domingo, 13 de novembro de 2011

Andes

Os Andes delineiam elegante curva,
Crista branca sobre negra onda de pedra

E o Inca vê, no cume, Oceano ou selva:
É solitária flor ao vento que na rocha medra.

O Templo bebe a luz e sonha o Universo,
Riscando com um raio o rumo de uma estrela.

Llamas e alpacas, chinchilas e vicuñas:
Tesouros que se movem em sutil camurça.

Vulcão a refletir-se pelas águas verdes
De um lago suave nas altas planuras.

Nos Andes tudo aspira ao eterno e transparente:
O vento frio, o céu, as feras, e a gente.










sábado, 12 de novembro de 2011

Sagração da primavera em Porto Alegre

A primavera em Porto Alegre
É violácea,
É rósea a primavera
Em Porto Alegre.

E há suaves brisas
Perfumadas
Penetrando pelas portas
E janelas.

Há amor brotando
No teu peito
Como brota a flor de laranjeira,
E as idéias soltam-se a voar
Como faz a semente da paineira.

Nos parques
A vida se celebra
Porque a Primavera
Achou seu Porto.
Estás na Primavera
E, como as ruas,
Revives o renascer
De algum deus
Morto.

sonhar e viver

Dentro de cada um há o Futuro
E quase tudo o que se pode é conhecido,
Mas deixa-se passar o tempo esquecido,
Imaginando perfeições vindas do nada.

E nada vinga assim: vida vetada.

Quanto maior o sonho, mais te pede
A semente que gera o sonho, em ti guardada.
O sonho não te basta e tu medes
A dimensão da árvore brotada.


domingo, 16 de outubro de 2011

Divagando sobre as imagens do Hubble

Espaço vazio, Oceano
Onde sutis matérias têm seu Meio
E energias levíssimas elaboram
O Universo que sabemos.
Espaço não-vazio,
Mas pleno
De obscura matéria
A interligar
Multiversos alheios.

Espaço
Falsamente negro,
O quê escondes
Em cores que não vemos?

O quê és, Universo?
Qual tecido, ou corpo, ou mente?
O que és, imensidão harmoniosa,
Povoada de galáxias flamantes,
Flutuantes rosas a girar
Onde mundos, pontos luminosos,
Servem-nos de lar?

Eterno Desconhecido,
De infinitos mistérios,
Qual será o teu Sentido?
E haverá, em nós, um sentido
De, aprendendo contigo,
Para sempre, te revelar?

Talvez, talvez, talvez...

Nos deixamos levar
Pelo anseio de entender-te
Mas cada grande Sistema
É só um flerte
Com o que estás a ocultar.

Talvez, Universo, guardes
Algum singelo segredo,
Que nos libere do medo
Das tuas brutais dimensões,

E então, percebamos o ilusório
Do humano degredo
E que as tuas amplidões
Desfazem-se ante a essência
Que nos deste: Consciência.

Talvez sejamos o Uno
Em suas múltiplas percepções.












Respostas da vida

Silêncio! a vida te responde
Por todos os sentidos:
Pelo tato, pela vista
E ouvidos.
Desatento,
Não perceberás.
Atento! as palavra da vida
São momentos:
Evanescentes
Sons e movimentos.
Trancado em ti
Não sentirás.

Palavras aí
Não servirão jamais:
A vida não responde
Ao que dizes,
A vida te responde
Ao que vives.

E a resposta
É o que tu serás.











sábado, 15 de outubro de 2011

Amante



Teu vácuo movimenta-me a vida.
Adiante vais: enigmática ida,
Eu vou atrás, descida ou subida,
Aonde vais.
Assim tenho sido:
Deixando-me ir
A rastrear os teus passos
Buscando entender
O fim do caminho,
Nesta profusão de tempos
E espaços.
 Nós somos ainda
 Garotos gozando
A viagem do Sonho
Em dias de sonho,
E em sonhos nas noites:
Paris nos atrai,
Madri é demais,
Bergamo é bela,
O Algarve encanta.
A vida é ainda canção
Na nossa garganta.
 Embora eu saiba fazer o caminho
Com meus próprios passos,
Aasvero sozinho,
 Eu sigo teus passos com a alegria
De um iniciante
Vivendo as delícias
De ser o Amante.



sábado, 24 de setembro de 2011

O Boeing da Luciana



Bom é fugir de vez em quando
E deixar o mundo esperando.

Um Boeing qualquer
Para qualquer ilha ou deserto
E ali andar em camelo
Vestindo um par de Havaianas,
Com flores sobre os cabelos.

Dançar as danças estranhas
Embriagado com raras bebidas
Degustar o mundo
Até suas entranhas
Desconhecidas.

Bom é fugir de quando em vez
Esquecendo o que se fez
E o que se fará um dia,
Ser rei de seu próprio mundo
No mundo da fantasia.




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Portugal




Adentro no Portugal que me aviva reentrâncias
De memórias que não lembro,
Como as carnes de um cozido
Que amava sem o haver ainda comido,
Como a visão dos sobreiros
Das poesias que a avó
Recitava-me ao ouvido.

Todo um Portugal morava-me
Desde sempre no olvido.

E ao cruzar os seus campos de amarelo curtido
Subindo e descendo em Trás-os-Montes
Chego ao Algarve de pele morena,
O Algarve das vilas pequenas.

E mares que eu não sabia
Fizeram sentido,
E falésias de formas estranhas,
E rios talhando a vinhosas terras,
Na imensa nação de pequenas distâncias.

Um canto mourisco ressoa no espaço
No vento que sobe desde o Saara,
Eu vejo outro tempo nos rostos na rua,
E vejo meu rosto nos rostos que vejo.

O Tejo é um talho no corpo da terra,
O Douro é uma veia que drena bom vinho,
E Portugal alimenta aos meus versos
Com as águas do Minho.





domingo, 19 de junho de 2011

Tu



Tu és maior que o teu amor,
Não temas perdê-lo.
Maior que tua fé, tua crença
Ou Partido.
És maior que a tua dor,
Não temas vivê-la.
És maior que qualquer coisa
Que tenhas sofrido.

Tu és maior que o conceito
Que tens de ti mesmo,
Que as tristezas que chegam
E os risos que dás,
És maior do que as lutas
Que enchem teus dias,
Ou que a tranquilidade,
Tu és maior que a tua paz.

Tu és um segredo que a vida revela
E revela em ti mesmo,
Para ti e ninguém mais,

E se vives o que és
Desvendando o segredo
Tu és o Mistério
Com que a Vida se faz.



sábado, 28 de maio de 2011

Porto Alegre e os queridos



Passeio por Porto Alegre
Como quem em si passeia,
Sentindo a cidade
A correr-me nas veias.
E cruzo com Quintana,
Weingartner, Érico, Elis,
Baril, Iberê, Caio Fernando Abreu,
Lupicínio, Ellwanger, Reverbel, Ramil
A criarem História
Com o que a vida lhes deu:
Uma alma sangrando
Os brilhos da Mente.

É grande esta terra porque é
Grande a sua gente.



sexta-feira, 27 de maio de 2011

Há de haver



Porque a carne é forte
Há de haver poesia,
Como é forte a alma,
Há de havê-la.

Porque a vida a rolar
Me desenrola,
Porque a vida é um canto
Eu a canto.

Porque a vida vale
E é bela,
É tão bela a vida,
Ou nem tanto.

Há de haver poesia
Porque há encanto,
No olhar da criança
E do poeta
E no negror da noite
Há uma estrela.



sábado, 21 de maio de 2011

O poder da palavra



A palavra lavra a mente.

Larva de borboleta,
De gente, é a palavra.

Ávida de um ouvido paciente,
Em busca de um novo sentido,
Para encontrar um agente,
Lavra a palavra um ruído:

E um mundo pode ruir,
Um mundo pode surgir, 
Pelo poder da palavra.




sábado, 16 de abril de 2011

enigma


Sou pêndulo, e me movo
Pelo mundo e fora dele,

Sou uma formiga em fila,
Velho cão com cicatrizes.

Sou o homem mais comum
Com meus instintos felizes,

Mas também sou Aasvero,
Um ambíguo forasteiro.

Há momentos em que tenho
O Vazio por meu país
E vasculho a Eternidade
Como um pequeno aprendiz.

Se, às vezes, sei bem pouco
De outras me brilha a mente
E eu descubro as respostas
Sem pensar, feito vidente.

Nos meus sonhos vi países,
Monges, templos e desertos.
Sonhar é um outro espaço
Onde eu sei estar desperto.

Assim, sou como tu,
O Enigma num disfarce,
Céu e terra, água e fogo,
No dia-a-dia a encontrar-se.




silêncios



Silencio, fico quieto
Percebendo-me os cios,
A energia nos fios,
Meus movimentos de rios.

Fico fluindo no mundo
Que corre em mim, eu o sinto.

Calo, pois sei pouco das coisas
E o pouco que sei eu não falo:
Prefiro ferir a vida
Com a sonda do olhar.
Ao tocá-la me reconheço
Uma parte a se perceber.

Sei pela arte que a Vida
Revela-se a pouco e pouco
E é sendo lúcido e louco
Que tenho os olhos de ver.




domingo, 20 de março de 2011

Japão



Círculo vermelho no centro da bandeira branca,
Que o olho oriental pode ver Belo,
Mínimo a expressar totalidade, ou sol e neve.

Japão que me traz perfume leve
De cedros e madeiras,
De maresias costeiras.

Imenso Japão, imerso em história,
Sol sempre nascente,
Imenso Japão
Por sua imensa gente.

Vi pela TV a onda negra
Engolindo-te as carnes,
Até onde a vista discerne.

Vi o sol transformar-se
Em mancha nebulosa de sangue
Sobre a branca neve:
Bandeira manchada.

Mas, feriu-se a pele,
Japão, jamais teu cerne,
Porque o jovem japonês
Deu seu prato de comida
Ao velho faminto,
Esquecendo a própria fome,
E a Alma, conformada
Por antigas crenças
Que os avós deixaram,
Refez com suas mãos de fada
O círculo vermelho
No centro da branca bandeira

Com o que era apenas neve
De sangue manchada.

sábado, 12 de março de 2011

Dança


Para Miriam Toigo–D′Angeli, amiga e bailarina brasileira

Tudo dança
Desde que Shiva,
A mover pernas
E braços,
Lançou o êxtase
Do ritmo
No vazio negror
Do espaço.
Surgiram o vento
De uma corda em movimento
E o seu som
Com um compasso.

As partículas
Tomadas de energia
Congregaram–se
Na dança,
Com quântica euforia..

E, num segundo Movimento,
Veio ao mundo a Bailarina
Para fecundar com sentimento
Aquela dança divina.

La Sylphide, o Quebra-Nozes,
Giselle, Coppellia, Paquita,
O drama humano, dançado,
Torna a loucura bonita.

Dança para nós, bailarina,
Em teu transe de poesia,
Gira como gira o mundo,
Toca nossa alma no fundo
E nos faz também bailar,
Que ao dançar criamos asas
E, tendo o Universo por casa,
Nos permitimos voar.




quarta-feira, 9 de março de 2011

Uruguay




Alarga–se a vista até o mar e suas entranhas
E a brisa ondula–se em cabelos e areias.
Abrem–se os porões dos sonhos e das sanhas
E eu aspiro o aroma de maresias nas idéias.

Uruguay, onde minha alma vai achar morada,
Despida de temores e em busca de si mesma,
Se ao andar por tuas praias, matas e estradas,
Eu caio em mim por águas turvas ao abismo,

Em ti, eu desemboco por uns rios no mar
E, sem pensar, sou poemas a se alinhavar
E a poetar me ponho quieto e iluminado.

Tu és o espaço–tempo em que eu, enfim, me vejo
El viejo poeta, intenso de verbo e desejos,
Em algum outro destino que haverei traçado.



Punta del Diablo, aldeia de pescadores, Uruguay

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sofia de Hallis



Este silêncio que anda pela casa
É uma gatinha perolada,
De patinha aveludada,
Ronronando a me buscar,
Sempre a mirar fundo nos olhos
Girando em torno,
Tocando o rosto,
Tentando afago.

Era a mais doce presença,
com olhos de azul–água,
Hoje, ausência amada.




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Las palomas de Puebla


¿Vendrán de España
Las palomas del Zócalo de Puebla?
Me parece que vuelan
En España todavía,
En lo fastuo del paisaje
Que entorna catedrales.

Asimismo, en Zaragoza volarían.

En el aire fresco dan volteretas
Y posan una tras otra en las ramas del laurel.

Vuelan en paz las palomas de Puebla
Y de España, o de El Cairo en otros días,
La preciosa paz para las palomas
Niños, viejos y, nada más, la Poesía.





terça-feira, 11 de janeiro de 2011

um homem qualquer



Um homem é o Homem.

Sua vida equivale
A tudo que é.

Sua vida desde
O ventre até
O último suspiro
Do homem velho.

Nada maior
Para quem é humano
Nenhuma teoria,
Força histórica,utopia,
Moda, justificativa
Regra ou lei,
Tem mais valor
Que uma única
Vida humana.




quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um dia qualquer



Sim, o Natal é um dia qualquer

E como em qualquer dia,
O sol cruzará o horizonte
Reinaugurando a vida, e das fontes
Brotarão água e poesia.

Pelas ruas do Bom Fim,
Mil vezes respirarás
Sem dar-te conta
E, sem dar-te conta
Serás mais sábio
E mais profundo.

Na Bela Vista verás
A Terra transformar-se
A cada giro
Que ela gira desde que
O mundo é mundo.

Sem dar-se conta,
No Parcão,
Surgirão mais flores
E, em silêncio,
Vingarão em frutos .

Crianças chegarão
Aos seus primeiros passos
Nas casas do Moinhos
E amores produzirão
Beijos, abraços,
E, (por que não?), alguns espinhos.

Sem que nos demos conta
Triunfará a vida,
A silenciosa,
E desapercebida,
Gerando mais vida em mutação,
Com átomos que não vemos
E cordas e dimensões
Que nós desconhecemos,
Em plena Redenção.

E aí repousa o Mistério
Deste Natal, como de qualquer um:
Os mais preciosos bens
Que em ti vivem, vivem por ti
Sem que nem te dês conta
De tão perenes, humildes e comuns.



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A verdade

A verdade:
Por ela já morreu um hebreu,
Um ateu, já se prendeu
Alguém como eu.

Por ela já se matou
Na Revolução, ou se desfez
O que esta fez
Quebrando o Muro
Aos murros.

Todo discurso burro
Pensa dizê-la,
(Ela, sobre a qual
O sábio cala).

E qualquer idiota
Quer ensiná-la
Com a força dum decreto
Ou à bala.

A verdade,
Tão diversa,
Complexa,
Incompleta.
Tão pessoal
Como impulso
Ou idéia.

A verdade é  
Inatingível ideal.

Se te impõem
Uma verdade,
Destroem-te
Algo de valor igual:

A Liberdade.

E é nisto que consiste
O Mal.












sábado, 20 de novembro de 2010

À busca de Marcel

Sinto a luz coada pelo vidro baço
Tocar-me a alma mais que o braço,
E as cores, os perfumes, tomar um sentido
Que é como uma memória de já os ter vivido.
Onde já percebi este aroma suave
Que vem bater à porta da memória?
E aquela cor alaranjada
Que deixa de ser quase nada
E torna-se crucial evento de minha história?
E são os tons, toques de cor numa retina,
Ou, então, os sons: ventos e passarinhos,
As marcas de tantos anos e caminhos
A se mesclarem em uma poção divina.




Realidade

Os meus olhos perderam-se de ir
Seguindo a terra até onde ela termina:
Ali, o horizonte é a última esquina
E restam o abismo e o negror com estrelas.

Além, tudo se passa sem que a gente saiba
E somos observadores do que não sabemos.
Não cabemos no espaço onde o Todo caiba,
E é neste ínfimo intervalo que então vivemos.

É preciso olhar de novo para minha terra,
Nela reconhecendo o que sonha e erra,
Mas que, por ser meu igual, eu compreendo

Em toda dor e júbilo, prazer ou desgraça.
Somos plantas com raízes no que vem e passa,
Neste pequeno mundo, a seguir crescendo...







sábado, 30 de outubro de 2010

Para não dizer que não falei...versão 2010


Como dizia o velho Carlos,
A História só se repete como farsa.
Os companheiros tornaram-se comparsas,
Mudou a professora da USP: foi-se a economista
Que chorava, veio a filósofa irada.
Uns raros poetas ficaram, e alguns outros globais.

Mudaram os inimigos: a boa imprensa
Agora é fascista, e calunia.
Após longos oito anos de dirceus, genoínos,
Erenices, e toda a rede conhecida,
E a, talvez para sempre, desconhecida,
Entre cenas hilárias como o dinheiro
Nas cuecas, voltam sorrindo
Feito virgens vestais
Defensoras da democracia
Sem as quais, como disse o Rei-Sol,
O dilúvio, não Delúbio, adviria...

Oito anos de discursos idiotas,
Metáforas “que nem” má filosofia,
A história se repete, e o país,
Como de costume, dá de graça.

Crêem que cremos em tal farsa
(E impressiona, pois ainda há quem creia):
Pelas ruas de miséria sempre cheias,
Perambulam as crianças exploradas
Apesar de um estatuto que as protegeria.

Favelas em cósmica expansão,
Escolas da pior categoria.
Esmolas brasilienses não serão
Para o Brasil a terapia.

E o Rei a marginais se (nos) associa:
Um que planeja usinas nucleares,
Após amordaçar Venezuela;
Outro que mantém prisões políticas
Naquela ilha sempre mais raquítica
Por ideológica anemia;
Outro além, que à "adúltera" sacrificaria
E planeja varrer deste planeta
O antigo povo de Israel.

Se crêem, que seu voto deles seja,
Porém, atentos como o insone!
Se houver, da parte desta corte,
A idéia de nos calar a voz,
A História desta terra pede a nós
Que em algum momento do futuro
Desfaçamos, por favor, a espúria farsa.



sábado, 9 de outubro de 2010

Momento simples


Onde o ar expande-se mais amplo
Em brisa aberta sobre o campo,
Levando o fruto das lavandas,
Adiante, mais adiante,
O teu sorriso esboça-se: diamante,
Por que há a paz de andar e a de ser,
Eu sou feliz aí e neste instante.
Arándanos colorem a paisagem,
As vacas pastam em qualquer paragem,
Cavalos correm livres no horizonte,
A água brota de uma humilde fonte
E tu sorris num pôr-de-sol rubi:
Neste instante, eu sou feliz aí.

Ah! coisas simples, sumo desta vida,
Eu vos percebo quando sou feliz.







segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Akousate (Ancient Greek Music)




Ecôa em ti: escutas?
O som primal que vem no vento,
Na concha, na folha em movimento,
Na estrela e na galáxia
Na tua alma pelo sonho e pelo anseio,
No ritmo do mar?
O que te diz (diz a poesia):
-Ecoo em ti: me escutas?




sábado, 18 de setembro de 2010

Tempos 1

Houve um tempo em que a vida
Vinha como punhalada,
E o rosto do tempo era duro,
Uma escura veladura
De Caravaggio.
Eu tinha, aqui, neste peito
Uma chaga dolorida
E havia uma doida varrida
Zanzando nas minhas ruas.
Eu lia então Pasolini,
Genet e o bom André Gide.

Depois me veio outro tempo
Em que do fundo do peito
Fluíram deuses e sonhos
Frutificando o meu cio,
Trazendo rumo ao meu rio,
E dentro de mim revivi

Terras e tempos diversos.

Também fora eu os conheci
E estiveste comigo, amante,
Ao carvão tornar-se diamante,
(Estava também Marcel Proust).

Tu ainda segues comigo,
Namorando em Barcelona,
Embasbacando-se em Naxos,
E no grande frio, bem ao Sul.
Hoje me encantam o Espaço,
Os amplos campos e o dia,
Sigo lendo Thomas Mann,
Ciência e filosofias,
Eu vou ainda te amando,
A esboçar vida e poesia.



Tempos

No tempo em que havia a Poesia
O dia era mais do que um dia:
Era algo inexplicável.
E teu corpo tocando o meu
Era a vida tornada imóvel.
Imóvel, imutável, indefinível, inalcançável:
Havia tantas palavras
Que sentimentos diziam
Quando havia a Poesia.

E agora, quando não há a Poesia
Como fala o sentimento?

sábado, 11 de setembro de 2010

Poesia fractal

Tamborilam gotas no telhado:
A chuva marca o ritmo do dia.
Na mente também ressoa um ritmo
Que vai dançando poesia,
Que vai lançando cantoria,
Que vai somando tons e dia,
Num som-de-fundo que se amplia.
Basta atentar-se ao silêncio
Para o som da alma vir a ser:
Gera-se o ritmo feito de palavras
E o que não havia vem nascer.
Nasce de uma estranha matemática
Em que o caos revela-se em fractais:
O que nós somos impregna-se nos versos
Mesmo que não saibamos o que ser jamais.





sábado, 4 de setembro de 2010

Metafísica

(Não há um caminho,
Há caminhos).

Viste passar por aqui
Aquela menina Vida?
Ela buscava por ti
Nas suas idas e vindas...

Ela passou por aqui
E ninguem lhe deu boas-vindas.

Mas não há uma vida,
Há vidas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Como se fosse uma oração

Deus,
Ópio natural que me permite
Não depender de exógenas morfinas,
Venerável Desconhecido: meu meta-sentido,
Liberta-me da religião, a tua sombra.
Afasta-me dos idealistas
Que queiram moldar-me
Ao que eles crêem.
E dos que seguem um Livro Sagrado.
Liberta-me, Senhor,
Do líder, do guru e do pastor.

Ilumina minha crítica
E que, ao crer na Aparência
- A face de um fato -,
Eu saiba transcendê-la
E aprofundar-me no Real.

Tu, que dás vida a anjos e a vermes,
Liberta-me dos puristas e fiéis aos Partidos,
Crentes de que a Teoria é a Verdade.
E também dos bonzinhos revolucionários
Que, recorrentemente,
Dedicam-se a inventar a roda,
Acabando por amordaçar as liberdades.
São fantoches de fantoches de fantoches
De sei lá mais quem,
Que, ao fim, deve ser fantoche também.

(Mas, não sendo mais fantoche,
Que Eu não desmonte ao me livrar dos fios...)

Tu, senhor dos agnósticos,
Que, ao criar infinitos caminhos
Produziste as esquinas e,
Portanto, as incontáveis dúvidas,
Liberta-me do tormento
Das certezas absolutas.




domingo, 8 de agosto de 2010

O eterno exíguo (ou a memória)

Lenta, a memória acerca-se na mente,
É cheiro reconhecido, antiga voz a vibrar no ouvido e:
Visão!
Lá está o que era e ainda é
Pedaço do Universo onde eu fiquei
E a tua voz de então...
No peito entorna-se
Um calor de brasas:
Tu ainda aqueces minha casa,
Paixão.
Somos para sempre dois meninos,
Olhares dados e corpos atados
Mas mais que dois corpos,
Dois irmãos.
Será esta memória estar vivo
Num outro tempo que, embora exíguo,
É eternidade numa aparição?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um poeta

Disse-me o poeta:
Não espere que eu seja raro,
Ou lhe diga palavras belas.
Sou uma coisa comum
Como o céu cheio de estrelas.
Passo em silêncio no mundo
Mesmo ao viver nas palavras.
Sou como um brilho que cega,
E o barro que cobre a lava.
Sou e serei para sempre
Um distante desconhecido:
Metade e o dobro do Homem,
O Completo e o Dividido.
Não me peça sabedoria
Pois o que eu tenho são versos:
Eu nada sei deste mundo,
Sou eu o meu Universo.

domingo, 18 de julho de 2010

Facetas do real

Silenciosa caverna, cova,
Paraíso onde enfurnar-se
No qual arqueia-se um teto:
O ancestral útero em disfarce.

Lá fora é frio e há neblinas,
Crianças esmolam nas esquinas,
Ainda, como aqui nos é fadado.
O povaréu desvaira em orgias
De coca, ruído, fumo e álcool,
E há o pivete que nos sequestraria.

Mas cá, aromas de café e pão na mesa,
Um coro entoa Bach para eu ouvir,
Falo com Borges, Goethe e Pessoa,
Ou, se quiser, eu sonho Debussy.

Aqui, tomo o Caminho dos Guermantes,
Vou com Marcel redescobrir o Tempo,
Ou eu me lanço em precipício simbolista,
A decifrar, extasiado, a Mallarmé.

Aqui, ouso correr o risco imenso
De amar a vida assim como eu a queria,
Posso dizer que te amo, ou o que penso:
Que o Homem é bom, que em tudo há Poesia.









sábado, 17 de julho de 2010

Um sonho

Do tempo, que nasce por que o espaço respira,
Vieste dizer-me que há mais do que eu via.

Estrela vestida de manto açafrão,
Voamos na noite da urbe dormente.

Cruzamos paredes de aço e cimento,
E entramos no Templo da Iniciação.

Falavas no cerne da minha caixa craniana
E era sem palavras que tu me dizias:

"Há um tempo sem tempo além deste tempo
E a vida é mais ampla se a alma se amplia".

Queria voltar contigo no tempo,
Queria manter-me para sempre no Templo,

Mas já era hora de arar, e o sol
Dourava teu manto, e tinhas de ir-te.

E assim tu partiste, e eu só e eu triste,
E eu a buscar te rever toda a vida.

Mas a tua imagem ainda ressoa:
De manto açafrão,
Grande alma, alma boa.


sábado, 3 de julho de 2010

antigo segredo

A vida que flui é a mesma que fica:
A flor que tu vês é uma flor e a Flor.

Os passos que dás são o Rumo e os teus passos
E os teus abraços são uns braços e o Amor.

Há mais que o que vês no que vês ou que és,
Há um fundo sem fundo que é como uma Fé,
Em qualquer momento fluindo a passar.
Há todo o mistério do mundo no olhar.

Se olhas o breu que nos encima o céu
Com os olhos de ver já não verás o breu
Mas ninhos de estrelas em púrpura seda
E palcos de vida, e mais seda e mais céus.

E como no Espaço, o infinito se esconde
Num grão de poeira, tão vasto qual o céu.

E este é um segredo que emana de tudo:
Se tu queres ver, tens que retirar véus.

a cigana (ou la gitana)

Deixo o olhar preso numa roda de dança
Onde a cigana enfurna-se em fundas cavernas
E o fogo crepita no meio de tudo.
Girando e girando, cantando e cantando.

Em torno, há a secura de terra crestada
E mil oliveiras, e o breu entre estrelas.
Em torno há a vida e a morte, e em torno
Há todo o silêncio que escuta o cantar.

Perfumes de noite e de terra orvalhada
E o sabor do vinho, e o vinho na mente.
Ali estou eu num viver diferente,
A mirar la gitana na dança fremente.

Eterna memória vivida para sempre.

domingo, 6 de junho de 2010

Atenção!

Nem tudo se relativize:
Entronar ao criminoso
É também crime.
Ser amigo do tirano
Também o é.
Eu te vi de mãos dadas
Com quem desfez Venezuela,
Dividindo um país,
A semear medo e silêncios.
Eu te ouvi cooptar
Com quem mantém Cuba
Atrás das grades...
Relativizaste
A verdade por ideologia,
A mesma que matou milhões de russos,
chineses,cambodjanos,
Atormentando homens
Ao limitar a liberdade.
-Delírio idealista que
espalha crueldades_.
Não nos é dado a tudo relativizar:
Conivente com o crime
És criminoso.
Que meu povo não o seja.

domingo, 2 de maio de 2010

Aos iniciados (pintores, porto-alegrenses e agregados)

Pensaram que a Redenção de Iberê
Fosse metáfora:seria, Iberê?
Mas,
Por ali ainda passeiam os ciclistas
E, nas alamedas, infiltra-se um sol
Com poesia e pinta no chão terroso
Deliciosas manchas como as de Monet
-tons amarelos em violáceo pano-
As quais Baril viu ser geniais.
As copas das árvores tecem filigranas
Em colunas de azul cerúleo.
Cães passeiam exibindo os donos e
Os garotos buscam mistérios onde já
Não os há, ou talvez, ei-los por lá,
Pois tudo, ou quase, depende do olhar.

Seria a Redenção uma metáfora?

Vida

Que a vida flua: lânguida luz lunar 
Ou raio suave de um sol de dentro, 
Que flua a vida botando broto em crescimento, 
Mente e corpo em movimento, 
Sentido em sentimento, ou, sem sentido, 
Que flua como som no meu ouvido: 
Declarações de amor em espanhol. 

 Que venha a vida como queira, a conhecida, 
A misteriosa, pedra mais preciosa. 
Que venha a que medra, a que espreita no vazio 
Até que surja a hora, feito um cio, 
E a tudo desabroche. 

 Que venha, apolínea e dionisíaca, 
A regrada e a sem regras, 
A lúcida e a doida, 
A que eu entendo, e a que eu nem sei sequer. 

Que fluas, vida, sempre nova 
E inesperada, fazendo um fogo 
No meu peito, deixando sêmen 
No meu leito, trazendo sonho 
Às noites e visões aos dias. 

 E sobretudo, vida, 
Quando já não houver mais jeito 
 Que me mates 

De poesia.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Igrejinha em Vivlos


Templo antiquíssimo,
Onde as almas dos avós
Proclamam ainda o amor do Cristo morto.
Igreja, porto
Aos que, barcos atingidos
Pelos ventos dos tempos modernos,
Buscam mirra, incenso, salmodias.

Vozes entrecruzam-se
Em colunas manuelinas
Recitando em grego antigo
As palavras divinas.

Igreja antiquíssima,
No alto do monte,
Diante dos tres moinhos
Que sustentaram a Vivlos pequenina.

Portal ao mundo arcaico,
Onde o Ícone vivo
Semeia e colhe
Em um homem
O Logos do Homem.





As cíclades


Cíclades
O barco vaga
Sobre ondas azuis,
Mar azul verdadeiro.
De Thira a Ios,
Até Siknos,
Folegandros, Milos,
Sifnos, palavras de poesia,
Lugares de beleza.
E o mar:
Esmeralda líquida
A mover-se
Com delicadeza.





sábado, 10 de abril de 2010

O talento de falar com talento


Só dirá que tudo vale quem desconhece valores...

Sempre haverá alguma alma de poeta,
À gauche, idealista, libertária
Que romantize a realidade
Levando-te a comprar gato por lebre.

Exaltará a favela (longe dela),
E a cultura nacional (lendo europeus),
Conclamará à luta (de um escritório),
E pregará um novo Sentido (sendo incréu).

Fará de um marginal o teu herói,
Confundindo os teus valores por não tê-los,
E pregará mudanças radicais.
Se não cuidas, ainda será o teu modelo

Até que a chuvarada desmantele
A beleza da miséria maquilada,
E o lixão que está sob o Carnaval,

Com uma torrente de jovens drogaditos,
E adolescentes grávidas, dopadas,
Frutos do amor do Talento com o Mal.



sexta-feira, 2 de abril de 2010

existência ou ideal

O melhor de nós talvez esteja
Nas coisas banais do dia-a-dia:
Na mão que toca, na boca que beija,
Nos restando entender sua poesia.

Ou, além do que existe aqui e agora
Algo de mais antigo e mais profundo
É o melhor de nós e a vida implora
Que o tornemos real: obra no mundo.

E a resposta é opção ou é destino?

sábado, 20 de março de 2010

O fluxo das palavras

Palavras formam corrente,
Rio de palavras, fluente.

Mas de onde me vêm as palavras?

De alguma alta montanha
Coberta de neve e silêncio,
De um cimo dentro de mim.
E estas palavras que descem
Buscando entregar-se ao mar
Matam as sedes que tenho
No esforço de me encontrar.

Poesias são sentimentos
Vestidos de som e ritmo,
E o dom do poeta é ser leito
Da própria alma a escoar.

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

Bérgamo


Tênue memória de algo não vivido:
Debruçando-se, Bergamo, desde os Alpes,
Espalha-se ao longo da colina.
Lá está a praça onde o Leão nos mostra a Lei
E, atrás, a catedral em pedra rosa.
Logo adiante, de novo, a neve alpina.

Vielas medievais, frio que me falta.

Como és minha, Bergamo antiga,
Cidade Alta.

domingo, 3 de janeiro de 2010

O vazio



Silêncio, idéias, sussurrem apenas,
Balbuciem o novo.

Silêncio, memórias, venham suaves,
Usando pantufas.

Que eu quero calma a mente,
Viva feito gato ao sol, cão dormindo, bebê olhando
A luz da casa pela vez primeira.

Quero este nirvana aquém (além) do pensamento
E da luta,
E sem pílula, fumaça ou poção
Posso abordá-lo,
Sem qualquer esforço posso
Penetrá-lo pois ainda sou
Animal.









sábado, 28 de novembro de 2009



Como os corpos, as almas se desejam:
Na multidão procuram encontrar-se,
Tentando decifrar no toque ou beijo
O que há de verdadeiro num disfarce.

No Universo de matérias misteriosas,
Tecido em quantum, fóton, leis como fios
Seu encontro é o da luz com a mariposa,
Multiplicando-se universos em seus cios.

Mais que aos corpos, às almas desejamos
Para o desfrute profundo do que somos
E daquilo que não temos, sendo nosso.

Se me afogo em teu amor, poço sem fundo,
Posso emergir em qualquer parte do mundo:
O amor nos transporta em Tempo/Espaço.




domingo, 13 de setembro de 2009

Alquimias


Muda, silenciosa, a vida
E eu, mudo, com ela.

Transmuta-se terra em água,
Água em fogo, fogo em terra,
O ciclo reinicia-se, se encerra
Aquilo que foi um dia o sal da terra,
Mas que, por leis de Alquimia,
Fez-se fardo que me emperra.

Algo redireciona-me a seta:
O que nem era visto, a semente,
Frutificou em Árvore da vida
Dando-me o fruto de uma nova meta.

E isto sem que palavra fosse dita
Porque a vida na Obra flui silente:

Muda mudança inconsciente.





domingo, 23 de agosto de 2009

El vacío




El Vacío no es vacío:
Es el Centro, así decía
Una voz cuando cantaba.

Ya lo sabía, pues también lo siento dentro:
El punto al que me acerco si concentro,
Fuente de la buena agua que me lava,
Silencio bienvenido entre ruidos,
Distinto, hay que decirlo, de la Nada.

Linda voz me cantaba el Vacío,
Magma fluyendo, dulcemente, nueva lava.





domingo, 28 de junho de 2009

Velhos amigos



Viemos de onde juntos, em que pátria
Nossos pés iniciaram as pegadas?
Lá ficaram nossas vestes, nossos hinos,
Peculiares sombras desgastadas.

Esquecemo-nos da pátria abandonada,
A convivência antiga se esqueceu,
Mas suaves aromas do passado
Impregnam o novo enigma que sou eu.

Por isto, ao vos rever por esta vida
Sinto-me em casa, e ao estarmos perto
Vivo a emoção de coisa conhecida,

Respiro fundo o aroma de outra brisa,
Frescor de outono suave num deserto.
Ou novo vento que minha nau precisa?
(28jun2009)




domingo, 21 de junho de 2009

Poesia

Às vezes
Sinto-me frágil
Se há pouco estava forte,
Torno-me aflito como se
A minha parte de Infinito
Fosse chegar à finitude e à morte.
E, nesta onda que reflui ao fundo,
Sinto que eu sou só um no mundo
Até onde minha vista alcança.
E permitindo-me tremer nas bases,
Ponho-me a escrever tais frases
Num desespero à beira
Da esperança.




O poeta

Magro poeta, a voz
É o teu músculo.

És teso e intenso,
Infenso à sedução
De uma certeza fácil:
O claro demais cega,
Do justo demais duvidas,
Mas o obscuro ressuscita-te e
É ele que te incita
Ao verso, ao verbo, ao vasto
Poço onde te apossas
Do absurdo não ousado.

Dado que és ao jogo
De tentar saídas nunca tidas
Como tais,
Te lanças neste mergulho
Pelo Novo
No qual tu te transformas
Quando sais


.

Flores de plástico


Gestas na noite a tua cara lavada,
Geres a entrada pela porta estreita.
O teu corpo com o corpo de alguém se deita
E tua alma vai para a rua olhar estrelas.

Livre dos rituais, dos medos e atavismos
Tu te confortas ao cruzar abismos,
Cantando poesia em meio a sismos,
Tempestades, cataclismos.

Mas deixa fluir as águas mansamente,
Deixa o presente apagar o passado, sente
O perfume das manhãs o qual ora não sentes.

Entre tais brumas de noite e de cigarro,
Fog, urbano trago de ilusões
As emoções são fardos mais pesados,
Florações de nada, flores de plástico,
Ácido corrosivo para quem deseja
Algo simples, mais humano.

Tu, ali, conhecedor das modas, dos papos
Infantis das rodas, dos trapos chiques,
Dos chiliques e dos gêneros,
Tu, que já pisaste na areia movediça
Destes jogos efêmeros, olha agora
Para o mar aberto,

Sorri para alguém sem medo,
Fala de ti, desembrulha o segredo.

Sai do degredo da superficialidade
E deita, de alma e corpo, com alguém
De corpo e alma, larga o Andy Warhol
E vai, com Picasso, lançar cor e emoção
Reais nesta cidade de aço, coca e álcool.





Ovo


Imaginada
Imagem, virgem
De vida real, integralmente
Ainda dentro, íntegra
Alma de um teu pensamento,
Aragem filha do interno vento,
Instinto ainda sem intento.
Vage, bale, brilha pequeno,
Bólido distante na abóbada,
Estrela enorme, minúsculo ponto
No firmamento.
Fantasma do que não conheces,
Pérola trancada na concha,
Semente de trigo novo,
O fantástico com que teces
O que te tece:
O ovo.


A Mitologia dos Gregos (K. Kerenyi): 
Nix era "pássaro de negras asas e que, fertilizada pelo vento, concebeu o ovo prateado no infinito útero da escuridão. Deste ovo saiu o filho do vento que sopra, deus de asas douradas, Eros, o deus do amor." 


Noites do Bomfim




Abro as portas a furacões,
Ventos antárticos,
Renovadoras massas polares.
Renovo os ares,
Estou em terra conhecida
Qual se soubesse onde estou.
A noite sonâmbula
Navega por minhas veias.
Sou caminhante
Dos rumos ignotos, sem culpa,
Ou mágoa, ou crime, ou votos
Quaisquer que aprisionem
Coração, sexo e vista.
Olho o que passa,
Vivo o que posso,
Sei o que faço,
Ou não sei tanto assim.
Desconheço-me,
Atingido pelos ventos dos
Deuses polares,
Tomado pela euforia
Da noite do Bonfim.

Noite negra, que envolves violentamente
As ruas normais da cidade,
Transformando-as
Em soturnos guetos, em noturnos becos misteriosos,
Envolve com calma o Bonfim nos teus mistérios,
Transforma a Redenção em Hyde Park imerso em fogs,
A Oswaldo em Soho, promete Londres aos garotos,
E a ancestral descoberta do mundo e do sonho
Aos que aqui já gastaram tantas solas.




A musa





Divina musa,
Donzela dos pés alados,
Das musas de antigos
Poetas,
Tísicos bardos,
Sentas no meu sofá,
Pegas um livro, um cigarro,
E entre baforadas,
Repetes os velhos fados.
Lês algo de Byron,
E mal controlas
O riso disfarçado.
Tosses, e tentas Rimbaud,
O menino endiabrado.
Mas olhas, Musa, para mim
Com uma cara de enfado.
Estas coisas que declamas
Não estão do nosso agrado.

Levantas, arrumando
As leves vestes.
Os teus brancos braços
Se estendem docemente.
Não é magia que fazes
Para mostrar um dos teus dons:
Pegas um disco qualquer
E pões no aparelho de som.
É Caetano. Tu sorris:
-Isto é bom, isto é bem bom.

Enquanto ouvimos acordes
Que iniciam a Vaca Profana,
Tu declaras, discursando:
-Pelos deuses! Tornei-me humana.
E após mais algum tempo
Em que a música nos toma
Beijamo-nos docemente
Eu e tu, na minha cama.




Transgressões (poema de 1990)



Tenho pranteado bastante
Por força do amor frustrado,
Mas desejo um levante
Do meu lado endiabrado.

Descobrir-me como sou,
Fraco e forte, em dor nascido,
E roubar o fogo dos céus
Que ao Homem é devido.

Sei que não há castigo
Para quem queira possuí-lo;
Quero ter força e tato
Para roubá-lo tranqüilo.

E dane-se a miséria
Do romantismo solitário.
Quero a vida com roupa nova
Guardada no meu armário.

Que se dane, finalmente,
A ordem preconcebida.
A vida é um desafio
E transgredir é a vida.




Palavra e desejo




Dor de querer, dor de amar
Sem ser amado.
Parecemos bicho aprisionado,
Aquele bicho gritando
Diante do abate,
Pedindo vida à Vida
Antes que a Morte o mate.




A morte do amor



Na despedida rumino idéias recorrentes,
Repasso memórias, retenho emoções.
Remoer.

Há ratos metidos nos meus esgotos
Roendo coisas ainda vivas.
Revivo o afeto vulnerável
Com emoção punitiva.

Volto às covas onde agoniza
O amor frustrado.
Fez-se sombrio o que era iluminado.

O Amor é um jovem belo,
Deitado, meio-morto, sobre as pedras
Na caverna lodosa.

E há ratos neste lugar,
Destroçando emoções deliciosas:

Ratos roendo
Rubras rosas.




Separação


Então as almas que,
Amantes, eram fogo,
De repente são só bruma.

A graça dos deuses vai-se
-Fugidia chama-.
Despenca no abismo
A pira incandescente
E esvai-se a brasa
No mar e sua espuma.

Silente, a nova noite
Não repete as frases
Ouvidas da amada criatura.
Não há sonhos, desejo, tortura.
O coração bate quieto,
Devolvido à sua normal
Temperatura.

A vida não dilacera,
A hora é satisfeita,
O amante não amado
Não mais está à espreita.

O corpo esfria, a alma deita
E dorme o sono conhecido.
Retorna ao fundo do peito
O amor daí surgido.

Mas o coração não desespera,
Pois se houve a graça
A graça é verdadeira.
O perfume do amor
Impregna a alma inteira.





Pressentimentos (poema de 1983)


Pende a mente no fio tenso
Sobre o abismo.

Sou poeta se não penso:
Malabarismo.

Barcos em cais do porto,
Neblinas, amores marinheiros
De Fassbinder.

Ondas quebrando nas pedras,
Vibrações de interiores sismos,
Ideações sem forma: naus
De velas batidas por estranhos ventos
Cuja direção é como o pensamento
De algum deus suspenso
Sobre nuvens.




Noite

Gosto da noite quando principia.
Chega com as mãos quase vazias
Puxando fios de Nada e de estrelas,
E, lentamente, imensidades fia
Só pelo prazer de assim tecê-las.

Gosto do seu misterioso olhar de estranha,
A sempre estranha noite que me cobre
E, sem que eu queira ou saiba, me transforma
Num ser tão misterioso como ela.

                                       

                                          (pintura de Gustave Raynaud, “Noite“)

sábado, 20 de junho de 2009

As chagas


Nada que valha
Mais do que isto:
Ter a navalha do amor
Cravada no peito
Como as chagas do Cristo.
Quisera não ter paixão,
Mas ela vem
E eu não resisto.
Tenho cravada no peito
A navalha do amor,
Eu desisto.
Mesmo se indo a paixão,
Na solidão, eu insisto:
Se surge na minha vista
Alguma feição
Que me toque a emoção
Eu invisto
E recoloco a navalha
No centro do peito,
Sem saber se é falha
A emoção, eu a aceito,
Ainda que não valha
O que a ilusão diz
Que é perfeito,
Eu sei que algo de bom
Deve vir disto:
Sentir a navalha
Do amor cravada
No peito, como as chagas
Do Cristo.




Sobre Morte em Veneza



Prisioneiro entre o sol e o teu amor sincero
Sou, às vezes, uma chaga na pele do mundo,
Por onde purga o magma, e eu me abrindo.
Eu, que já não creio na poesia do menino lindo.
Eu, que fui escravo do estético dogma,
Sei que o espiritual nisto esconde
O simples desejo, e isto é belo
Desde que se saiba o que o sacia.

E todo o lirismo romântico, o Idealismo
Alemão, não conseguem disfarçar
A noção óbvia de um tesão.

Amo a beleza, amo-a agora menos servilmente.
Prisioneiro do amor sincero sei
Que a beleza também mente.




Mirada



Inigualável par de olhos
Negros:
Profundos, sombrios vales,
Frescos rios, nuvens
Estelares, arabescos,
Danças de bailarinas árabes,
Flamenco,
O teu olhar de Espanha à noite
E eu o comendo.

Eu te comendo
De tanto olhar
Que eu entendo
Porque é oblíquo o teu olhar
E exíguo em tempo.
É só um flerte,
Algo no ar,
De um segundo.

Mas como é enorme
O teu olhar
E como é fundo.




Caminhos de Porto Alegre




O rio espraia-se
E espelha
O sol de um Apolo gaucho.

Frescor de selva
Em Porto Alegre.
Quase em pleno centro:
Redenção.

Sou como antes
Menino incauto e inculto,
Com rompantes de poesia
E arte transbordando.

Talvez seja feliz este momento,
Tranqüila amplidão de mente.

Só sei que ando em Porto Alegre
E é um dia claro.
A vida não parou e eu não páro.

É isto simplesmente.



A ausência



Palavras permeiam meu sono,
Vagueiam doidas, divas vãs da noite,
E, sem divã, na cama, sem um coito,
Fico sentado como em um trono.

As palavras vêm livres e ardentes,
São Solidão, vultos, fantasmas,
Anjos, pais e mães, e outras gentes,
Que estão falando pela minha casa.

Sempre voltada para uma janela,
Tua figura bela está trancada,
Osso entalado na garganta, cela.

Estas palavras são tua voz calada.





Transas



Leve, vou ao mar
Que há dentro de mim.
Livre, vôo no ar:
Sou serafim.

Liso, o teu corpo,
O teu corpo morno.
Sinto e já não penso,
Simplesmente sinto.

Fico feito a longa luz da noite,
Aureolando o teu sexo com neons.




Fogo e vento

Tenho nas carnes fogo vivo,
Nas carnes freme meu fogo,
- Febre, tontura, arrepio -,
Um ardor de uivo de lobo.
Um bailaor flamenco devo
Em outra vida ter sido,
Um menestrel medievo
Em outro tempo esquecido.
Um caminhante de desertos,
Nômade, a esperar ter por perto
O corpo de qualquer um.

Tenho na alma o vento
Que vem de lá não sei onde,
E que traz o pensamento
Com que a alma me responde.
Devo ter sido algum monge
Aprisionado em mosteiro
Olhando a vida de longe
E rezando o tempo inteiro.
Algum tibetano velho,
Ou pregador de Evangelho,
Evitando amar outro alguém.

Este fogo e tal vento
Como uní-los a contento
Sem machucar a ninguém?

Lava

A poesia sulca a terra
E vai tão fundo
Que chega ao magma do mundo
Trazendo afora o sangue das estrelas.

E assim, sentindo
A força que tememos,
Um fogaréu que é nosso
E não sabemos,
Escrevemos como loucos
As palavras,
Mesmo sabendo que é pouco
O que dizemos
Deste fundo que há no mundo
E não vemos
Fazemos odes à lava.

Mas nem sempre a poesia
A terra cava.
Ela cava quando quer.

E o poeta, então,
É o corpo
Que a poesia
Desnuda, desbrava,

Ou somente
Um fecho-éclair?


(Ilustração colagem do autor: poeta fecho-éclair)


Em torno do Flamenco



Estou marcado de morte
Se me encontrar contigo.

Chamem os matadores!

Que venha o pai com o chicote,
E a mãe afogada em lágrimas,
Os vizinhos e o escândalo,
Que vou me encontrar contigo.

Que venha a ira de Deus,
Os deuses do Olimpo venham
Pois eu roubei o fogo dos céus.

Eu vou me encontrar contigo.

Que venham o medo e a vergonha,
Que às 11 eu estarei contigo,
Que venham as Fúrias e as feras
Às 11, amor. Espera....




Da morte



A morte abarca
O mar e a barca.
A vida é que ata
Os fios desta rede.

A morte é uma teia,
A vida é uma sede.

O mar lentamente
Reflui ao inverso.
A mente é a vida,
A morte é o disperso.

A morte é um rombo
Na linha do verso.




Pampeana

Ateia-se o fogo de chão.
Na noite fria,
Cercados de campo
Os homens
Silentes
Parecem não mais ser gente,
Só parte da imensidão.

Ventos antárticos minuanos
Murmuram lamentos gitanos.

Os animais se aquietam,
Não mais desejando nada.
É noite no pampa.
Enorme abóbada
Estrelada.

Campo frio, calor das brasas,
É estranha a vida de quem tem
A imensidão como casa.

Alguém canta uma cantiga
Que ouviu lá não sei onde.
(Canto de tempos passados).
O som do minuano responde.

Nada se pensa enquanto o mate
É passado de mão em mão.
A sabedoria é sorvida
Com silêncio da solidão.


Alma madrileña

Minha alma é madrileña,
Noturna freqüentadora
De cafés e antigos bares,
Boêmia alma de inverno,
Alma de outros lugares.
Minha alma é sevillana,
Gitana mulher dançando,
Em torno de uma fogueira
Numa noite de sexta-feira,
Cantando.

Jamón crudo, vino, tortilla,
Almodovar demonstrando
Que Madri é uma beleza,
Cidade de mil pecados,
Mas tão humana e tão densa
Que chega a ter inocência
E os erros perdoados.

Fogos carnais madrileños,
Paixões vividas no escuro,
Espanha - mulher, grandes seios,
Ainda árabe e intensa.
Madri é a vida para fora
A que ama e que chora,
Mas que se encontra na dança.



Falo do Egeu



O mar Egeu
Busca no breu
Da profundeza
O violáceo tom
De sua beleza
Para imitar
O Céu.
Cobre-se
De ondas
E de espumas,
Veludo azul
Singrado
Por escunas,
Sonhado
E sonhando.
O mar Egeu
É eterno menino
Brincando
Com conchas
E em cavernas
Rochosas.
Homem viril
Vestido
Com roupas
Vaporosas.




amor inexato



Amo-te inexato,
Como uma memória.
Lusco-fusco de um sol
Que vai descendo.
Amo-te
Lembrado.

Amo-te intacto,
Como algo presente.
Realidade humana
De erros tentados.

Amo-te, ideal
De algo nunca sido,
Primeiros minutos
Do melhor dos dias,
Fonte de indagações e
De ações heróicas.

Amo-te de verdade
E em fantasias.

Amo-te, estranho
E desadaptado,
Em triste som
De tangos e de fados,
E amo-te, inteiro,
O último e o primeiro
Dos meus amores
Mais amados.

Amo-te, alegre,
Com poesia.



Sina



Por algum ditame das estrelas,
Algum desígnio divino,
Alguma trama do destino,
Surgimos assim.

Por alguma profecia celestina,
Por uma estranha sina,
Nascemos assim.

Por alguma mutação genética,
Ou ação familiar anti-ética,
Ou uma floração estética,
Somos assim.

Por algum cochilo divino
Ou por sua tacada mais certa,
Surgimos assim
Com esta alma incerta.

Por uma praga maldita,
Ou bendita coincidência
Nascemos assim:
Sem inocência.




Transe natural


Ritmo no silêncio do quarto.
A voz interior, a dança,
No teclado do computador
Me alcança,
E palavras surgem de repente,
Frases inteiras presentes.

Nada químico excita minha alma,
Nada químico de fora, porque dentro
As substâncias cerebrais
Misturam-se aos poucos
Dando voz com palavras
A impulsos loucos
Que todos têm em si,
Porque eu não os teria?

Química natural de um transe em lucidez
Que faz haver palavra onde o vazio havia,
Que faz haver um ritmo no silêncio inglês.



Sou do sul

Sou do sul, o inverno inverso,
Singular e plural, urbano e rural,
Prosa e verso.
Sou do sul, enigma a esmo.
Eu tento a resposta e a questão
Sou eu mesmo:
Sou o igual e o diverso
Do povo que canta e dança
Em atávica fantasia,
Mas meu canto é estranho
Ao cantar que contagia
Ancas e pernas:
Meu cantar tem nostalgia
De coisas mais ternas.
A poesia que trago
Tem um gosto doce e amargo
De tango e cominho.
Canta em mim a voz cigana,
O arrepio
Da alma agreste
Civilizada por um fio,
Civilizada
Por um italiano bravio,
Um negro gentil,
Um alemão que se abriu,
Um português no seu cio,
Entre índios que fizeram catedrais
E falaram latim.
Sou do sul, porque senti
Na década de setenta
Um fervor de guri
Pelas coisas sagradas
Do paralelo trinta.
Ser do sul não se inventa:
É - se
E não serve
Complicar nossa fala
Com outros erres e esses.



Ir-se


Dentro da tarde gris
Despejo meu coração,
Vinho na taça.

Sentimento e emoção
Dizem que sou feliz
E o tempo passa.

Lento, o meu pensar
É uma orla de mar.
Um barco seguindo embora.
Quem fica não ri nem chora:
Sabe o porquê
De haver um ir-se na vida.
Há sempre uma despedida.
Assim foi e assim é.

Mas enquanto o instante
Instala
Seus móveis na minha sala
Uso-os
Porque são meus,
Até que, após algum tempo,
Serei eu a ir embora
Ninguém sorri, ninguém chora
Quando eu disser adeus.



o cio de cada um



O meu amor
É maior
Que um amor.
Amar-te
Não é tudo:
É parte.

Se partes
Me parto
Em pedaços,
Mas junto
Com os braços
As partes
Num parto.
Se vais
Me deixo
Morrer
Por algumas horas
Mas, se a alma
Chora
O espírito entende,
E a vida
Reacende
Sua eterna chama:
Meu corpo
Ainda vive,
Minha alma
Ainda ama
E o ardor
Que eu tive
Por ti nesta cama
É meu,
É uma chama
No escuro
De breu.
Se partes
Não fico vazio,
Existe o meu cio,
Então existo eu.



Desejos





O dia anseia pela lua
E a noite tem fome de dia.

A mente procura consciência
E a consciência quer poesia.

E a poesia deseja...
O que deseja a poesia?





Lorca

Tenho nas mãos sementes
De ouro
E na alma, cios lunares
Desde que quebrei
A ânfora antiga
E soube dos seus
Segredos.
E os segredos
Levam à altura
E aos fuzis.
Lorca que o diga:
Os segredos escondidos
São os que o mundo
Não quis.

Poético nome, Lorca.
Lembra-me amores
E bala e cova e forca
E a eterna desconfiança
Da força quanto à Arte.
Força e forca,
Lorca e poesia.
Segredos desnudados
São crianças
Brincando sem vergonha
Em qualquer parte.

Não partisse a ânfora
E seria, então, normal,
Respeitados segredos.
E não que houvesse
A idéia de rompê-la.
Porque havia segredos
Quebrei - a.
E ao ver, Lorca,
O enredo
Soube da força,
Da forca e dos fuzis
Que guardam
A sete chaves
O segredo
Que pode fazer de alguém
Alguém feliz.



Do poetar


Imagem medonha e suave
De um vulcão cuspindo brasa:
A poesia lhe chegava como um susto
- soluço, suspiro, dor, espanto -.
Cavalos fugidos da cocheira
Correndo, livres, no campo.

Via-se, trêmulo, mirando
Cadáveres de amores numa tela
Interior, que era outra vida
Repetindo sua vida inteira nela.

A roda gigante lhe trazia
Outra vez o que o Novo ocultava.
A poesia era memória transbordando
-Velho vulcão gerando a nova lava-.





carnaval



Um hilário enredo entorta a História.

Batendo latas, se remontam as glórias
Da inglória pátria de tardias bacantes.

Confundindo-se a vida com a poesia,
Desgraça se traveste de alegria:

Redenção de escravos delirantes.



Sobre o criador



Criador e criatura

Nasces em mim
Como um filho,
Criador.
Nasces de mim
Como obra,
Meu autor.
E isto depois
De tanta vida,
Tu que és o meu
Princípio.
Eu te encontro
No ápice do monte
Ao abordar
O precipício.
E tu és tão fácil,
Imaginava-te
O Difícil.
Tantas regras criei
E tu me chegas solto,
Pelo mundo todo andei
Mas é a mim mesmo que volto
E te encontro
Em minha casa.
Subindo ao céu
Sem uma asa,
Eu desço ao fundo.
Criador
Das possibilidades,
Autor dos sonhos,
Do meu mundo,
Sonho contigo
Desde o berço,
E tu, viajante,
Que eu pensava
Estar distante
Estavas aqui
Desde o começo.



A presença

Só Deus é certeza.
Alma
Da matéria arcaica,
Alma do negro-púrpura
Do espaço,
E das estrelas, laço
Entre o que vive
E a pedra.
Deus poeta,
Produzindo pérolas,
Artista nobre
Arquitetando estrelas
E que nem sabe
De religiões.
Deus alma - menina
Do Universo
A nós também
Tem como berço:
Nossa vida
É esse Deus a amar.




Armadilha


A vida é uma armadilha.
Em ilha ou continente
Seguimos uma trilha
E eis que, de repente,
Nos prende o mistério,
Eterno caçador.

A vida é o seu império,
Ele é o nosso senhor.

Se tentas não ser caçado
Apegando-te ao banal
És haste, és pedra, és prego,
Engrenagem, massa, animal.

Mas se teus olhos já vêem
Este mistério ocultado,
Já que este mistério vem
Acompanhando-te ao lado,
Se tu és afeito às brumas,
Às luas que todos sentem
E ao fogo, se te acostumas
A viver só, entre ausentes,
Se teus olhos já espelham
A face deste mistério
E é sério o teu empenho
De ser do mundo e etéreo
(Se ages lúcido e louco,
Pés na terra e alma em estrelas),
Então a trilha é tua vida,
Tu és ilha e continente,
És a caça e o caçador,
És o mistério consciente:

És o teu próprio Senhor.




Antes


Antes que a face faça-se sombria
E o tempo marque a pele com as unhas
E os olhos deixem escapar os sonhos...

Antes que o coração perca o compasso
Tornando o corpo casa abandonada,
Antes que o Todo se refunda ao Nada,
Vive a alegria de um primeiro dia.

A ave frágil pode voar agora,
Tão leve sono despertar na hora
Ou antes desta num instante estranho.

Tamanho bem merece ser amado
Antes que a Hora tenha te chamado,
Para que o Sonho seja mais que um sonho.




catavento

A noite retém restos da tarde
Como memória adormecendo.
A ampla noite ao dia invade,
O azul purpúreo envolve a tarde
Que já o esperava, evanescendo.

E a brisa fresca lentamente aflora
De alguma fria caverna ou mar distante,
Ou desce a brisa da alta cordilheira
E, balançando os galhos da figueira,
Cresce em vento num instante.

A cidade silencia, sibila o vento
Nas frestas e janelas mal fechadas,
Sussurra o som das distâncias viajadas
Das montanhas à urbe de cimento.

O som noturno é um lamento,
Uivo soando enorme pelo pampa
Com a pompa de um coro em andamento:
Ritmo gaudério que a noite viva canta.

Dorme a cidade,
O pampa canta ao vento.






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O fogo dos céus

Quem cuida a chama dos céus
Se há vento pelos espaços?
O gaúcho sabe dos laços
Entre o seu fogo e o de Deus.


O pampa agita-se ao vento
E no fogo a brasa crepita.
Nos céus brilham fagulhas
De uma fogueira infinita.




Pop


O pop é pobre.

Usa as regras da Arte
Como disfarce do podre.

Acha beleza na blusa,
No jeans, na lata sem alma,
Tem como musa Naomi
Que, como a lata, é Campbell.

Gente de marca, de alma
Sem griffe , musculada
Gente em crise,
Gente anabolizada.

Gente que ri ante as câmeras
Antecâmaras da fama
(Câmaras de gás e de nada).

Gente que se corrompe
Para ser alguém um dia,
Transformando-se no avesso
De um verso que escreveria.

Gente que se engalfinha
Por migalhas de prestígio:
Fagulhas de uma fogueira
Acendida sobre o lixo.

Aparências e apetites
Mesclam-se no lamaçal:
Miseráveis, vestindo Armani,
Com prestígio mundial.

Travestis da consciência
Entronam-se com inocência
No império Coca-Cola,
Tudo é coca e nada cola:
Tudo rui pois nada é essência,
Tudo tomba sem sacrifício
Com o sorriso perfeito
De um comercial de dentifrício.




Outras vidas


Tribo
Tenho exposta na alma
Uma paisagem de antes:
A tribo berber vagando
Pelo deserto de bronze.

Guizos nas mãos das mulheres,
Gritos de festa entre os homens.
Eu, entre a atávica tribo,
Sem pensamento, vagando.

Veio de onde a imagem,
Veio porque a vertigem
Que fez de um sonho viagem
Ao país de minhas origens?

Memórias da minha alma,
Pedaços deixados quais rastros
Impregnando de árabe
A pele da minha carne.

(O amor pelo longo vento,
O ardor do verso nas veias,
A idéia como uma alfanje
Das lutas sobre as areias.

E esta voz, voz cigana,
Em canto quase dorido,
Que louva ao deus a quem ama,
Soando no meu ouvido...)

Tanto tempo se passou
Desde esta marcha africana,
Mas o deserto ficou
Fixado na pele qual escama.

O deserto e o céu em chamas...


Sonho
Vejo-te, ainda, cúpula de ouro
Encimando o templo enorme:
O templo de pedras e o muro
Onde se lamenta o Homem.

Era manhã de que século
Aquela na qual eu te vi ?
E era eu árabe ou filho
Das gerações de Davi?

Não importa...Sei que és
Tangível na minha memória:
Um fragmento da história
Nos porões desta alma viva.

Séculos já se somaram
Àquela outra antiga idade
E teu brilho dourado ainda invade
As minhas horas sombrias.

Que o poético Alá te proteja,
E Javé Elohim diga amém,
Cúpula dourada que beija
O céu de Jerusalém.




Memória e vida

Digo ao tempo: aqui vivi,
Por estas ruas caminhei sonhando
Com outras mais antigas,
Nauta entre vagalhões de tempo.

Levei o fogo aonde pude,
Poeta que o havia roubado,
E confesso que meu fígado,
Mil vezes refiz:
Eu, o acorrentado,
Eu, a ave que castiga.

E vi tudo que podia,
Sábio cego, Édipo forte:
Imensa e frágil viga,
Feito vida suportando a morte.

Remonto o vivido:
Vida imensa em  minúscula vida.
Cada minuto não cabe em si mesmo
E uma cola mágica flui dos momentos,
Selando pacto
Entre os intervalos.

Tudo é intenso, tudo é fundo
Tudo de mim flui pelas veias
E eu renasço nos frutos da parreira.

Eu te olho, tempo, fascinado
Por ainda poder te ter,
Fruindo a vida verdadeira:
Corto o seu talo
E ponho-me a sorver.



Brasilidades


Vergo às vezes.
Sou contêiner de melancolias de tanto sonho
Enclausurado.
Sebastianista, vislumbrei a idéia de um brasil sofisticado
Em tudo que um dia tenha feito,
Seja de música, de povo e de pecado.
Mas se a semana de vinte e dois
Nos libertou
Do jugo europeu
Lançou-nos no outro, americano,
Mais feio, funk, e o que era
Se perdeu.
Colonialismo?
Tanto quanto o que agora
Impera, inspirando gangues ao ataque,
Ou colocando o atabaque além
Do cravo de Bach.



Do amor


O amor é um menino
Cantando na vida
Um estranho hino:
Tudo se pode,
Tudo se espera...

O amor é menina
Dançando na vida
Uma dança gitana,
Envolta na dança
A menina se encanta
E se encontra
Pois ama.

O amor somos nós,
Meninos crescidos
Dançando e cantando
Num estranho destino:

De sermos amantes
Vivendo na vida
Um amor diferente.

Mas tudo se pode,
E tudo se espera...




Vozes

Mercedes ao fundo:
Voz de flauta de bambu.
Mercedes canta Facundo
Em milonga branca e azul.

Mercedes é ampla, pampeana
E de estatura andina.
A voz de Elis era faca
De água cristalina.
Elis cantou
Atahualpa,
E Violeta quase divina.

Saudades de Elis Regina...




Sevilha



A Espanha espalha-se
Do Saara ao Cantábrico,
Do brio mouro amordaçado
Aos ares frios do Norte.
Na terra crestada
Pelo sol sevilhano
Laranjeiras ladeiam ruas
E as ruas são ramos
De algum tronco
Ou sonho,
No desenho fractal
Dos bairros da Judiaria.
A catedral recende
À mirra e lá repousa
O ouro inca
E o peso dos gritos
Infindáveis de reis índios
Aprisionados e mortos
E o peso de todos os sexos
Afrontados pelo horror
Católico,
A não ser,
A não ser,
A não ser
Pelo átrio perfumado
Onde há ainda a leveza
De um árabe menino,
Berber arquitetando
Alcazares
E escrevendo poesia
Em pedra:
Ancestral grafitti.



Noite arcaica

Uma roxa seda vem flutuando
Desde o alto do céu ao horizonte
E o violáceo, em negro se tornando,
Transforma o ver no oposto, num instante.

Mas não há negrume absoluto e
O enorme breu se borda com diamantes,
O infinito espaço dá-se ao diminuto
Mundo, oferecendo tentações distantes.

O pensador dispensa o livro antigo
E olha o céu, objeto pesquisado.
Quer decifrar o mapa que o Amigo
Deixou no negro véu bordado.

O poeta acorda da diurna sesta,
( A noite é a vida deste bardo ),
E ele transmuta o negror em festa:
É a voz da noite o seu cantar ritmado.

As gentes sonham em quietos quartos,
Ouvem mensagens pela noite dadas,
O descobrir-se de almas são quais partos
Multiplicando idéias e estradas.

E há amores loucos, há gemidos,
Sussurros roucos de milhões de amantes:
A noite é amiga dos sentidos,
Enche de fogo os dias entediantes.

A seda violácea se esfumaça,
Brilha ainda mais diamante, e prata
Surge em fímbrias. O dia se dilata
Enquanto a antiga noite passa.




Eu e a poesia


De onde vem este passado vago
Que desperta parábolas e idéias:
Vinho da vida, ou apenas trago
De aguardentes coisas velhas?

Coisa de insano ou coisa de poeta
Ter esta alma inflada pela Chama:
Grande balão voando sem ter meta,
Estranho amor que ama porque ama.

Não sei...apenas sinto pensamentos
Roçando, em fluxo acelerado,
Minha cabeleira feito estranho vento.

Fora da vida em que movo e atuo
A poesia aflora livremente.
O meu monólogo, em verdade, é um duo.



Homem e Pampa

O pampa, verde e enorme
É linha reta, horizonte
E a alma do caminhante
É com o pampa conforme:

Campo fértil, grande alma,
Vento de longas distâncias,
O amor do homem e suas ânsias,
A tempestade e a calma.

Homem agreste e sentindo
O poema que vai surgindo
À medida que ele se move.

É como se sua alegria
Fosse o sol claro do dia,
Seu pranto, a chuva que chove.





domingo, 14 de junho de 2009

A primeira nota


Tensa, a corda soa com o vento.
Vive o ritmo do puro som
A corda acesa.
Festeja-se o movimento
Como o primeiro:
Universo parindo beleza.

Tua voz soa às vezes com o pensamento
Num estranho ritmo de melancolia.
Não há festa. Tudo já foi dito.
Há tristeza no Universo que nascia.

Mas, às vezes, tua voz é alegria,
Universo brotado, big bang no momento.
Tudo nasce de novo, é o primeiro dia,
A primeira nota, o primeiro intento.