quarta-feira, 28 de agosto de 2019

quarta-feira, 14 de agosto de 2019

sorriso das histórias de San Francisco

Confesso que nunca havia assistido e tinha curiosidade sobre a série "Histórias de San Francisco". Pois graças à Netflix, vi dois capítulos. Ali toda a imbecilidade de uma geração, que foi minha, ficou nua. Maconha maravilha, sexo livre com qualquer um, o drama dos trans sendo mostrado como objeto ideológico glamourizado, prostituição do Bem, tudo numa San Francisco sempre doida e sorridente (sem mostrar as favelas e as mazelas, é claro). 
Brave New World em clima de festa. 

Impressionante a ingenuidade (planejada?) dos textos, o encadeamento estúpido dos assuntos da soap opera libertária daqueles tempos pré-AIDS, pré-internações por drogas (incluindo alguns amigos queridos meus), pré-todos os efeitos trágicos daquele way of life. Quem escrevia aquilo estava chapado? Parei no segundo capítulo...Philadelphia e Trainspotting, filmes sombrios e doídos, são o espelho real (que muito de nós presenciamos in loco) do pastelão para adolescentes que é Histórias de San  Francisco. 

No Brasil, o desencadeamento da loucura dos setenta levou à morte em massa toda uma geração. Em Porto Alegre, eu via morrer uns 3 jovens amigos ou conhecidos por mês, muitos deles gente especialíssima em inteligência, talento e bom coração. 


Vi a "sociedade burguesa" (rsrsrs...) reagir com apoio, as grandes instituições universitárias e empresas farmacêuticas, unidas, desenvolverem pesquisas (que continuam), transformando a AIDS em doença crônica tratável com sobrevida normal. Vi o governo do FHC através do Dr. José Serra lutar para tornar os medicamentos anti-AIDS genéricos. 


O drama das drogas é ainda o mesmo lixo, contando sempre com o apoio das mídias e, pasmem, de alguns governos, desencadeando doença e violência.


Mas o mais impressionante é que há gente, especialmente jovem que vive ali na "década de 70" achando que o "sonho não acabou" e um "novo mundo possível" surgirá da loucura.

Gente de ideias velhas, crendo-se moderníssimos millenials.



sexta-feira, 9 de agosto de 2019

as belezas da ilusão




Amo as cores, indiscriminadamente amo os
Azuis, amarelos, cinzas, pretos e vermelhos,
Amo os ocres, sienas, tons pasteis nos rostos
E cabelos, os verdes dispersos sobre a terra

Como pelos, mil tons de verde sobrepostos
Em árvores, serras, tão frios que entornam
Azuis e, então, lilazes. Amo violeta, rosa,
Inesperadas nuances coral e pérola a se revelar

Na cor topázio claríssima das águas cristalinas 
Em meio ao branco do calcário das areias finas.
Amo as cores dos olhos e das peles, as cores

Dos lábios, ainda mais o azul do céu sempre
Cambiante, pura ilusão que o Oxigênio brinda,
Linda visão o encantamento da ilusão, as cores.



domingo, 4 de agosto de 2019

Covilhã poemas


Permeia-se em mim
A paisagem,
Bagagem da alma
Nesta viagem
Dolce far niente:
Olhar o monte
Suavemente.

As brisas
De Portugal
São sem-igual:
Pleno verão
E é paraíso.

Olhar a Serra
Desta varanda
É o que eu preciso.
Ronrona o gato,
Movem-se as plantas,
O sol se eleva:
A vida canta.





quarta-feira, 31 de julho de 2019

Egeu 2019

O barco é
Berço embalado
Por Egeu,
Mãe da Hélade.
Mar azuis,
Ultramar,
Metileno,
Lápis-lazúli,
Turquesa,

Imensa joia a mover-se
Com delicadeza.

Do azul elevam-se 
Montes que são
Fontes de fontes
E de areias
Escaldantes.
Montes, pais de praias
E horizontes,
Vestidos
Com a verde derme
Dos olivais de Atená.

Tento pensar,
Mas tudo conspira
A olhar apenas,
Contemplar
Silenciosamente
Céu, água e terra
A deleitarem-se
Nas minúcias pequenas,

A dilatar a visão,
Tramar poemas,
Manter aceso
O fogo que me faz
Criatura plena,

Conviva do Banquete
Da Criação.





terça-feira, 23 de julho de 2019

Filha do encantamento


"Pelo espanto os homens chegam agora e chegaram antigamente à origem imperante do filosofar"

Aristóteles

Uma poesia
Não é escrava
Do símbolo.
Dispensa trocadilho
Ou metáfora,
(Embora possa usá-los
Se quiser.)

Ela é filha do Espanto
Grego arcaico
Ao perceber o mundo,
Gerando ideia   
E então o verso.

Se eu digo que

Essência misteriosa
Transformou dinossauro
Em passarinho

Não é um truque
Para fazer versinho:

É descrição literal
Encantada
Do Universo.


O Filósofo em Meditação, Rembrandt, 1632.

quinta-feira, 4 de julho de 2019

As Pátrias e sua língua


"Deixe os portugais morrerem à míngua
Minha Pátria é minha Língua
Fala, Mangueira!"
C. Veloso

"Minha Pátria é a Língua Portuguesa"
Fernando Pessoa, em O Livro de Desassossego

A Língua não é minha:
É a Pátria
De tantas cores e culturas
Com História que nem se sabe ao certo
De tão longe nascida
E de um futuro.

Que não morram à míngua os Portugais!

Além de ser de alguém
E de algum povo, 
A língua ata as nações,
Só assim mantém-se o cerne ileso
Aos avatares do novo.

Cindida, ela deixa de ser ponte
E fragmenta-se 
Em dialetos desnutridos.

Unificada, ela trama com poemas
Os amores de um mundo
Irmanado pelos versos,
Pelas rimas cingido.




domingo, 2 de junho de 2019

O desfecho da espera


A longa espera,
De tão longa
Esquece-se que é espera.
Despe o peso de sê-lo
E se crê eternidade.

Como um tolo,
Ou um sábio,
Passa assim a fruir
O que em si pode haver
De mais trágico 
E mais belo:

A certeza do desfecho
Com indiferença,

Como a negação do tolo,
Ou do sábio a crença,
Ou vice-versa.

Esperar se faz então 
Esperança, 
Ou sua ausência.