sexta-feira, 26 de outubro de 2012

a passagem do tempo


Sinto a passagem do tempo: uma brisa nas cortinas,
Um movimento de águas serpenteando para o mar,
Ondas marcando ritmo com a precisão de um relógio
E o coração a bater, mantendo-me vivo a lembrar.

Amo a passagem do tempo, este fio ligando-me partes,
Laço que trama o que sou com instantes impermanentes,
Fonte das minhas lembranças, as musas de qualquer arte.
Amo o tempo a passar que, ao me levar, dá-me a vida.

Mas sei que além deste tempo aflora-se em outro tempo:
Fluxo do Cosmo a mover-se, compassos de escala imensa,
Onde o passado e o futuro desaguam num amplo Hoje...

Nesse tempo, além do tempo das chegadas e partidas,
Nossa mente é a do animal que tudo sabe e não pensa
E a nossa alma é um baú onde o Tempo inteiro cabe.




sábado, 6 de outubro de 2012

Ouvindo Freire


A alma se expande e aprofunda-se
Na música: Nelson Freire se apresenta e
A rudeza mais rude acalenta,
A emoção mais seca dessedenta.

Há música e o olhar, sem ter mira,
Vê o som mover-se
E a noite escura também ver-se
A surgir no poema como em surto,
Em susto, em ritmo e rima.

Surge a poesia porque há música
E, por Freire, Schubert reinventa-se...


sábado, 29 de setembro de 2012

um dia...



Sem mim, como sempre a vida segue
E com todas as alegrias que eu tive,
Com todas as experiências que vivi
A vida seguirá sem mim, embora.

A vida me dirá: adeus, já é hora,
E sorrirá, olhando-me de esgueira
Como já me sorriu na vez primeira
Em que nossos passos se cruzaram.

E eu te confesso que irei sem mágoas
Pois há alegria em beber desta água
A qual me mata (a sede) a cada instante.

Olharei para trás como quem deixa a casa
E eu saudarei ao anjo a me agitar as asas,
Levando a velha mala, eu, guri de novo.



sábado, 22 de setembro de 2012

manhã


Há dança e há brisa,
Há um sol sem camisa:
Manhã de primavera.

Há as manhas do gato
Brincando no pátio:
Manhã de primavera.

Há livro e canção
Café com leite e pão:
Manhã de primavera.

E há teu rosto ao acordar
Como um  raio solar
Desenhando-se no ar,

Manhã de primavera
Como se fosse a primeira.


sábado, 15 de setembro de 2012

Dúvidas

Tenho ganas de dizer poesia
Porque tenho dúvidas
E as dúvidas são poéticas.

Se não tenho as respostas
Deixo as dúvidas
À cargo da vida.

A vida é ávida
De dúvidas,
E vive a decifrá-las
A produzir respostas.

Sabe-se lá se, ao viver,
A vida se me decifra.

Ou, se nem a Vida
Responde,
Quem sou eu
Com minha
Pequena idéia
Para tudo de tudo,
Ao certo, saber?


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

azul


Irmão do verde e do violeta, azul
Fruto de preciosíssimos pigmentos
-Lápis lazuli, índigo, cobalto,
Turquesa, azurita, ultramarina-
E das mais poderosas energias:
A intensíssima estrela luz azul.

Azul de todos os matizes
Desde o escuro quase negro
Até os tons flamantes de um
Céu bordado em prata e ouro:
O azul da imensidão pampeana
Profundo e tão plano
Quanto a terra plana,
Imenso azul, maior
Que o campo, o tempo,
O gado e o Humano.

Azul desde o mais frio
Ftalociano, azul
Do fundo oceânico
E da gaze de ar que vela
A paisagem: azul do distante,
Ou cerúleo azul
Das portas e janelas
Das casinhas gregas.

Na tua imagem
Brilha o azul
Nos olhos diamantes,
Tendendo ao violeta,
A vibrar os tons
Cambiantes
De uma idéia.


domingo, 5 de agosto de 2012

tu e a vida


A aparência sustenta a idéia
E a idéia conduz à essência,
Como se fosses o mundo 
A tomar de si consciência.

Olhas e o que vês reconstrói
Todo sistema que explicava um fato.

Na solidão de perceber o novo
Levas teu braço a cometer o ato.

A vida É, mas tu a transfiguras
No que nem deus ainda conhecia.

Nisto reside teu dom, criatura:

Sonhas a vida quando a vivencias,
Recrias o mundo como tu bem queiras.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

devir


Há um tremor na vida a cada instante,
Um frêmito que podes perceber
Se tens a mente quieta,  vaga mente,
E a ingenuidade de o reconhecer.

A cada instante ela dá o último suspiro
Mas se oferece renascida ao fenecer
Gerando o novo do velho, giro a giro:
Ar que no peito vem entrar após sair.

A vida a si acrescenta o que não era
Levando a fera a ser o oposto à fera,
A fluir e refluir, motor (in)consciente.

O quê vive este fremir  universal,
Qual deus, qual o mistério abissal
A refazer-se, desconhecida Mente?




segunda-feira, 23 de julho de 2012

nossos elementos


Ressoa o ancestral murmúrio do mar,
Voz rouca a ecoar desde o horizonte.
Mar, filho do infinito espaço e mar fonte
De todo corpo vivo da terra e do ar.

Fogo do céu, o sol ao mundo amorna
E doma com sua luz a sombra espessa,
Tramando as cores que o olhar devassa
E que, nas mãos do artista, a arte entorna. 

Disto surgimos, do amálgama medonho
Entre o mar e a terra, e o fogo e o ar,
Vindo o peixe a ser fera e esta a se tornar      
O Ser Humano, onde algum anjo sonha.

Em nós há sal e espuma, nuvem e poeira
Rosnar de fera, cios, amor e a chama
Que é o anjo infante a inventar poemas.

domingo, 8 de julho de 2012

O real e as odisseias

"Outro mundo é possível..." (clichê populista)

Para traduzir do grego paideia: "...não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez." (Jaeger, 1995)


Outro mundo não é possível e tu existes neste,
Feito dos conhecidos norte e sul e leste e oeste
Entre os quais crias caminhos, poemas e traços,
Trabalhos, erro e acerto, pela força dos teus braços
E pela Ideia, esta sim livre e de natureza obscura,
Fonte de vida e beleza a transmutar a matéria dura.

Esta essência misteriosa que te conduz para diante
E vai te tornando Humano, produzindo um diamante,
Independe de quaisquer crenças, partido, ideologia:
Ela não é o resultado, mas a Dinâmica que os cria.
Ela é gana, libido, ideal, é um fogo moldando a lama,
Escondida e inconsciente exceto ao que cria ou ama.

Ela é a alma do mundo, a produzir eras  e povos
E  a soprar sonhos e poemas, e temas  e tempos novos.
E vem à vida por ti, pelas tuas mãos e de tua mente
Como o fruto de uma gestante e em cada obra nascente.
Ela não escolhe o profeta, o iluminado, ou o gênio,
Mas é magma comum às gentes fluindo pelos neurônios.

O outro mundo com que sonhas quem sonha é esta Ideia
E a tua dor pela realidade é o germen de uma Odisseia:
Aprende a sentir o vento a encher-te de força as velas
E, vivendo, transforma o sonho na tua própria Paideia.





sexta-feira, 6 de julho de 2012

sem planos

Nada a dizer, senão tudo o que sei.  Nada
A fazer, senão o que eu fizer, sem planos,
Sem perder tempo, a não ser todos os anos
Que há de haver, se é que Deus permita.

O que eu sei do que haverá é quase nada:
A vida planta e colhe em meus silêncios,
Enquanto eu nada faço e em nada penso.
Para o futuro rumam passos e estradas.

Dentro de mim sempre haverá paleta e cores,
Trinam, para mim, todos os pássaros cantores,
E em mim está o que transforma noite em dia.

Pelas pupilas, retorna ainda a tua imagem
Que é companheira e destino desta viagem.
Com o que mais, além do amor, eu sonharia?




quinta-feira, 28 de junho de 2012

A loira que lia Nietzsche


As pessoas são várias. Às vezes penso isto. Portanto, supreendentes. Diga o Jaques, velho amigo, que me contou uma história vivida por ele. Não são poucas as histórias do Jaques, sujeito que mistura vasta cultura com uma personalidade extrovertida. Na maioria das vezes extrovertida, porque de outras fecha-se a concha e o Jaques viaja por seu mundo interior ou constrói erudição em silêncio. Mas ele, nos momentos para fora tem algo de garanhão, de galã, como bicho saído da hibernação. Pois foi um destes episódios de busca ao mel que o Jaques me disse ter marcado para sempre sua carreira amorosa. Deixo o cara falar:

-Eu estava saindo de um período de alta produção. Havia devorado estudos filosóficos e, de repente, tive ganas de sair para a noite, encontrar alguma gata linda, loira e, portanto, de mente leve...Saí de casa, assoviando, lá pela meia-noite e fui até um bar onde só vai gente bonita...e leve. Entrei e pedi uma cerveja, curtindo a música dos oitenta...Olhei em torno, mirando pontarias e, de repente, vi a criatura: uma Marilyn, platinum blonde, com pernas e curvas perfeitas.
Olhou de lado e...sorriu? Cheguei perto, sorri, e...ela me deixou sentar na sua mesa.

-Oooi...(foi o que ela disse).

Pensei: meu Deus, esta deusa, com poucas palavras e uma mente...leve. Deixei para trás os livros e tentei puxar conversa. Disse, até para impressionar, que estava com a cabeça cansada, que tinha lido muito neste dia e queria relax. Ela disse:

-Eu também...

Como assim, foi à academia, fez pilates, dança do ventre, power yoga, eu pensei. E perguntei, não sem um pouco de ironia:

- O que tu fizeste hoje?

A resposta foi inesperada:

-Li.

O que esta deusa leu, pelo amor de Deus? Consegui ver a cena: no cabeleireiro...ela sentada manuseando uma Caras, ou algum romance, ou livro de auto-ajuda. Imaginei o título: Como alcançar o Amor Quântico. Ou ainda melhor: Vida feliz com Tantra Yoga. Comecei a me sentir inquieto. Perguntei, super curioso, o que havia lido.
Ela sorriu com boca e olhos e falou suavemente:

-Hoje eu terminei de ler Os Filósofos Pré-Socráticos...

Pensei: Um resumo? Livro de bolso? Mas ela disse:

-...do Nietzsche.

O que esta gatinha está fazendo com Nietzsche? Me senti traído, não sei bem por qual dos dois!
E ela começou a me contar sobre sua iniciação nitzcheana na adolescência, com Assim Falou Zaratrusta. Bah! O primeiro da sua vida fora Nietzsche: a primeira experiência. Um êxtase total que a levou ao Ecce Homo, e assim por diante. Na verdade ela estava relendo Os Filósofos... para sedimentar sua crítica aos Idealismos, aos platões da vida, mas ela não tem certezas. E por aí fomos, esquecendo o cansaço. Ela falou que os tempos de hoje são um Renascimento do que faziam os pré-socráticos: pensamento a partir dos dados. Lembrou Kant, riu às gaitadas de Hegel. Emocionou-se ao falar de Arendt.
O mais impressionante é que não havia pose, presunção, empáfia...Não! nenhuma grosseria intelectual destas: ela falava apaixonada. Meu Deus: a loira era filósofa!

O Jaques, ao me contar, botava para fora lembranças fortes. Era um segredo entre amigos. Continuou:
-Lá pelas tres da manhã, no auge da excitação, eu perguntei: tá bem, mas e a Astrofísica? E a teoria das Cordas? E...

Ela olhou para o outro lado, sorriu...e eu vi uma outra deusa, mas morena, estonteante, vindo na nossa direção. Se deram beijinhos e a loira me disse:

-Esta é minha orientadora no doutorado. Uma mente brilhante!

Fiquei de quatro, imaginando o que seria esta outra.

-Tenho que ir, me disse a Marilyn. Outra hora a gente se encontra, tá?

E foram-se. Foram-se assim no mais, e eu, babaca, estava tão atônito que não peguei telefone, endereço...nem nome. Eu fora um contato casual, um a mais apenas.
..
O Jaques suspirou fundo, com olhar esgazeado, olhando para o chão.

-Meu amigo, passei a frequentar livrarias, cafés filosóficos...Andava atento, buscando-a, pelos corredores da UFRGS, da PUC, da Unissinos...Nada. Confesso que enchi da noite, mas lá de vez em quando volto àquele bar para ver se encontro a loira que lia Nietsche...para saber se ela acha que a Teoria das Cordas tem sentido ou é uma invasão da mística budista no terreno da Física...
- Ou a sua orientadora (o Jaques é volúvel).