Sobre a investigação de novos medicamentos e também de segunda indicação de medicamentos já aprovados para outro uso clínico:
Os resultados de estudos em animais envolvendo qualquer droga não indicam eficácia. Estes estudos pré-clínicos servem como etapa preparatória para a avaliação de segurança do medicamento, análise de farmacodinâmica e farmacocinética e o cálculo da dose segura, exclusivamente para o início do estudo clínico.
A fase 1 clínica, ou seja, em pessoas, utiliza 1/10 da dose do estudo pré-clínico, em pequena amostra de voluntários, constando de apenas 3 doses consecutivas, e constituindo a primeira etapa de avaliação da eficácia e dos efeitos adversos da droga.
A fase 2 (com as etapas 2a e 2b), envolve maior número de participantes, entre 200 e 500 pessoas, de modo aumentar a possibilidade de confirmar eficácia e segurança para uma determinada indicação terapêutica. A busca por reações adversas é ainda mais exaustiva. Medicamentos já aprovados para outra indicação médica não necessitam passar pelos estudos pré-clínicos e pela fase 1, devendo ser testados a partir da fase 2.
A fase 3 envolve estudos multicêntricos internacionais com milhares de participantes (mais de 3 mil pessoas), visando aprofundar os aspectos estatísticos e de poder do efeito terapêutico relacionados à eficácia e ao risco da droga analisada. Mantém-se a busca extensiva e cuidadosa dos possíveis efeitos adversos.
Todas as fases clínicas envolvem, portanto, a monitorização de reações adversas e a comparação, quando possível, com o melhor tratamento já existente no momento do estudo (o padrão-ouro), ou com placebo. Havendo ocorrência de efeitos adversos graves, o estudo clínico é interrompido.
Estudos pré-clínicos em modelos animais não servem para liberar o uso de uma droga nem para confirmar sua eficácia em seres humanos. Experiências individuais, sem controle, pelo menos, por placebo, podem envolver todo tipo de viés e não servem como referência.
Aos colegas médicos, farmacêuticos e biomédicos, e mesmo ao público em geral, todos afetados nas redes sociais por ideologias políticas, filosóficas e pseudocientíficas, eu sugiro que busquem, por favor, nos sites de medicina e farmacologia, informações sobre a eficácia e a segurança da ivermectina para COVID-19 em estudos internacionais amplos. Inexiste qualquer indicação do seu uso. Leiam as referências que listo abaixo sobre a regulação dos estudos de investigação de medicamentos. É algo fundamental nestes tempos malucos!
Não creiam em fanáticos, doidos, idiotas desinformados e mal-intencionados. Sobretudo, não busquem conhecimento com youtubers e influencers.
Não seja mais um tolo pescado nesta rede de teorias conspiratórias. Misturar investigação clínica com política e ideologia é trágico. O que houve no período Bolsonaro, como o que ocorre atualmente nos Estados Unidos, é vergonhoso. Com a diferença de que, no período Bolsonaro, o governo adquiriu vacinas de melhor qualidade e a campanha de vacinação em larga escala do Ministério da Saúde permitiu o controle da epidemia da COVID-19 no país. Nos Estados Unidos, a administração federal é antivacina (o que é uma insanidade).
Pesquise, ainda, sobre a “Medicina Desumana” nazista e a negação da teoria da evolução pelos soviéticos. Ambas mataram muita gente.
Goldim, JR. A avaliação ética da investigação científica de novas drogas: a importância da caracterização adequada das fases de pesquisa. Rev HCPA 2007;27(1).
Medical Research Ethics: Challenges in the 21st Century. Zima T & Weisstub DN (eds.). Springer Verlag (2023)
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