Derramem-se as águas estancadas,
Rompam-se diques, desfaçam-se represas,
Chovam as nuvens carregadas,
Fluam as fontes da pedra dura,
Desagüem os córregos, os rios, no mar.
Massas de tecido transparente,
Libertem-se, movam-se!
O coração desperta dum longo sono.
Ventos, movam as pás dos moinhos,
Ondulantes trigais, cabelos,
Levantem saias.
Façam cantar as folhas das árvores,
As grandes amplidões, os buracos,
As janelas mal-fechadas, os becos,
Limpem as ruas cheias de papéis
E de coisas inúteis jogadas fora.
Façam curvas, ventos,
Grandes movimentos aerodinâmicos,
Purifiquem o ar!
O coração desperta dum longo sono.
Fogo, brota das entranhas da terra
Em transbordante lava e traz
O sêmen do mundo à superfície .
Funde metais, solda, transforma substâncias,
Produz vapor, movimento, calor, amorna a vida
Que é fria.
Dá-nos a temperatura certa,
Recompõe a face do mundo, a transmutá-lo.
Dissolve o que tem sido assim!
O coração desperta dum longo sono.
Terra, recebe as sementes e as germina,
Come o que é podre, desagrega o que contamina,
Engole o que foi e produz o que será.
Apóia os pés, dá firmeza,
Grande força horizontal
Que sustenta a realidade.
Move-te pelos oceanos, muda a face do planeta,
Coagula-te em maiores partículas,
Agrega e dissemina,
Acolhe raízes e frutifica-as,
Pois esta é a hora esperada
Para que os elementos indistintos,
Recobrem a potência adormecida,
Represada, quase sumida,
Mas viva,
Homem ereto!
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