domingo, 3 de maio de 2026

Família, sobrenomes, interesses financeiros (ou, como o nome da canção americana, "Shames and Scandals in the Family")

Observação- Por respeito às pessoas que tem o sobrenome em apreço, eu o cito somente como M



Nasci em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, na Santa Casa de Misericórdia, em 5 de Julho de 1956, filho de Rosa M dos Santos, dona de casa, e de Waldomiro dos Santos, dono de uma oficina de marcenaria, e vivi a minha infância, até os 12 anos, na rua Rodolfo Gomes, no Bairro do Menino Deus, em Porto Alegre. A oficina do pai ficava nos fundos de nossa casa, e a do tio Manuel, nascido em Portugal, ficava no bairro Medianeira.
Na Rodolfo Gomes morava uma outra parte do que eu imaginei por muito tempo, ser a “nossa família”. Meu avô Luis M Filho havia ficado viúvo quando minha avó, Lucrecia Carminatti, nascida em Bérgamo, faleceu, deixando a minha mãe e a sua irmã mais velha, a tia Iolanda, como órfãs de mãe muito cedo. A tia Iolanda aos seis anos, e minha mãe aos três. Pois, o meu avô, que eu lembro ter visto uma vez apenas na vida, ainda que fôssemos quase vizinhos, ao que parece dedicou-se com exclusividade à sua nova família. Minha irmã e a tia Landa, eram tratadas como “gata borralheira”. Eu devia ter uns quatro anos, quando vi o avô Luiz. Era um homem alto, grisalho, de olhos azuis, e usava um terno de linho branco. Deu-me algum presentinho e eu cheguei em casa todo feliz para contar à mãe do presente do “senhor de roupa branca” que morava na casa da avó Rosaria e dos meus tios. Minha mãe sorriu e disse: “esse é o teu avô, Jorge.” Pois a vida de uma criança é feita de surpresas.
Eu chamava a mãe destas minhas tias e tios de avó. Depois, dei-me conta de que ela não era minha avó, a qual se chamara Lucrecia. Com o tempo fui conhecendo melhor a cada um dos tios e das tias, e também aos meus primos. Alguém especial, entre estes tios e tias, foi a tia Isolina, que era professora do Primário e me alfabetizou antes mesmo que eu entrasse na escola. Lembro-me da tia Isolina caminhando pelo pátio da casa dos avós com um livrinho a me contar histórias infantis. E agradeço-lhe, para sempre, imensamente, pela atenção.  Com ela mantive contato, ao longo da vida.

Aos poucos, fui me dando conta de que algo não estava bem em relação a estes vínculos familiares.

Um primeiro detalhe, raro: o meu pai negou-se a incluir o sobrenome M para o seus filhos, e eu sempre achei que isto teria sido parte do seu “mau gênio”. 

Uma segunda questão: fiquei sabendo que uma das pessoas mais dignas que eu conheci, nossa tia Landa, ao completar 16 anos, afirmou ao seu pai e à sua esposa: “-eu hoje vou embora desta casa e nunca mais porei os meus pés aqui!" E assim o fez aquela guriazinha loira, de olhos azuis, inteligente e forte. Foi-se e conseguiu emprego na antiga Loja Guaspari, no centro de Porto Alegre. Imaginem o escândalo que isto representou na vizinhança daquela Porto Alegre patriarcal do ano de 1929. Foi-se e fez a sua vida, íntegra e livre. Livre até conhecer e casar-se com o juiz Antônio de Oliveira Netto, para nós, dali para diante, o tio Totô. Mas deste abandono precoce do lar paterno pela tia Landa eu fiquei sabendo bem mais tarde...A minha mãe era menos determinada que a minha tia. Nossa Rosa era puro coração, doce bondade, para com todos, inclusive suas irmãs, a quem ela amava imensamente. Foi uma lutadora, uma tigresa para conseguir nos criar e educar. E conseguiu! Conosco, viviam os outros membros da família, o nosso lado português, a avó Maria Rosa Januário dos Santos, viúva há muitos anos, e os nossos queridos primos Cláudio e Darci, os quais ficaram órfãos de pai e mãe. Nossa avó Maria Rosa e os meus pais criaram juntos estes primos, que eram como nossos irmãos. 

Pois bem, a terceira etapa desta questão sobre a família M, veio à tona quando eu perguntei à minha mãe, já idosa e doente, sobre a causa daquele afastamento da tia Landa. Ela mirou seus olhos azuis nos meus olhos, pegou na minha mão e, pela primeira e única vez, me disse: “Jorge, a segunda família do teu avô, incluindo as tuas tias e tios, nos isolaram. E tiraram de mim e da tua tia Landa tudo a que tínhamos direito”. Eu me calei, até porque nunca precisamos de nada vindo daquele lado da família. E preferi me afastar daquilo que não me dizia mais respeito.

Nos dias atuais, fiquei sabendo, através de um querido primo, da existência de uma causa judicial, envolvendo o inventário de bens, justamente da parte da tia Isolina. Alguém teria afirmado que a minha mãe e a tia Landa, não seriam filhas do nosso avô, nem irmãs da nossa tia Isolina. Fui atrás, então, por birra e curiosidade, e sem qualquer interesse pessoal. E entendi, consultando o registros notariais, o que minha mãe tentara me explicar. Quando o avô Luis M faleceu, em 1960, um dos irmãos da minha mãe foi ao cartório em Porto Alegre e citou somente os filhos do segundo casamento do meu avô como sendo legítimos. Aliás, descartou, completamente, a existência de suas próprias irmãs. Minha mãe e a tia Landa foram mais uma vez enjeitadas, lesadas na sua integridade, nos seus direitos fundamentais, como já haviam sido na sua tenra infância. 

Fui adiante na minha pesquisa. O sobrenome M, que tem sido considerado por essa família, como de descendência italiana, sempre me pareceu raro e não consta entre os sobrenomes dos imigrantes, ao contrário daquele da minha avó Lucrecia Carminatti. Descobri nos registros que M é uma abreviação de Martins, ou Martinez, como bem queiram.  

Mas continuam, lá em Porto Alegre, a tentar isolar minha mãe e minha tia Landa dos registros civis da família M (na verdade, Martins), num processo por alguma (reles) grana. De minha parte, atualmente, fico muito feliz de não ser Martins (ou M), e agradeço ao Waldomiro, o meu genioso pai. Se pudesse, e não fosse um trabalhão, envolvendo muito esforço e algum dinheiro, eu incluiria no meu sobrenome, isto sim, o Carminatti, para marcar as origens da nossa família na Lombardia. Além da nossa grande honra de sermos descendentes dos Januário dos Santos, uma mescla de Algarve e Trás-os-Montes.

Deste modo, como não sou, e nem quero ser um Martins (ou M, como bem queiram) eu estou fora desta história. Graças a Deus, nada disso me diz mais respeito, nem me faz, e nunca me fará, a mais mínima falta. Considerando a família digna, produtiva e maravilhosa que é a nossa, quem perde, em valor enquanto sobrenome, são os Martins. 


Minha família pelo lado português, e minha mãe Rosa Carminatti, à esquerda, comigo no colo.


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