sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Tristes tempos

Nestes estranhos dias, renasce o passado.

Veste-se de novidade ao vender a esperança

E confessa traição ao sonho mais sagrado

Que a Humanidade sonhou desde criança.


Ri-se a escumalha, ralé a antegozar vitória,

Predadores degradados, abutres, devorando 

Num banquete dos necrófagos da História,

A Vida e a Obra humanas, os reféns do bando.


Tristes tempos em que a ascese civilizatória,

Pela ação de milhões de heróis desconhecidos

De Sagrado Valor, com o tempo enriquecida,


É traída por gênios bufos da TV, sumo da escória.

Saibam, porém, tiranos: não seremos corrompidos,

Enquanto em nós houver Vontade e Memória!


domingo, 16 de fevereiro de 2025

Psicosfera do gaúcho

Nestes dias estou só. O gato e eu,

Como deserto, em jejum de gente.

Eu e o gato, sempre a ver em frente

As altas montanhas que pedi a Deus.


Tive, ao princípio, um estranhamento,

O descampado engendra desafios,

Ter-me em quietude trouxe um arrepio:

Como entreter-me só de pensamentos?


Então, eu percebi que existo em silêncio

Na psicosfera que exalo e me alimenta,

Lide, ideias, poesia e consciência.


E assim tem sido sempre, a sós comigo

Ao estar contigo, e ainda, em multidão,

Poeta eu sou, colho o maná da solidão.


sexta-feira, 27 de dezembro de 2024

A palavra e o silêncio

O som das palavras que se espalha no vento

Ressoa em tua mente a reger pensamentos.

Ou transbordante lava, ou harmonia fluente,

Procede do que vives, depende do que sentes.


Balbúrdia de mágoas a remoer-te por dentro,

Ou suave murmúrio dos mares do centro,

A voz de um amigo a voltar de outro tempo

Com notas de cítara, e sândalo em incenso.


No fluir das palavras é que te reconheces.

Deixa escoar o ruído, sem lhe opor resistência.

A impetuosa tormenta, ao fluir, adormece,

E no silêncio da mente adquires consciência. 


domingo, 15 de dezembro de 2024

quarta-feira, 11 de dezembro de 2024

Poema Obscuro

Esvoaça neblina, bruma intransparente,

Velando em branco as ruelas da cidade,

Feito um sonho a disfarçar a realidade,

Ou a desvelá-la como símbolo somente.


Névoa silente semelhante aos receios

De um poeta a versejar sem ser ouvido,

Ou um amor que ao ser tudo se faz nada,

Anjo, na jaula que lhe impõe o juízo alheio. 


Cerração que também compõe a vida

Encobrindo cada humano com mistérios,

Que mesmo o tempo não resolve na saída.


O Indecifrável é o senhor do imenso império

Onde falham o óbvio, o preciso, o evidente,

E o mais sábio não está livre de ser crente.



quinta-feira, 17 de outubro de 2024

A filosofia como torcida de futebol

Frequentemente, eu me pego refletindo sobre o fato de que algumas pessoas instruídas, especificamente nas áreas das humanidades, possam ser completamente cegas quanto aos dados da realidade, especificamente em termos de Política. Continuam bradando desgastados refrões, pregando ou a torcer por sistemas coletivistas que geraram totalitarismos e empestaram o século XX, levando a genocídios. 

Creio que a leitura, feita por pessoas menos céticas, tem os seus para-efeitos, como qualquer produto. Pessoas com fragilidades como idealismo e/ou emocionalidade exacerbados, encantam-se com a prosa bem feita e as filosofias, sonhando com “outros mundos possíveis”. 

Além disto, creio que ideologias e filosofias tem prazo de validade, como os medicamentos. Algo que podia ser um “novo mundo” já mostrou seus resultados desastrosos, destruindo Economias ontem, como continuam a fazer hoje. 

Ceticismo é um saudável antídoto ao fanatismo de qualquer tipo. Os tratados filosóficos, as teorias econômicas, e suas resultantes ideologias, devem ser revistos à luz dos resultados produzidos e da panóplia de informações críticas geradas a partir dos seus efeitos (incompetentes ou de sucesso, em oferecer liberdade e bem-estar). Mas as pessoas a quem me refiro, evitam estas leituras por se sentirem desafiadas quanto aos “ideais” que as dominam. As informações críticas das evidências reais são percebidas como manobras “dos outros”, ou seja, “o inferno” segundo o Sartre. Lembro-me do conflito entre este pensador, Sartre, e o prêmio Nobel de Literatura, Camus, quanto a criticar o regime soviético depois que ficaram evidenciados, provados, os crimes daquele regime. Sartre dizia que era crucial defender o Comunismo para que o “Mal”, que para ele incluía a “Direita” dos regimes liberais (ou capitalistas), fosse destruído. Camus negou-se a manter a farsa, e declarou no livro O Homem Revoltado:

“Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Os nossos criminosos já não são aqueles jovens desarmados que invocavam o amor como desculpa. Pelo contrário, são adultos, e o seu álibi é irrefutável: é a filosofia, que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes.”

George Orwell, ao rever a sua “fé socialista”, viveu uma verdadeira crise existencial e, a partir disto, isolou-se e escreveu 1984 e A Revolução dos Bichos, jóias do pensamento contemporâneo. Hannah Arendt, uma teórica socialista, que estava a escrever As Origens do Totalitarismo, inicialmente dedicada a analisar o Regime Nazista apenas, ao informar-se da realidade (escondida) do Comunismo, estruturou uma segunda parte, tão ampla como os capítulos iniciais, sobre o Totalitarismo Soviético, e posteriormente fez disto uma análise continuada, brilhante e profunda. Erich Fromm, não analisou apenas Hitler na sua obra Anatomia da Destrutividade Humana, mas também Stalin, considerando a ambos psicopatas desde a tenra infância.  Tantos outros teóricos e filósofos debruçaram-se sobre a realidade resultante do regime soviético, com seus expurgos, gulags e assassinatos em massa, de povos ou de inimigos políticos (segundo eles “os traidores do povo”). A Revolução Maoísta, com seus crimes em estádios de futebol, é outro vergonhoso capítulo da história humana, neste caso, ainda vigente.

A América Latina, incluindo seus professores universitários, está vivendo uma crise baseada em desinformação, idealismos já desfeitos pela realidade, leitura defasada e não atualizada. Lutam direita e esquerda, quando o liberalismo e a social-democracia deviam conviver em regimes verdadeiramente democráticos. Cita-se o coletivismo comunista como uma opção atualizada e válida, enquanto na Europa, a partir de 2019, tendo em conta as tragédias sociais e humanas vividas no Continente, o Comunismo tornou-se proibido, assim como o nazismo, nos países da União Europeia, esta comunidade de Economia Liberal e com fortes políticas sociais.

Sinceramente, o vício fundamental é tomar filosofia e ideologias como verdades, eventualmente num espírito fanático de torcedor de futebol. E não atualizar as críticas aos ideais que já fizeram tanto estrago, especialmente na Europa, mas também na América Latina. É preciso tratar destes temas por método indutivo, não dedutivo; ser o crítico, à maneira do genial Camus, a qualquer sistema cujos resultados de sucesso não sejam confirmados pela realidade.

Não tenho a mínima dúvida de que professores universitários brasileiros concordam de corpo e alma com o envolvimento do Brasil, na verdade, a associação do país, com regimes autoritários, herdeiros do totalitarismo, como Rússia e China, ou claramente totalitários, neste caso religiosos, como o Irã, em nome do que o criminoso Putin, num surto década de 80, denomina a criação de uma Nova Ordem Mundial. Nada nova, na verdade, o oposto: coisas da Novilíngua, segundo o Orwell.


sábado, 28 de setembro de 2024

O Direito à Proteção da Criança: Os Melhores Interesses da Criança e do Adolescente


O Menino é Pai do Homem

(Memórias Póstumas de Brás Cubas, Machado de Assis)

É preciso deixar amadurecer a Infância dentro de cada criança

(Emílio, Jean Jacques Rousseau)

Estamos na época da premeditação e do crime perfeito. Os nossos criminosos já não são aqueles jovens desarmados que invocavam o amor como desculpa. Pelo contrário, são adultos, e o seu álibi é irrefutável: é a filosofia, que pode servir para tudo, até para transformar os assassinos em juízes.

(O Homem Revoltado, Albert Camus


Os antigos Gregos e Romanos, com apoio de filósofos, admitiam a escravidão, o infanticídio e o abandono de crianças. Em todas as sociedades patriarcais arcaicas o pai tinha o direito de vida e morte sobre a prole, bem como o de vender seus filhos como escravos. Entre as práticas admitidas naquelas eras, incluía-se o abandono de um bebé à própria sorte nas estradas; caso o bebé sobrevivesse, poderia ser recolhido por um estranho e tornar-se escravo ou prostituir-se. As meninas, pelas questões financeiras familiares do dote, eram mais frequentemente abandonadas ou mortas. A criança era percebida sob a ótica de um estatuto deficitário, como uma entre outras “crias”, um ser “que não fala” (infans), portador de “imaturidade física” (1,2). Foi apenas a partir do Cristianismo que se reconheceu o dever de respeito universal ao Ser Humano em todas as fases de vida e a Igreja passou a estruturar sistemas de proteção aos mais fracos, aos doentes, às crianças abandonadas e aos órfãos. A partir do segundo século D.C. surgiu a condenação ao infanticídio e ao aborto, a imputação aos pais do dever de alimentar e criar os filhos e a possibilidade de acolhimento das crianças abandonadas nas Igrejas, além dos primeiros projetos de socorro a famílias indigentes (3,4). Ao longo da Idade Média surgiram as Casas de Assistência aos menores abandonados, os Orfanatos, que se espalharam pela Europa. A partir de então e na Idade Moderna, iniciativas privadas, dos governos dos burgos, ou das monarquias, foram gradativamente assumindo a tarefa de assistência aos menores abandonados, que passaram a receber, além de alimentação, formação em ofícios até se tornarem independentes. Com a Revolução Francesa, a assistência à criança abandonada tornou-se Serviço Público obrigatório, sendo implementadas políticas de adoção por famílias voluntárias. No século XIX, além dos menores abandonados, a proteção estendeu-se aos filhos de pais hospitalizados ou presidiários (5).

O conceito de Proteção da Infância, porém, é extremamente recente nesta imensa espiral civilizacional. No século XVIII, surgiu a preocupação com o bem-estar e a saúde especificamente das crianças. No fim do século XIX, a França criou as leis de Proteção Judicial da Infância Maltratada visando protegê-la dos abusos familiares e tornando possível a retirada judicial do Pátrio Poder (1, 5). O termo Princípio dos Melhores Interesses da Criança e do Adolescente (PMICA) foi utilizado pela primeira vez em 1924 na Declaração dos Direitos da Criança de Genebra (DDCG), baseando-se na doutrina Inglesa criada no século XIII para proteger os mentalmente incapazes e que definia “a autoridade herdada pelo Estado para atuar como guardião de um indivíduo com uma limitação jurídica” (6). Posteriormente, outros documentos internacionais foram desenvolvidos. A Organização das Nações Unidas (ONU) definiu em 1948 que as crianças têm direito a cuidados e assistência especiais, proclamou a Declaração dos Direitos da Criança em 1959 e a Convenção sobre os Direitos da Criança e do Adolescente em 1989. Neste último documento, foram explicitados os direitos relativos aos melhores interesses da criança e do adolescente, afirmando-se que todas as ações relativas à criança, sejam elas levadas a efeito por instituições públicas ou privadas, tribunais, autoridades administrativas ou órgãos legislativos, devem considerar primordialmente os melhores interesses da criança (7). Considerar os melhores interesses de uma criança significa avaliar e equilibrar todos os elementos necessários num processo decisório específico quanto a uma criança priorizando os valores de não-discriminação, direito à vida, à sobrevivência e ao desenvolvimento saudável da criança.

Lentamente, a Infância e suas complexas especificidades tornaram-se devidamente reconhecidas e legalmente respeitadas (8). Chama a atenção, contudo, que este imenso e lento esforço coletivo de defesa e valorização da criança que partiu do infanticídio e do abandono ancestrais até atingir o reconhecimento dos direitos específicos dos menores, independente de suas condições e características, tenha sido claramente violado quando voltou a vigorar em países considerados desenvolvidos o estatuto deficitário da Criança previamente descrito para justificar o infanticídio. Conforme um artigo publicado em renomada revista de Ética Médica (9) as crianças pequenas não têm idêntico “status moral” de “verdadeiras pessoas”, sendo irrelevante o fato de que sejam “pessoas em potencial”, considerando mesmo que a adoção nem sempre é do melhor interesse das “pessoas reais”. Estes conceitos e a reintrodução da prática do infanticídio representa um retrocesso ético-legal de milênios. O valor do respeito específico à vida humana é um elemento chave da estrutura da Civilização, podendo por isto simbolicamente ser interpretado como sagrado ou numinoso, independente de religiões, não devendo ser relegado ao plano de lixo cultural. Especialmente, a vida do mais frágil entre os humanos, a Criança, merece o respeito absoluto.

2. Dilemas Éticos em Unidade de Cuidados Intensivos Pediátricos (UCIP)

Retratando a lentidão do processo histórico relativo ao reconhecimento das particularidades da Infância em termos de cuidados de Saúde, a Puericultura e a Pediatria surgiram somente a partir do século XVIII, assim como os dispensários de Saúde Infantil. Desde então, um estupendo acréscimo de conhecimento e tecnologia foi obtido, reduzindo drasticamente a Mortalidade infantil e assim aumentando a sobrevivência de pacientes crônicos com necessidade de cuidados de saúde especiais (NCE), incluindo quadros clínicos complexos e mesmo doenças críticas crônicas. Assim, os pacientes sobreviventes de situações de prematuridade extrema, doenças genético-metabólicas, doenças oncológicas, encefalopatias e pneumopatias crônicas acabam necessitando de cuidados realizados em UCIP. A imensa maioria dos pacientes necessita cuidados intensivos apenas por ocasião do diagnóstico de uma enfermidade que, após, torna-se crônica (10). Uma pequena parcela dos utentes com NCE apresenta quadros clínicos complexos associados, por exemplo, à imunossupressão pós-transplante, e relevantes limitações funcionais, com necessidade de equipamentos tais como sondas de gastrostomia ou emprego de nutrição parenteral domiciliária, bem como atendimento por equipes multiprofissionais. Nesses casos, podem ser necessárias internações em UCIP para tratamento de intercorrências clínicas ou cuidados pós-operatórios planejados. Dentro deste grupo, um subgrupo ainda menor de pacientes apresenta doenças críticas crônicas, necessitando internações prolongadas em UCIP, atendimento em ambiente de cuidados agudos, dependência continuada de tecnologia, ou disfunção multiorgânica persistente (11-13). Numa UCIP, que lida com esta gama de complexidades, são raras as situações em que não há incerteza e dilemas éticos em relação a condutas, desfechos terapêuticos e, como consequência, juízos prognósticos. Estes juízos prognósticos, quase sempre incertos, compõem a discussão dos profissionais entre si e com os pacientes e seus familiares sobre opções de tratamento, dentro do processo de tomada compartilhada de decisões. A incerteza, neste contexto, gera desconforto, conflitos individual e interpessoal, sentimentos de impotência em médicos e demais profissionais de Saúde (14). A abordagem destas situações de incerteza exige, além da discussão dos dados clínicos, o esclarecimento das questões éticas, morais e legais envolvidas (15). Além das inevitáveis situações de incerteza e dilemas éticos do dia-a-dia de qualquer UCIP, envolvendo desafios relacionais da tríade paciente-família-equipa, há outras experiências mais complexas e profundas que envolvem “sofrimento moral”, ou em outras palavras, “constrangimento ético”. O sofrimento moral surge quando alguém se sente pessoalmente constrangido a agir de um modo discordante em relação a algo que esta pessoa reconhece como o certo. Há sofrimento moral quando o profissional em contato direto com o paciente e seus familiares, em situações de fim de vida ou abstenção/renúncia aos cuidados vitais, vê-se constrangido a agir ou mesmo a aconselhar em dissonância com os seus próprios valores. Diferentemente dos dilemas éticos, é esta gama específica de constrangimento que mais pode deteriorar a qualidade do atendimento, e mesmo levar o profissional a abandonar a atividade (burnout). O sofrimento moral envolve a incerteza pessoal sobre a correção ética das condutas em que se está envolvido(a) sem ser possível contar com o apoio da equipa ou da instituição onde se atua (14). O adequado manejo desta situação, contudo, pode minimizar os efeitos negativos, reforçar a capacidade de apoio coletivo na equipa e favorecer o crescimento individual de todos os membros. Os achados de um estudo em UCI neonatal realizado por Lantos et al. (16) sugeriram que a confrontação ética pode não ser de todo má. Os profissionais com menor literacia quanto aos desfechos da prematuridade extrema apresentavam menor incidência de sofrimento moral, pois subestimavam a possibilidade de bons desfechos nesta situação. Suas avaliações incorretas os levavam a não oferecer manobras de ressuscitação a bebés com possíveis bons prognósticos. Como agiam de acordo com as práticas mais prevalentes em suas instituições, sentiam-se confortados, justificados, e não sofriam moralmente. Curiosamente, apesar dos desafios associados ao sofrimento moral, quase 80% dos profissionais de saúde sentem que a confrontação ética é um elemento fundamental do cuidado dos doentes como prova de um atendimento qualificado e compassivo, que investe no bem-estar do paciente. A luta interna e a angústia que dela deriva são percebidas como um desafio necessário ao reconhecimento dos próprios preconceitos no diálogo com as famílias. A adequada integração deste processo pelo profissional passa a ser fundamental no diálogo com os pais podendo não só impactar as decisões tomadas como também evitar que a angústia contamine familiares e colegas da equipa (17). Sem o desafio de opiniões divergentes, a adequação ética, moral e médica de uma decisão não é adequadamente escrutinada (16). As discussões que emergem do sofrimento moral promovem a exploração de múltiplos cursos de ação e incentivam a decisão mais informada possível. Contudo, a concordância da equipa e da família quanto ao curso de um tratamento devem sempre visar os melhores interesses da criança.

Uma questão essencial no atendimento do paciente em UCIP, visando reduzir a angústia da família e da equipa, é a prevenção e alívio dos sintomas do paciente, os quais se agravam nas situações de fim iminente de vida, a fase agônica. A redução do sofrimento do paciente abranda o sofrimento familiar e os conflitos individuais e interpessoais da equipa. Para tanto, os membros da equipa devem estar idealmente preparados para reduzir o sofrimento sem induzir a morte. Diversos estudos sobre uso de opióides nas situações de fim de vida demonstraram que com o uso correto destes medicamentos não há necessidade de recorrer a justificativas do tipo “duplo-efeito” pois o seu emprego, ao reduzir a dor, dispneia e privação crônica do sono na verdade parecem contribuir para o prolongamento vida (18).

3. A tríade paciente-família-equipa: decisão compartilhada

A decisão compartilhada é um processo interativo da tríade paciente-família-equipa de uma UCIP, visando a integração de todos os envolvidos nas diferentes fases do processo terapêutico (19). O objetivo não é repassar a responsabilidade das decisões técnicas aos familiares e ao paciente, mas sim esclarecê-los quanto a aspetos clínicos, necessidades de diagnóstico, planeamento terapêutico e predição de prognóstico. As opções familiares quanto ao manejo do quadro clínico são respeitadas enquanto visem os melhores interesses da criança e do adolescente. É crucial que os pais ou responsáveis legais recebam toda informação relevante sobre as condições da criança, as possíveis alternativas terapêuticas, os recursos disponíveis levando em conta as possibilidades de sucesso do tratamento. Em situações de fim de vida, e reconhecendo-se a ineficácia fisiológica das medidas de suporte vital, dentro de um ambiente de decisão compartilhada os pais podem optar pela renúncia destas medidas, devendo a equipe garantir a eles a manutenção dos cuidados de conforto, analgesia e mesmo sedação paliativa (18, 20-22). A participação da equipa não deve ser passiva, mas sim focada nos melhores interesses da criança e no Princípio de precaução (harm principle). Não basta aos profissionais informar, pois a eles cabe o dever de orientar sobre o curso mais adequado a seguir, visando desenvolver um processo decisório compartilhado na busca de consenso. Se um consenso é impossível, uma situação bastante rara, a decisão dos pais será acatada caso ela não seja prejudicial ao paciente. A depender da discordância entre médicos e família, deve ser solicitada a ação dos órgãos da Justiça dentro do Princípio de precaução (23). Quando apropriadamente conduzido, o processo de decisão compartilhada incorpora as pessoas envolvidas em diálogo, dando suporte ao melhor tratamento possível. Em situações de emergência e quadros críticos, sendo impossível uma decisão compartilhada a tempo, prevalece o manejo clínico ideal característico do dever médico (15).

Entre as dificuldades das decisões compartilhadas, observou-se que julgamentos de valor a priori podem prejudicar e mesmo inviabilizar a qualidade das decisões. Numa ampla análise sobre os Estudos de “Qualidade de Vida Auto-Reportada” (HRQL), desenvolvidos para substituir os escores de Qualidade de Vida (QoL) atualmente considerados pouco objetivos por se basearem demasiadamente em julgamentos de valor (24), observou-se que pais e médicos percebem de um modo pior as consequências da descapacitação de uma criança ou adolescente do que os próprios pacientes. A pontuação da HRQL pelos próprios pacientes com descapacitaçãos é muito maior em comparação com a análise dos pais (25, 26), mas a avaliação dos profissionais, especialmente médicos, é a pior de todas. Enquanto os profissionais referem-se ao paciente enfermo como um peso para a família, os familiares tendem a ver a descapacitação dos filhos como parte de sua vida e o filho como fonte de alegrias. Os profissionais especulam sobre a existência de dilemas morais dos pais para reduzir o tempo de vida dos pacientes, enquanto os pais desejam prolongar ao máximo a vida dos filhos e referem que fariam qualquer coisa para garantir seu bem-estar (27). É fundamental que as equipas de UCIP percebam que, apesar de todas as dificuldades relacionadas a doença e descapacitação, uma piora clínica do paciente longe de antecipar algum tipo de alívio para a família, representa isto sim um acréscimo de sofrimento pelo risco de morte, sendo fundamental o atendimento multiprofissional centrado, neste caso, nos familiares. Não há expectativas quanto à liberação de um “peso”, mas o luto antecipado por uma perda irreparável (28, 29).

Em algumas situações relativamente infrequentes, famílias e cuidadores disfuncionais, além de não visarem os melhores interesses da criança e do adolescente podem agir em prejuízo destes últimos, e mesmo serem os responsáveis pelo quadro clínico dos menores, ou por seu agravamento. É fundamental identificar disfunção familiar, dissensão do casal, distúrbios emocionais e comportamentais de algum dos pais, ou de ambos, viéses culturais e ideológicos prejudiciais à saúde da criança, para decidir quem defende os melhores interesses de um paciente pediátrico em UCIP, agudamente ou cronicamente enfermo (15). Caso haja suspeita ou evidência de abuso, violência ou negligência, a equipa deve atuar segundo seus deveres legais para proteção do menor.

4. Atendimento e acompanhamento do paciente crônico

Os pacientes crônicos internados em UCIP representam um grupo com necessidades e desafios diferenciados em comparação a outros internados sem enfermidades pré-existentes. Reconhecer as especificidades de cada grupo de doença crônica, as necessidades ampliadas de medicação, as anormalidades anatómicas ou fisiológicas, bem como o grau de descapacitação é crucial. A disfunção orgânica específica da enfermidade crônica requer a algoritmos modificados de tratamento e o défice neurológico prejudica a comunicação de sintomas pelo paciente. Alterações anatómicas podem dificultar procedimentos necessários. Além disto, o objetivo almejado do tratamento deixa de ser curar ou atingir o normal, mas sim a restauração ou manutenção da saúde em níveis razoáveis de viabilidade e qualidade. O atendimento destes pacientes especiais deve ser multiprofissional, envolvendo Cuidados Paliativos, Serviço Social, Ética Médica e competentes profissionais de UCIP.

Os médicos da UCIP que atendem pacientes crônicos podem tornar-se os principais provedores de apoio continuado às famílias, aos médicos especialistas e aos profissionais de cuidados ambulatoriais (30). Por outro lado, o desenvolvimento de programas visando a continuidade do atendimento após a alta hospitalar pode envolver profissionais não-intensivistas de subespecialidades, Enfermagem, Cuidados Paliativos e Pediatria geral (31). Os pacientes crônicos com quadros críticos necessitarão cuidados específicos domiciliários com suporte do Sistema de Saúde. A Telemedicina e as parcerias com profissionais de Cuidados Primários, e de serviços de Emergência, existentes na comunidade a que pertence a família do paciente podem tornar-se instrumentos valiosos para melhorar o atendimento dos pacientes, apoiar esta família e reduzir a frequência de internações.

Filme recomendado:

https://www.youtube.com/watch?v=6QYm1PrXCck 


REFERÊNCIAS

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2. Gomes-Pedro, João. Os superiores interesses da criança. In: Videira-Amaral JM (ed). Tratado de Clínica Pediátrica. 2a edição (volume 1). Abbot Lab. Ltda; 2010. Pp.17-23.

3. Stark, Rodney. The Rise of Christianity. A Sociologist Reconsiders History. Princeton University Press: 1996. ISBN;978-0691027494

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7. Alcântara Mendes JA, Ormerod T. O Princípio dos Melhores Interesses da Criança: uma revisão integrativa de literatura em Inglês e Português. Psicol Estud. 2019;24:e45021. Doi: 10.4025/psicolestud.v24i0.45021

8. Lett D, Robin I, Rollet Belin C. Faire l’Histoire des enfants au début du XXIE siècle: de l’Enfance aux enfants. Ann Demogr Hist. 2015;1(129):231-276. Doi: 10.3917/adh.129.0231.

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29. Steele RG. Trajectory of certain death at an unknown time: children with neurodegenerative life-threatening illnesses. Can J Nurs Res. 2000;32:49–67. PMID: 11928133.

30. Marcus KL, Henderson CM, Boss RD. Chronic critical illness in infants and children: a speculative synthesis on adapting ICU care to meet the needs of long-stay patients. Pediatr Crit Care Med. 2016;17:743–752. Doi: 10.1097/PCC.0000000000000792)

31. Glader L, Plews-Ogan J, Agrawal R. Children with medical complexity: creating a framework for care based on the International Classification of Functioning, Disability and Health. Dev Med Child Neurol. 2016;58:1116–23. Doi: 10.1111/dmcn.13201.


quinta-feira, 26 de setembro de 2024

As maçãs de Alcobaça saudosas de Maria Rosa

 Há muito tempo, quando minha avó Maria Rosa e eu trocávamos ideias, sempre que o tema era “maçãs”, o comentário da orgulhosa portuguesa era “…mas as maçãs de Alcobaça…” Dizia-me  isto movendo a cabeça e as mãos, num gesto que significava “aquelas, sim, são maçãs!” Só depois de morar em Portugal conhecemos Alcobaça, suas frutas e pastelarias famosas. Pois ontem, ao comprar maçãs, comparei as que via e decidi, em homenagem à dona Maria Rosa Januário dos Santos, e pela cor belíssima, comprar as de Alcobaça. 

Já em casa provei algumas delas e…não pude deixar de pensar: “Ah, sim! As maçãs de Alcobaça…”


domingo, 15 de setembro de 2024

ginástica contemporânea

Na casa vazia, 

Minhas vozes

Dialogam

No silêncio:

Falo comigo, 

Debato,

Rebato ideias,

Revejo fatos,

Retomo livros,

E raciocínios

Que ouvi 

Ou pensei,

Ou absorvi

 Vendo TV.


Como ginástica,

Nadar mil metros,

Uso o que é, ou sou,

Para encontrar 

O fio da meada:

Saber o que sou, ou é,

Sem pensar nada.


domingo, 8 de setembro de 2024

Renascimento

Acordo e, aos poucos. dou-me conta

Do quarto em penumbras na manhã,  

Do corpo quieto, renascido, indolor,

Da noite rica em sonhos que passou.


Abro a janela e encontro vale imenso

A relembrar paisagens de Leonardo.

Outra janela, revejo a serra esplêndida

A colorir-me a alma em tons de Outono.


Deixei distante o que me era o avesso

E que, cego, eu pensava ser eu mesmo.

Hoje eu renasço o Eu que reconheço. 


Planos não traço, mágoas eu esqueço,

Nesta manhã, instante que não tarda.

Doa-me a vida o seu dom de recomeço.


domingo, 11 de agosto de 2024

as ilusões e seus medos

Há quem viva a entronizar a beleza,

Dividindo o humano em lindo e feio,

E a sofrer pânico diante dos espelhos.

Há os que inventam castelos de riqueza,

A delirar sobre bens que não possuem,

Pelo horror de perder a audiência.

Outros, cindem crentes e descrentes,

Esquerda e direita, heróis e fascistas.

Matam o mundo por pavor proselitista.


Enquanto a vida segue em sua Ciência:

Linda e feia, certa e errada, 

Nem mais alta, nem mais baixa, no seu meio, 

Humana, autêntica, rica e pobre, 

Íntegra e destemida

Por si mesma encantada.


E, quase sempre, despercebida.


 

 

segunda-feira, 5 de agosto de 2024

Nós sabemos!

Nós lembramos: nós sabemos.

Não há mentira sistemática,

Narrativa estratégica,

Recriação da História,

Ou Doutrina ideológica,

Que nos apague a Memória.

Nós lembramos: nós sabemos!




sábado, 3 de agosto de 2024

Reaprendendo com a Inteligência Artificial

 Encantado, aqui, com o emprego da tecnologia de Inteligência Artificial para a reaprendizagem auditiva pós-implante coclear. E com a minha Poesia.

Trata-se de um sítio web, no qual estou incluindo os meus poemas e ouvindo-os recitados por uma voz biônica para treinar o aprimoramento da audição... 

Tecnologia para o Bem da Humanidade nesses novos tempos!

Eu me dou conta de quem são os "justos" na barafunda ideológica destes tempos. São as pessoas, grupos e povos que usam os seus talentos, conhecimentos e descobertas para o melhor da Humanidade.

E, quanto à Poesia, quando eu iria imaginar que os meus versos iam-me ajudar a recuperar a minha própria audição? Isto é incrível... às vezes eu me perguntava: para que serve eu escrever poemas? Pois aí está...


Neste momento, "estudando", com grande prazer, os sons e as ideias do meu poema "Silenciosa essência":


Quem reconhece o que é despercebido

Por ser tão pleno em tudo e sempre,

Qual o respirar, o tato, os sentidos,

O pensamento fluindo em nossa mente?


Só percebemos o que vem e vai,

O quê, no tempo, surge, se apresenta

E que, ao fazê-lo, nosso olhar atrai,

E a mente sonda, filtra, fragmenta.


O Essencial é irmão do Inexistente

E só o poeta, o louco ou o crente

Sabem chegar a perceber o que É,


Porque, no fundo, silenciosamente,

A vida segue imensa e inconsciente

Feito um bater de coração, ou a Fé.

domingo, 7 de julho de 2024

Allons, enfants…

A política francesa me parece demodée. Uma senhora que já em 1968 era uma balzaquiana com historial psiquiátrico de momentos de loucura libertária, pacifismo colaboracionista com as invasões nazistas, seu colaboracionismo declarado posterior com Hitler, seus namoros com os totalitarismos soviético e chinês. Lembro de um intelectual chinês que viveu os maiores sofrimentos durante a Revolução Cultural maoísta, conseguiu sobreviver a uma execução em praça pública, fugir para a França e, ao contar a seus colegas, as torturas que viveu, ficou pasmo de ouvir dos intelectuais franceses que ele não sabia o que dizia! Pegou um avião para os Estados Unidos, como fizeram tantos intelectuais e cientistas judeus que haviam buscado a França nos tristes tempos da Segunda Grande Guerra.

Pois esta senhora idosa continua fazendo suas ladainhas para o mundo sobre um “outro mundo possível”, mesmo com sua extrema-direita perigosa, sua extrema esquerda dada a vandalismos e violência, seu colaboracionismo agora com terroristas islâmicos, creio que mais uma vez seu (incurável)  anti-semitismo…

Esta senhora rica com empregados estrangeiros pobres, com sei lá quantas cirurgias plásticas, quantos milhões de abortos anti-conceptivos, vai para a rua com uns bandos de jovens aos berros, com seus clichês, sua tentativa ridícula de “salvar o mundo”, apesar das  greves sucessivas em que vivem, e as multidões de “imigrantes” atirados nas ruas…

E hoje, vemos estes vergonhosos momentos de tensão de algum conflito com cara de guerra-civil por causa de ideologias defuntas. Por um conflito insolúvel que ela mesma inventou para classificar as pessoas durante a Revolução Francesa: esquerda versus direita. O oposto da convivência civil respeitosa das diferenças, tão desejada pela União Europeia. 

Acho que tudo representa um idealismo feito de futilidade e arrogância pseudo-intelectual. E, como a madame é endinheirada, talvez falta do que fazer.

Eu me pergunto como os trabalhadores franceses lúcidos e esclarecidos conseguem ter algum instante de tranquilidade?

sexta-feira, 5 de julho de 2024

Gracias a la vida

Sabe quando a vida te concede um presente? Neste 5 de julho de 2024, estou relendo um artigo produzido por colegas investigadores chineses, intitulado "Inhibition of Notch3/Hey1 ameliorates peribiliary hypoxia by preventing hypertrophic hepatic arteriopathy in biliary atresia progression", publicado em março de 2024. 

Neste estudo, os pesquisadores chineses confirmam tudo, ponto a ponto, que temos observado e descrito em relação à presença e caracterização de um distúrbio vascular na atresia biliar. E vão além, identificando um possível método de terapêutica molecular desta arteriopatia que, para nós, é evidente desde 2005.

Ontem, li dois outros artigos que comprovam os mecanismos envolvidos nesta arteriopatia, incluindo mutações em genes específicos e apenas agora identificados, e os efeitos da hipóxia sobre o programa fetal de resposta à hipóxia.

Isto me traz aquela sensação deliciosa de que os sonhos que tive quando jovem sobre o que queria fazer nesta vida, pelo menos em parte, se cumpriram.

Gracias a la vida que me ha dado tanto...

quinta-feira, 4 de julho de 2024

Uma foto estranha


 Uma foto estranha da avenida Europa, onde moramos, numa pequena cidade universitária quase na fronteira com Espanha chamada Covilhã (do Latim, Cava Iuliana), nas encostas da belíssima Serra da Estrela (os Montes Hermínios, para os antigos romanos).

O que é estranhável na foto? Em primeiro lugar, a fiação urbana totalmente no subsolo. Para quê? Nestes 9 anos em que moramos aqui, houve apenas uns dois instantes de falta de luz, que duraram segundos. Além da fiação subterrânea, onde há fios e árvores a poda da vegetação é intensiva, impossibilitando o drama da falta de luz durante ventanias.

O que além disso pode-se estranhar é a quantidade de obras na nossa pequena Covilhã: novos grandes hoteis, novo shopping center desta vez aberto, contando com FNAC, Primark e o cobiçado super(!)mercado espanhol Mercadona (que eu adoro), e outros empreendimentos para citar apenas a nossa avenida. Além dos demais shoppings, hoteis e supermercados internacionais e portugueses pelas redondezas. Eu confesso que fico impressionado. 

A verdade é que nestes últimos anos a Covilhã, e todo Portugal, recebe uma quantidade imensa de novos moradores, sejam europeus (principalmente ingleses, alemães, franceses, e refugiados ucranianos, entre outros), latino-americanos (brasileiros como nós, argentinos, venezuelanos), asiáticos (uma imensa imigração de indianos). Os indianos vêm também com seus investimentos: uma cobiçada indústria de diamantes sintéticos. 

Além dos milhares de alunos universitários de todo Portugal e outros países que enchem as ruas da Covilhã com um agito juvenil. 

E eu rio que, no meio disto tudo, a Covilhã mantém as marcas de cidade pequena. Quando vou ao Serra Shopping, comprar alimentos no Supermercado Continente, de bermuda, camiseta e tênis, como hoje, no elevador percebo os olhares de um grupo de jovens, sorrindo entre si, olhando-me e cochichando: “olhem, é o nosso professor”…o que não deixa de ser delicioso, ao significar que “eu existo, eu faço parte, e eu compartilho o meu melhor” (sentimento que faz falta nas grandes metrópoles).


segunda-feira, 1 de julho de 2024

Revendo a vida

Há algumas coisas que apenas ao morar na península ibérica eu fui perceber concretamente. Fatos que talvez, pelo menos para mim, pareciam fruto da imaginação de poetas e pintores, e que se mostraram reais na sua beleza. Um deles são as papoulas nos campos, que os franceses chamam de coqlicot, crista de galo, e milhares de outras florezinhas silvestres, bordando os caminhos. Eu admirava as pinturas de Monet e me dizia: ele escolheu algum lugar especial para pintar esta beleza, com pontilhados de vermelho alaranjado e verdes. Ou era parte da sua imaginação artística. Pois são assim os campos destas nossas regiões na primavera e verão: mares de papoulas sobre os campos verdes. 

O mesmo são as incontáveis cegonhas, com suas famílias, a cuidar seus bebês: estão espalhadas pelos caminhos e cidades, com seus enormes ninhos feitos nas copas das árvores mais altas, nas torres das igrejas e castelos, e mesmo em postes. São milhares e, já na aurora, saem de seu conforto para buscar alimento para os filhotes. 

Outra experiência que me revelou o sentido do dito popular “uma andorinha só não faz verão” é admirar esta imensa revoada de andorinhas, quando o clima aquece. Milhares, dançando pelo céu, como a festejar a luz do sol nas manhãs e ao entardecer…”las golondrinas” amadas.

Sou muito sensível a esta festa maravilhosa de cores, seres e sensações. Graças a Deus. 

Linda península Ibérica que me revela encantos que eu desconhecia na vida e me possibilita rever o que eu sei dela.

domingo, 16 de junho de 2024

Ninhos da vida

 Há Inteligência no Universo

E por havê-la,

O Espaço será caminho, 

O Tempo, memória.

Tempo e espaço, realidade

E História.


Há Inteligência no Universo

E por havê-la 

Há de haver um lar 

A circum-navegar

A cada estrela.

sábado, 15 de junho de 2024

A Cultura nacional brasileira (ou "Por que não temos sequer um prêmio Nobel?)

O Rio de Janeiro adora glamourizar a miséria e o crime. Como disse o carnavalesco Joãozinho Trinta, “quem gosta de pobreza é intelectual". E Dona Zica, esposa do grande músico Cartola, quando perguntada se amava a vida na favela Mangueira, respondeu furiosa: "se eu tivesse condições, saía hoje mesmo deste inferno". Na verdade, quem ama a miséria são os músicos populares, os estudantes das ciências humanas, os poetas apreciadores de um bom malt whisky, ou de alguma droga (segundo eles "porque ninguém é de ferro"). Esta cultura, aparentemente liberal, na realidade, uma selvageria, fez com que o tráfico de drogas se instalasse em algumas das regiões mais lindas e miseráveis do Brasil, em nome da "Liberdade" levando ao caos a Segurança Pública de algumas partes do país. Com o apoio charmoso de uma dúzia de artistas populares ricos e famosos. Uma epidemia que até hoje mata e alucina. A moda agora é o alucinógeno ("natural") amazónico ayauhuasca, o qual tem posto muita gente no manicómio ou no crime (vide o filme chileno “Antares da Luz”)

Tenho assistido, não sem desgosto e náusea, um ou outro episódio, de uma série brasileira, criada pelo grupo "Conspiração Filmes", de tão sugestivo nome. Chama-se Dom (de 2021), cujo texto foi escrito pelo roqueiro pró-liberação das drogas Tony Bellotto, membro da alta classe média paulista, conhecido por formar a banda Titãs e ter-se casado com Giulia Gam e a lindíssima Malu Mader. Eita, biografia! 

O texto, que seria "baseado em fatos reais" é, na verdade, uma livre recriação sobre notícias da imprensa relacionadas à tragédia vivencial de um jovem carioca, Pedro Dom, e a sua desestruturada família de classe média no Rio de Janeiro. A história é a de tantos garotos e garotas que desde cedo tornam-se drogaditos, escalando da cannabis para outras porcarias, e tornando-se lixo humano. Mas a história real do Dom, mais que isto, é o apogeu da criminalidade, envolvendo grupos que invadiam residências na cidade do Rio, portando armas pesadas e granadas, com as quais faziam reféns às famílias, incluindo bebés e crianças. Em alguma destas situações o enlouquecido Pedro Dom, colocou uma granada junto à cabeça de um bebê diante de sua desesperada família ameaçando explodir a criança. Para roubar o que havia de valioso na residência. Parece filme de terror americano, um alien do crime, mas é apenas a realidade brasileira. 

Pois é este criminoso que o filme, apesar de mostrar a desgraçada vida em que se meteu (tão longe dos confortos e satisfações burgueses), tenta "humanizar". Entre um crime bárbaro e outro, o jovem e "ítalo-bonitão" criminoso, chorando, se queixa: "eu erro, mas quem não erra?". Imagine meia dúzia destas "vítimas do sistema" cometendo "erros humanos" na nossa vizinhança e pondo em risco as nossas crianças e pessoas amadas. 

E há acusações veladas no filme, tiradas sei lá de onde, relacionando o Exército Brasileiro e as igrejas evangélicas, nas décadas de 70 e 80, com ações criminosas na Amazónia. A recriação ideológica da realidade a destrutir reputações. Já conhecemos bem...

Ou seja, a série tem o texto criado pelo roqueiro Bellotto, foi produzida pela Conspiração Filmes, e tenta mostrar o lado humano de um dos criminosos mais cruéis que infernizou a vida dos trabalhadores brasileiros, e impunemente. Enfim, mais um "samba do crioulo doido" como dizia o genial Stanislaw Ponte Preta, num deboche sobre a cultura carnavalesca. 

Com laivos culturais de um governo que financia este tipo de produção.

Eu fico pasmo! 

segunda-feira, 3 de junho de 2024

A rede

De onde surgem os laços

Que sendo invisíveis fios

Atraem desconhecidos

A formar duplas, trios,

De tão diversos genomas?


Alguma matéria obscura

A tecer rede entre (os) nós,

Que no passado distante

Entrelaçou nossos avós

E como o fluxo dos rios

Leva os seres humanos


Ao mar

A amar



O Fim

 O fim diverge de um para outro.

Tudo o que foi o viajante, tudo o que fez

Vige nele sempre vivo,

Pesa ou sem peso o eleva.


Pode ser o viajante

O miserável da mais triste estrada,

Ou o rico comerciante endinheirado.

Ou o gênio afamado, ou outro mal-amado,

Qualquer um pode ser,


O que foi feliz com o que teve ou teria,

O que sofreu o que podia e não podia,


O fim se revela

No que fez do que havia.

 


sábado, 1 de junho de 2024

A tragédia das enchentes de Maio de 2024

 Se houver alguma seriedade nas intenções e propostas dos atuais governantes federais, estaduais e municipais, a reconstrução do magnífico Estado do Rio Grande do Sul, deveria constar de um projeto de planejamento a longo prazo que envolvesse eficaz prevenção continuada e adequado manejo das calamidades meteorológicas que recorrentemente afetam esta região de transição climática: cumprimento estrito de regras ambientais e urbanísticas, de recuperação e manutenção sistemática das barragens, rede de drenagem e esgoto nas cidades, drenagem da rede fluvial, estruturação de programas de prevenção de desfechos fatais e de atendimento em regime de urgência no caso de enchentes e deslizamentos. E os votos dos gaúchos deveriam ter em vista o cumprimento destes projetos.

Sinceramente, pelo que vi, nada funcionou: nem os muros de contenção, os quais permitiram o vazamento do Guaíba para o centro de Porto Alegre, o sistema de esgoto que se mostrou inútil, ou mesmo prejudicial. No Estado, o espanto com os resultados da construção urbana na beira de rios em vales estreitos, entre outras questões...

O que se viu foi um governo federal desajeitado, retardatário na ação (apesar da conhecida demagogia do discurso), tentando fazer (uma vergonhosa) propaganda para a imprensa nacional e internacional. Um desrespeito à inteligência aos gaúchos. A Marinha que chegou ao estado uma semana após o morticínio de centenas de pessoas. Exército pífio (o que é uma má novidade)... E governos estadual e municipal totalmente despreparados para a dimensão de qualquer tragédia. 

A grande, espetacular realidade da capacidade de superação e apoio entre gaúchos e demais brasileiros foi consoladora e de uma nobreza rara, incluindo o resgate e adoção de animais, e incontáveis doaçôes. Quem salvou os gaúchos foi o povo do Rio Grande e do Brasil. Isto é inegável.

A partir desta calamidade, tudo em termos de Engenharia, Urbanismo, Logística na prevenção e manejo de enchentes e deslizamentos deveria alterar-se! 

Mas conhecendo os que governam este país, o foco deve estar nas próximas eleições, na destruição da reputação dos inimigos "fascistas" (sic). E no reforço das relações com Venezuela, Cuba, Irã, Rússia e Hamas...

sexta-feira, 31 de maio de 2024

Ser médico

Por algum motivo, acordei pensando sobre os meus inícios na Medicina. Quando mais garoto, trazia um forte viés filosófico, artístico e religioso. Mas dei-me conta, logo ao entrar no Curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que o que eu viveria a partir daí, pelos próximos seis anos, era um verdadeiro "processo iniciático", não numa ideologia, mas nos processos de descoberta da mais dura realidade da vida. Muito difícil, intenso, profundo. Algo que seria em português do Brasil: "ou vai, ou racha". Pois resolvi seguir.
Eu era um aluno esforçado, desde que me conheço por gente. Mas nunca o "certinho" das turmas. Sabia confraternizar, falar nas aulas, fazer festa. E, confesso, que dava "cola" aos colegas. Por espírito de rebeldia e diversão. Pois, ao iniciar a Medicina, jurei a mim mesmo nunca mais fazer isso. Porque Medicina trata da vida humana, e todo o conhecimento, nas cadeiras básicas, ou depois nas clínicas, era meu novo "Sagrado".

A Escola de Medicina é um processo de Iniciação, refleti novamente hoje pela manhã.

 Por outro lado, tive, não sem sofrimento, de deixar os meus livros de filosofia, ciências gerais, e outros de Literatura na estante. E os meus pincéis, meus papéis e telas. Não havia espaço... Eu, que era um aluno "de primeira" nos anos de formação primária e secundária, sofri os reveses de tirar notas, não diria baixas, mas "na média". Sentia-me envergonhado e despendia enorme esforço para conseguir abarcar os assuntos e as complexidades da formação médica. Buscava estudar nos livros, diretamente, e não em "anotações de colegas" que circulavam na turma. Jurei que eu estudaria nos livros, mesmo que as notas não fossem as melhores pelo volume de material. E lá ficavam os prazeres das artes da juventude.

A Medicina é um cônjuge ciumento, pensei hoje, pela manhã, como alguém no passado me disse.

E, ao longo dos anos, percebi que em Medicina, estamos sempre, e a cada dia, diante de desafios para os quais temos que atuar da melhor forma, sem estar "totalmente" preparados. Cada paciente, e alguns deles de forma muito intensa e especial, exige-nos resolver questões que escapam ao que até aquele momento havíamos estudado. Cada paciente coloca-nos diante do desafio de estudar, de criticar informações, de checar referências. O que hoje se sabe pode ser distinto do que há um ano se sabia. Passei a estruturar os meus próprios protocolos para as diversas situações que atendia: grandes queimados, dor, nutrição, asma de difícil tratamento, sepse e mais tarde, doenças gastroenterológicas e hepáticas. Ler, reler, anotar, ler, buscar... Modificando condutas a partir do surgimento de novas evidências, e sempre analisando a qualidade dos dados. E isto, diariamente.


Na Medicina, nunca estamos prontos, refleti esta manhã.

Lá pelos inícios deste processo, sentia grandes dúvidas sobre "o quê eu estava fazendo da minha vida"... Podia ter feito outras opções, mais fáceis e com mais encanto, talvezA minha escolha levou-me a ter que lidar com os sofrimentos mais básicos e profundos, deste mundo, a realidade sem máscara, saídas fáceis, explicações prontas, ou ideias preconcebidas. Pés no chão, e estudo ao longo dos anos, incluindo pouco sono, muita ansiedade por lidar com as dores dos semelhantes. Em especial, das crianças e os seus familiares.
No meio destes questionamentos, ainda na Faculdade, tive um desses sonhos que sempre nos ajudam a definir caminhos. No sonho, um médico, um senhor com uma longa barba branca, disse-me, carinhosamente: "esta é tua história... E vais trabalhar é com Medicina até o teu último dia". Pois daqui à meia hora tenho aulas a dar... de Medicina.

Como escreveu Fernando Pessoa, no poema O CONDE D. HENRIQUE:

Todo começo é involuntário

Deus é o agente,

O herói a si assiste, vário

E inconsciente.

À espada em tuas mãos achada

Teu olhar desce.

«Que farei eu com esta espada?»

Ergueste-a, e fez-se.

 

sábado, 25 de maio de 2024

Des implants de l´espoir

Je veux le vaste bruit de toutes les vagues

Et les sons des mots que je lis sur les lèvres,

Les sens qui animent les thèmes communs

Ou profonds de nos proses triviales.


Restaurer en Bach son originel accent 

Les aigus mélodieux vibrants de Chopin 

Les oiseaux gazouillent, et les feuilles

Des arbres, bruissement, en dansant.


Presque quand je le perds, j'apprends la valeur

Parmi les bénédictions que la vie m'a données :

La lumière pour les yeux, les sons pour l'idée


L'étreinte de la parole qui nous rend humains

Avec le sentiment qui naît entre nous

Quand  j'entends ta voix ou que je vois tes yeux.

Implantes da esperança

Quero o som amplo de todas as ondas

E os detalhes sonoros que leio nos lábios,

Os seus sentidos que animam os tolos

Ou profundos temas das triviais prosas.


Repor o som exato de Bach que havia,

As finas melodias de Chopin a vibrar,

O chilreio da revoada, e as folhas

Das árvores, farfalhando, ao dançar.


Quase ao perdê-lo, é que aprendo o valor

Das humildes bênçãos que vida me dá:

A luz pelos olhos, os sons para a ideia,


O abraço da fala que nos torna humanos,

Com o sentimento que brota entre nós

Quando vejo teus olhos, ou ouço tua voz.


quarta-feira, 1 de maio de 2024

a juventude da Arte

Viemos a Viana do Castelo para visitar esta antiquíssima preciosa joia à beira-mar na Costa atlântica do extremo norte de Portugal, junto à Galícia, a uma hora de Vigo. Região onde dezenas de povos desde os períodos pré-históricos, incluindo os celtas, lusos, gregos, romanos, godos, construíram suas vidas e obras. Seriam mais de 30 diferentes povos…Enfim, o sempre surpreendente Norte Português, antiquário, e moderníssima realidade contemporânea, qualidade de vida incomparável, incluindo a beleza arquitetônica das casas e construções, qualificação de engenharia, infraestrutura, limpeza urbana, culinária saudável e deliciosa. E os renomados vinhos verdes e brancos típicos desta região que os Romanos chamaram Gallaecia, terra dos galegos (Welsh people, para os britânicos). Sem falar das tradições, vestimentas típicas, danças e a sonoridade das gaitas de foles. Viemos ver apartamentos para comprar. O mar é azul brilhante aqui, como o rio Lima no seu fluxo claríssimo e transparente. As ruas são plenas de vitalidade e tranquilidade. Segurança absoluta. Muitos bons restaurantes. E os preços das casas ainda são suportáveis para as nossas possibilidades, ao contrário do amado Algarve, de Lisboa e do Porto. Vimos 6 apartamentos ontem, cinco deles bons, dos quais dois muito bons. Mas não escrevo por isto. Fiquei, isto sim, encantado de conhecer o proprietário do último apartamento. Gustavo subiu pelas escadas com as funcionárias da Imobiliária. Monsieur X e eu subimos pelo elevador. Ele mede cerca de 1.80m, uma postura ereta que começa a encurvar-se. Teria segundo meu olhar clínico uns 70 anos. Vestia-se com um “casual look” incluindo uma pochete “estilosa”, boné. Cores corretas e elegantes. Descolado, se diria no Brasil... Com forte sotaque de um Português afrancesado, disse-me: -o apartamento eu gosto, mas ando com uns probleminhas…estou com 91 anos de idade. Eu me surpreendi e repliquei: “uau! Que maravilha, parabéns.” Pareceu-me inacreditável meu erro de diagnóstico visual. Abriu a porta da residência e o que vi foram quadros de arte contemporânea pelas paredes dos corredores, salas, quartos e escritório. Quadros muito bons!!! De diversos autores, talvez alguns feitos por ele mesmo. E no chão tapetes persas de diversas dimensões, daqueles que têm suas histórias e reconhecidas procedências. Móveis moderníssimos mesclados com “móveis de demolição” recuperados. Esculturas e objetos de arte. Lembrei imediatamente dos meus amigos artistas de Porto Alegre, especialmente do querido Fernando Baril, da querida Berenice Unikowsky, do trabalho genial de recuperação de peças arquitetônicas do Normelio Brill, algo mesmo do nosso ap em Porto Alegre. Mas o que mais me alegrou, além do reconhecimento de coisas materiais, na verdade, foi algo sutil envolvendo o “espírito artístico” impregnado na arquitetura de um ambiente. E, sobretudo, perceber no quê se transformou ser “idoso” nestes novos tempos. Chequei com rápido olhar a biblioteca de Monsieur X: livros espetaculares sobre assuntos que me encantam. Vi que o senhor é Belga, como o saudoso amigo Dominique Boxus. E o escritório, “bagunçado como deve ser”, com um complexo de duas enormes telas de computador, e seus equipamentos atualizados. Ali ele trabalha…e eu fiquei curiosíssimo: em quais projetos? Com quais aplicativos? Quais os temas? Ou seja, como tenho estado preocupado com o assunto da idade, e do envelhecimento, esta visita me levou a conhecer um jovem sofisticado e criativo rapaz de 91 anos. Os tempos e a Medicina, graças a Deus, são outros. Envelhecer por dentro é apenas a pior, e mais medíocre, das opções. Uma pena morarmos - por enquanto - tão longe. Adoraria ser amigo deste artista e intelectual belga e saber suas opiniões sobre a pintura flamenca e, certamente, sobre a do Basquiat.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Centro (ou poesia natural)

Penetro no escuro que me habita

E, aos poucos, acende-se e desvela

O que pulsava obscuro, e gravita

O Grande Atractor que me constela. 


Pareço ver, mas de fato eu o sinto: 

Foco ofuscante a brilhar no centro,

Aquilo que eu sou e me é distinto

Mas deixa de ser o Outro se adentro.


Digo sentir porque a luz é amor,

E fluxo de consciência, e sentimento,

Gerado em mim pelo Grande Atractor

Em resposta ao horizonte dos eventos.  


Ao abeirá-lo, segundos tornam-se eras,

Ilusões são transmutadas em verdades

Pois eu me amplio, dilata-se a Esfera,

E, ao dilatar-se, o Tempo é Eternidade.



Referências para o poema:

"O que está dentro é como o que está fora". (princípio Hermético) 

“The Great Attractor is a region of gravitational attraction in the intergalactic space” 

“Horizonte de eventos é o limite exterior de um buraco negro ”

"Increasing Gravity dilates time".  (Teoria da Relatividade) 

 אני מה שאני (Eu sou o que sou")

 

quarta-feira, 13 de dezembro de 2023

As linguarudas

E a gente vai pensando, aprendendo e mudando. Eu era o guri mais extrovertido e ingênuo deste mundo, como muitos de vocês. Dava-me com todos, era o amigão de todos, o eterno confiante. Mas ao longo dos anos, identifiquei um traço de personalidade em algumas pessoas que foi me tornando um tanto "bicho arisco". Chamavam antigamente as pessoas com este tipo de personalidade, pelo menos em Porto Alegre, de "linguarudas", adjetivo ou substantivo para designar o atento observador e crítico da vida alheia. Este detalhe é importante: especificamente da vida alheia, pois o linguarudo ou linguaruda (hoje sei que a doença afeta ambos os sexos) não consegue ver um palmo diante do nariz sobre sua "própria casa". O sinônimo hoje seria fofoqueiro. 

Lembro de uma "linguaruda", que passeava todo o dia pela rua Rodolfo Gomes, no Menino Deus. Chamava-se Dona Mosmé. Que Deus a tenha. Minha mãe tinha a paciência de ouví-la. Chegava de mansinho, muito suave e sorridente, e se aproximava da Dona Rosa (la mamma mia) e passava a falar baixinho, como que para ocultar as novidades que trazia sobre a vida de alguns vizinhos, como se não fosse repassar adiante o relatório para a vizinhança toda. Ela era uma "fofoqueira full time". Não fazia nada mais que fosse. Pois Dona Mosmé, ia falando e puxando uns fios do casaco da minha mãe, ou limpando o ombro da sua paciente ouvinte com o dedinho indicador, trazendo à tona alguma mazela oculta da vizinhança: "Rooosa, tu sabes que a desquitada está de namorado novo? sabes que o seu Manoel anda pelos bares da Azenha? Que o Chiquinho é...?...etc., etc., etc.). Nunca ouvi minha mãe passar as observações atentas da Dona Mosmé (espero, mas eu era pequeno...) 

Uma realidade que a vida ensina é que para cada um de nós há sempre um cortejo de linguarudos, estes intermediários da desinformação, ou da informação transmitida fora do seu contexto real (como sempre o é um dado que diz respeito à experiência -intransferível- de outra pessoa). 

Ao longo da vida, tenho sido, de algum modo, vítima de linguarudos, que projetam seus defeitos mais secretos nesta pessoa aqui, cuja vida não lhes diz qualquer respeito. E é interessante que a fofoca sobre nós mesmos, as vítimas, sempre nos chega aos ouvidos, ou aos olhos, por informantes atacados pelas Mosmés desta vida. Porque, como li em algum lugar:

"Quem fala mal da vida dos outros para ti, fala mal da tua vida para os outros". 

Passei a deletar pessoas assim, e a ir com calma nas novas relações, buscando identificar o tal traço psicológico nos viventes, um tipo de ansiedade invasiva...Cheguei a dizer, numa ocasião, a algumas colegas que vieram me repassar más histórias da vida alheia: "-olhem, vocês estão perdendo tempo comigo. Ninguém nunca saberá do que vocês me contam. Eu não tenho o mínimo interesse. Nisto, sou um inútil assumido." Vi seus olhares de desapontamento.  

Este é um dos meus defeitos: sou (não apenas) metaforicamente um surdo para os juízes da vida alheia. Graças ao bom Deus.



quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

Um prometeu diverso

Deixo meu coração depositado

Sobre o altar de algum deus

Ainda e sempre amado.


O que me fala nos silêncios,

Aconchega-me em seu berço,

E me diz: sou o amigo.

 

Deus que desconhece crenças,

Religiões, ideologias,

Deus a brotar em minha alma

Dia a dia.


E assim é desde menino:

Este templo interno e vivo

Onde me surgem os sonhos

E eu desperto renascido.



Autoria

 Ninguém te dirá se tua Arte

Vale tanto, ou menos que isto, ou mais.


Tua Arte é da tua vida, 

A escrita tua, a tua voz própria,

O trêmulo ou seguro traço

Só traçável por tua mão, 

Com gesto do teu braço.


Autêntico como um cheiro, 

Ou forma de falar, olhar único

De esgueira. 


Crias de ti mesmo uma bandeira.


Andas só, em tua sabida rua,

Expões tua história em arte e verso,

A imperfeita anatomia da tua alma nua,

Astronomia do teu (uni)verso.




sábado, 18 de novembro de 2023

Oito anos de Portugal, Covilhã


Dei-me conta, fazendo minha (sagrada) caminhada matinal, que exatamente nesta data há oito anos atrás eu chegava à Covilhã, no centro de Portugal a convite da Universidade da Beira Interior - UBI. Aposentei-me por tempo de contribuição no Brasil, e resolvi aventurar. Pourquoi pas? O Gustavo, que havia vivido em outros países, incluindo o Brasil, me dizia que eu era de um lugar só, que havia nascido e vivido toda a vida em Porto Alegre, embora tivesse viajado para boa parte da Europa e América Latina. Eu, como bom canceriano, era sim homem do Menino Deus e do Bonfim e também tinha minhas dúvidas. Em Porto Alegre, morando no Bonfim há décadas, tinha meus parques, "meu clube com minhas piscinas, meus restaurantes" (ou seja, um útero urbano), além da convivência deliciosa com amigos e familiares, em jantares e almoços memoráveis. 

Bem, a verdade é que nos últimos anos, Porto Alegre desgovernou em termos de violência, eu mesmo fui agredido e roubado. O Bonfim (algo inacreditável para mim) foi palco de assaltos armados, etc...tudo o que empesta e impossibilita uma vida tranquila em qualquer grande cidade brasileira. 

Mesmo assim, tinha além de dúvidas, 59 anos bem vividos. Pensava em ir para o Uruguai, onde temos uma casa na região de Colonia. Amo o Uruguai, amo a região de Colonia. Pensei em montar meu ateliê de Pintura e Poesia, dedicar meus anos futuros a ler filosofia, e caminhar pelas ruas seguras (naquela época) de Carmelo...O Gustavo, lúcido, porém, me disse: -"tu tens uma atividade intelectual continuada na área da Pesquisa Médica. Em seis meses, o Portoalegrense aí vai estar deprimido."

Pois bem, nos acertamos: vamos tentar Portugal, terra dos meus avós paternos, cujo sotaque eu trazia nas memórias da infância e da adolescência, assim como o gosto por comer filhozes, bacalhau, beber bom vinho e ler Fernando Pessoa, Eça, et caterva…

Antes disso, nos reunimos com o amigo querido Fernando Baril para um jantar no Barranco. Contei a ele minhas dúvidas: o pequeno ateliê de Pintura em Colonia, ou continuar no batente em Portugal. Ele me disse, com aquele olhar maroto que tinha: -"talento tu sabes que tens, e eu reconheço, mas qual teu curriculum vitae em Pintura? Achas que vais te fechar num ateliê a pintar e ficar famoso em Colonia de Sacramento? Se optares por isto, eu estarei contigo e te darei toda a força, mas pensa bem". Foi uma opinião verdadeira e bem vinda como a picanha que comíamos. 

Então, montei minha saída, enviei currículo de médico pesquisador para a Universidade onde trabalho porque vi que dispunha de um baita labotarório onde eu podia seguir com meus projetos, o CICS-UBI - Health Sciences Research Centre. Além de ensinar, como ensinava na UFRGS, desta vez integralmente, na Graduação e Pós-Graduação. Recebi resposta depois de duas semanas: sim, temos interesse em que venha.  

Gustavo e eu pensávamos: como será morar numa "pequena" cidade (pelos moldes brasileiros) de 60 mil habitantes no interior do país? Tínhamos dúvida se nos adaptaríamos. 

Houve um evento internacional sobre Colestase Neonatal, com presença de colegas de todo o Brasil e de outros países, em minha homenagem...e um jantar inesquecível na residência da querida mestra (para toda a vida) Themis Silveira. Joias guardadas no coração.

Pois viemos, inclusive o Paquito, que viajou umas 20 horas na sua caixinha. Longas histórias.

Aqui chegamos e nos encantamos com o tal "interior de Portugal". Interior que nos coloca no centro de uma infinidade de rotas por estradas perfeitas, circulando a Lisboa, Porto, Coimbra, de imensos tesouros culturais. Menos de duas horas a Salamanca, quatro de Madrid. Visitas recorrentes à Galícia, Astúrias, Cantábria...Paris e todas as cidades europeias a preços baixíssimos. E as milhares de pequenas cidades, aldeias e vilas de Portugal e fronteiras de Espanha, cada uma mais maravilhosa e surpreendente que as outras...E num ambiente de segurança pública sem defeitos...Senti como se tivesse tirado um peso de insegurança das minhas costas. Cuidados de Saúde que nunca imaginei: um Ambulatório Hospitalar na frente da casa, onde são realizados exames sofisticadíssimos solicitados por nosso "médico de família". Vacinação planejada pelo Serviço Nacional de Saúde, que nos envia datas para todas as vacinas, incluindo a Moderna que fiz ontem na farmácia ao lado de casa, obviamente gratuita.  E piscinas, e SPAs, e lindos parques e uma boa casa com amplas vistas.

Enfim, a "pequena" Covilhã revelou-se uma metrópole linda e espetacular para se viver, cercada por campos deslumbrantes.

Portugal, a Europa, foram maternais e gentis conosco, e Gustavo e eu recebemos a Cidadania Portuguesa em menos de 6 meses. 

Continuo minhas pesquisas, enquanto houver desafios.

Mas de uma coisa não abro mão: vou montar meu pequeno ateliê de pintura e poesia, desta vez aqui pela Península Ibérica. Aguardem!


Obrigado Covilhã, obrigado Portugal, obrigado União Europeia! O Canceriano aqui reencontrou seu berço e está feliz.

Única manhã

Eu me levo pela mão nesta manhã

Porque é hora de me deixar levar

Sem esperanças, 

E conhecer 

O que me desconheço, 

Num brinquedo de criança.


Sem escavar teorias ter respostas,

Sem ideologias ver o Sentido

Que me conduz sempre que brota

Novo verso ao ser tecido.


Foram-se as mágoas e os medos,

Rixas internas e externas,

Que me cegavam para o enredo

De verdades óbvias e mais ternas.


Calam-se os livros, os filósofos,

Os gurus, calam-se os ídolos,

Os curas, os papas, os imãs,

Calam-se os políticos e ideólogos,

Cultos e incultos, calam-se todos,


Na minha única manhã.


sábado, 14 de outubro de 2023

As Cores II (Ode aos cinzas)

Amo as cores a combinar-se recriando o Espectro, 

Ou a exibir-se com as nuanças dos matizes puros, 

E amo o cinza em todos os tons, de chumbo ou prata,

Cinza de névoas a proteger-nos do sol duro.


Cinza das nuvens, cinza crômio, cinzas Outonais

Em que o rosa, por amor, irmana-se com os grises

E entretons de amarelo nas bordas quase brancas

De imensos cúmulos-nimbos desfazendo o calor. 


Cinzas grafite das pedras, paredes, ruas, estradas,

Enfeitiça-me o cinza que se torna azul ao longe

Ao dar volume às distâncias colorindo-as com ar. 


Amo o cinza nas vestes, neutra cor das elegâncias,

Nebuloso oposto das ânsias, tesões da cor a berrar. 


O humilde cinza que some para o conjunto brilhar.



sexta-feira, 6 de outubro de 2023

“Causos” de Porto Alegre

Eu e os meus "causos", como diz o gaúcho. São algumas das minhas experiências de vida.

Boa parte da minha vida adulta, morei no Bom Fim, o “Bonfa”, bairro judeu de Porto Alegre, um tanto boêmio e intelectual, com seu imenso parque, a Redenção. Cruzava diariamente com a dona Sarah, o seu Jacó, o músico tal, o artista plástico X, enfim...Ali vivi experiências difíceis como cada ser humano viveu, e também tive vivências maravilhosas e enriquecedoras. 

Ali fiz minhas teses de mestrado e doutorado, criei meus bichos amados, tive amores e fui amado. 

Enfim, um bairro inesquecível, com piscinas, gente a andar pela rua, agito, passeatas, bons dias, olás, cafés e restaurantes...vizinhos e vizinhas tantos que chegavam a ser passantes desconhecidos. Uma das vizinhas, dona Esther, que morava atrás de nosso apartamento na Fernandes Vieira, um dia, quando eu cheguei do trabalho, estava sentada no banco à frente do edifício, e me olhou sorridente e curiosa e perguntou, com seu sotaque que eu diria de iídiche: 

- o senhor é alemão, não?

Eu a olhei, curioso, e lhe disse:

- Dona Esther, eu sou uma mescla de italianos da Lombardia que na verdade eram em parte austríacos, e de portugueses. Alemães, alemães não somos.

Ela sorriu, seu rosto suave, e me disse:

- Ah! austríacos...eu "era" alemã. Nasci e passei boa parte da minha vida na Alemanha; lá viveram meus familiares por muitas gerações. Até que houve a guerra...

E dona Esther puxou um pouquinho a manga da blusa e mostrou-me o frágil pulso direito onde havia um número escrito:

-Eu fui prisioneira de Auschwitz.

Uma revelação que me deixou perplexo, ao ver a delicadeza desta vizinha alemã a compartilhar comigo, seu vizinho de porta, as memórias dolorosas que ela guardava e revivia. E a vergonha do mundo inteiro.


Por falar em vergonha do mundo, numa outra vez foi a vizinha do andar de cima. Uma jovem mulher, muito bonita, divorciada, que vivia com suas duas filhas, também lindíssimas. Eram muito simpáticas e eu acompanhava, mesmo sem querer, o crescimento da mais jovem, que já tinha um namorado, todo atlético e bonitão. À medida que amadurece, a gente fica preocupado com o futuro da garotada nestes tempos caóticos, em que os valores da civilização vão sendo consumidos por ideologias selvagens. E ficamos torcendo para que estas joias lindas não percam o rumo,  e não se destruam nelas os bens mais preciosos que a vida pode oferecer. Pois bem, um dia, a mãe desta família pediu-me algum tempo para conversarmos. Concordei.

Nos reunimos em sua casa e ela se abriu.

- Jorge, queria falar contigo...como médico.

-Por favor, fale comigo como médico e amigo.

-Pois bem, minha menina, a mais jovem, está grávida.

Quase sorri pela bela revelação, mas evitei. Ela continuou:

-Meu ex-marido é um homem rígido, um tanto grosseiro, e por isto nos separamos. 

-E?

- Ele é deprimido crônico, usa medicação, faz tratamento.

-Sim...

- Ele não vai suportar a notícia de que nossa filha está grávida. O rapaz é um irresponsável, dependente dos pais e nem quer saber. Sumiu. Meu ex-marido pode se matar ou fazer uma loucura. Eu queria saber se tu podes indicar algum colega teu para fazer o aborto...

Algo subiu à minha cabeça e eu fiquei, digamos, muito indignado, por ser colocado numa posição decisória quanto à destruição de uma vida humana, por causa de um namorado "vagabundo" e de um pai "violento e deprimido". Mas como tenho anos de traquejo em ser o que sou independente do que os outros esperam, independente da “persona” que os demais impingem a um "médico liberal", disse-lhe com carinho:

- Amiga, eu sou um Pediatra, que significa ser o “protetor das crianças”. Eu não faria algo assim com sua filha, nem com o bebê que pede para vir ao mundo. Independente de qualquer questão religiosa, como médico que ama as crianças, e adolescentes como tua filha, eu não sou a pessoa que pensas que sou, que procuras, eu não posso te ajudar. Se pudesse te dizer algo, é: assumam juntas este bebê, sejam apoio umas a outras. E dane-se o rapaz irresponsável. Quanto ao teu ex-marido, que ele vá mesmo se tratar e não incomode neste momento tão especial de vocês como família. Que busque um psiquiatra melhor. Se quer se suicidar, uma pena, mas ele é adulto. O bebê que vem é o mais frágil.

Ela sorriu, triste e um tanto surpresa, e me disse apenas: 

-Vamos pensar. Mas obrigado.

Saí dali sentindo-me afetado, quase um culpado por complicar ainda mais a situação daquele grupo de pessoas. Um insensível, rígido. Mas refleti para mim mesmo: é o que eu sinto em profundidade; esta é a minha palavra verdadeira e eu seria um farsante se fizesse diferente.

O tempo passou e houve um silêncio na nossa relação de vizinhança. Até que um dia vi a linda filha curtindo sua barriguinha ao sol da manhã. Quase chorei, mas me mostrei impassível e desapegado:

- Bom dia, eu disse.

E a garota, sorrindo, respondeu me olhando nos olhos:

- Bom dia.

Vários meses depois, fiquei sabendo do nascimento e conheci aquela bebê tão linda como a avó e a jovem mãe, digamos também, com uns bons traços do belo avô. 

A mãe um dia chamou-me para outra conversa de vizinhos:

-Jorge, eu queria te agradecer. Não sabes o bem que nos fizeste. Tomei coragem e falei com o ex-marido. Fui forte, firme, empoderada. Ele inicialmente ficou furioso, mas dois ou três dias depois veio visitar-nos e passou a mão sobre o ventre da filha.

Jorge, o nascimento da nossa neta foi a maior bênção para nós todos...e especialmente para o meu ex-marido. Ele é apaixonado pela neta, como o é pelas nossas filhas. A neta é a alegria da vida dele.

O poeta aqui tremeu nas bases e, emocionado, respondeu:

-Que alegria imensa saber disso, ter feito parte da história de vocês.

Soube que o bonitão, irresponsável e vagabundo, voltou a buscar a belíssima jovem mamãe, mas ela nem quis saber. Havia coisas melhores neste mundo, incluindo algum pretendente trabalhador e amoroso. E o amor de sua família. Ela já trabalhava e cuidava da  sua filha. Assim é a vida, rapazes. Hesitou, perdeu a joia!


Estas situações fazem a vida de um médico valer a pena. E não deixar que a profissão torne-se terreno do crime, mais uma vergonha para este mundo triste, cada vez mais medíocre.

segunda-feira, 8 de maio de 2023

Alquimias II

 Para haver a Alquimia eis o procedimento:


Tecemos a vida de dentro para fora

E a vida nos tece de fora para dentro.


Então nasce, no mundo, a obra da História.


Maestria e memórias, o Ouro, no centro.


terça-feira, 25 de abril de 2023

A Revolução dos Cravos

Assisti um documentário no Netflix que me fez refletir sobre a grandeza diferenciada de certos povos, certos países, e sobre a Revolução dos Cravos, data hoje comemorada em Portugal.

O filme que vi e recomendo é Drottningen Och Jag, realizado pela famosa cineasta Iraniana-Sueca Nahid Persson. 

Para o filme, durante longo tempo, Nahid entrevistou aquela que foi imperatriz do Irã por 30 anos, a ainda bela Farah Diba, até que o regime monarquista sob o comando do Xá Reza Pahlevi foi substituído pelo dos aiatolás, a começar pelo Khomeini. 

Durante a minha juventude, a informação das mídias internacionais descreviam o regime corrupto da monarquia iraniana, o que tinha algo de verdade, e não houve família mais execrada em termos midiáticos e políticos que os Pahlevi. Até que a oposição desencadeou a "Revolução Gloriosa", destituiu o xá,  e a família Pahlevi teve que buscar exílio em diversos países. Os responsáveis pelo golpe constituíam-se de um bando heterogêneo formado por fanáticos islâmicos, socialistas incendiários e criminosos sob às ordens da URSS que tinha interesses em alargar seu poder e território, com a ingerência de alguns países ocidentais poderosos. Pois a revolução resultou num Totalitarismo religioso, que dura décadas naquele país e executa mais que torturas, também assassinatos em massa de opositores e abolição das liberdades individuais. Isto se sabe e se divulga agora, mas naqueles tempos estes criminosos eram os heróis dos intelectuais de esquerda. A velha história. 

Pois a cineasta era uma jovem comunista que lutou pela Revolução e foi sua vítima logo após, tendo conseguido fugir do Terror para Suécia. Farah Diba (Pahlevi) e Nahid Persson, duas iranianas confrontam seus passados e presentes com uma grandeza emocionante. O carisma de Farah Diba mantém-se inalterado. Recomendo o filme.

Mas o que refleti não foi só isto. 

As revoluções recorrentemente têm prometido concretizar o céu na terra e acabam empurrando países ao inferno (vide a América Latina de hoje). A intelectualidade tem sua responsabilidade nisto por amar as ideologias mais que a realidade possível, dentro de um idealismo quixotesco.

Pois o que me encanta neste dia é a grandeza de um país que nos recebeu como lar: Portugal. 

Sua Revolução dos Cravos é ímpar, única na História desde a primeira das grandes revoluções da Idade Moderna, a Francesa. 

Uma revolução pacífica, com seus ideais socialistas libertando os portugueses de uma ditadura prolongada, sem armas, sem mortes coletivas. E os resultados prometidos, claro, depois de grandes dificuldades e mesmo erros (como não haver erros?) foi realmente Liberdade. 

A União Europeia trouxe a Portugal, como à maioria dos países da Europa, a garantia de um clima de respeito às diferenças e de progresso coletivo, concretizando a estabilidade numa vasta parcela do mundo. Uma imensa comunidade de países, em um contexto de Liberalismo com fortes políticas sociais. Nada a ver com o socialismo coletivista da primeira metade do Século XX, que gerou (e ainda gera) miséria, tirania e exílio às populações. 

Como refletiu Arendt: "a Comunidade da União Europeia só surgiu quando os socialistas finalmente desistiram do Comunismo". Eu humildemente acrescentaria: quando a força dos fatos obrigou a uma ação Política que visa o melhor da realidade e abandona a "mentira sistemática".

Quem incomoda neste momento é aquela mesma URSS, ainda transvestida de democracia, ainda a ditadura da Mentira. 

Portugal, e a Comunidade Europeia, souberam conjugar o que há de melhor até agora dos ideais Humanistas aplicado à Política e à Economia.

Portugal tem exatamente este espírito: um grandioso (pequeno) país que soube cumprir o seu melhor destino. Lembrando o poeta, Portugal cumpriu-se. 

Parabéns, querido Portugal, pela Liberdade e o bem-estar social! 

Viva a incrível, benigna Revolução dos Cravos.

segunda-feira, 17 de abril de 2023

Apenas um semi-analfabeto corrupto e falastrão?

Depois de grande polêmica sobre Lula discursar numa celebração do maior valor para Portugal, eu me pergunto:

- Como pode um ex-presidiário, julgado e condenado em 3 instâncias pela Justiça Brasileira (a porção realmente qualificada da Justiça), liberado apenas num esquema político por um tribunal formado por indicação política, discursar em uma das festas máximas de Portugal?

- Como pode discursar o ex-presidiário, após as declarações em que ataca as condutas excelentes (do ponto de vista ético e legal) da União Europeia e dos Estados Unidos, e dos demais países realmente democráticos, em relação à criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia. 

Sabe o governo Português o que está por trás disso, em termos de interesses comuns dos criminosos russos e os dos países latino-americanos talvez mancomunados?

Além da mediocridade intelectual do falastrão brasileiro criador de cizânia, de suas opiniões toscas, de seu mau uso da língua Portuguesa, o que se esconde por trás deste discurso absurdo e incorreto? Quais suas verdadeiras intenções de Poder?

As relações políticas deste sujeito têm sido os Castro, Chavez, Maduro, Ahmadinejad, al-Gaddafi, a corrupta família Santos de Angola.

Admiro o presidente Marcelo Rebelo de Souza, mas vê-lo literalmente curvando-se para fazer honras a essa pessoa me pareceu uma fraqueza por demais ingênua.

E eu tenho me perguntado nestes últimos dias:

-Como podem os Portugueses, entre os quais eu agora me incluo, compactuarem com um discurso que tenta dividir os europeus e os norte-americanos, aliados numa causa justa de libertação da Ucrânia invadida por criminosos das máfias russas?

Como um homem desse tipo discursará ao digno povo Português?!

Eu não esperaria outra postura de alguém como aquele sujeito, mas confesso que jamais esperava uma posição assim de Portugal e de sua imprensa.

Os europeus devem despertar desta fantasia de imaginar Lula um grande homem injustiçado por "fascistas". Ele não é um injustiçado, nem são fascistas mais da metade dos brasileiros incluindo os mais lúcidos, os quais merecem respeito. 

Torço pelo Brasil, torço por Portugal e pela Ucrânia.

sábado, 25 de março de 2023

Puer aeternus 3

 Vejo-me a envelhecer. 

As mãos que eram as minhas

Amarrotaram-se, e manchas marcam a pele.

Dói-me joelho, dói-me anca, dói-me às vezes

O pensamento. 


Mas canta igual, com o versejar que tinha

Ele mesmo, o infante a festejar nos meus poemas.


Voz de cristal, criando estrofes, sondando temas, 

Em Arte e Ciência, ele mesmo,

O eterno piá que, ao não crescer, 

É bem verdade, deu-me problemas,


Mas vejam só, a criança interna, 

Tão sonhadora e inda pequena,

É que, ao criar, sempre a brincar,

Faz-me sorrir, a cada dia,

Nas minhas penas.






sexta-feira, 3 de março de 2023

Curriculum vitae

Desde que me conheço por gente

Era um piá escrevente, 

Leitor faminto

Um tanto descrente,

Buscando palavras

Para expressar

O que vinha à mente


Ao observar esta vida

E tentar desvendar

Os segredos

Da eterna mutante.


Além das escritas

Produzia rabiscos, esboços,

Desenhos, manchas,

Pinturas, 

De cada mão, cada olhar,

Sorriso, ou postura,


 Céu, rio, rua,

Sentimento,

Para alguma folha 

Ou tela nua.


E ainda sou

O rabiscador

Do que vai neste mundo,


Com a alma na lua.


quinta-feira, 16 de fevereiro de 2023

Abuso sexual de menores em casa e, se não bastasse, na Igreja.

Para contextualizar aos amigos que se perguntam porque escrevo tanto. Por um lado, pelo gosto que tenho desde guri de pensar, ler e escrever. E, com a existência destas redes sociais, passei a publicar no Face book e neste blog que tenho.

Mas neste caso específico, escrevo porque em 1993 criei no Hospital Cristo Redentor de Porto Alegre, um hospital de Trauma que atende as zonas mais carentes de minha cidade, o "Grupo de Proteção à Criança e ao Adolescente". O grupo tornou-se e se manteve uma realidade por décadas, incluindo profissionais da saúde como psicólogos (maravilhosos), enfermeiras (excelentes), técnicos de enfermagem e assistentes sociais, tendo apoio dos agentes do Ministério Público do Brasil, com base na regulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Cada paciente vítima de trauma, ou em qualquer sugestão de abuso, era criteriosamente acolhido e investigado, obviamente com atenção às questões éticas, para identificar violência ou abuso sexual extra- ou intrafamiliar. E assim fizemos, encaminhando inúmeros  casos ao Ministério Público e Conselho Tutelar. Foram décadas de trabalho, envolvendo a coleta de história clínica e psicológica, exames físicos e de imagem, investigação do meio comunitário das famílias pelo Serviço Social, da situação real em que as crianças viviam. 

Confesso aos amigos que até hoje sinto que esta tarefa, que iniciou sem muita expectativa, tornou-se a coisa mais linda e valiosa que fiz como profissional médico e pessoa.

Centenas de casos encontramos e encaminhamos.

Como dizia o querido amigo Prof. Mosca, embasado nas  suas leituras do Budismo Tibetano: "Os médicos não vão para o Céu porque conhecem o Segredo dos deuses". Uma frase lapidar.

Aqueles anos de trabalho no Grupo de Proteção aos menores abriu nossos olhos para a realidade, além da cotidiana violência, sobre o abuso sexual dos pequenos dentro de casa, com a conivência das suas mães dependentes emocional e financeiramente de  maridos ou "companheiros". Esvaiu-se a ingenuidade sobre a sacralidade da família. 

A realidade é trágica e o pior é que, após o processo judicial, as vítimas eram frequentemente re-encaminhadas ao "sacrossanto reduto do lar", ou seja, aos seus abusadores, por juízes despreparados, que pareciam desconhecer, ou negar, que a pena para o abuso sexual de menores no Brasil é cadeia.

Por falar em sacrossantas, este "médico que não vai para o Céu" aqui, ficou sabendo que, havendo-se trazido à tona a questão dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, houve pelo menos 4.800 queixas de abusos perpetrados por padres da "Santa Madre". 

E por que a Igreja? Por que não os pastores protestantes, os monges zen budistas? Por que a Igreja, vocês não se perguntam? 

Um motivo pode ser que não se investiga nos outros grupos religiosos, mas sinceramente não creio. Ou seja, a causa não se relaciona a uma crença religiosa, à crença em Deus, ou ao Cristianismo especificamente, mas sim a uma questão particular relacionada à Igreja Católica.

E aí trago uma referência importante, publicada em 1946 pelo filósofo Bertrand Russell, intitulada "A History of Western Philosophy"

Eu, por curiosidade, tentava antes entender onde e porque o Celibato obrigatório tornou-se uma regra fundamental da Igreja Católica, e só na Igreja Católica. Os apóstolos de Jesus tinham vida sexual, filhos. Quanto a Jesus não se tem certeza, nem deve ser uma questão relevante, ainda mais se sabendo que os textos do Evangelho foram retorcidos, recriados, visando a produção de um tipo de ideologia, a tal ponto que Maria, mãe de Jesus, foi "tornada virgem". Eu tentava desvendar isto e consegui a resposta com o grande Russell.

Pois bem, deixando o lado "sacrossanto", descobri que a obrigatoriedade do celibato na Igreja só surgiu no século XI, uma era terrível para a fé cristã, quando a Igreja, por exemplo, utilizou o Terror totalitário contra populações consideradas hereges como os Cátaros, dizimando-os. E obrigou os padres e freiras ao Celibato. Portanto, o celibato obrigatório para padres e freiras na Igreja foi instaurado no século XI por interesses econômicos, visando a evitar que as heranças das possíveis famílias dos religiosos (muitos deles oriundos da Nobreza) passassem para as proles de herdeiros. As fortunas permaneceram na Igreja, para o bem "da causa".

Ou seja, há 10 séculos um grupo imenso de seres humanos passou a ser proibido de amadurecer sexual e emocionalmente através da experiência dos amores familiares e, por que não, extra-familiares (direito concedido pela vida a cada um de nós, seres humanos).

Esta tragédia humanitária que envolve a estruturação da Igreja Católica pode ser a causa de que pessoas, apesar de serem devotadas sinceramente ao Sagrado, tornem-se agentes de atos perversos contra vítimas indefesas, os menores, a grande maioria com até 11 anos de idade. É lamentável.  Obviamente, cada um destes adultos abusadores é responsável por seus atos e deve ser julgado e, conforme, condenado. 

Mas o mais triste é reconhecer, como bem sabem os que "conhecem os segredos dos deuses", que a Santa Madre Igreja, não vai, muito provavelmente, abrir mão da obrigatoriedade do infamante Celibato Obrigatório, um de seus "pecados institucionais".

Quanto aos demais, especialmente os colegas e alunos, vamos proteger os menores da ação nefasta dos abusadores, tanto os das famílias quanto os das Igrejas!