sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mercado (texto de 1990, sobre coisas do Brasil, antes da IA)

Vendem-se aprofundamentos interiores, técnicas de cura, auto-cura, auto-estima, auto-erotismo, auto-hipnose, auto-diagnóstico. Vendem-se automóveis. 

Vendem-se terapias reichiana, freudiana, lackaniana, junguiana, disponibilizadas, a um bom preço se for sem recibo, a discutir com a doutora Fulana.  

Vendem-se nasoplastias, mamoplastias, lipoesculturas, abdominoplastias e tatuagens de corpo inteiro.

Vendem-se filosofias, ideologias, “mirações” de Maria, caldos mágicos, plantas amazônicas, ervas curativas, cannabis, e que algum deus, se puder, lhe ajude depois disto. 

Vende-se o método completo de liberação libidinal, com direito a participação em cursos de farras grupais (sem envolvimentos neuróticos passionais).

Vende-se o céu sem esforço e a salvação de todos os pecados no templo da esquina da rua onde moras.  

Vendem-se documentos de ingresso em grupos de Somaterapia, constelações familiares, Bioenergética, Biodança, e também  de Biologia sem vestibular.

Vendem-se manuais para envolvimento afetivo, profilaxias para carapaças emocionais e terapêuticas  para traumas de infância e/ou de outras vidas.

Vendem-se a abertura dos chakras para novas realidades, e uma coleção completa da revista Realidade (da década de 70). 

Vendem-se coleções de apostilas sobre hata, tantra e raja iogas, ocultismo dos povos nômades do deserto de Gobi, prefaciadas por um mestre sufi. 

Vendem-se santinhos de um político pernambucano, e uma fotografia do Che Guevara, com frases proferidas pelo dito cujo lá pelos tempos em que matava homossexuais em Cuba.  

Vendem-se os segredos das pirâmides e cristais. Vendem-se contatos com espíritos luminosos e os mestres ascensionados, vendem-se sessões de shiatsu e reiki, além de uma fita cassete com a gravação de “Delírios espirituais” do Gilberto Gil.

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Dispõe-se ainda de alguns valores antigos, a escolher, incluindo bom gosto, seriedade, lucidez, esforço intelectual, crítica, autocrítica e respeito à Ética (todos eles em liquidação devido a procura limitada).


Falo dos elementos (poema de 1990)

 Derramem-se as águas estancadas,

Rompam-se diques, desfaçam-se represas,

Chovam as nuvens carregadas,

Fluam as fontes da pedra dura,

Desagüem os córregos, os rios, no mar.

Massas de tecido transparente,

Libertem-se, movam-se!

O coração desperta dum longo sono.


Ventos, movam as pás dos moinhos,

Ondulantes trigais, cabelos,

Levantem saias.

Façam cantar as folhas das árvores,

As grandes amplidões, os buracos,

As janelas mal-fechadas, os becos,

Limpem as ruas cheias de papéis

E de coisas inúteis jogadas fora.

Façam curvas, ventos,

Grandes movimentos aerodinâmicos,

Purifiquem o ar!

O coração desperta dum longo sono.


Fogo, brota das entranhas da terra

Em transbordante lava e traz 

 O sêmen do mundo à superfície .

Funde metais, solda, transforma substâncias,

Produz vapor, movimento, calor, amorna a vida

Que é fria.

Dá-nos a temperatura certa,

Recompõe a face do mundo, a transmutá-lo.

Dissolve o que tem sido assim!

O coração desperta dum longo sono.


Terra,  recebe as sementes e as germina,

Come o que é podre, desagrega o que contamina,

Engole o que foi e produz o que será.

Apóia os pés, dá firmeza,

Grande força horizontal

Que sustenta a realidade.

Move-te pelos oceanos, muda a face do planeta,

Coagula-te em maiores partículas,

Agrega e dissemina, 

Acolhe raízes e frutifica-as,


Pois esta é a hora esperada

Para que os elementos indistintos,

Recobrem a potência adormecida,

Represada, quase sumida,

Mas viva,

Homem ereto!




Viagens - (poema de 1997)

Paris é tão chique,

Tão megalópole, densa,

Tão tensa, funda, 

E imensa,

Que é como se nossa alma

Houvesse ainda ali,

Que é como andar pelo tempo

Além de andar pelo espaço

E tocar o passado do mundo

Com a ponta do nosso braço.


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É de entranhas feita Madri:

Fogo dos céus e dos infernos.

Mas sendo leve, me sorri:

Flamencos ternos.


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Lisboa, Alfama à noite,

E eu sonho com uma mulher em chamas.

Talvez o cheiro do mar

Traga lembranças 

De outros tempos 

E camas.

Mas é provável

Que seja apenas delírio,

Por ver Alfama.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Flamenco (poema de 1993)

Inigualável par de olhos negros,

Fundos, sombrios,

Vales frescos, rios,

Nuvens estelares,

Arabescos,

Danças de bailarinas

 Árabes, flamenco,

O teu olhar 

De Espanha à noite,

E eu o comendo 

De tanto olhar

Que eu entendo

Porque é oblíquo 

O teu olhar,

Exíguo em tempo,

É só um flerte,

Algo no ar

Por um segundo,

Mas como é enorme 

O teu olhar

E como é fundo.






Onde (poema 1995)

Onde está ser feliz?

O quanto e quando?


Ser feliz é ser

Ao estar buscando.


Não é o porto que busco,

Mas ser barco navegando.

Não é o quadro que eu quero,

Mas usar as aquarelas.


Mesmo o amor perfeito,

Encontrar é menor

Que querê-lo.








 

O amor desatento (poema de 1995)

 O amor desatento

Vai deixando os seus rastros:

Pedaços de ilusão,

Usados e esquecidos.

Brasas da paixão,

Chamas consumidas.

Botes de salvação,

Entradas e saídas.

Brisas de emoção

Que já foram tempestades.

Palavras ditas em vão

Que calaram mil verdades.

Fotos em preto-e-branco

Que já foram coloridas.


Bilhetes, cartas,

Presentes, e as coisas 

Escondidas

Dentro de caixas guardadas

A sete chaves, no armário.


Ursinhos de pelúcia, bombons, 

Os santos sudários,

Manchados com o sangue quente

Dos amantes incendiários.


O amor desatento

Vai deixando os seus rastros,

Que têm a tristeza da terra

E o fogo eterno dos astros




sábado, 31 de janeiro de 2026

A desinformação dos tempos da "inteligência" artificial (ou os que usam a internet para cuidar da saúde e da sua vida, ou ainda, os que "seguem" o youtube):


Nestes tempos de superprodução de informações sem qualidade, recria-se a realidade das conversas baseadas em opiniões da sociedade. O que perde valor, no fim, é o instrumento digital, as redes, incluindo a assim chamada “Inteligência Artificial”. Haverá sempre as vítimas, infelizmente: a multidão dos desinformados, os incultos, os iludidos. Os mesmos que têm sido os crentes das informações da TV, das novelas, como já o foram os do noticiário do rádio, e os leitores das revistas populares, os consumidores de propaganda. E há também os crentes cegos na leitura de má literatura; os egos inflados de filosofia e ciência malfeitas e as almas fanatizadas por cultos religiosos ou politicagem. 

Não se deve bloquear estes processos numa tentativa totalitária de controlar a sociedade, mas sim instruir as pessoas com o melhor conhecimento disponível e desenvolver sempre nosso próprio espírito crítico baseado em estudo sistemático. A ciência bem feita e adequadamente analisada é o instrumento para isto. 

Educação de boa qualidade.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Esperanças metereológicas



Chove forte lá fora e, forte, outra vez venta.

Sol nenhum nos vem para aquecer as ventas.

Ruas inundam-se, escoam as ladeiras,

O gelo gera águas; a brisa, as tormentas.


Se isto segue adiante, no mundo a adaptar-se

Às novas condições de um clima em catarse,

Então, que ao fim, no árido deserto, assim despertem

Os riachos, rios, lagoas ou o mar que dos céus vertem.















domingo, 4 de janeiro de 2026

Venezuela Libre? (e a Política Charmosa)

Tem sido vergonhosa a atitude de negação ideológica e desinteresse dos países “livres” e organismos internacionais sobre a Venezuela. Foram cerca de oito milhões de pessoas a abandonar aquele país, que tornou-se outra miserável ditadura socialista latinoamericana. 

Do Brasil, que deixou de ser um país livre e hoje é uma ditadura do Poder Judiciário nas mãos de um partido co-responsável direto pela tragédia humanitária no país-irmão, não se podia esperar outra atitude. Mas dos governos e instituições internacionais era esperada alguma resposta, compatível com a gravidade da questão humanitária óbvia, que fosse mais contundente que o Prêmio Nobel à corajosa dissidente Sra. Corina Machado.

Uma excessiva bondade com criminosos de “esquerda”, um elegante “deixa prá lá”. O mesmo com a Rússia e o seu psicopata de plantão: comércio, negócios, sorrisos em eventos, até que torna-se óbvio o bandido que frequenta a tua casa; ele demonstra claramente que vai tomar para si e os seus a tua riqueza. Ele despreza os teus ideais. Ele te mete medo ao ameaçar-te com bombas nucleares, e assim humilha-te. Ele tem sido um criminoso a quem sustentas.

Não há como ser favorável a uma invasão estrangeira num país latinoamericano. Mas pior, muito pior, é ser conivente com corruptos, criminosos internacionais associados ao narcotráfico, tiranos destruidores de Economias e países em nome de um idealismo “à gauche”, irresponsável, que já  criou regimes totalitários e matou milhões de pessoas (há menos de um século).

(Vide, por favor, a segunda parte de As Origens do Totalitarismo, da Hannah Arendt. Em versão reduzida, Le Système Totalitaire, da mesma autora).