em pleno verão porto-alegrense, que obriga a gauchada, ricos e pobres, a pelo menos um banho além do matinal, diariamente. Um hábito herdado dos índios, banhos e banhos, nem que seja com água de mangueira.

Conversando com o representante do Primeiro Mundo, fiz a besteira de falar, como um perfeito idiota terceiro-mundista, de Política e fui por ele devidamente esclarecido que "em se tratando da difusão dos ideais revolucionários à esquerda, e só à esquerda, tudo vale, inclusive utilizar táticas nazistas". Visitou, ao sair de Porto Alegre, a Venezuela de Chaves e a Argentina, sabe-se lá para quê. Havia uns padres franceses e belgas, representantes de instituições europeias, envolvidos com os tais fóruns, além dos ecologistas incendiários.

Contudo, a situação mais divertida desta visita exótica foi o contato da nossa querida doméstica na época, vou chamá-la de G.,  uma moça de família muito pobre, moradora de uma destas favelas da zona Norte de Porto Alegre, que criava seus dois filhos e os mantinha super bem cuidados, e muito estudiosos numa escola pública. Trabalhou em nossa  casa por uns 20 anos...no dia em que veio limpar a casa defrontou-se com o visitante que, nas semanas em que foi nosso hóspede, tomou apenas um banho e, só então, trocou as roupas.
Em um dia anterior ao raríssimo banho, G. me disse, com um olhar debochado que usava muito frequentemente:

- Doutor Jorge, me desculpe lhe falar sobre seu hóspede, mas no chão onde este francês pisa fica mau cheiro. Sou obrigada a ir aos lugares depois que ele sai, com um pano com lixívia perfumada, para que não empeste a casa.

E, diante da gargalhada que dei, rematou com uma frase muito brasileira:

-"Eu sou pobre, mas eu sou limpinha".

Anos depois, quando a encontrei na rua, lembramos disso, com muitos risos.

Esta foi minha iluminação sobre os pobres brasileiros, entre os quais eu e G. nos incluímos, e um nobre idealista à gauche, representante da alta burguesia do primeiro mundo.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

leituras de Platão à Pessoa

“o poeta é um fingidor”
Fernando Pessoa

Amo Poesia como amo bom vinho,
Mas não creio no poema. 
Não sigo Poesia e,
Muito menos, poetas.

A poesia não revela verdades, 
Ela extasia,
Contagia de espanto ou melancolia
Pela elegância e ritmo
Das palavras em paixão.

Serve para isto a Poesia,
Adornar ídolos e mitos,
Pregar verdades não.

Não peço verdades ao poeta,
Nem humana grandeza.
Não precisa ser um sábio,
Santo, mas o esteta
A costurar beleza.

Pedir-lhe verdades
É matar a liberdade
Da farsa e da loucura,

Da irresponsabilidade
Da Poesia
Em sua inteireza
Impura.

sábado, 23 de maio de 2020

oração

«Le visage du prochain me signifie une responsabilité irrécusable, précédant tout consentement libre, tout pacte, tout contrat.» 

«(...) j'ai toujours pensé que l'élection n'est pas du tout un privilège; c'est la caractéristique fondamentale de la personne humaine, en tant que moralement responsable. 
La responsabilité est une individuation, un principe d'individuation. Sur le fameaux problème, «l'homme est-il individiué par la matière, individué para la forme?», je soutiens l'individuation par la responsabilité pour autrui.»


Emmanuel Lévinas



Quero ir além
Da felicidade
Que me deste,

Quero servir-te,
Senhor, pelo tempo
Que reste.

Minha alma
É inundada
Do Amor que
Ofereces,

Quero levar
Este dom a
Quem padece.

Fruo na mente
O que aprendi
E o que ensinas.

Que minha ação
Seja instrumento
Das tuas mãos divinas.

domingo, 17 de maio de 2020

Poema da quarentena V

Menos filosofias sobre o Ser,
Menos carisma, inconsistências,
Menos discurso, mais ciência,
Menos palavra, mais silêncio
E alguma dose de inocência.

Há quem confunda intelecto
E consciência, lucidez com poder.
Mas o poder é um sopro apenas,
A lucidez é o espanto de viver
Na fluidez das coisas pequenas
Que imaginávamos reger.

Silencio e vivo alegrias e penas
Antes que o fim me varra, ali adiante,
Antes que tua voz não mais me beije
O ouvido. O sentido é mais amar.
O resto, olvido.



domingo, 3 de maio de 2020

Canção de Seikilos

Música/Poesia grega antiquíssima (200 aC), composta por um marido para sua esposa que morrera.  É a mais antiga composição musical completa incluindo notação musical.
No epitáfio gravado em pedra lê-se: "Eu sou uma lápide, uma imagem. Seikilos me pôs aqui como símbolo duradouro de uma recordação eterna"


"Enquanto vives, brilha,
Não te aflijas além da conta.
Pois tua vida é tão curta

E o tempo cobra o seu preço."




Hino Órfico a Dioniso

Evoé, ninfas! evoé, Baco!
"Vem, bendito Dioniso, deus de múltiplos nomes,
com face de touro, filho do trovão, famoso Baco,
De poder universal a quem espadas, sangue e ira sagrada
deleitam com euforia, ó louco, ó deus da voz ruidosa,
Ó furioso inspirador que carrega a vara:
Reverenciado pelos deuses,
Ó deus que coabita com os humanos,
Vem benigno, com ânimo alegre, 

Suavemente".

https://youtu.be/3Xqf5iGjh34


Os gregos reverenciavam também a face telúrica, violenta, aparentemente absurda e sensual da Natureza, e que coabita conosco neste mundo.

Segundo Hino Délfico a Apolo

Por volta de 130 aC, poesia-música (ainda eram a mesma coisa) sobre o nascimento de Apolo (Phoebo para os romanos), filho de Leto:

"Venham, musas macedônicas que habitam os penhascos cobertos da neve do Helikon, a esta encosta do Parnaso de amplas vistas, onde os dançarinos são bem-vindos, e me transportem nas canções.
Cantem em homenagem a Apolo, arqueiro e músico habilidoso de dourados cabelos, a quem Leto gerou nas margens do pântano apertando com as mãos um grosso galho de oliveira verde-acinzentada enquanto paria."
https://youtu.be/tbA8WF4V0tg?si=-VsBmhIyanfbY5EY


Eu me arrisco a interpretar: o nascimento do deus da luz, do sol da lucidez, ocorre no ambiente de um pântano e envolve castigo divino de ter que sofrer as dores de um parto...ou seja, o processo do lento, doloroso, desenvolvimento Humano.

domingo, 26 de abril de 2020

nostalgia

Hoje, meu coração inundou-se

de uruguay, carmelo, colonia
del santisimo sacramento,
playa seré, y las calles todas
Adonde anduvimos enamorados y felices,
con amigos amados,
en nuestras raíces,
y flores, dalia que extraño,
y frutos, uvas y arándanos,
y gatos y perros, y tilos.

Hoy mi corazón se desbordó
de pasados presentes,
regalos guardados en el alma,
Por siempre,

Para sempre.


Quarentena IV - sou o que sou

Ehyeh Asher Ehyeh

Santo não sou, nem gênio. Sou humano,
Nem o maior, nem o menor: eu não compito.
Se eu já quis ser o melhor foi meu engano,
E o pior é tudo aquilo que eu evito.

Sou o que sou e isto sendo vou adiante,
Carvão a transformar-se em diamante,

Mais que isto, lentamente, aprendendo
Que o Mistério, centro em mim, é que incita
A criar a minha história ao estar vivendo
O que sou, da minha forma mais bonita.

E disto não abro mão: tenho bom gosto
De distinguir entre o que é o Belo, o Bem,
E o que parece precioso mas é o oposto,
Iludindo aos que seguem outro alguém.






domingo, 19 de abril de 2020

Poema da Quarentena III - Cuida-te

Cuida-te! Precioso dom que a vida nos deu, cuida-te!

Tu és maior que toda profecia, política, filosofia,
Ou mensagem divina.

Tu és único,
E teu respirar revive a Vida 
Desde bebê, 
Até adulto, 
Velho,
Decrépito, 
Até o último suspiro,
Enquanto a vida puder.

Cuida-te!

Deixa que falsos-sábios eructem bobagens,
Políticos defequem politicagens,
Homens que não amam humanos
Calculem se deves viver,
Dividindo a unidade 
Pela tua idade.

Lava as mãos, banha-te em água pura,
Veste a máscara sagrada que protege,
Permanece contigo e com quem amas:
Joia rara guardada no estojo de veludo.

Tu és, para ti, e os que te amam, tudo!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

"o maior dos homens é o que serve a todos"


As tradições são geradas ao longo de séculos pela ação dos povos e seus expoentes: heróis, génios inspirados, homens justos, santos. E ao longo dos séculos, as tradições cristalizam-se, envelhecem, tornam-se incompatíveis com os tempos novos, enrijecem ao tentar barrar o que há de melhor no que lhes parece distinto do que elas contêm: o outro, o diferente.
A tradição torna-se então o cadáver do espírito que a gerou.
As grandes almas, pessoas que espontaneamente expressam o melhor da essência humana e, portanto, da essência das tradições, poderão ser elementos perigosos aos olhos de uma tradição que se tornou o oposto de seus ideais. Vejo assim Jesus, não somente em relação à tradição judaica, mas em relação as demais tradições. 
Não foi o Herói grego, vencedor de batalhas, mas mostrou o ápice do heroísmo ao confrontar os formalismos religiosos e os conluios políticos, mantendo-se íntegro, defendendo o que acreditava até a morte.
Não foi o doutor da lei, mas viveu a lei do Deus que amava, a cada momento.
Não foi o poderoso Messias libertador de algum povo, pelo contrário, mas com sua vida, transformou a Humanidade.
Não foi o rico cidadão romano, mas seu poder penetrou as almas sensíveis, modificando a história.
E assim, viveu o que ele mesmo era e acreditava, narrando parábolas, simples lições de vida, numa língua arcaica e desconhecida para o grande mundo, ensinando para pescadores, alguns deles analfabetos, numa apagada região do Oriente Médio. Não criou uma religião, viveu a sua própria.
Todo o Evangelho tem a marca de sua personalidade, incluindo arroubos juvenis, gestos de amizade terna, palavras de um enorme coração e de uma mente sábia, a dolorosa confrontação com o sacrifício, quando a grandeza se mesclou à perplexidade, a humildade imensa, o silêncio honesto diante da pergunta crucial que lhe fizeram: o que é a Verdade?
Um personagem poderia ter sido criado para gerar a nova religião, mas jamais essa personalidade pujante, verdadeira, amorosa, humilhada e vencedora. Tudo ali é absolutamente humano, inesperado, autêntico, como os atos de algumas pessoas especiais que passam em nossa vida, criando e enriquecendo incansavelmente a comunidade, sem grandes discursos, ou brilhos. Gente simples, silenciosa e maravilhosa. O Homem pode ser assim.
E ele foi também o sensitivo, o curador, o vidente. Ele também demonstrou, escandalosamente, aos homens comuns os grandes potenciais da espiritualidade. Talvez por isto, após sua morte, tenha sido entronizado como Ídolo, à maneira das divindades romanas e a Igreja, bem como os posteriores cultos cristãos que a seguiram, tornaram-se o oposto daquele espírito inicial, a sua Sombra prepotente, rígida, moralista, mercantilista, fanática. Contudo, o surpreendente é que a personalidade de Jesus foi e é tão grande que consegue transcender à Ideologia e ao Império, ambos decaídos, estando ainda hoje a propor caminhos a toda a gente, confortando a qualquer um, independente de ortodoxias e cultos.
E qual a essência da mensagem que rompeu a História e mudou o mundo? Que o amor que age no mundo em benefício dos outros, independente das diferenças entre os homens, é o remédio necessário, o bálsamo oferecido pelo Criador, para os sofrimentos e perigos que recorrentemente põem em risco a frágil Humanidade.
Nada mais atual.






sexta-feira, 3 de abril de 2020

sobre as origens do COVID

Em anexo, artigo da revista Nature, como sempre excelente, discute os aspectos moleculares do COVID, em comparação com os demais coronavirus para analisar as prováveis fontes da epidemia. Aparentemente, um pangolin, animalzinho da Malásia ilegalmente comercializado na China, contaminou algum(ns) humano(s) e houve mutações adaptativas nos vírus produzindo a cepa responsável pela epidemia. Por diversos motivos há fortes evidências de que a fonte não foi laboratorialmente provocada. Nature, porém afirma que, embora seja improvável uma origem laboratorial, não há como refutar a hipótese completamente. Óbvio.
E aí três questões éticas e legais se levantam:
1) Experimentos com vírus, e com quimeras (híbridos de genes humanos/ de animais) deveriam ser fortemente regulados em todo o mundo,  eventualmente proibidos por uma Corte Internacional. Pasmem, diferentemente dos países Ocidentais, a China, não dispõe uma regulação de pesquisa que aspectos éticos e legais.  
Nem penso em Bioterrorismo.
 Penso em incompetência humana na manipulação e armazenamento de vírus e tecidos. Diz a Nature, nas conclusões de um artigo que tem sido citado como a voz da "comunidade científica" de que que a origem do COVID foi natural. Eu traduzo:
"Pesquisa básica envolvendo modificações induzidas nos Coronavirus semelhantes ao SARS-COV de morcegos em culturas celulares e/ou modelos animais tem sido realizadas há muitos anos em laboatórios de nível de Biossegurança em todo mundo, e há relatos documentados de escapes de vírus SARS-CoV de alguns laboratórios. DEVEMOS, PORTANTO, EXAMINAR A POSSIBILIDADE DE UM ESCAPE LABORATORIAL DO SARS-COV-2 (na origem da Pandemia). Em teoria, é possível que as mutações RBD adquiridas pelo vírus tenham ocorrido durante a adaptação às modificações induzidas na cultura celular, como tem sido observado em estudos com vírus SARS-Cov". 
2) A absurda demora na notificação pelo PC Chinês da epidemia para o mundo, a prisão do médico que detectou pela primeira vez a doença, e sua morte, deveriam causar repúdio internacional e sanções pelos países democráticos.
3) a venda liberada, independente de um controle de qualidade, de produtos médicos de baixíssima eficiência pela China que, por exemplo, não diagnosticam adequadamente a infecção do COVID (veja-se o imbroglio da venda de testes rápidos de COVID com valores de falsos-negativos em torno de 70%), tendo o PC Chinês se manifestado por twitter (!!!), acusando o governo espanhol de haver comprado produtos em empresas não qualificadas (mas que vendem livremente!), fazem-nos pensar que estamos confiando na mercadoria de um lojão chinês, destes existentes em qualquer cidadezinha, vendendo bugigangas com a qualidade que conhecemos perfeitamente. 
Outras acusações do PC Chinês envolveram a Geni Tropical, o nosso Brasil, que estaria vendendo carne contaminada com COVID aos chineses (antes de se ter certeza de que a transmissão do vírus é pelo ar, sem dúvida). Acusar, livrar-se das responsabilidades, isto sim, eles sabem. 
Nesta hora, do ponto de vista ético e legal, selecionar o mais barato, pode ser destruir comunidades humanas, matar pessoas!

terça-feira, 31 de março de 2020

COVID

Eu gostava muito de filosofia quando guri. Pré-Socráticos, idealistas gregos, Voltaire, Kant, Nietzsche, o escambau aos meus 16, 17 anos e até mais tarde. Com o tempo e o envolvimento com a Ciência Médica, minha visão sobre filosofia mudou. A filosofia, esta criadora de Sistemas, com seus aprofundamentos prematuros e seu palavrório refinado levou a imensos absurdos como os conceitos de Hegel e as desgraças dos totalitarismos. Estes pensamentos que deduzem possibilidades a partir de intuições, insights misturados com literatura, erudições livrescas, preconceitos, religiosidade e bondade, ou maldade, da alma humana, me deixam incrédulo, pois seus métodos são falhos. Minha única excessão é Hannah Arendt, que ainda leio de joelhos.
Aprendi a apreciar o pensamento indutivo, que retira das experiências, num laboratório, ou na vida, algumas reflexões ou conclusões, reconhecendo a falibilidade das mesmas. Sempre uma visão retrospectiva sobre a aparência dos dados percebidos. Como dizia Wilde, "só os tolos não crêem nas aparências".
Neste momento, o que eu consigo retirar da experiência COVID?
Que nunca, como agora, torna-se clara a importância, literalmente vital, dos conhecimentos científicos, das vacinas, da experimentação séria. É evidente a incompetência dos "curadores de tudo", dos explicadores profundíssimos sobre tudo, que resolvem o mundo em casa, sentados.
Fica clara para mim a maravilhosa ferramenta criada nas garagens de uns jovens americanos que revolucionaram de tal forma a História Humana que um império totalitário como a URSS veio abaixo. Possibilitaram a nós, seres humanos isolados por milhares de quilômetros, trocar sorrisos e afeto, como se estivéssemos numa mesma sala, assim desfazendo nossos medos e solidão. Criação dos novos tempos, desde antes deste vírus.
O mundo do amanhã começou neste passado recente, através do método científico e das novas tecnologias, e a mente humana, instrumento da alma, é maravilhosa ao solucionar problemas e gerar soluções para a vida de todos. E é justo confiar nisto.
O que eu tiro desta experiência?
É que todas as ferramentas dos tais "novos tempos" estão já agora em nossas mãos. Este momento é a tomada de consciência destas conquistas.
Basta nos irmanarmos para o futuro melhor, indo além das ideologias que têm produzido tanto mal.
E que venha a vacina, e os novos tratamentos!
Sem filosofices.

Dr. Carlos Chagas, minha homenagem

domingo, 29 de março de 2020

Poema de quarentena II


Móvel, o céu se redesenha
Em formas, cores,
Nuvens brancas, róseas, prata,
Que na imensa tela azul
São flores

Impermanentes 

Como as vidas e as dores
Da gente.

Fico a mirar a beleza
Que se cria, neste quadro
A transformar-se todo o dia,

Nesta abóbada que
Algum Michelangelo celeste
Pintaria.

Passam horas,
O azul entorna violetas
E tons de mar profundo,
Até que o cósmico negror
Recobre o mundo:

Negrume etéreo,
Engastado de mistérios
E diamantes,

Para a viagem dos sábios
E gozo dos amantes.





domingo, 22 de março de 2020

Poema de quarentena I

Olho a paisagem da varanda:
O paraíso próximo e distante
Brilha na luz de prata e diamante
Desta primavera que desanda.

O gato e eu seguimos os ciprestes,
Móveis braços de um regente
A conduzir as horas lentamente
Enquanto haja vento e tempo reste.

Somos grãos de poeira conscientes,
E, então, somos olhos do Universo,
Por uns dias, ou talvez eternamente.

E somos o que somos, luz e treva,
Lançando mensagens nestes versos
Para saber onde a correnteza as leva.



quinta-feira, 20 de fevereiro de 2020

Vida indigna de ser vivida?

“Já não podemos nos dar ao luxo de extrair aquilo que foi bom no passado e chamá-lo de nossa herança, deixar o mau de lado e simplesmente considerá-lo um peso morto, que o tempo, por si mesmo, relegará ao esquecimento. A corrente subterrânea da história ocidental veio à luz e usurpou a dignidade de nossa tradição. Esta é a realidade em que vivemos. É por isso que todos os esforços de escapar do horror do presente, refugiando-se na nostalgia por um passado ainda eventualmente intacto ou no antecipado oblívio de um futuro melhor, são vãos.”

Hannah Arendt, As Origens do totalitarismo (do Prefácio)


Alguns alunos costumam usar a expressão "Vida (in)digna de ser vivida", como uma espécie de mantra do politicamente correto, na defesa da Eutanásia. Não sei de onde volta isto,  de qual fonte "anti-conservadora e progressista". 

É um absurdo indesculpável que este lema volte a ser usado. E, especialmente, ensinado. 

Este foi um dos slogans fundadores do Partido Nacional Socialista, ou seja, do "Mal" (Arendt). Desencadeou a liberalização, a perda de limites que redundou, finalmente na conhecida tragédia humanitária.  A classe médica dos países envolvidos abriu-se a esta possibilidade, acatando e aprofundando num crescendo a eliminação de vidas humanas. A tal "rampa deslizante" (slippery slope). O início, parece, foi ingenuamente bem intencionado.

A expressão "Vernichtung lebensunwerten Lebens", traduzindo, "terminar com uma vida indigna de ser vivida" é um lema eugênico, desenvolvido durante a República de Weimar pelo psiquiatra Alfred Hoche e o advogado criminal Karl Binding, que publicaram em conjunto o folheto "A Liberação da Interrupção da Vida Indigna de ser Vivida", em 1920.  Foi encampado pelo Partido Nazista, na  "Lei para a Prevenção de Distúrbios Hereditários", imposta em 1934, que permitiu a esterilização forçada de supostos "pacientes hereditários " e alcoólatras. 
A seguir, no início da Segunda Guerra Mundial , o conceito da "vida indigna de ser vivida" foi ampliado para assassinar doentes, incluindo "Eutanásia infantil"(1939), esquizofrênicos, e a partir daí, pessoas de comportamento anormal (homossexuais), e "raças inferiores", redundando finalmente no Holocausto.

Esta política enraiza-se num distúrbio de pensamento que envolve o niilismo gerador da Medicina Desumana (”Medizin ohne Menschlichkeit"), a qual é favorecida pela equiparação, em termos de valor, entre seres humanos e animais (Elkeles, B. Medizinische Menschenversuche;135).

Aqui trago, desta vez na íntegra a frase do médico Julius Moses, precursor da Bioética, publicada em 1932 (Pross and Aly, Der Wert des Menschen, 92):

“A missão do médico será criar o Novo Mundo, a Nova Nobre Humanidade. 
Só os curáveis sobreviverão. 
Os doentes incuráveis, as existências peso-morto, o lixo humano, o indigno de viver e o improdutivo serão eliminados. 
Em outras palavras, o Médico se tornará o Carrasco.”

É interessante e assustador que isto retorne a partir de alguns países historicamente associados ao Nazismo. Usar a Medicina como profissão envolvida no assassinato de seres humanos, apoiado pelas leis do Estado, representa um lamentável retrocesso civilizacional.

A atual liberação na Holanda do assassinato de crianças, incluindo bebês, por doença ou estresse familiar, de esquizofrénicos e outros distúrbios mentais, a perda dos critérios de indicação do procedimento,  a incapacidade estatal de controle regulatório, o crescimento exponencial no número de eutanásias, a utilização da eutanásia como “melhor prática”, suplantando mesmo os cuidados paliativos, são algumas das evidências que estes países deslizam na rampa.

Este filme já foi visto. O desfecho é conhecido.

Para quem deseja saber o que se passa na Bélgica em relação a isto, recomendo:
DOES THE BELGIAN MODEL OF INTEGRATED PALLIATIVE CARE DISTORT PALLIATIVE CARE PRACTICE? The Dossiers of the European Institute of Bioethics, publicado pelo European Institute of Bioethics. 





sábado, 1 de fevereiro de 2020

Livre de fé

Ouvindo músicas da década de 80
Veio-me alegria enorme das memórias,
Amores, amigos, abraços, histórias,
Além dos mil trabalhos da existência,

E vi que na minha alma sobrevive
Tudo de bom que a vida e eu trocamos,
Fieis amantes que há tantos anos somos.

Tudo valeu, como agora tudo vale,
Pois o coração, trema ou resvale,
Caia ou se perca, saberá levantar,
Seguir estrada, subir monte, pular cerca,

Coração jamais vencido, e há a voz
De um sonho a falar ao meu ouvido:

Serve ao Bem no trabalho que tu fazes,
Sê o que és da melhor forma que tu possas.

Esta é a Fé que a um Homem livre vale.