sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Falo dos elementos (poema de 1990)

 Derramem-se as águas estancadas,

Rompam-se diques, desfaçam-se represas,

Chovam as nuvens carregadas,

Fluam as fontes da pedra dura,

Desagüem os córregos, os rios, no mar.

Massas de tecido transparente,

Libertem-se, movam-se!

O coração desperta dum longo sono.


Ventos, movam as pás dos moinhos,

Ondulantes trigais, cabelos,

Levantem saias.

Façam cantar as folhas das árvores,

As grandes amplidões, os buracos,

As janelas mal-fechadas, os becos,

Limpem as ruas cheias de papéis

E de coisas inúteis jogadas fora.

Façam curvas, ventos,

Grandes movimentos aerodinâmicos,

Purifiquem o ar!

O coração desperta dum longo sono.


Fogo, brota das entranhas da terra

Em transbordante lava e traz 

 O sêmen do mundo à superfície .

Funde metais, solda, transforma substâncias,

Produz vapor, movimento, calor, amorna a vida

Que é fria.

Dá-nos a temperatura certa,

Recompõe a face do mundo, a transmutá-lo.

Dissolve o que tem sido assim!

O coração desperta dum longo sono.


Terra,  recebe as sementes e as germina,

Come o que é podre, desagrega o que contamina,

Engole o que foi e produz o que será.

Apóia os pés, dá firmeza,

Grande força horizontal

Que sustenta a realidade.

Move-te pelos oceanos, muda a face do planeta,

Coagula-te em maiores partículas,

Agrega e dissemina, 

Acolhe raízes e frutifica-as,


Pois esta é a hora esperada

Para que os elementos indistintos,

Recobrem a potência adormecida,

Represada, quase sumida,

Mas viva,

Homem ereto!




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