domingo, 27 de setembro de 2020

O poder das redes

Documentário do Netflix denuncia o "uso que as redes fazem das pessoas", ao viciá-las na internet, transformando-as em "consumidores" e produzindo "visões políticas" polarizadas.

Estas redes realmente são lamentáveis: pessoas desconhecidas, sem fama, sem partido político, colocando suas ideias próprias, seus poemas e fotos, falando de si, de seus cantinhos no mundo.
Bons tempos em que acreditávamos na Zero Hora, éramos influenciados por intelectuais gabaritados como Paulo Santana, livres-pensadores apartidário como LF Veríssimo, uns músicos populares, libertários e drogaditos que depois, ou viraram ministro, ou morreram de overdose e AIDS. Uns heróis da contracultura.

Tirávamos sabedoria e julgamento lúcido, livre, a partir de um Jornal da Globo e as novelas da Globo faziam nossa cabeça, sem cobrar nada, sem querer nada. Por amor. Prostituição feminina ou masculina reconhecida como bacana, macaqueando a Holanda, entre tantas pérolas lançadas à adolescência do Brasil. Isto sim era progressismo!

Não éramos consumidores. Embora já houvesse o PROCON e o Horário político fosse chamado de Propaganda Política.

A qualidade de reflexão, a liberdade que perdemos: um Sílvio Santos, brilhante intelectual sorridente e bonzinho, durante um domingo inteiro. Um Chacrinha e suas chacretes revelando o que de melhor a cultura carioca tinha a dar ao país. Com direito a homenagem musical dos tropicalistas.
E não éramos consumidos como se fôssemos um produto. O consumo não enfeitiçava a ninguém, embora vivêssemos em plena Sociedade de Consumo, expressão criada por McLuhan e difundida nas décadas de 60, 70.

Não havia vício com televisão. Crianças e adolescentes não ficavam horas na frente da telinha, nem os pais emburreciam, livremente, vendo novela. Todos assistiam tudo, todo o tempo, pelo menos passivos, quietinhos, satisfeitos, como deve ser o bom público.

As propagandas eram de alto nível, desinteressadas, como a inesquecível Lei do Gerson no comercial de cigarros. Lembram da famosa frase: "O importante é levar vantagem". Cultura e caráter.

Não éramos sorrateiramente pesquisados para informar às empresas jamais, e IBOPE era a sigla de uma irmandade de franciscanos.

Polarização? Isto é realmente novo! Bons eram os slogans e palavras de ordem dos partidos de antigamente, nas quais ainda acreditávamos, os discursos dos políticos irmanando a todos independente de ideologias. A primeira metade do século XX não ocorreu, nem nazistas versus comunistas, ou vice-versa. Só as fake-news das oposições tentam nos dizer que estas coisas existiram. Nunca existiu a frase: Brasil, ame-o ou deixe-o. Nunca houve racismo, preconceito contra minorias (as minorias eram amontoados de seres invisíveis e mudos). Nunca ouvimos políticos conclamando à luta contra os valores burgueses e de classe média.
Hoje em dia, até políticos brasileiros importantes acabaram no xilindró. Como ousas, populaça!

O paraíso em que vivíamos se desfez.

Parece que tudo isto veio à tona, veio à luz, devido aos computadores. Por que será? A internet e suas redes realmente prejudicam. A pergunta que fica é: a quem?

sursum corda


To be "high" 

Is to be

Above the crowds.



domingo, 20 de setembro de 2020

Portugal


 Amo Portugal, de cá das beiras

Onde contemplo serra e vales,

Enamorados desde a vez primeira

Os meu olhares.


O clima ameno, as suaves gentes,

Límpido céu e seu colar de estrelas,

E as águas cristalinas de rios verdes,

Frias e belas.


Amo a vida segura que me envolve,

Mesmo nos dias em que o mundo exploda:

Estou em casa, Portugal, e amo viver-te

Por esta vida toda.



sábado, 19 de setembro de 2020

El gaucho (O Gaúcho)

Tratado de Tordesilhas, padres jesuítas espanhóis criando as missões redutoras dos indígenas pampeanos na imensa região que seria mais tarde a Província de São Pedro do Rio Grande do Sul. Gado europeu trazido pelos jesuítas espalha-se e prolifera livremente no pampa gaucho (gerando cerca de 12 milhões de cabeças de gado). As coroas portuguesa e espanhola expulsam os Jesuítas e destróem "las Misiones". Os Jesuítas não eram santos e tentaram dizimar as nações indígenas não-evangelizadas. Índias e europeus entrecruzam-se e surgem seus bebês, renegados pelos brancos e pelas tribos: o solitário Gaucho original, tentando sobreviver no deserto pampeano.

Na Revolução Farroupilha dos rio-grandenses contra o Império, dentro de espírito republicano e anti-escravagista, o gaúcho tornou-se o "herói farroupilha".

Acho interessante que os europeus que chegaram depois ao Rio Grande, inicialmente os alemães e, após, os italianos, judeus, poloneses, etc. adotaram o espírito deste solitário herói fundador. Os Centros de Tradição Gaúcha (CTGs) são uma homenagem, um tanto estilizada, destes europeus ao miscigenado gaúcho, neto de portugueses, espanhóis e índios charrua, minuano, tupi-guarani. Os CTGs espalharam-se por boa parte do Brasil, levando pecuária, agricultura, religião e boas escolas.
Nas saídas de Porto alegre e outras regiões gaúchas há as reservas indígenas protegidas. No Uruguay e Argentina, as tribos pampeanas foram dizimadas, num absurdo genocídio programado para produzir uma "Civilização europeia" sem "Barbárie gaucha, indígena" (ler "Facundo, Civilização e Barbárie" do Domingo Sarmiento). Dizimadas exceto nos polimorfismos genéticos analisados no projeto Genoma Humano, e visíveis no delicioso tipo físico dos "cabecitas negras" de boa parte da população dos dois países hermanos.

Outra referência excelente: Cuando El Uruguay Era Sólo un Río:Testimonios de los Cronistas y los Viajeros, do Dr. Daniel Vidart






quinta-feira, 17 de setembro de 2020

Picaretas espirituais


Entrei no youtube ontem para ouvir alguma música. Deparo-me com um vídeo intitulado: "zumbido nos ouvidos é causado pela ativação da glândula pineal", algo muito espiritual. A sábia senhora veste-se bem, cabelos bem cuidados, fala bem, com um sorriso bondoso...conheço o tipo. Nunca sei bem se é apenas incapacidade de julgamento, ou envolve algum traço sociopático, eventualmente apenas a busca de financiamento. Se eu fosse um pouco mais ignorante confesso que levaria a sério.
Amigos já perderam a vida, a sanidade, ou o trabalho pelas lorotas de gente assim. Alguns destruíram sua profissão ao enfiar-se na Amazonia para usar um "chá sagrado" e mirar Virgem Maria. Outros, estando doentes, preferiram fazer o ritual da dança de roda. Outros ainda, se meteram a experimentar os poderes curativos da cannabis sagrada e enlouqueceram. Conhecidos se mudaram para Brasília com medo das inundações decorrentes da "mudança de fuso do planeta". Há quem ainda olhe o céu esperando a chegada dos OVNIS prevista para 2019. O caos cultural brasileiro pode ter para-efeitos graves.
Dei-me, porém, ao trabalho de escrever no debate que segue o vídeo da senhora iluminada uma frase (humilde) de orientação aos que sofrem de zumbido:
-Zumbido nos ouvidos é uma manifestação de perda auditiva. Se sofres de zumbido, busca um Otorrinolaringologista!
Mas duvido que algum seguidor dessa senhora, literalmente me dê ouvidos.


sexta-feira, 11 de setembro de 2020

Etapas (tradução do poema Stages, da fase final da obra de Hermann Hesse)

 "Como cada flor murcha e toda a juventude se vai,

Assim a vida em cada fase,
Assim toda virtude,
Assim nossa compreensão da verdade
Florescem no seu momento
E não podem durar para sempre.
Já que a vida nos convoca em todas as idades
Esteja pronto, coração,
Para a despedida,
O novo empreendimento,
Esteja pronto com bravura e sem remorso
Para encontrar uma nova luz
Que os velhos laços já não podem dar.
Em todos os começos habita uma força mágica
Para nos proteger e ajudar a viver."

segunda-feira, 7 de setembro de 2020

os brasileiros

Minha gratidão ao Brasil é imensa!
Neste país, vindo de uma família muito pobre (com toda a honra) de imigrantes europeus recebi ensino da melhor qualidade desde a Escola Primária à Universidade, sem jamais pagarmos um centavo. Nos Estados Unidos, estaria fadado a ser um americano de segunda categoria. No Brasil me fiz médico, investigador. E tive a honra de atender aos conterrâneos no maior Sistema de Saúde Pública do mundo, o SUS que envolve 200 milhões de pacientes do Oiapoque ao Chuí. Nos Estados Unidos não conheceria um sistema assim qualificado e amplo, pois lá inexiste. Tive a chance de trabalhar no melhor hospital público brasileiro, convivendo com as tecnologias mais avançadas, aprendendo com gigantes da Medicina, e tendo à disponibilidade laboratórios de pesquisa de alto nível, onde pude despertar meus interesses de cientista e fazer pesquisas que me puseram em contato com investigadores internacionais.
No Brasil financiamos nossa primeira casa e vivemos com a melhor qualidade.
No Brasil, aprendi que negros, brancos, amarelos, índios, não precisam, nem devem ficar separados em guetos raciais. O "caos" social brasileiro é o maior experimento sociológico do mundo, aos poucos sendo copiado por outros países. O Brasil gerou os mulatos, esta gente linda. Há quem diga que o Brasil chama os negros de negros por um tipo de maldade atávica, pois o negror seria a representação de coisas negativas. Dizem que os "afrodescendentes" deveriam ser denominados pretos. Não no Brasil: os afrodescendentes brasileiros não são pretos, são lindamente coloridos, numa infinidade de tons da cor do café-com-leite. E também os descendentes europeus: no Brasil tomam um tom dourado, aprendem um sorriso sedutor que em suas terras de origem inexiste. E os descendentes do Japão e da Ásia são brasileiríssimos.
Nossa alma se colore de Brasil, de uma certa doçura de coração, de uma nostalgia herdada dos lusos e modificada pelos trópicos. Tendo todos os defeitos conhecidos, quem é capaz de negar a grandiosidade deste país, deste povo que não disfarça suas mazelas nem mesmo em filmes e romances, ao contrário, corajosamente, se apresenta sem máscara. Raridade num mundo de aparências.
Ter nascido no Brasil foi a maior das oportunidades, foi a melhor das múltiplas vidas. Ah! sim estas crenças espiritualistas dos brasileiros fazem parte do preciosíssimo pacote. Graças a Deus!

sábado, 22 de agosto de 2020

Criança-objeto

Fiquei surpreso em relação ao caso da menina brasileira grávida aos 10 anos. Não pela questão da necessidade óbvia de aborto até pelo risco de vida de ser parturiente nesta idade. A reação estúpida em relação à interrupção da gravidez vinda dos fanáticos religiosos não me surpreendeu. É de esperar.
O verdadeiro drama permaneceu obscuro e a lição principal deste caso não foi aprendida.
Explico: em 1993 eu criei o Grupo de Proteção à Criança e ao Adolescente do HCR junto a uma equipe multiprofissional. Até 2015, quando vim para Portugal, atendemos dezenas de casos de abuso sexual em meninas e meninos, além de violência. A primeira lição, já descrita em literatura, e observada na prática, incluindo este caso é:
- o abuso sexual de menores, incluindo bebês, ocorre, geralmente, no contexto familiar: avô, padrasto, pai, tio. Não são estranhos. Neste caso, foi um tio e o avô.
A segunda lição:
-frequentemente, a mãe ou a avó cuidadoras, tem conhecimento do que se passa e mantêm o “segredo familiar”, para evitar a prisão do abusador (eventualmente para manter a fonte de sustento familiar).
A terceira, esta de característica bem brasileira é:
-depois de muita luta, com apoio do Ministério Público, conseguíamos isolar a criança e protegê-la, esperando que a justiça se encarregasse do(s) parente(s) abusador(es). Mas, qual não era nossa surpresa, ao ver que sempre um juiz “progressista, com fé na pessoa e defendendo o direito do cidadão” restituía a menina ou o menino, ao “sagrado” ambiente do lar, para que o abusador, um psicopata irrecuperável, voltasse a conviver e “proteger” sua vítima. Foram anos disto.
E quando ouvi gente como o sr. Paulo Paim, do PT, afirmar que “todo o infrator, incluindo um psicopata, merece uma segunda chance” (talvez se referindo ao chefão de seu bando), quando ouvia a doida Maria do Rosário defender meliantes e traficantes (outros contumazes abusadores de crianças e adolescentes nos bairros pobres), quando vi a campanha em defesa da pedofilia nas redes sociais e na TV (vide o ex-BBB Jean Willis, confundindo pedofilia com direitos dos homoafetivos) algo se quebrou dentro de mim e eu resolvi abandonar o barco. Aposentar, sair do país. Muito nos desgastamos, a equipe e eu, vendo a Injustiça contra os menores ser a vitória dos inescrupulosos. Algum de vocês acha que o aborto da menina resolveu algo, ajudou em algo a vida semi-desfeita já nos seus parcos dez anos? A discussão nem deve ser o aborto, neste caso uma proteção indispensável à vida da menina.
A questão é: o tio e o avô estão presos (crime hediondo, sem qualquer direito à liberdade antecipada)? Houve um julgamento para apurar as responsabilidades individuais dos familiares como um todo? O país garantirá a esta pequena vítima um apoio psicossocial, um tratamento ou escola decentes, incluindo, quem sabe adoção por uma boa família?
Se os que se aproveitam da tragédia pessoal da menina para defender ou atacar o aborto, soubessem da dimensão social do abuso de menores (em todos as classes económicas) eu creio que exigiriam isto sim uma mudança radical no trato deste tipo de crime pela Justiça Brasileira.



sexta-feira, 14 de agosto de 2020

"aborto tardio", "aborto pós-natal", aborto...

Como reconhecer que um País, uma Cultura perdeu completamente suas referências humanistas e se tornou capaz de qualquer coisa por interesses egoístas?
Talvez quando libere, por força da lei, o assassinato de seus idosos, seus enfermos e suas crianças. Quando se aprova uma lei de "aborto tardio" que permite o assassinato intra-útero de crianças até os 9 meses de gestação (França, a partir desta semana) por solicitação de uma mãe que está sob "estresse psicossocial". Ou o que se passa na Holanda: o chamado "aborto pós-natal", que significa o infanticídio até os dois anos de idade de crianças com alguma doença (havendo agora a proposta de que se libere para o tal "estresse psicossocial").
O auto-denominado "progressismo" contemporâneo demonstra ser aquele mesmo espírito dos regimes (idealistas) totalitários da primeira metade do século XX. Coincidentemente, Holanda e França foram, e voltam agora a ser, capazes de "liberar-se de inibições civilizatórias (burguesas? cristãs?)" e se lançarem à selvageria infanticida.
Prova que a riqueza, sofisticação, educação universitária, não substituem os verdadeiros valores humanos, hoje desprezados.

sábado, 8 de agosto de 2020

a corrida pela vacina e os novos heróis gregos

As notícias deste momento nos informam que a vacina de Oxford já está na fase 4 de investigação clínica, tendo sido testadas sua eficácia e segurança em grandes amostras de população. Ou seja, pronta para ser comercializada. As Americanas, que informam ser eficazes, seguem em fase 3, sendo testadas agora em 30.000 pessoas. Outras estão a caminho.
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A mais bela competição da História ocorre nestes dias. Do mais alto nível. Uma guerra sem armas e genocídio. Uma luta olímpica dos intelectos brilhantes, dos grandes centros de investigação de países que investem na produção de conhecimento e tecnologia, dos cidadãos mais criativos, estudiosos e dedicados, os mais bem preparados.
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Que vença aquele que produzir a melhor vacina, capaz de curar a maior porcentagem de pessoas, com os menores e menos frequentes efeitos adversos. Que enriqueçam, equilibrem a economia de seu país, após tantos percalços.
Que sejam os heróis vencedores, segundo o Espírito Grego.
Desta vez a Olimpíada é de Ciência pela vida.
A Humanidade, exausta de tantas mortes, aplaude agradecida, pronta a eternizar na História o nome dos vencedores.




quinta-feira, 30 de julho de 2020

Degustação (do que houver)

Aprecio o conteúdo
Do cálice: aceito-o
E me calo. Não afasto
O que a vida oferece.

Degusto os momentos
Gole a gole, a língua
Do animal satisfeito 
Lambe os lábios,

O homem
Acata o que há
E lhe apetece
Apreciá-lo
Como é, 

E como ele é,
Apreciar-se.






quarta-feira, 29 de julho de 2020

silêncio sobre a Verdade

" Não se deve confundir a Verdade com a opinião da Maioria" Jean Cocteau

Mas o que é a Verdade, com letra maiúscula? A presunção dos intelectuais, dos crentes religiosos e fanáticos ideológicos, é que os sistemas que eles adotam seja a Verdade, digna de fé e, portanto, de Poder. Este tem sido o grande drama da estupidez humana, tanto dos homens letrados como dos incultos, a nossa história fratricida, eventualmente genocida: a luta em nome da Verdade.

Uma passagem do Evangelho, que leva a refletir sobre isto é aquela em que Pontius Pilate, talvez testando os poderes do "suposto Messias“, ou por sincera curiosidade, perguntou a Jesus: “o que é a Verdade?” E Jesus, baixando a cabeça, calou-se. A melhor resposta possível.

Há a Verdade sobre algum tema? Milênios depois de Jesus, vemos que há verdades, dados que podem ser verdadeiros se nossa pergunta é a certa e nossos métodos de pesquisa, adequados; mas mesmo esta verdade, obtida com esforço a partir das aparências, sofre a ação do tempo.
A opinião tomada como Verdade, porém, é o pior, o mais imperfeito e fútil dos métodos, para obter algum conhecimento sobre um fato, pessoa ou fenômeno.

A luta das opiniões que divide um país quase sempre é a linguagem falada no reino obtuso da Verdade.











terça-feira, 28 de julho de 2020

sabe-se lá

Assim que surgiste,
Vindo do sul ao sul,
Foste o mate amargo, amor agreste
Que me trouxeram o que tu trouxeste:

A Vida como ela é, sem ideal, definição exata, fé,
Ou, por que não, a pura fé na vida fruída sem datas
Passadas ou futuras: vida real pré-(in)definida.

Eu já te vira dias antes em sonho: tu chegaras,
E, juntos, viajávamos, desde quando? 
De onde? 

Sabe-se lá.


Mas o lugar onde estaríamos
Neste amanhã do ontem, 
A casa de hoje, a vida já montara.

O sonho me contava
Da tua chegada:

Sem promessas, ou discursos,
A vida, senhora dos mistérios,
Empurrou-nos ao que há.

sábado, 11 de julho de 2020

As fases de Kübler-Ross e a pandemia no Brasil

Analisando os posts que recebo do Brasil sobre o COVID 19 ao longo do tempo, lembrei das fases de adaptação às más notícias estruturadas pela Dra. Elisabeth Kübler-Ross.
A maior parte são fases claramente neuróticas como a negação ("no Brasil não", ou "o clima quente nos protege" ou "isto não nos diz respeito", ou "não é assim como dizem"...), a raiva ("não aceito!", "por que isto?"), a barganha ("poderoso Deus, se tu me livrares disto vou construir uma Igreja em teu louvor!" ou "se me livras disto serei outro!", ou ainda "como eu faço o Bem, estou a salvo").
A resolução emocional destas fases neuróticas constitui a aceitação, um estado em que, apesar de descontentes, nos calamos e vivemos o que temos, seguindo adiante, cuidando-nos, sem tanto escândalo. Um lúcido "eu aceito o cálice, faça-se a tua vontade".
Mas a aceitação não é para todos. Há quem viva com raiva, há quem transforme sua vida num objeto de barganha como fazem os fanáticos religiosos, e há os que habitam o reino da negação.
Pois os brasileiros são os reis da negação. Vivem a inventar a partir do nada, uma realidade falsa para manter na cara um esgar que, aos que não conhecem o Brasil, parece um inalterável sorriso de vitória. Um samba para "enaltecer a favela".
Conheci amigos que morreram de câncer imaginando que prece ou canções de roda seriam sua cura e não aceitaram tratamentos adequados. Mães que perderam seus bebês por buscarem métodos "humanizados" de parto. Gente que bebia a própria urina para tratar-se de SIDA (seguindo o terapeuta, ou doido do momento). Vi de tudo no meu país ao longo dos anos. 

Nestes dias, há brasileiros que usam ervas, chás, óleos, água dinamizada, pílulas que previnem e tratam COVID, inventam curas, para evitar desconfortos como usar uma máscara,  respeitar um distanciamento físico, ficar em casa.

No contexto desta pandemia ainda sem tratamentos eficazes ou vacina disponível, vamos aos poucos observando os resultados esperados da negação.

quinta-feira, 9 de julho de 2020

sobre os pobres brasileiros aprendendo com a classe média do primeiro mundo

Confesso que vivi uma experiência iluminadora com um visitante do Primeiro Mundo. E não morro sem narrar o "causo", como diz o gaúcho.

Foi durante um dos Fóruns Sociais Mundiais de Porto Alegre, aqueles espetáculos midiáticos que o PT e as esquerdas latino-americanas ofereciam aos europeus de Esquerda. Havia muita cannabis na orla do Guaíba, os estudantes universitários lavavam seus cérebros em discursos idiotas e aproveitavam as horas livres para visitar a miséria dos "sem terra", queimar lavouras produtivas e mesmo laboratórios da UFRGS prestigiados mundialmente por produzirem conhecimento em genética das espécies vegetais. Ah! e rolava um intercâmbio sexual à gauche que divertia ainda mais a garotada.

Eu confesso que era ainda um pouco ingênuo, apesar das leituras que fazia sobre filosofia política.
Pois, repito, tive uma iluminação com base numa situação única: recebemos em nossa casa um visitante ilustre, um ativista francês, idealista radical, cujo nome não citarei. Filho de um importante médico de Lyon, membro da alta burguesia francesa. Como naqueles fóruns a hospedagem era por conta da população, uma família francófila pediu-nos para recebê-lo. Aceitamos. E aí começa a iluminação literalmente "pé-no-chão".

Chegou o rapaz, um jovem bonito, apesar das roupas e do cabelo. Entrou em nossa casa com um olhar, digamos, surpreso de encontrar confortos "de nível europeu" em meio ao país selvagem da Amazônia e do Carnaval. Sentou-se numa cadeira na ampla cozinha e, de repente, nossa cachorrinha Tinta, uma cocker spaniel que tinha uma infecção crônica nas orelhas veio me fazer carinho. Esta infecção nas orelhas dava-me um trabalho imenso, incluindo dois curativos diários, limpeza, etc...era uma alegria da vida cuidar minha amada cocker preta. Pois eu comecei a sentir um cheiro tão desagradável naquela cozinha que acusei minha Tinta de ser a fonte...mas o fedor não vinha da minha filhota. Dei-me conta, surpreso, de que o nobre idealista francês, empestava minha  cozinha com odores, não da falta de uns banhos nos últimos dias devido à viagem. Era um odor indescritível de semanas sem banho. Em pleno verão porto-alegrense, que obriga a gauchada, ricos e pobres, a pelo menos um banho além do matinal, diariamente. Um hábito herdado dos índios, banhos e banhos, nem que seja com água de mangueira.

Conversando com o representante do Primeiro Mundo, fiz a besteira de falar, como um perfeito idiota terceiro-mundista, de Política e fui por ele devidamente esclarecido que "em se tratando da difusão dos ideais revolucionários à esquerda, e só à esquerda, tudo vale, inclusive utilizar táticas nazistas". Visitou, ao sair de Porto Alegre, a Venezuela de Chaves e a Argentina, sabe-se lá para quê. Havia uns padres franceses e belgas, representantes de instituições europeias, envolvidos com os tais fóruns, além dos ecologistas incendiários.

Contudo, a situação mais divertida desta visita exótica foi o contato da nossa querida doméstica na época, vou chamá-la de G.,  uma moça de família muito pobre, moradora de uma destas favelas da zona Norte de Porto Alegre, que criava seus dois filhos e os mantinha super bem cuidados, e muito estudiosos numa escola pública. Trabalhou em nossa  casa por uns 20 anos...no dia em que veio limpar a casa defrontou-se com o visitante que, nas semanas em que foi nosso hóspede, tomou apenas um banho e, só então, trocou as roupas.
Em um dia anterior ao raríssimo banho, G. me disse, com um olhar debochado que usava muito frequentemente:

- Doutor Jorge, me desculpe lhe falar sobre seu hóspede, mas no chão onde este francês pisa fica mau cheiro. Sou obrigada a ir aos lugares depois que ele sai, com um pano com lixívia perfumada, para que não empeste a casa.

E, diante da gargalhada que dei, rematou com uma frase muito brasileira:

-"Eu sou pobre, mas eu sou limpinha".

Anos depois, quando a encontrei na rua, lembramos disso, com muitos risos.

Esta foi minha iluminação sobre os pobres brasileiros, entre os quais eu e G. nos incluímos, e um nobre idealista à gauche, representante da alta burguesia do primeiro mundo.



sexta-feira, 26 de junho de 2020

leituras de Platão à Pessoa

“o poeta é um fingidor”
Fernando Pessoa

Amo Poesia como amo bom vinho,
Mas não creio no poema. 
Não sigo Poesia e,
Muito menos, poetas.

A poesia não revela verdades, 
Ela extasia,
Contagia de espanto ou melancolia
Pela elegância e ritmo
Das palavras em paixão.

Serve para isto a Poesia,
Adornar ídolos e mitos,
Pregar verdades não.

Não peço verdades ao poeta,
Nem humana grandeza.
Não precisa ser um sábio,
Santo, mas o esteta
A costurar beleza.

Pedir-lhe verdades
É matar a liberdade
Da farsa e da loucura,

Da irresponsabilidade
Da Poesia
Em sua inteireza
Impura.

sábado, 23 de maio de 2020

oração

«Le visage du prochain me signifie une responsabilité irrécusable, précédant tout consentement libre, tout pacte, tout contrat.» 

«(...) j'ai toujours pensé que l'élection n'est pas du tout un privilège; c'est la caractéristique fondamentale de la personne humaine, en tant que moralement responsable. 
La responsabilité est une individuation, un principe d'individuation. Sur le fameaux problème, «l'homme est-il individiué par la matière, individué para la forme?», je soutiens l'individuation par la responsabilité pour autrui.»


Emmanuel Lévinas



Quero ir além
Da felicidade
Que me deste,

Quero servir-te,
Senhor, pelo tempo
Que reste.

Minha alma
É inundada
Do Amor que
Ofereces,

Quero levar
Este dom a
Quem padece.

Fruo na mente
O que aprendi
E o que ensinas.

Que minha ação
Seja instrumento
Das tuas mãos divinas.

domingo, 17 de maio de 2020

Poema da quarentena V

Menos filosofias sobre o Ser,
Menos carisma, inconsistências,
Menos discurso, mais ciência,
Menos palavra, mais silêncio
E alguma dose de inocência.

Há quem confunda intelecto
E consciência, lucidez com poder.
Mas o poder é um sopro apenas,
A lucidez é o espanto de viver
Na fluidez das coisas pequenas
Que imaginávamos reger.

Silencio e vivo alegrias e penas
Antes que o fim me varra, ali adiante,
Antes que tua voz não mais me beije
O ouvido. O sentido é mais amar.
O resto, olvido.



domingo, 3 de maio de 2020

Canção de Seikilos

Música/Poesia grega antiquíssima (200 aC), composta por um marido para sua esposa que morrera.  É a mais antiga composição musical completa incluindo notação musical.
No epitáfio gravado em pedra lê-se: "Eu sou uma lápide, uma imagem. Seikilos me pôs aqui como símbolo duradouro de uma recordação eterna"


"Enquanto vives, brilha,
Não te aflijas além da conta.
Pois tua vida é tão curta

E o tempo cobra o seu preço."




Hino Órfico a Dioniso

Evoé, ninfas! evoé, Baco!
"Vem, bendito Dioniso, deus de múltiplos nomes,
com face de touro, filho do trovão, famoso Baco,
De poder universal a quem espadas, sangue e ira sagrada
deleitam com euforia, ó louco, ó deus da voz ruidosa,
Ó furioso inspirador que carrega a vara:
Reverenciado pelos deuses,
Ó deus que coabita com os humanos,
Vem benigno, com ânimo alegre, 

Suavemente".

https://youtu.be/3Xqf5iGjh34


Os gregos reverenciavam também a face telúrica, violenta, aparentemente absurda e sensual da Natureza, e que coabita conosco neste mundo.

Segundo Hino Délfico a Apolo

Por volta de 130 aC, poesia-música (ainda eram a mesma coisa) sobre o nascimento de Apolo (Phoebo para os romanos), filho de Leto:

"Venham, musas macedônicas que habitam os penhascos cobertos da neve do Helikon, a esta encosta do Parnaso de amplas vistas, onde os dançarinos são bem-vindos, e me transportem nas canções.
Cantem em homenagem a Apolo, arqueiro e músico habilidoso de dourados cabelos, a quem Leto gerou nas margens do pântano apertando com as mãos um grosso galho de oliveira verde-acinzentada enquanto paria."
https://youtu.be/tbA8WF4V0tg?si=-VsBmhIyanfbY5EY


Eu me arrisco a interpretar: o nascimento do deus da luz, do sol da lucidez, ocorre no ambiente de um pântano e envolve castigo divino de ter que sofrer as dores de um parto...ou seja, o processo do lento, doloroso, desenvolvimento Humano.

domingo, 26 de abril de 2020

nostalgia

Hoje, meu coração inundou-se

de uruguay, carmelo, colonia
del santisimo sacramento,
playa seré, y las calles todas
Adonde anduvimos enamorados y felices,
con amigos amados,
en nuestras raíces,
y flores, dalia que extraño,
y frutos, uvas y arándanos,
y gatos y perros, y tilos.

Hoy mi corazón se desbordó
de pasados presentes,
regalos guardados en el alma,
Por siempre,

Para sempre.


Quarentena IV - sou o que sou

Ehyeh Asher Ehyeh

Santo não sou, nem gênio. Sou humano,
Nem o maior, nem o menor: eu não compito.
Se eu já quis ser o melhor foi meu engano,
E o pior é tudo aquilo que eu evito.

Sou o que sou e isto sendo vou adiante,
Carvão a transformar-se em diamante,

Mais que isto, lentamente, aprendendo
Que o Mistério, centro em mim, é que incita
A criar a minha história ao estar vivendo
O que sou, da minha forma mais bonita.

E disto não abro mão: tenho bom gosto
De distinguir entre o que é o Belo, o Bem,
E o que parece precioso mas é o oposto,
Iludindo aos que seguem outro alguém.






domingo, 19 de abril de 2020

Poema da Quarentena III - Cuida-te

Cuida-te! Precioso dom que a vida nos deu, cuida-te!

Tu és maior que toda profecia, política, filosofia,
Ou mensagem divina.

Tu és único,
E teu respirar revive a Vida 
Desde bebê, 
Até adulto, 
Velho,
Decrépito, 
Até o último suspiro,
Enquanto a vida puder.

Cuida-te!

Deixa que falsos-sábios eructem bobagens,
Políticos defequem politicagens,
Homens que não amam humanos
Calculem se deves viver,
Dividindo a unidade 
Pela tua idade.

Lava as mãos, banha-te em água pura,
Veste a máscara sagrada que protege,
Permanece contigo e com quem amas:
Joia rara guardada no estojo de veludo.

Tu és, para ti, e os que te amam, tudo!

sexta-feira, 10 de abril de 2020

"o maior dos homens é o que serve a todos"


As tradições são geradas ao longo de séculos pela ação dos povos e seus expoentes: heróis, génios inspirados, homens justos, santos. E ao longo dos séculos, as tradições cristalizam-se, envelhecem, tornam-se incompatíveis com os tempos novos, enrijecem ao tentar barrar o que há de melhor no que lhes parece distinto do que elas contêm: o outro, o diferente.
A tradição torna-se então o cadáver do espírito que a gerou.
As grandes almas, pessoas que espontaneamente expressam o melhor da essência humana e, portanto, da essência das tradições, poderão ser elementos perigosos aos olhos de uma tradição que se tornou o oposto de seus ideais. Vejo assim Jesus, não somente em relação à tradição judaica, mas em relação as demais tradições. 
Não foi o Herói grego, vencedor de batalhas, mas mostrou o ápice do heroísmo ao confrontar os formalismos religiosos e os conluios políticos, mantendo-se íntegro, defendendo o que acreditava até a morte.
Não foi o doutor da lei, mas viveu a lei do Deus que amava, a cada momento.
Não foi o poderoso Messias libertador de algum povo, pelo contrário, mas com sua vida, transformou a Humanidade.
Não foi o rico cidadão romano, mas seu poder penetrou as almas sensíveis, modificando a história.
E assim, viveu o que ele mesmo era e acreditava, narrando parábolas, simples lições de vida, numa língua arcaica e desconhecida para o grande mundo, ensinando para pescadores, alguns deles analfabetos, numa apagada região do Oriente Médio. Não criou uma religião, viveu a sua própria.
Todo o Evangelho tem a marca de sua personalidade, incluindo arroubos juvenis, gestos de amizade terna, palavras de um enorme coração e de uma mente sábia, a dolorosa confrontação com o sacrifício, quando a grandeza se mesclou à perplexidade, a humildade imensa, o silêncio honesto diante da pergunta crucial que lhe fizeram: o que é a Verdade?
Um personagem poderia ter sido criado para gerar a nova religião, mas jamais essa personalidade pujante, verdadeira, amorosa, humilhada e vencedora. Tudo ali é absolutamente humano, inesperado, autêntico, como os atos de algumas pessoas especiais que passam em nossa vida, criando e enriquecendo incansavelmente a comunidade, sem grandes discursos, ou brilhos. Gente simples, silenciosa e maravilhosa. O Homem pode ser assim.
E ele foi também o sensitivo, o curador, o vidente. Ele também demonstrou, escandalosamente, aos homens comuns os grandes potenciais da espiritualidade. Talvez por isto, após sua morte, tenha sido entronizado como Ídolo, à maneira das divindades romanas e a Igreja, bem como os posteriores cultos cristãos que a seguiram, tornaram-se o oposto daquele espírito inicial, a sua Sombra prepotente, rígida, moralista, mercantilista, fanática. Contudo, o surpreendente é que a personalidade de Jesus foi e é tão grande que consegue transcender à Ideologia e ao Império, ambos decaídos, estando ainda hoje a propor caminhos a toda a gente, confortando a qualquer um, independente de ortodoxias e cultos.
E qual a essência da mensagem que rompeu a História e mudou o mundo? Que o amor que age no mundo em benefício dos outros, independente das diferenças entre os homens, é o remédio necessário, o bálsamo oferecido pelo Criador, para os sofrimentos e perigos que recorrentemente põem em risco a frágil Humanidade.
Nada mais atual.






sexta-feira, 3 de abril de 2020

sobre as origens do COVID

Em anexo, artigo da revista Nature, como sempre excelente, discute os aspectos moleculares do COVID, em comparação com os demais coronavirus para analisar as prováveis fontes da epidemia. Aparentemente, um pangolin, animalzinho da Malásia ilegalmente comercializado na China, contaminou algum(ns) humano(s) e houve mutações adaptativas nos vírus produzindo a cepa responsável pela epidemia. Por diversos motivos há fortes evidências de que a fonte não foi laboratorialmente provocada. Nature, porém afirma que, embora seja improvável uma origem laboratorial, não há como refutar a hipótese completamente. Óbvio.
E aí três questões éticas e legais se levantam:
1) Experimentos com vírus, e com quimeras (híbridos de genes humanos/ de animais) deveriam ser fortemente regulados em todo o mundo,  eventualmente proibidos por uma Corte Internacional. Pasmem, diferentemente dos países Ocidentais, a China, não dispõe uma regulação de pesquisa que aspectos éticos e legais.  
Nem penso em Bioterrorismo.
 Penso em incompetência humana na manipulação e armazenamento de vírus e tecidos. Diz a Nature, nas conclusões de um artigo que tem sido citado como a voz da "comunidade científica" de que que a origem do COVID foi natural. Eu traduzo:
"Pesquisa básica envolvendo modificações induzidas nos Coronavirus semelhantes ao SARS-COV de morcegos em culturas celulares e/ou modelos animais tem sido realizadas há muitos anos em laboatórios de nível de Biossegurança em todo mundo, e há relatos documentados de escapes de vírus SARS-CoV de alguns laboratórios. DEVEMOS, PORTANTO, EXAMINAR A POSSIBILIDADE DE UM ESCAPE LABORATORIAL DO SARS-COV-2 (na origem da Pandemia). Em teoria, é possível que as mutações RBD adquiridas pelo vírus tenham ocorrido durante a adaptação às modificações induzidas na cultura celular, como tem sido observado em estudos com vírus SARS-Cov". 
2) A absurda demora na notificação pelo PC Chinês da epidemia para o mundo, a prisão do médico que detectou pela primeira vez a doença, e sua morte, deveriam causar repúdio internacional e sanções pelos países democráticos.
3) a venda liberada, independente de um controle de qualidade, de produtos médicos de baixíssima eficiência pela China que, por exemplo, não diagnosticam adequadamente a infecção do COVID (veja-se o imbroglio da venda de testes rápidos de COVID com valores de falsos-negativos em torno de 70%), tendo o PC Chinês se manifestado por twitter (!!!), acusando o governo espanhol de haver comprado produtos em empresas não qualificadas (mas que vendem livremente!), fazem-nos pensar que estamos confiando na mercadoria de um lojão chinês, destes existentes em qualquer cidadezinha, vendendo bugigangas com a qualidade que conhecemos perfeitamente. 
Outras acusações do PC Chinês envolveram a Geni Tropical, o nosso Brasil, que estaria vendendo carne contaminada com COVID aos chineses (antes de se ter certeza de que a transmissão do vírus é pelo ar, sem dúvida). Acusar, livrar-se das responsabilidades, isto sim, eles sabem. 
Nesta hora, do ponto de vista ético e legal, selecionar o mais barato, pode ser destruir comunidades humanas, matar pessoas!

terça-feira, 31 de março de 2020

COVID

Eu gostava muito de filosofia quando guri. Pré-Socráticos, idealistas gregos, Voltaire, Kant, Nietzsche, o escambau aos meus 16, 17 anos e até mais tarde. Com o tempo e o envolvimento com a Ciência Médica, minha visão sobre filosofia mudou. A filosofia, esta criadora de Sistemas, com seus aprofundamentos prematuros e seu palavrório refinado levou a imensos absurdos como os conceitos de Hegel e as desgraças dos totalitarismos. Estes pensamentos que deduzem possibilidades a partir de intuições, insights misturados com literatura, erudições livrescas, preconceitos, religiosidade e bondade, ou maldade, da alma humana, me deixam incrédulo, pois seus métodos são falhos. Minha única excessão é Hannah Arendt, que ainda leio de joelhos.
Aprendi a apreciar o pensamento indutivo, que retira das experiências, num laboratório, ou na vida, algumas reflexões ou conclusões, reconhecendo a falibilidade das mesmas. Sempre uma visão retrospectiva sobre a aparência dos dados percebidos. Como dizia Wilde, "só os tolos não crêem nas aparências".
Neste momento, o que eu consigo retirar da experiência COVID?
Que nunca, como agora, torna-se clara a importância, literalmente vital, dos conhecimentos científicos, das vacinas, da experimentação séria. É evidente a incompetência dos "curadores de tudo", dos explicadores profundíssimos sobre tudo, que resolvem o mundo em casa, sentados.
Fica clara para mim a maravilhosa ferramenta criada nas garagens de uns jovens americanos que revolucionaram de tal forma a História Humana que um império totalitário como a URSS veio abaixo. Possibilitaram a nós, seres humanos isolados por milhares de quilômetros, trocar sorrisos e afeto, como se estivéssemos numa mesma sala, assim desfazendo nossos medos e solidão. Criação dos novos tempos, desde antes deste vírus.
O mundo do amanhã começou neste passado recente, através do método científico e das novas tecnologias, e a mente humana, instrumento da alma, é maravilhosa ao solucionar problemas e gerar soluções para a vida de todos. E é justo confiar nisto.
O que eu tiro desta experiência?
É que todas as ferramentas dos tais "novos tempos" estão já agora em nossas mãos. Este momento é a tomada de consciência destas conquistas.
Basta nos irmanarmos para o futuro melhor, indo além das ideologias que têm produzido tanto mal.
E que venha a vacina, e os novos tratamentos!
Sem filosofices.

Dr. Carlos Chagas, minha homenagem