terça-feira, 1 de abril de 2014

sombra


Tortura é querer ser puro, embestar em ser santo.
Loucura é ver-se grande, sem sê-lo no entanto. 
Sonhar-se rei te enfraquece, sentir-se verme te lesa.

Luz e sombra coexistem numa vida que se preza...

Quando te acusas, tu tombas. Se te absolves, te elevas
Porque o  que pesa é a culpa: ao te perdoares, tu rezas.
Se tu te aceitas, compreendes a trave no olho alheio.

Alto e baixo formam par e sábio é o caminho do meio.

Suave o homem que sabe o que se esconde no fundo
Da humana alma: conhece a face oculta do mundo.
Mas se tu sabes quão frágil tu podes ser nesta vida

Deixa brotar o mais belo da tua natureza escondida.

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Mas por que será mais fácil 
Reconhecer-se uma larva 
Do que voar, 
borboleta?

os sentidos no Brasil


É da boca do demônio que vem a mais santa palavra
E o que mais diz ser honesto corrompe e é corrompido
O que prega a liberdade quer controlar quem é livre...
Olhar a vida é mais sábio que aprendê-la de ouvido.




sexta-feira, 14 de março de 2014

Das paredes à pele

Amo as paredes limpas
Que são silêncio para os olhos,
Como amo a pele limpa
Sem símbolos riscados.
Amo os campos virgens
E os rumos indevassados.

Há ruído demais, riscos, frases,
Falsa arte, signos, graffitis,
Slogans, reflexões sem fundo
De filosofia mal-formada,
Pichados como berros
Nas peles e paredes  do mundo.

Violam os olhos,
Violentam o silêncio.

Silêncio, por favor,

Que a alma não grita,
A alma não risca,
A alma nem pensa,
A alma não fala:

A alma te silencia.

É no límpido silêncio
Que a alma trabalha
A produzir Sentido

E poesia.





sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

igualdades

Às vezes me pego pensando se não se enganaram os idealizadores da Revolução Francesa ao inserir o item Igualdade, junto aos outros dois, Liberdade e Fraternidade. 
Se os ideais de Liberdade e a Fraternidade tem gerado desenvolvimento civilizatório evidente, levando o ser humano à plena expressão de suas potencialidades, desde que respeitando o espaço alheio, do irmão que tem igual direito a expressar-se e viver livremente, a igualdade entre os homens sempre me pareceu uma utopia inatingível cuja busca sem critério com frequência é danosa e redunda em fracasso. 
Movimentos que buscam a equidade de direitos para as mulheres, as minorias, e uma justiça para todos, obviamente são metas excelentes, que tem sido desenvolvidas nas sociedades mais liberais. Mas a existência da razão, ao longo do processo evolutivo, aguçou o que já se observa em menor escala entre animais: somos indivíduos, distintos, que, apenas em situações anômalas envolvendo algum tipo de embriaguez, regressam ao espírito de massa. A individuação, impossível sem liberdade, nos dignifica e a alteridade que, de algum modo separa, também nos une: somos irmãos e diversos. Todo processo de equalização forçada gera a perda da liberdade e frequentemente da fraternidade, como se viu nos socialismos de esquerda e direita que amordaçaram povos e ensanguentaram o século XX. A busca de uma utópica igualdade multiplica ódios e leva ao poder os mais brutos, gananciosos e despreparados. Gera regimes de terror.

O termo igualdade tem sido conceituado como o princípio da busca exclusiva de direitos iguais. Porém,a igualdade tem a ver, em um sentido mais amplo, com deveres e com a capacidade de realizá-los pessoalmente. 

Sentir-se igual implica em ter o sentimento de que, com garra, eu sou capaz de conquistar pessoalmente os direitos aos quais almejo: fazer-me na vida, nutrir a mim e aos meus queridos, obter confortos e sei lá o quê mais. Sou igual a ti e não preciso te roubar, ou corromper-me, ou usar vias desonestas, para crescer. 
A igualdade é um sentimento do indivíduo, e também da comunidade. 
Significa sentir-se auto-suficiente, saudável, capaz. Se eu e meu país somos iguais aos outros, podemos com esforço atingir como os melhores deles patamares mais elevados de experiência. 
Neste sentido amplo, sim, a igualdade é irmã da Liberdade e da Fraternidade, pois sem ela, somos dependentes de um grupo, partido ou governo, somos desiguais dos “competentes“ a quem invejamos. Demonizamos e tentamos destruir quem “chegou lá“. Somos a escória, indefinidamente. E seremos a escória mesmo com o bolso, e a cueca, cheios de dinheiro. Não seremos iguais. Fingiremos que o somos, pela prepotência e pelo cerceamento da liberdade alheia. 
Quem rouba, quem corrompe, nunca será mais e sempre saberá que é menos.

A principal fonte da igualdade chama-se Educação, cujos frutos são a auto-consciência e auto-suficiência. A igualdade neste caso não implica utopia, mas construção de escolas e formação de bons mestres.

domingo, 23 de fevereiro de 2014

mimesis


O mundo entra
Pelas ventas,
Olho e ouvido,
E o artista daí
O absorve,
Banha-o no ouro
Do que é 
E o reinventa.

O talento da arte
É este:
Não copia, 
Co-cria.



                 Niño comiendo uvas. Joaquin Sorolla (aquarela)

segunda-feira, 6 de janeiro de 2014

o ser gato


Sou bicho assustado,  gato arisco,
Que vive a vida no alto dos telhados
Mantendo longe os ruídos e os riscos,

Herdeiro da imensidão dos deserdados.

Sou gato silencioso cujo faro
Percebe o que ninguém quer perceber:
Um feio odor escondido em frasco caro,

Ou o despercebido perfume que há num ser.

Vou deslizando pela vida, livre e suave,
Esgueirando-me das regras e das normas,
E meu olhar têm o mistério de uma nave

Onde a sagrada chama desfaz formas...

Vou namorando o sol e os passarinhos
Encantado pelas coisas que balançam.
Gato exótico que sou, vago sozinho:

Sou o companheiro das distâncias.





quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

amor


nestes tempos de grandes ideais,

volto às memórias humildes
em que o amor se confunde
com desejo e necessidade.

antes de ti, a casa era vazia
do que podia ser e que seria:
era sonhar a vida, fantasia.

tua falta era a noite que eu vivia.

antes de ti o tempo era lenta
consumação, rumo a percorrer

passo após passo,
gozo após gozo,
gota após gota,
como a espera de morrer.

até que um sonho disse que virias:
chegaste e noite fez-se dia.

nestes tempos de grandes ideais
volto às memórias mais felizes
em que o amor da gente representa
o que é mais belo em nós: 
humanidade.