sábado, 16 de janeiro de 2016

passarinho


Pássaro sozinho
Levado pelo vento
Para longe do ninho
Pia, pia pensamento,
Pia, pia som fininho,
A voz do que é frágil.

Bate asas, passarinho,
Tu que és uma ave ágil,
Porque a vida é viagem,
Sopro dos lábios do tempo.

O teu ninho és tu mesmo:
Memória, mistério e intento.




domingo, 10 de janeiro de 2016

Francisco


O mundo é
O que é
E nós somos
Animais
Ariscos.

Somos anjos
E no olho do mundo
Nós somos 
Um cisco.

Somos 
A cura
E a doença.

E tu és Francisco,
Frater Chico,
Irmão sol
Das sombras,
Luz suave
Aos olhos,
Leve presença.

Pico
Da montanha
Humana.



Imitação do Cristo (Lodovico Cardi, detto Cigoli)

sábado, 12 de dezembro de 2015

Natal

Cantar da vida
Em cada canto:

Passarada alvoroçada
Com a criançada brincando,
Velhos a falar na praça
Suas histórias contando,
Cachorros correm e latem,
Um gato se espreguiçando,
O sol se abre no espaço
A aldeia iluminando.

Os amados andam de braços,
Dados, se amando.

De tão lindo, o momento
Já é saudade ao fluir.
De tão suave, o pensamento
É silêncio a se exprimir.

Mas há música do espaço
Descendo-nos feito aragem,
Trazendo ritmo ao mundo,
E, num poema, mensagem.

Eu escuto, encantado,
O espetáculo sinfônico
Do encantamento das coisas
Que são a vida cantando.





terça-feira, 8 de dezembro de 2015

Covilhã


Há um sem fim de morros e montanhas,
De verde-azul vestidos, e de névoas,
Árvores cor de oliva, ou de ouro e cobre,
De folhas alaranjadas, ou vermelhas,

Casas brancas, ou de pedra, rubras telhas,
Antigas catedrais, franciscanos conventos,
Como memórias brotadas em algum sonho,
Mensagens de outro Tempo ao pensamento...

E a gente, ao se cruzar,  abre um sorriso:
Bom dia, fique bem, a casa é sua.

E a noite fria, sob o olhar da lua,

Nos leva a andar, sem medo, pelas ruas.



domingo, 13 de setembro de 2015

flor de adonis (ou saber entregar-se)


 «Non, dit Aphrodite, tout ne sera pourtant pas soumis à votre loi, il subsistera à jamais un souvenir de ma douleur, ô mon Adonis ; la scène de ta mort, périodiquement représentée, rappellera chaque année mes lamentations ; et puis ton sang sera changé en une fleur» 
Ovídio


O cavaleiro foi ao fim das forças e
Exausto, descrente de que pode, ele
Chega à praia ancestral de onde partira,
Olha o mar verde, as mãos, suspira,

Abandona na areia a armadura: elmo,
Couraça, escudo, lança e espadas.
O próprio coração ele desveste,
E o deixa no chão, altar ao deus do nada.

Vira-se na direção do mar antigo:
Sem mais caminhos é o menino que já fora
Na casa paterna onde um dia crescera,
Relaxa os ombros, dorme ao desabrigo.

Então, do mar grande vento remonta,
A arrastar areia, coração e armadura.
Sem o homem vencido dar-se conta
A Natureza livre ou o mata ou o cura.

Cruzam-se as espadas no ar, a lança aponta
Na direção do que o guerreiro não sabia,
As mãos do acaso, o caos, sabem traçar
Rumos virgens em que a vida se desvia.

Números encaixam-se em inéditas fórmulas,
Círculos curvam-se a gerar torvelhinhos,
Abrem-se desgastadas, conhecidas, formas,
Criam-se sonhos, desafios, ganas, caminhos

E, no ápice, o coração aberto do guerreiro
Pulsa, por ser sol, iluminando o céu inteiro
E abarca o turbilhão das forças liberadas.

Desperta o homem, cavaleiro novamente,
Veste-se de si e de armas, segue em frente,

Coração renascido: uma flor do chão brotada.