domingo, 24 de novembro de 2019

Outono, Portugal

Árvores vestidas de dourado,

Folhas bordô
Dos véus bordados
Libertam-se a voar
Pintando de rosado
O chão verde e camurça,
Ou criam barquinhos coloridos
Que vão por riachos cristalinos
Navegando rumo ao mar.

Outono em tons suaves,
De finos matizes:
Veludos róseos e grises,
Cobrem a nave estelar.
E no altar, expõem-se
Frutos multicores,
Crias da terra
Em seus amores,
A se doar.




quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Como um dia qualquer na Covilhã


Paulo despertou de sonhos confusos: a casa da infância, os pais, amigos sumidos nestes 70 anos. Lívia, a amada, pedindo para dançar e ele negando. Sonhos.
Lívia se fora. Ele ficou. Sozinho, dor nos joelhos, nas ancas, visão turva, audição falha, pele manchada, com nervuras, velha casca de sobreiro. Ao levantar-se, lembrou que era Natal. Dia qualquer duma vida oca.  Barbeando-se, tonteou, mareado. E o inesperado aconteceu.
Surgiu-lhe um anjo.  
(Expliquemos. Não era anjo de Igreja, ou Super-Anjo Americano. Nem palpável era, ou alado. Era a voz que Paulo reconhecia de menino, murmurando debilmente entre os ruídos da máquina de pensar. Nos silêncios, Paulo ligava rádio para que outro som ocultasse a voz que agora ouvia claramente).
O Anjo disse
- Sim, sou eu.
E convidou
-Veste-te. Vamos à rua, que é Natal.
Paulo obedeceu.

Já na Alameda Europa, Paulo viu a Serra da Estrela nevada, como se da vez primeira.
Disse-lhe o Anjo
-Tens razão ao dizer que o Natal é um dia comum.  Como em qualquer dia, o sol cruzará o horizonte, reinaugurando a vida, e das fontes do Covão d’Ametade brotarão água e poesia. Sem dar-te conta.
Paulo pensou: estou louco! Não havendo como fugir ao Anjo, respirava com dificuldade.
- Perco o fôlego! O coração dispara! É minha morte, Anjo?
-Isto não interessa, respondeu o visitante.

Devagar, o sopro da respiração voltou-lhe como voltara no dia primordial em que, aos gritos, Paulo nasceu. Apercebeu-se, igualmente, do coração a bater ritmado dentro dele e para ele, como uma prenda diária. Sentou-se num banco, olhando as montanhas, como o menino que fora, a recitar poemas.
Prosseguiu o Anjo
-Pela Alameda Europa, mil vezes respirarás sem dar-te conta e, sem dar-te conta serás mais sábio e mais profundo. Na Avenida Anil verás a Terra transformar-se a cada giro que ela gira desde que o mundo é mundo. Sem dar-se conta, na Gardunha ressurgirão flores que, em silêncio, darão frutos.
O Anjo, ou Paulo, continuou
- Crianças darão seus primeiros passos nas casas do Pelourinho e amores produzirão beijos, abraços e (por que não?) alguns espinhos.

A Serra transmutara-se em cenário 3-D expressionista: pontos brilhantes verdes, róseos e, em tons pastéis, as pedras e as casas. No alto, um azul celeste a fundir-se com violetas. Pelas calçadas, velhos conhecidos seguiam sua marcha urbana com netos, cães, sonhos, ocultos anjos e demônios.
Paulo, comovido, balbuciou
- Sem que nos demos conta, triunfará a vida, a Silenciosa, a Desapercebida, gerando mais vida em mutação, com átomos que não vemos e cordas e dimensões que nós desconhecemos, em plena Covilhã.

O Anjo então concluiu
- Nisto repousa o mistério deste dia de Natal, como de qualquer outro: os mais preciosos bens que em ti vivem, vivem por ti sem que nem te dês conta, de tão perenes, humildes e comuns.

Paulo, assustado, perguntou ainda ao Anjo
- Morrerei, então, agora?

O visitante respondeu-lhe com ar maroto, sorrindo, ao ir-se:
- “Ó Paulo, deixa de ser trágico! Desfruta Hoje, o paraíso”.




sábado, 5 de outubro de 2019

Petúnia neoplatônica

(Para uma petúnia que floresceu na minha varanda)


Uma petúnia
É o que és,
Brilho fugaz e aparência
De perfume e pétalas,
Breve forma a esvair-se
Desde broto,

Mas para os olhos videntes
És mais que
Uma flor apenas,
És a lábil expressão da
Flor em essência,
És a florescência do Ideal
De que procedes,
A Substância em flor.
Já o sabia Platão:

Flor em carne e espírito,
Alma dos seres
Sempre nascentes
E moribundos.
Genoma dos avós,
E de antes destes,
Em perpétua mutação.

Revelação
De um mistério
De DNAs e poemas,

Mais que isto,
De luz e som
E de uma Ideia,
Talvez.

És o que és,
Forma filha
Do Universo
Que ao fazer-te
Se refez.

Eu te retrato,
Petúnia genética,
Neoplatônica.
Mística
Flor das estrelas.



quinta-feira, 12 de setembro de 2019

Assassinato legalizado e infanticídio no Progressismo Europeu

A memória é minúscula
E a Razão vê com o que lembra

De volta ao ensino de Ética Médica. Aqui compartilho com os amigos minha preocupação com o Progressismo de alguns países do Norte da Europa, que vivem um tempo chamado de pós-Cristão. E me espanto de perceber como os opostos comportam-se como antípodas, simbolizadas pelas extremidades de uma serpente cuja boca morde o próprio rabo, numa espécie de Eterno Retorno nietzscheano.
Dizia em 1932 o Dr. Julio Moses, médico humanista judeu-alemão, que obviamente foi morto num campo concentração:
“No III Reich a missão do médico será criar o Novo Mundo, a Nova Nobre Humanidade.
Só os curáveis sobreviverão. Os doentes incuráveis, as existências peso-morto, o lixo humano, o indigno de viver e o improdutivo serão eliminados. Em outras palavras, o Médico se tornará o Carrasco.(Pross and Aly, Der Wert des Menschen, 92).
Pois o que sustenta o Progressismo à gauche é o velho sonho que produz pesadelos, o da criação do Novo Mundo, do Novo Homem, através de políticas autoritárias, aparentemente para o Bem, como devem ser os discursos ecológicos, humanistas, na entronização da Nova Fé Laica. Os dois exemplos que trago referem-se a:
-Aborto Pós-Natal (assassinato de bebês até os 2 anos de idade, por solicitação de sua mãe no gozo da sua "autonomia" e "liberdade de escolha"). O after-birth abortion é já realizado na Holanda em bebês doentes, mas a "nova conquista" a ser feita é o infanticídio no caso das mães que assim desejam por terem dificuldades pessoais na criação das seus filhos. A justificativa é que o bebê "ainda não tem juízo moral e pode ser morto" (vide https://jme.bmj.com/content/39/5/261.long).
-Outro exemplo é o que se tornou a eutanásia liberada na Bélgica e Holanda (os velhinhos fogem da Holanda ao se aposentarem). Criou-se a especialidade dos médicos "eutanasistas", os centros onde são feitas eutanásias, o assassinato legalizado de pessoas que "estão insatisfeitas com sua vida", crianças e adolescentes, além de pacientes psicóticos...tudo muito bem justificado em nome da "piedade", "da vida que deve merecer ser vivida"("Lebensunwerten Lebens", o clichê preferido dos nazistas), a total perda de controle de quem mata quem e porquê...(eb-eib.org/en/file/end-of-life/palliative-care/does-the-belgian-model-of-integrated-palliative-care-distort-palliative-care-practice-442.html).
E os textos progressistas que justificam estes crimes são pérola da Novilíngua, expressão criada por Orwell.
Atenção com os clichês e as bandeiras "do bem" que defendemos.

domingo, 1 de setembro de 2019

o Sonho da Razão




"El Sueño de la Razón produce monstruos"

Francisco de Goya


A Mente fabrica fantasias, produz monstros como bem expressou Goya ao chamar os produtos mentais de "sonho da Razão". Elabora memórias, emoções e sensações através de imagens, ideias que geram diálogos ou monólogos internos, em fluxo contínuo. No seu rodar de máquina constitui um “ruído de fundo” em nós, algumas vezes incômodo, irritante.
Há quem não perceba a diferença entre a Mente e o Ser, entre si mesmo e a Mente. Em situações intensas da vida, o mecanismo mental se exacerba e a pessoa torna-se vítima das imagens trazidas recorrentemente à consciência, dos pensamentos em fluxo acelerado, de sonhos ininteligíveis às vezes e dolorosos. É escravo do funcionamento automático, orgânico, da Mente e o “ruído de fundo” mental repetitivo não raramente agrava situações de depressão e/ou ansiedade. 
Drogas, abuso de álcool, medicação sedativa, sexualidade compulsiva, tudo é tentado para obter alguma tranquilidade pelo Homem que não aprendeu a se distinguir da própria Mente.
A Mente, porém, é o instrumento psíquico básico, estrutural, orgânico no Homem para elaboração e integração das sensações, emoções, memórias e vivências atuais, interpretação do mundo e da vida. Serve para enriquecer a experiência do Ser no mundo. 
Calar a Mente representa amputar a experiência da vida consciente, um tipo de morte em vida simbolizada pela figura literária de um zumbi. É a clausura da Imaginação e, portanto, da Criatividade.

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Há um tipo de treinamento mental meditativo que, quando erradamente entendido, confunde-se com amordaçamento forçado da Mente.  A meditação não deve ser utilizada tiranicamente como instrumento ou droga para calar a Mente, a qual nos fornece indícios sobre como estamos física e emocionalmente, como somos, o que fazemos e fizemos de nossa vida, como são as pessoas que nos cercam e as experiências que vivemos, enfim como anda nossa Realidade.

No material exposto pela Mente é preciso, porém, "separar o joio do trigo" e isto quem faz é a capacidade crítica do Ser Humano. Esta lucidez depende da inteligência emocional de cada um, ou seja, desta sabedoria que se expande através
 do agir no mundo dentro de uma Ética de cuidado de si e dos outros. Silenciar a Mente não significa a conquista de um céu artificial que anula a auto-análise.

A meditação pode sim possibilitar uma certa autonomia em relação aos conteúdos mentais, permitindo perceber que não somos nossa Mente, que ela é um órgão com funções definidas, que os eventuais “monstros” são apenas expressões de escolhas incompatíveis com o que verdadeiramente somos, de medos de viver o que nos cabe, ou de situações orgânicas vivenciadas como emoções. 
Meditando, passamos a utilizar a Mente como nosso instrumento num "processo de auto-criação", semelhante ao desenvolvimento criativo do artista, desde que tenhamos a coragem de perceber nossa realidade honestamente. Cada medo aceito, cada emoção percebida e elaborada são pilares estruturais do desenvolvimento interior. 

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A aceitação do que somos é o primeiro passo de um processo de transcendência.

Através do silenciamento da Mente pela meditação, é possível conviver de modo consciente e amigável com o fluxo mental, percebendo o pensamento ou a imagem no silêncio, aceitando sua mensagem e permitindo que se vá, sem entrar em conflito com o que nos mostra sobre o que somos e sentimos. Passamos a abordar o que temos dentro de nós como fazemos em relação a um amigo, aprendendo a lição de amar a nós mesmos como ao próximo.

O processo que se segue a esta etapa mental, o próximo passo, é realizado por instância psíquica distinta, silenciosa, que nos integra, reconstrói e desenvolve sem o ruído das palavras.