Aos poucos, fui me dando conta de que algo não estava bem em relação a estes vínculos familiares.
Um primeiro detalhe, raro: o meu pai negou-se a incluir o sobrenome M para o seus filhos, e eu sempre achei que isto teria sido parte do seu “mau gênio”.
Uma segunda questão: fiquei sabendo que uma das pessoas mais dignas que eu conheci, nossa tia Landa, ao completar 16 anos, afirmou ao seu pai e à sua esposa: “-eu hoje vou embora desta casa e nunca mais porei os meus pés aqui!" E assim o fez aquela guriazinha loira, de olhos azuis, inteligente e forte. Foi-se e conseguiu emprego na antiga Loja Guaspari, no centro de Porto Alegre. Imaginem o escândalo que isto representou na vizinhança daquela Porto Alegre patriarcal do ano de 1929. Foi-se e fez a sua vida, íntegra e livre. Livre até conhecer e casar-se com o juiz Antônio de Oliveira Netto, para nós, dali para diante, o tio Totô. Mas deste abandono precoce do lar paterno pela tia Landa eu fiquei sabendo bem mais tarde...A minha mãe era menos determinada que a minha tia. Nossa Rosa era puro coração, doce bondade, para com todos, inclusive suas irmãs, a quem ela amava imensamente. Foi uma lutadora, uma tigresa para conseguir nos criar e educar. E conseguiu! Conosco, viviam os outros membros da família, o nosso lado português, a avó Maria Rosa Januário dos Santos, viúva há muitos anos, e os nossos queridos primos Cláudio e Darci, os quais ficaram órfãos de pai e mãe. Nossa avó Maria Rosa e os meus pais criaram juntos estes primos, que eram como nossos irmãos.
Pois bem, a terceira etapa desta questão sobre a família M, veio à tona quando eu perguntei à minha mãe, já idosa e doente, sobre a causa daquele afastamento da tia Landa. Ela mirou seus olhos azuis nos meus olhos, pegou na minha mão e, pela primeira e única vez, me disse: “Jorge, a segunda família do teu avô, incluindo as tuas tias e tios, nos isolaram. E tiraram de mim e da tua tia Landa tudo a que tínhamos direito”. Eu me calei, até porque nunca precisamos de nada vindo daquele lado da família. E preferi me afastar daquilo que não me dizia mais respeito.
Nos dias atuais, fiquei sabendo, através de um querido primo, da existência de uma causa judicial, envolvendo o inventário de bens, justamente da parte da tia Isolina. Alguém teria afirmado que a minha mãe e a tia Landa, não seriam filhas do nosso avô, nem irmãs da nossa tia Isolina. Fui atrás, então, por birra e curiosidade, e sem qualquer interesse pessoal. E entendi, consultando o registros notariais, o que minha mãe tentara me explicar. Quando o avô Luis M faleceu, em 1960, um dos irmãos da minha mãe foi ao cartório em Porto Alegre e citou somente os filhos do segundo casamento do meu avô como sendo legítimos. Aliás, descartou, completamente, a existência de suas próprias irmãs. Minha mãe e a tia Landa foram mais uma vez enjeitadas, lesadas na sua integridade, nos seus direitos fundamentais, como já haviam sido na sua tenra infância.
Fui adiante na minha pesquisa. O sobrenome M, que tem sido considerado por essa família, como de descendência italiana, sempre me pareceu raro e não consta entre os sobrenomes dos imigrantes, ao contrário daquele da minha avó Lucrecia Carminatti. Descobri nos registros que M é uma abreviação de Martins, ou Martinez, como bem queiram.
Mas continuam, lá em Porto Alegre, a tentar isolar minha mãe e minha tia Landa dos registros civis da família M (na verdade, Martins), num processo por alguma (reles) grana. De minha parte, atualmente, fico muito feliz de não ser Martins (ou M), e agradeço ao Waldomiro, o meu genioso pai. Se pudesse, e não fosse um trabalhão, envolvendo muito esforço e algum dinheiro, eu incluiria no meu sobrenome, isto sim, o Carminatti, para marcar as origens da nossa família na Lombardia. Além da nossa grande honra de sermos descendentes dos Januário dos Santos, uma mescla de Algarve e Trás-os-Montes.
Deste modo, como não sou, e nem quero ser um Martins (ou M, como bem queiram) eu estou fora desta história. Graças a Deus, nada disso me diz mais respeito, nem me faz, e nunca me fará, a mais mínima falta. Considerando a família digna, produtiva e maravilhosa que é a nossa, quem perde, em valor enquanto sobrenome, são os Martins.
Minha família pelo lado português, e minha mãe Rosa Carminatti, à esquerda, comigo no colo.

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