domingo, 20 de janeiro de 2019

viagem

"Amai, liberai" 



Naquela curva do rio
Junto ao sopé da montanha
Libertei um amor que tinha.

Vivia nas minhas entranhas,
E agora voa livre.
Não sei se choro ou se rio.

Restam ainda pela casa
Os seus fios de cabelo,
Seus perfumes e cheiros,
Sua voz, alma e pelos.

Então, vejo de longe a vida.
Ela segue decidida, a mim
Basta-me olhá-la.

Sou memórias, sou partida
De algum lugar para outro,

Sem sair da minha sala.



domingo, 25 de novembro de 2018

impermanência

Pode ser somente um dia
Do que amo nesta vida.
Se assim for, bendito dia,
Serei feliz por haver tido
Seja uma hora, um segundo,
A aqui estar fruindo o mundo.

(Será imensa a hora pequena,
O raso instante, o mais profundo.)

Porque a vida é um presente,
Não um futuro, 
Recebido pela gente.

De graça, 


Divina Graça 
Impermanente.





domingo, 18 de novembro de 2018

Barco em domingo




O Domingo é nublado
E o coração é baldio,
Eu faço o que quero
Do meu vazio.

Menino e brinquedos,
Homem e sonhos,
Artista e símbolos,
Imagens e cores.

Dolce far niente
É o paraíso.
Batel navegante,
Aportar é preciso!

E o porto sou eu,
De fundos canais
E ancoradouro,
Alma de cais.

Abrigado do frio,
Sob acolchoados,
Sou um feliz e vadio
Barco atracado.





domingo, 11 de novembro de 2018

Manhã (lembranças do Brasil)

Deixo às palavras o comando:
Elas cantam, vou dançando,
Elas dançam, vou cantando.
Somos aves a voar, em bando.

Pego tua mão, vamos amando.

Sobre a cidade em sono,
O dia abre os braços, bocejando,
Ele é o dono da casa, há cantoria
Da passarada, nós e as palavras,
Iluminados de lua e sol,
E estrelas se apagando.

Banha-se a serra de luz dourada,
Doura-se o rio negro da estrada,
Douram-se as árvores e os frutos,
A vida retoma cor, despe o luto.

   

Mas noutro canto do caminho
De Natureza perdida,
Dorme ainda no chão duro
Uma criança esquecida.

Mas num canto desta vida,
Canto envergonhado e triste,
Ainda dorme a criança.
Quem saberá que ela existe?

As aves somem do Céu,
Cala-se o canto e chora,
E o pranto faz-se poema
Por essa criança agora.

O dia torna-se gris,
Como pode a luz ser feliz
Se há uma criança pequena
Dormindo sozinha lá fora?







domingo, 21 de outubro de 2018

Outubro 2018

Eu queria despertar-te, novo tempo,
Devassar teus rumos num repente,
Mas ainda é muito cedo e à frente
O que se vê é temporal de vento.

Ao querer ver meu povo numa festa,
Vencida a divisão que o mal plantou,
Sondando o mundo desde onde estou
É cisão o que eu observo pela fresta.

Deixo à vida a escrita dos enredos:
Só anjos vêem além dos próprios medos,
Pois seus olhos têm o foco no infinito.

Que se cumpra o que temos semeado
Para que os genes da pátria do passado

Possam brotar um país que ainda é mito.




domingo, 19 de agosto de 2018

berberes


Sinto tua voz, amigo,
Tua presença de seda
E perfume amadeirado,
Os teus cantos orientais.

Sinto teu abraço, amigo,
No vazio de um silêncio,
E nos caminhos do sonho
Sinto comigo este laço.

Sei os teus passos e os sigo,
Como sigo os meus passos,
Pois vamos juntos, amigo,
Pelos desertos, de braço.



sábado, 18 de agosto de 2018

pedra e joia




Deixo fluir a emoção,
Como rio a polir seixos,
E com o tempo se vão
As pontas das pedras do leito.

Viva está a emoção
A escorrer-me do peito
E seu suave escoamento
É paz a que tenho direito.

Sou sempre aquele mesmo,
Só com mais água vazada.
O que eu temia, o abismo
É consciência, não o nada.

Deixo fluir a emoção
E dela vem o sentimento,
Joia rara, o fruto bom
Do melhor que tenho dentro.