domingo, 3 de maio de 2015

A ave e o templo


O instante leve pousou
Na parede de milênios:

Ideia nova brotada
Em desgastado neurônio,

Frágil vida revivendo
História que já foi vida,

Mondrian marmóreo em
Monocrômica morte:
Mensagem de impermanência.

Porém se a ave é uma ave
Ela é de Ave a Ideia 
E se parede é a Parede
Não qualquer uma, mas Grega,
A Ideia que desce do espaço
Mantém-se viva na Grécia.
- Isto Platão diria
Na Hélade, mãe da Ciência. -

A ave pousou mirando
Atenas que vive abaixo
A circundar a colina
Onde Atená ainda mora
Em sua mansão divina.
Se ora as paredes parecem
Escombros amontoados,
A alma nascida ali
Vive agora em todo lado:

No homem que cria técnica,
Na mulher que se libera,
Na poesia que compões
E nos sonhos da Nova Era,
Na união de corpo e mente
No amor entre todos e todas,

A alma daquele templo
Não é o passado, é o presente.

Do alto de uma janela
A ave da liberdade
Olha o infante Ocidente
Nascido nesta colina
Pensando o seu futuro
Com a Humanidade menina.






terça-feira, 21 de abril de 2015

elegia

Elege o bom
Do som ou sonho,
Ou cor, ou vida,
Ou forma, ou essência.

Sê rico e amplo,
Lúcido e elegante,
Leve e sem a pompa
Da falsa ciência.

O sol ilumina
Choça e palácio
Ao ser o que é:
Fogo amarelo.

Sabor delícia
Boca de rei
E de mendigo
Sabem sabê-lo.

Mas, ouve, amigo
Com o amor
É diferente:

Se em alma livre
O Amor puseste
A liberdade
Emana aroma à
Flor no agreste,

Mas se o Amor
Acaso aquece
Quem não se ama,
Ou não merece,
Não há o que o ciúme
Não emperre
Ou empeste.







sábado, 11 de abril de 2015

crente do contemporâneo

Habituara-se 
Aos haréns baratos dos bordéis,
Aos freudianos rotineiros abismos

Para ser o que se diz que deve ser

Contemporâneo.

Temia as alturas
De ser claro, 
Íntegro,
Esmerado em traço e cor,
Suave de coração.

Temia
Perder chão
Ao desvestir-se do escuro,
Revivia Rimbaud
Artaud e cia.
À exaustão...

Temia
Luzir como podia:

Pecava às avessas,
Traía-se. 

E fez-se comum entre os chulos,
Assumindo a náusea alheia,
Infiel crente dos ismos.

Apagou-se chama
Por crer deselegante
A transcendência humana

E morreu desconhecida luz

Num mundo que,
Desesperado,
A pedia.


versinho sobre o fluir da vida

Onde está você
Onde você está:
Neste instante vivo
Ou num distante lá?

O que é você
No que você é:
Sonho concretizado,
Ou devaneio da fé?

Aonde você vai
Aonde vai você:
Adiante, porta-bandeira,
Ou, trambolho, a reboque?

O que faz você
No que você faz:
Mestre criando a Obra,
Ou apenas capataz?

O tempo toma da vida
O que a vida tem de tempo:

Cada hora há de trazer
O precioso momento.
Todo instante deve ser
Solene, único evento.

E, contudo, tudo suave
Como amar a um amigo:
A vida flui sem entrave
Se a gente está bem consigo.




domingo, 29 de março de 2015

início de outono

Uma tarde perfeita, morna quase fria
Fios de sol flutuam ao sopro da brisa
Ruas silenciosas sussurrando poemas
Flores revelando tons de rosa e prata

Por aqui andamos banhados de ouro
Beijados de sol sobre a roupa pele
Inflados de vida sob a pele corpo
Somos uns balões a flutuar no alto

Olhando a vida lentos longes leves
A sintetizar alma como que num parto
Do filho do amor de invisíveis deuses

Tarde de uma vida silente ao lado
Bela companheira que já foi paixões

Hoje amor luzindo sem queimar aquece




domingo, 22 de março de 2015

ecce homo

(lembrando o filme A Liberdade é Azul, de Krzysztof Kieslowski)


Ouço o coração a dizer

 “É tempo!“

E os músculos, e as tensões, os intentos
Já, ou não, vividos,
Os olhos, os ouvidos, sussurrando
A todo momento 

“É o tempo!“

E os sonhos, as idéias, pirações e inspirações,
Os ritmos de fora coincidindo com os do centro,
As memórias e recordações brotando de dentro

“É chegado o tempo!“

E as emoções profundas, as sensações mais fundas,
O sentimento de amor que conheci na vida,
E os pressentimentos de um futuro,

Um futuro a sorrir, dizendo “Olha!

São chegados os tempos!“

Olho, e vejo, a imensa fauna humana
(Que conheço bem na sua competência
de criar miséria e guerra)
Agora a produzir com a Ciência a cura
Da peste e da alma perdida na insciência.

Não mais bicho apenas. Homem!

Vejo um Anjo que nasce do coração do Homem
Cantando a sinfonia com palavras de Paulo,
Em adoração ao que criou as cordas geradoras
Das múltiplas dimensões do espaço-tempo.
Vejo a Mente despertando de um sono
Profundo que era gritos, pesadelo,
E esta mente silenciada enfim descobre
A voz da vida no que pensava ser 
O silêncio do Nada.

Vejo os Estados-nação desfeitos
E os povos, então, irmanados agora, 
Entoando juntos neste cântico, o poema:

“Quando eu era menino, falava como menino,
sentia como menino,
discorria como menino,
mas, logo que cheguei a ser homem,
acabei com as coisas de menino.

Porque agora vemos por espelho em enigma,
mas então veremos face a face;
agora conheço em parte,
mas então conhecerei como também sou conhecido.

Agora, pois, permanecem a fé, a esperança e o amor, 
estes três, mas o maior destes é o amor.“ *

Hoje vejo mais claro a face do Homem,
Livre de dogmas e atavismos de credo e raça,
E das ideologias...

O tempo, 

O mundo novo,
É chegado:

Eis o Homem!


* Paulo, Carta aos Coríntios 13