domingo, 14 de junho de 2026

Sobre o Cemitério de Pardais

"Os jovens sonham com o futuro, os velhos com o passado. Na minha avançada idade, eu sonho com a Marina, aquela que foi a mulher da minha vida. Tenho oitenta e oito anos e sonho ainda com o nosso primeiro encontro, na Plaza Mayor de Madrid, junto à estátua do rei Filipe III. No seu espanhol melodioso, disse-me que a estátua equestre tinha sido um verdadeiro cementerio de gorriones. Um cemitério de pardais que entravam pela boca do cavalo, mas que, depois, não conseguiam dar com a saída. O pescoço era estreito - ficavam presos naquele soberbo costil. Só em 1931, aquando da implantação da República, após um atentado à bomba que destruiu parte da estátua, se descobriram pequenos ossos de pássaros no ventre do cavalo."

Parágrafo inicial de Cemitério de Pardais, do autor João Morgado

" A idade é o menor sintoma da velhice..."

Mário Quinata, A Vaca e o Hipogrifo




Agradeço ao escritor João Morgado pelo convite, que aceitei com grande honra.  Assim, retribuo ao João Morgado a sua participação no evento inicial da unidade curricular de Ética Médica e Bioética ocorrido em 8 de setembro de 2025, ao início do último semestre em que fui coordenador desta disciplina na Faculdade de Ciências da Saúde da Universidade da Beira Interior.
O romance Cemitério de Pardais marcou-me tão profundamente que decidimos utilizá-lo como material de análise nas atividades práticas de Medicina Narrativa realizadas pelos alunos sobre os dilemas éticos vivenciados na profissão médica. 

O evento possibilitou alguns momentos inesquecíveis ao discutirmos detalhes desta obra que traz à tona os nossos medos e esperanças através de uma escrita intensa, íntima, e que, ao fluir com poesia, evoca-nos a memória dos seres amados que ainda estão connosco ou já se foram. 

Um livro que, ao discutir a Impermanência a que tudo no Universo está sujeito, revela-nos o ensinamento precioso de não deixar para amanhã a declaração dos nossos sentimentos. A chance, talvez única de, hoje mesmo, dizer eu te amo, eu te aceito, ou perdoa-me.

Todo bom livro desperta no leitor atento um fluxo de sentimentos e ideias. Nesta apresentação vou elencar algumas reflexões baseadas em minhas próprias referências médicas, científicas, literárias, filosóficas e mesmo musicais, despertadas pela leitura e releitura de Cemitério de Pardais. O resto será a prazerosa fruição de Cemitérios de Pardais pelos seus novos leitores, que terão a sua própria interpretação.

 


Creio que o mundo já viveu as eras do homem heroico, do homem santo, do génio e, em nossos dias, experimentamos a era do “homem comum”.

Em todos estes períodos, desde a etapa dos mitos e dos deuses, até à atualidade, a pessoa humana é confrontada com a morte e o morrer, esta aparente derrota, em que cada um de nós percebe o que somos: o Ecce homo! Eis o homem, na sua reconhecida imperfeição e fragilidade.

 Sócrates, o pai, real ou literário, do Idealismo grego, declarou no livro Fédon que “Filosofar é preparar-se para a Morte”. Há, contudo, a perceção profunda, simbólica, de que a morte, e especialmente o processo do morrer, representa uma revelação, a Epifania, como o descrito no antiquíssimo Livro Tibetano dos Mortos, o Bardo Thodol. 

O personagem de Cemitério de Pardais, além de ter 88 anos, sofre duma cegueira desencadeada pelo acidente automobilístico do qual ele se culpa até, quase, os seus últimos momentos de vida.

A experiência do morrer velho e cego é um tema recorrente e crucial na tradição cultural dos antigos gregos. Tirésias, o Profeta Cego de Tebas, o mais reconhecido idoso cego da tradição grega, perdeu a visão por ter irritado a deusa Hera, mas, em troca, recebeu, além de uma vida longa, o dom da profecia. Homero, autor da Ilíada e da Odisseia, um aedo, poeta-cantor, velho e cego, errava de cidade em cidade a apresentar seus versos. E ainda Édipo que, devido ao drama conhecido por todos, cega a si mesmo e torna-se um velho exilado e errante até à morte.  

Recordo ainda outro homem, o maior poeta latino-americano, que viveu, a partir dos 55 anos de idade, como cego, devido a uma doença de ordem genética. Trata-se do mestre Jorge Luiz Borges, argentino e neto de portugueses de Torre de Moncorvo, Distrito de Bragança, que declarou, com amargor no poema El Ciego (publicado em 1972)


Desde mi nacimiento, que fue el noventa y nueve

de la cóncava parra y el aljibe profundo,

el tiempo minucioso, que en la memoria es breve,

me fue hurtando las formas visibles de este mundo.


Los días y las noches limaron los perfiles

de las letras humanas y los rostros amados;

en vano interrogaron mis ojos agotados

las vanas bibliotecas y los vanos atriles.


El azul y el bermejo son ahora una niebla

y dos voces inútiles. El espejo que miro

es una cosa gris. En el jardín aspiro,


Amigos, una lóbrega rosa de la tiniebla.

Ahora sólo perduran las formas amarillas

y sólo puedo ver para ver pesadillas.


Mas no romance Cemitério dos Pardais, repito, o personagem velho cego, não é um herói grego, nem um famoso poeta. É o homem comum, como quase todos nós, que o artista popular brasileiro Caetano Veloso eternizou com versos musicados na canção intitulada Peter Gast. Peter Gast é a alcunha de Johann Köselitz, músico que acompanhou por muitos anos Friedrich Nietzsche como secretário. A Peter Gast tocou a sina de ser o “homem comum” a acompanhar o  torturado gênio.  

Canta Caetano Veloso:

“Sou um homem comum

Qualquer um

Enganando entre a dor e o prazer

Hei de viver e morrer

Como um homem comum

Mas o meu coração de poeta

Projeta-me em tal solidão

Que às vezes assisto

A guerras e festas imensas

Sei voar e tenho as fibras tensas

E sou um

Ninguém é comum

E eu sou ninguém…”


Se há alguma grandeza no nosso momento histórico é o reconhecimento de que cada um de nós, sendo “homens e mulheres comuns”, ao experimentarmos como se fôssemos os primeiros, à nossa maneira, os amores, dores, doenças, e também o morrer, estamos, ainda e sempre, a reviver o drama épico que, independentemente de religiões formais, a revelação de uma Epifania, de algo “Sagrado”.  Como cantou Frank Sinatra, e também Elvis Presley:


“And now, the end is near

And so I face the final curtain

My friend, I'll say it clear

I'll state my case, of which I'm certain

I've lived a life that's full

I travelled each and every highway

And more, much more than this

I did it my way…”


Um detalhe fundamental, o personagem de Cemitério de Pardais, foi desenvolvido com base nas memórias do autor João Morgado, sobre uma pessoa, um amigo seu, idoso e cego, que Morgado teve a oportunidade de escutar e acompanhar. João Morgado convida-nos a seguir as últimas 24 horas do processo de morrer deste personagem, velho e cego, sozinho em seu apartamento, a confrontar-se com as memórias, emoções e sentimentos: o acidente, pelo qual ele se responsabiliza, e que lhe custou a morte da mulher amada, a bela espanhola Marina, ou María del Mar, como ele a chamava.  Além, posteriormente, do óbito de um filho e do afastamento do outro. E é justamente no Ano Novo que esta despedida, com a duração de 24 horas, transcorre. Alfa e ômega. Ômega e alfa, talvez.


O livro trouxe-me à memória a obra da Dra. Elisabeth-Kübler Ross, psiquiatra suíça, que ao graduar-se como médica, emigrou para os Estados Unidos em 1958. No ano seguinte, ela iniciou seu internato num hospital nova-iorquino e, ao atender doentes crónicos, com enfermidades incuráveis e em etapa terminal, observou que estes doentes eram relegados à solidão devido ao pudor, ao medo, ao nojo, dos profissionais de saúde de terem de ouvir as experiências das pessoas moribundas. Dra. Ross horrorizou-se com o descaso, a negligência e os maus-tratos com que estes doentes eram tratados por médicos e demais profissionais de saúde. Eles eram tacitamente ignorados. 

Ela, então, sendo ainda uma internista, decidiu fazer o oposto, ouvi-los, buscando perceber o que sentiam. E isto mudou quase tudo no atendimento aos doentes crónicos, em todo o mundo, especialmente àqueles terminais, dando início ao que seriam os cuidados paliativos na atualidade. 

Os programas criados pela Dra. Ross, que geraram um novo campo da Medicina, a Tanatologia, mostraram-se capazes de restaurar o sentimento de dignidade e autorrespeito das pessoas doentes. Uma das bases teóricas surgidas a partir dos estudos da Dra. Ross, foi o reconhecimento das fases do processo de morrer, também chamadas de etapas de adaptação ao luto: negação, raiva, barganha, depressão e aceitação, havendo, ainda, um fio condutor que atravessa e liga todo este processo, a esperança. 

Pois, Cemitério de Pardais, sem ser um tratado de Tanatologia ou Cuidados Paliativos, consegue descrever, de modo claro, sensível, a evolução psíquica do processo de morrer. 

O personagem, nas primeiras horas do seu último dia, limita-se a remoer remorsos, a afligir-se pelas vivências das situações de velhice e cegueira, imergindo num mar de memórias e perdas, até atingir nesta dinâmica as reflexões metafísicas sobre o sentido da vida, da Dor e do Destino. Desvela-nos a grandeza oculta deste homem comum, capaz de, por devoção aos seus amores, assumir para si o inferno da culpa por erros que não cometeu. E isso é atingir o Céu. Ele nos confessa que: 

“Amar é mais que uma simples palavra, é um verbo de ação – é uma atitude. É um ato de vontade, de inteligência, de maturidade”.

Poderia ser uma obra sobre o morrer de uma pessoa frustrada a desejar, mesmo a planear, a morte como em muitos filmes franceses das décadas passadas, mas João Morgado vai muito além dos clichês démodés de uma arte ideológica. Ele reconhece o fio da Esperança a interligar as etapas do processo de morrer, descrito pela Dra. Ross.

A obra expõe claramente algo que nós, médicos e profissionais de saúde, sabemos bem: viver integralmente implica também a aceitação de suportar a dor, a doença e, para os bravos, os valentes, as limitações e desafios do envelhecimento e do morrer, numa sociedade que idealiza, como diz o autor, a “eterna juventude, esquecendo o peso morto dos velhos”.  Eu completaria: não apenas dos velhos, mas também dos doentes crónicos, dos deficientes, dos enfermos mentais. Incluindo crianças. Um Admirável Mundo Novo, lembrando a distopia criada por Aldous Huxley.


Pois vejam: apenas cerca de 90 anos após a tragédia humana do totalitarismo nazista, e da sua Medicina Desumana, observamos pessoas relativamente informadas, incluindo jovens idealistas, a bradar como seu lema uma expressão criada, com “as melhores intenções”, pelo jurista Karl Binding e o psiquiatra Alfred Hoche, ambos alemães, lá por 1920: Lebensunwerten Lebens, a “vida indigna de ser vivida”. Esta vergonhosa expressão serviu de slogan crucial para o Partido Nazista justificar a eliminação do “peso morto” da “vida indigna” através da eutanásia em massa de alcoólatras, homossexuais, doentes crónicos (incluindo crianças), esquizofrénicos, e, na evolução do processo, inimigos políticos, ciganos, raças e povos considerados inferiores...até a solução final, o Holocausto. Um mundo de psicopatas idealistas. Atualmente, isto volta a ser uma palavra de ordem em alguns países considerados “progressistas”.


A perceção do personagem sobre esta sociedade contemporânea, tem um humor de precisão cirúrgica. Ele nos diz:

“A sociedade parece um daqueles móveis que se compram e montam em casa. Tudo encaixa, mas sobram uns parafusos – são os velhos”.

E ele vai repetindo os estereótipos criados por esta sociedade que ele, inconscientemente, incorporou a partir das experiências de ser um idoso neste mundo imperfeito:

“A velhice é a morte a prestações. Vamos morrendo por partes. Por vezes morre a carne, outras o espírito.” 


No romance Cemitério dos Pardais, passamos a ser nós os interlocutores deste personagem velho e cego. E aí reside o mistério desvendado pela Dra. Ross e o autor João Morgado: o contato com estas experiências pode tornar-se um tesouro para quem as escuta, por permitir o compartilhamento de histórias de vida, experiências únicas, visões e esperanças, se formos capazes de perceber e iluminar-nos com a riqueza de seus conteúdos. Riqueza que, para a Humanidade, seria perdida no silêncio do descaso. Um patrimônio da Humanidade é a vida e a história vivida por cada pessoa, até o seu desfecho. O “grand finale”, as nossas últimas palavras, ou mesmo, o nosso último silêncio...


A grandeza do livro, além de desnudar a dolorosa etapa da confrontação de um “homem comum” com a sua própria história composta pelos atos e fatos, segue adiante e desvela aos leitores que o morrer consciente constitui um processo de integração da Psiquê, o cumprimento da Individuação, como a denominou Carl Gustav Jung, criador da Psicologia Profunda: a integração do Homem com a sua história, suas memórias, os seus opostos e o encontro consigo mesmo, a profundidade do arquétipo do Self.

O processo do morrer de cada um deve ser respeitado, utilizando todos os recursos disponíveis, para sedar a dor, dar conforto, auxiliar na compreensão das emoções, sentimentos e, sempre, com a escuta respeitosa e o diálogo humano. Esta é a tarefa de um médico. Esta é a Essência da Medicina.

O livro, outrossim, vai além. Diz-nos o personagem:

“Nunca estamos abandonados pelos ausentes, pelos que partiram, mas sim pelos que ficaram”.

E, com o passar das horas, o personagem nos revela, assustado:

“...há gente no quarto..., a entrar e a sair, não sinto a porta, devem atravessar as paredes, vejo sombras a dançar entre as sombras dos meus olhos. Sinto como esvoaçam à volta da cama. Sinto que me tocam... Marina, és tu? Vieste ter comigo?...sinto o teu perfume...o dançar das bonecas em cima do baú que trouxeste de Madrid...”

.......

Uma voz: Vens?

Algo que o contacto com as pessoas confrontadas com a morte, ou a quase morte, desde os estudos iniciais da Dra. Ross, trouxe à Ciência Médica, foi a narrativa das experiências de quase morte. Near-death experiences (NDE), incluindo o contato com os nossos amores e parentes que já se foram. Tive o prazer de trocar informações com um cardiologista holandês, o Dr. Pim Van Lommel, que, sendo absolutamente cético ao princípio de seu trabalho de contato com pessoas que viveram experiências de NDE, não pôde deixar de afirmar em seu artigo publicado na revista Lancet, um dos jornais mais importantes de Medicina: nossos dados sugerem que a Consciência Humana é independente do cérebro.  Ou seja, as revelações preciosas obtidas através da escuta atenta dos conteúdos vividos pelas pessoas comuns nestes momentos limítrofes da morte, e da quase-morte, revelam que o morrer pode conter mesmo uma revelação, uma Epifania.

O personagem vive seus últimos momentos. O desconforto agrava-se, torna-se insuportável, até surgir uma suave anestesia, uma doce liberação das dores, preocupações, culpas e mágoas, um luminoso silêncio que, novamente, lhe diz:

-Vens?

E ele reponde:

-Vou...


Obrigado, ao autor e amigo João Morgado.



 


 



2 comentários:

  1. Meu irmão, sempre preciso e maravilhoso, seja em poemas ou comentários. Parabéns 👏🏻 👏🏻 👏🏻 👏🏻

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