terça-feira, 31 de outubro de 2017

Homenagem

Para Themis

Foram-se as catedrais.
O olhar nublado, que procurava Deus nos pergaminhos,
Olhou afora e, finalmente, viu caminhos
E vales e montanhas e formas e corpos e mistérios tantos,
Que transformou a fé que havia em espanto
(O mesmo espanto que empolgara a Tales de Mileto
Nos inícios da grega Sofia).

Voltou-se ao mundo, perquirindo a um feto
O que é a vida e sua anomalia...

A vida respondeu-lhe com seus dados
Como a um grego antigo ela faria.

E a mente, iluminada, teve a Idéia.

Ao tê-la, o homem frágil tremeria,
O descuidado a esqueceria,
Mas em Themis era outra a Paideia:
A mente clara, sol do dia,
Banhou a terra fértil da emoção
E a Idéia frutificou em Obra Humana
No misterioso processo de criação,

A transcendente Alquimia.


quarta-feira, 25 de outubro de 2017

A górgona

A Ideologia é a Medusa 
Que empedra o Pensamento.
Ela o seduz, o doma, usa,
Monstro ctônico violento.

Parece ser divina musa, 
Ao confundir-se com o Ideal,
Mas não o é porque 
A Medusa abomina o Real:

O indivíduo imperfeito 
Que, ao ser frágil e mortal,
Vai percebendo, do seu jeito, 
O que é o Sagrado no banal.

A Ideologia é a Górgona. 
Há que cortar o seu poder
Com a dúvida de adaga.

O nocaute é descrer!



segunda-feira, 21 de agosto de 2017

mar grego

Move-se o líquido topázio suavemente,
Imenso corpo a balançar atrás e à frente,
Banhado pela luz solar que ruma ao poente:

Morna água do mar, túmido ventre.

Que força te pôs a dançar ?

Qual deus foi fonte
Desta imensa massa de azul e horizonte?



sábado, 22 de julho de 2017

Manhã na Beira

À querida Elba J 

Sábado chega em luz e fresca aragem.
Soam  sorrisos no ar da rua, e o gato
Aqui dentro da casa faz espalhafato,
Miando alegrias, deliciosa linguagem.

Movem-se ramagens, desperta a poesia,
Surgem lembranças de ouro e perfume:
Algum amigo anjo, envolto em brumas,
Reconta-me o passado em melodias.

Cá estamos nós, na Ibéria que sonhamos,
Ou é apenas sonho a vida em que estamos
E outro mundo sim é o estar desperto?

A mim pouco interessa qual a alternativa:
É certo que é Sábado e a vida canta vivas,
A transbordar em verso águas ao deserto.


sábado, 8 de julho de 2017

Poeminha fáustico

A vida se refaz, quando compreendes
O que era dor confusa, caos interno.
Vês o que é humano no que foi inferno
E cresces para o céu, das tuas raízes.

Somos de toda ciência os aprendizes.
Com ignorância, nos damos ao mundo
E, do humus da inocência que há no fundo
Do que nos fez sofrer, fluimos felizes.

Ninguém te ensinará o que não ousaste
E nunca serás sábio ao não viver tua vida:
A pedra só é polida na dor do desgaste.

Sente em silêncio o dom que conquistaste:
És como porta que ao se abrir faz-se saída
E ao trazer luz, permite à jóia revelar-se.







sexta-feira, 26 de maio de 2017

poema no intervalo de almoço

Escrevo um poema em folha de papel
Porque era assim que sempre eu fazia:
Com tinta eu gravava o parto da poesia
E em verso alcançava o inferno e o céu.

Eu tenho poetado em espaços digitais,
Lançando nas redes sonhos e desejos,
Mas delícia é esta folha em que eu vejo
Minha alma nos rabiscos que me saem.

Há algo de mais nobre no poema escrito
Como o fez um outro artista no seu rito
De transbordar o que era com a caneta?

Eu te confesso, ao fim volto ao teclado.
O que me importa é o que resta registado
Da sussurrada voz do interno poeta.




sábado, 6 de maio de 2017

poema com cores

Um poema de fase azul, de fase rosa, poema
Cinza-prosa, um Goya negro, ou só frases
Sem cor, ou em qualquer cor: só um poema
Saindo sem suor, pena sem pena.

Poema que vem assim solto, suave,
Como uma nave interestelar em warp,
Sem dor alguma, que o o poeta já não carpe,
Somente som e alma livre, leve ave.

Que seja este poema um vinho tinto
Com o qual eu brindo à vida, quando sinto
A poesia, cintilante flor de lótus

A rodopiar, fuso no alto da cabeça,
Celeste, púrpura, rósea, violácea,
Luz diamante, em versos, que me brota.









terça-feira, 18 de abril de 2017

Henri Marie Raymond Toulouse-Lautrec Monfa

Vejo-te a manquejar na noite, de bengala,
Cobrindo a cabeça  com um chapeuzinho,
A visitar bordéis por distantes caminhos
Do centro de Paris onde te instalas.

O mundo é tua sala, tu és sempre sozinho,
Ainda que estejas em meio a tanta gente,
Desenhando rostos, corpos, a beber um vinho.
Tu és sempre o diverso, observador ausente.

"O que fiz de minha vida? Nada ou pouco
Fiz", tu pensas, a trabalhar em uns esboços.
"Eu, um nobre, um artista rengo meio louco".

Mal sabes tu o quê a humanidade espera:
Tuas cores e teus traços inspirados em Degas
Para descobrir em ti o que a Arte será.





quinta-feira, 23 de fevereiro de 2017

Calina


Suave névoa alaranjada
Vem velar a paisagem:
Areia do deserto de Saara
A chegar de viagem.

Não é fumo, ou vapor,
Não é fog, nem é bruma:
É o chão da pátria dos berberes
A mover-se desde as dunas.


https://cdn1.newsplex.pt/fotos/2017/2/23/570852.JPG?type=Artigo

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

zen

Deixa
A água cair
O fogo queimar
Deixa
O tempo fluir
O corpo cansar
Deixa
A dor moer
A mente brilhar
Deixa
O amor viver
A paixão passar
Deixa
O homem perder-se
O homem se achar
Deixa
O erro mentir
A verdade calar

Deixa

Porque sem deixares
Tudo isto se passa
E em vão
Tu te queixas

Então vive
A vida 
E deixa a vida
Seguir
Como 
Bem
Queira

Deixa



segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

intuição

A verdade desconhecida
Poreja sempre dos fatos
E espalha perfume raro
De inconsciente saudade.

Antes de ser provada
É intimamente sabida
E ao prová-la, por isto,
É tão óbvia a verdade:

Essência que falta à vida.





domingo, 22 de janeiro de 2017

Alma de artista

אֶהְיֶה אֲשֶׁר אֶהְיֶה, 


Tenho a alma exposta nas mãos,
Fluem-me as palavras ao movê-las,
Escorrem-me cores pelos dedos,
Pelos poros, a suar, a alma exalo.

Pelos olhos sinto a alma a envolver
Os olhos de quem olho face à face,
E o sorriso é minha alma a mostrar-se
Assim, nua, alminha sem disfarce.

Meu coração bate por ela, e a mente
Conta histórias, diz uns versos, sente
O que ela lembre, sonhe, ou invente.

Já sofreu minha alma, e era evidente,
Mas hoje, em poema, diz às gentes:
Sou o que sou, (uni)verso em catarses.



quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

adjetivos e suas surpresas

Não há nada mais Americano
Que um negro americano
Cantando,

Nada mais Ocidental
Que um japonês.

Não há nada mais Brasileiro
Que um paulista
Em protesto
Na Paulista.

Não há nada mais futurista
Que uma casa branca
Num campo não poluído,
Nem maior cidadania
Que paredes
Sem graffiti.

Não há nada mais ousado
Que a garotada a curtir Handel.

Nada mais fora de moda
Que piercing e tatuagem,
E sexo sem proteção
Ou com qualquer um.

Nada mais velho
Que sentimentalismo bobo
Aplicado à Política,
Ou à (má) poesia.

Não há nada mais descrente
Que um crente
A repetir versículos,

Nem mais religioso
Que um cético astrofísico
A falar sobre
Infinitos
Multiversos.


sábado, 26 de novembro de 2016

o herói do povo

Fidel Castro morreu

Com quantas vítimas se constrói um ídolo?
Com quantas mortes se edifica o herói?
Mortes de corpo e alma: mortos-vivos,
E os mortos por faca, forca, carabina.

Com quantos infernos institui-se um paraíso?
Quanto de miséria transvestida de riqueza, 
E gritos no calabouço silenciados por hinos?
Com quanto de pequenez encena-se grandeza?

Com quanto de violência se simula a Paz,
E de indecência proclamando-se a Utopia?
Com quanta mentira se calam as consciências?

Quanto de atraso implica um Novo Mundo,
Quanto de descaso, crueldade, mal profundo
Para haver o herói do povo e sua audiência?










domingo, 25 de setembro de 2016

mistério

Cada um de nós é
Formiga, átomo,
Grão de poeira,
Tão pequeno quão grande
For a lente que se use,
Ou a escala que se queira,
Mas pelo mistério
De haver Consciência
Em torno de cada um
Gira o Universo
E é para cada um
Que o Infinito escreve

Música e Verso.






domingo, 14 de agosto de 2016

trilha sonora

Ontem abriu-se a caixa de Pandora
Ao som sedutor do Crowded House.
Escoaram emoções, rotas comportas
Do dique que continha o esquecimento:

Reviveram num instante as madrugadas
E doces amores, tantos, que se foram,
Rondas noturnas, transas, dancings,
E companheiros idos com o vento.

Ouvi de novo Cazuza, Lulu Santos,
Gloria Gainor, Christie, e Chicago.
Pandora abria aos meus sentimentos
Aqueles doidos dias do passado.

Não foi somente saudade o que senti,
Foi brotar vivo de novo nas memórias
Todo o amor, o sonho, o frenesi,
Com a trilha musical da minha história.



segunda-feira, 1 de agosto de 2016

Rara experiência comum

Depois de muitas décadas, assisti a uma missa. Fui irresistivelmente levado por um impulso a sentar-me na Catedral negra, feita de pedra vulcânica, de Clermont-Ferrand, como o era na linda antiga Igreja neo-gótica do Menino Deus. A catedral de Clermont-Ferrand se mantém ali há quase um milênio, enquanto a de Porto Alegre, que era uma jóia arquitetônica, foi substituída por um cubo de concreto e tijolos à vista. Assim são as opções culturais que embrutecem a inteligência de alguns povos. Sentei-me num dos bancos de madeira e fiquei admirando a arquitetura sóbria e as pessoas, de todas as idades, que começaram a encher o templo. A comunidade de Clermont-Ferrand. Confesso que, de algum modo, viajei à infância e me senti em casa naquela que é ainda a minha ecclesia, a essência com a qual me identifico: ocidental, imperfeita mas aprendendo, baseada no sacrifício pelo amor e que, ao absorver as culturas grega, latina e judaica, consegue-se manter em pé por mais tempo que esta catedral. Em Clermont-Ferrand estava em casa e esta é a função de um templo. De repente uma música impressionante brotou do imenso órgão localizado atrás da nave, enchendo o ambiente com um som inicialmente atonal, depois, lentamente, transfomando-se em uma harmoniosa sinfonia. Não reconheci o autor, mas percebi o seu gênio. Refleti que as pessoas trazem do mundo o caos das suas existências, representado pela atonalidade, e que, ao longo da missa, na integração com a ecclesia, este caos pode-se transformar em cosmos, numa harmonia rica como a Natureza. Um caminho inverso à obra de Adrian Leverkühn, o compositor do Fausto de Thomas Mann que, ao viver na Alemanha Nazista, passou da harmonia à atonalidade, refletindo o contato do homem sensível com o diabólico poder do Totalitarismo. Alguém veio até mim para pedir que eu fosse um dos que leriam pedaços do Evangelho diante da assembleia. Declinei do convite, sou visitante! O padre, o qual me evocou aquele outro degolado há alguns dias em outra catedral gótica francesa, veio a sorrir na direção de cada um de nós, cumprimentando-nos pessoalmente. Um aperto de mão. Bon jour, mon fils. Bon jour, prêtre. Ele se dirigiu ao presbitério, enquanto uma senhora de aparência absolutamente comum começou a cantar, talentosíssima soprano que era, uma das mais lindas canções que eu já ouvi. Esta voz divina se manteve acompanhando todo o percurso da missa, junto à sinfonia do órgão e das vozes das pessoas da comunidade. Um espetáculo, encenação neste caso de alta qualidade como convém ao interior da França. Compreendi que isto é que compõe o ritual da missa. Teatro, o mais puro e ancestral. A representação da tragédia inicial, o drama do herói que se faz pequeno ao viver sua humanidade, é sacrificado na experiência humana, mas sobrevive à morte. Teatro de rara beleza, teatro como os gregos ensinaram, no qual culto e arte perdem seus limites. Ao representar o drama fundador reintegra-se no fiel a ideia original, o sentido. Pessoas da comunidade subiam, de tanto em tanto, até o presbitério e liam pedaços do drama. Alguns jovens manejaram estojos de prata distribuindo incenso no ambiente. Houve pão de hóstia e vinho. Cumprimentamo-nos todos. E encerrou-se a missa, num ambiente de suave euforia envolvendo uma surpreendente multidão. Quantos jovens, quanta gente! Confesso que depois de décadas, este cristão aqui ficou tocado por recordar algo que lhe permanece vivo no coração. Especialmente nestes tempos graves em que o símbolo do sacrifício pessoal por amor aos outros tem sido violentado pela tenebrosa distorção de um sacrifício suicida que visa a destruição de inocentes em nome do Terror. Mas esse sacrifício egoísta e cruel é a mentira palavrosa do demônio que enlouqueceu o herói fáustico de Thomas Mann. Nesta missa em Clermont-Ferrand o que reencontrei foi a voz suave de um verdadeiro amigo. E a boa nova é que ele vencerá, pois é amor indestrutível.




sábado, 25 de junho de 2016

Orlando



Um poema sobre mistérios conhecidos
Em homenagem à progênie dos bonobos
A celebrar a vitória destes símios
Sobre a violência estúpida dos lobos.

Genes que geraram entre os humanos
A civilização helênica famosa
Onde, em banquetes, o Eros
Que tu amas cantou poesia e prosa.

Sócrates despediu-se de Atenas
Nos braços de Alcibíades, o amado,
Alexandre, preso às coxas de Heféstion,
Conquistou o mundo, enamorado.

Adriano semeou templos, cidades,
Pelas costas do mar Mediterrâneo,
Como honra à morte de Antínoo,
O deus efebo, sagrado eromenos.

E muito além das bordas do Egeu
Brotou o amor de Ganymede e Zeus:
Pelos rumos de Siwa, dois berberes
Cruzaram os desertos de mãos dadas,

Na América viveram os berdaches
De dois-espíritos, homem e mulher,
A sonhar os sonhos de sua tribo,
E a revelar o rumo que um deus quer.

Michelangelo e Da Vinci, pecadores,
Inverteram o Medievo em Arte e Ciência
E verteram seus amores em ternos poemas
Tendo a graça de mancebos como tema.

Noutra era, por Verlaine, Arthur Rimbaud
Incendiou com um zelo iconoclasta
As bibliotecas de regras sobre o amor:
Fogo de escândalo do gênio autodidata

E Marcel Proust ao retomar o Tempo,
Trouxe à luz que esse vício imanente
Não ousa revelar o próprio nome
Mas é ainda a base oculta do Ocidente.

Para André Gide, este amor que era o seu
Não é um vício, mas sim fruto da terra.
Se o grão não morre, e para ele não morreu,
Confere um atávico antídoto à guerra.

O grande Gide acabou excomungado
Da Santa Chiesa que usa a culpa do pecado,
Como mais tarde, o jovem Lorca foi baleado
Feito bicho em algum mato andaluz:

Pelo amor que uniu Pátroclo a Aquiles,
Que inspirou aos artistas e poetas,
Desde muito antes de Alá e Maomé,
Antes mesmo da Bíblia e de Jesus,

Desde a sagrada descendência dos bonobos,
Os avós dos avós dos avós de todos,
Que, ao amarem, distinguiram-se dos lobos
E enraizaram este amor dentro de nós...