domingo, 16 de agosto de 2026

Carta aos amigos

Despido da antiga pátria, minha história digerida,

Tão perto do que serei e tão longe do que hei sido,

Comemoro com sol e brisa o nascimento do dia.


Ponho tintas nos pincéis, traço ideias, crio tons,

Ouço o mundo, seus gorjeios, ruídos, vozes: os sacros sons.


Saco do fundo do peito o tesouro dos meus dons

E fruo o que tenho direito: 

Viver o que é belo e bom.



O Grove


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Dois eclipses, duas eras

Hoje, pelas 18 horas no horário de Lisboa, vai haver um eclipse solar total em parte de Portugal. 

O último eclipse deste tipo ocorreu em 1912. E eu lembrei o que a nossa vó portuguesa me contou sobre aquele dia, que demonstra o quanto o mundo mudou para melhor (em alguns aspectos, pelo menos). 

A avó Maria Rosa Januário dos Santos me disse que quando o sol desapareceu, houve pânico na região do Algarve onde eles viviam. Não sei exatamente se ainda era no Almancil ou já em Olhão.

As mulheres saíram aos prantos para a rua, levando velas acesas, a pedir perdão pelas culpas do mundo, que estava acabando, e a implorar a Deus pela volta da luz do sol…

Acho até poético, mas que boa é a evolução do conhecimento científico e a eliminação do medo e das superstições. Viva o método científico.

Adorei ter lembrado disto e das muitas falas de minha vó.



terça-feira, 11 de agosto de 2026

Os vôos de um poeta

 

Brisas frias chegam na varanda,

Vindas dos ares de Compostela,

A repetir nesta manhã de estio 

A notícia de que a vida é bela.


Esta Boa Nova que eu percebo

Vem da brisa ou deste coração,

Ainda a pulsar sob a camisa?


As aves esvoaçam desde o mar

Em grandes bandos, volteando

Sob o sol, cantam felizes a voar.


É por amor a estar revoando

Que vêm do oceano a gorjear?

Ou é o poeta, ao estar voando,

Quem ama vê-las em bando a cantar?


segunda-feira, 10 de agosto de 2026

Estaria o Brasil envolvido num programa nuclear envolvendo o criminoso de guerra Putin, o regime comunista chinês e o totalitarismo iraniano, entre outros?

Fui atrás desta informação, que me deixou muito curioso e preocupado. Eis o resultado da pesquisa com a busca: nuclear program including BRICS... Parece ser verdade: o Brasil estaria coordenando um programa junto ao criminoso de guerra Putin, o regime comunista chinês, o regime totalitário iraniano e outros. Traduzindo ao português:

"O bloco econômico BRICS coordena objetivos no setor nuclear civil por meio da Plataforma de Energia Nuclear do BRICS, uma aliança estabelecida em outubro de 2024 para promover a cooperação em energia limpa, compartilhar tecnologia do ciclo do combustível e alinhar cadeias de suprimentos entre Estados-membros e parceiros, como Rússia, China, Brasil, África do Sul e Irã. Estrutura e Membros – Aliança Principal: Conecta órgãos nucleares estatais e empresas comerciais, incluindo a Rosatom (Rússia), a CNNC (China) e a NECSA (África do Sul). Nações Parceiras: Abrange a articulação com potenciais membros ou membros associados e regiões ricas em recursos, incluindo Bolívia, Etiópia, Egito e potenciais fornecedores de urânio, como a Namíbia. Capacidades Conjuntas: O bloco representa quase um terço da capacidade nuclear operacional mundial e uma maioria substancial dos reatores atualmente em construção em todo o mundo. Principais Áreas de Foco – Reatores Modulares Pequenos (SMRs): Desenvolvimento conjunto e compartilhamento tecnológico de projetos de reatores compactos para abastecer redes isoladas e infraestruturas de dados de alta demanda. Ciclo do Combustível e Urânio: Mapeamento cooperativo de recursos, iniciativas de extração de urânio (como a assistência técnica russa no Brasil) e fabricação localizada de combustível. Padronização e Capacitação: Educação profissional transfronteiriça, alinhamento regulatório e programas de intercâmbio de mão de obra (como fóruns técnicos conjuntos e cúpulas de jovens sobre energia). Pessoalmente, considerando os membros coligados, eu descartaria as justificativas bom-mocistas desta união lamentável.


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

Uruguai e a liberação do uso da cannabis

Como funcionaram as medidas “progressistas” que visavam resolver a questão do tráfico de drogas no Uruguai através da liberação do uso de cannabis? Reduziram a criminalidade?

Pois a violência geral e a relacionada ao tráfico de estupefacientes foram potencializadas ao longo destes anos no Uruguai. Só em Montevidéu atualmente lutam entre si 49 bandas criminosas, com múltiplos assassinatos e violência urbana contra os cidadãos. 

O PCC do Brasil faz a sua festa macabra! 

Um trabalho epidemiológico a ser desenvolvido pelos médicos uruguaios deveria buscar identificar o aumento de distúrbios psiquiátricos no país, especialmente entre adolescentes. 

Uma pena! Um país que já foi exemplo de segurança pública.

Tudo isto desde Mujica e seus “compañeros”…

Sobre Ivermectina, terapias alternativas, práticas médicas irresponsáveis e as "novidades" médicas divulgadas na TV e nas redes sociais

Sobre a investigação de novos medicamentos e também de segunda indicação de medicamentos já aprovados para outro uso clínico:

Os resultados de estudos em animais envolvendo qualquer droga não indicam eficácia. Estes estudos pré-clínicos servem como etapa preparatória para a avaliação de segurança do medicamento, análise de farmacodinâmica e farmacocinética e o cálculo da dose segura, exclusivamente para o início do estudo clínico.

A fase 1 clínica, ou seja, em pessoas, utiliza 1/10 da dose do estudo pré-clínico, em pequena amostra de voluntários, constando de apenas 3 doses consecutivas, e constituindo a primeira etapa de avaliação da eficácia e dos efeitos adversos da droga.

A fase 2 (com as etapas 2a e 2b), envolve maior número de participantes e aumenta a possibilidade de confirmar eficácia e segurança.  A busca por reações adversas é ainda mais exaustiva. Medicamentos já aprovados para outra indicação clínica não necessitam passar pelos estudos pré-clínicos e pela fase 1, devendo ser testados a partir da fase 2. 

A fase 3 envolve estudos multicêntricos internacionais com milhares de participantes (mais de 3 mil pessoas), visando aprofundar os aspectos estatísticos e de poder do efeito terapêutico relacionados à eficácia e ao risco da droga analisada. Mantém-se a busca extensiva e cuidadosa dos possíveis efeitos adversos. 

Todas as fases clínicas envolvem, portanto, a monitorização de reações adversas e a comparação, quando possível, com o melhor tratamento já existente no momento do estudo (o padrão-ouro), ou com placebo.  Havendo ocorrência de efeitos adversos graves, o estudo clínico é interrompido.

Estudos pré-clínicos em modelos animais não servem para liberar o uso de uma droga nem para confirmar sua eficácia em seres humanos. Experiências individuais, sem controle, pelo menos, por placebo,  podem envolver todo tipo de viés e não servem como referência. 

Só após a fase 3 pode haver a liberação para uso do medicamento pela população, num período sem limitação de tempo e sem cálculo amostral, denominado fase 4, na qual se mantém a análise da efetividade e a busca sistemática pelas agências nacionais de saúde (FDA, EDA, INFARMED, ANVISA, etc...) das  reações adversas ao medicamento em situação menos controlada do que nas amostras das fases anteriores.

Em situações específicas, como na AIDS, no câncer, em pandemias, ou num evento de bioterror, por exemplo, em que a pesquisa de uma droga eficaz deve ser realizada o mais breve possível, as fases são condensadas e agrupadas,  digamos, fase 1 com fase 2A, de modo a identificar a eficácia e os efeitos adversos. Busca-se, nesta situação de urgência, oferecer à população afetada o acesso à nova terapêutica, caso a eficácia e a segurança tenham sido adequadamente demonstradas até então. Assim foi durante a pandemia causada pelo COVID-19.  Aliás, o uso em larga escala de vacinas baseadas numa metodologia inovadora que chegou a bloquear a tragédia desta pandemia ficou registrado para o futuro da Humanidade  como uma  inegável vitória das ciências médicas, biomédicas e farmacológicas. Após a liberação para o uso assistencial destas vacinas, continuam, como para todos os medicamentos, a busca por drogas cada vez mais eficazes e a triagem de efeitos adversos. No caso de outras vacinas (contra a varicela,  papilomavírus, rotavírus, influenza, e tríplice viral, ou seja, contra sarampo, caxumba e rubéola), o tempo do seu desenvolvimento, não sendo em modo de fast-track, durou no mínimo entre 18 e 35 anos, mantendo-se ainda agora e futuramente a vigilância dos efeitos adversos e análise da efetividade. Não há relação entre autismo e o uso de qualquer uma destas vacinas.

Aos colegas médicos, farmacêuticos e biomédicos, e mesmo ao público em geral, todos afetados nas redes sociais por ideologias políticas, filosóficas e pseudocientíficas, eu sugiro que busquem, por favor, nos sites de medicina e farmacologia, informações sobre a eficácia e a segurança da ivermectina para COVID-19 em estudos internacionais amplos. Inexiste qualquer indicação do seu uso. Leiam as referências que listo abaixo sobre a regulação dos estudos de investigação de medicamentos. É algo fundamental nestes tempos malucos! 

Não creiam em fanáticos, doidos, idiotas desinformados e mal-intencionados. Sobretudo, não busquem conhecimento com youtubers e influencers.

Não seja mais um tolo pescado nesta rede de teorias conspiratórias. 
Misturar investigação clínica com política e ideologia é trágico. O que houve no período Bolsonaro, como o que ocorre atualmente nos Estados Unidos, é vergonhoso. Com a diferença de que, no período Bolsonaro, o governo adquiriu vacinas de melhor qualidade e a campanha de vacinação em larga escala do Ministério da Saúde permitiu o controle da epidemia da COVID-19 no país. Nos Estados Unidos, a administração federal é antivacina (o que é uma insanidade). 

Pesquise, ainda, sobre a “Medicina Desumana” nazista e a negação da teoria da evolução pelos soviéticos. Ambas mataram muita gente. 

Vide (sobre a negação da teoria da evolução pelos soviéticos):
https://paideiapensamentoepoesia.blogspot.com/2025/07/a-ilusao-das-ideologias-e-o.html

Referências (sobre a ética da investigação clínica em humanos):

Goldim, JR. A avaliação ética da investigação científica de novas drogas: a importância da caracterização adequada das fases de pesquisa. Rev HCPA 2007;27(1).

Goldim, JR. O uso de drogas ainda experimentais em assistência: extensão de pesquisa, uso compassivo e acesso expandido. Rev Panam Salud Publica/Pan Am J Public Health 23(3), 2008.

Dingwall R & Rozelle Viena. The Ethical Governance of German Physicians, 1890-1939: Are There Lessons from History? The Journal of Policy History, Vol. 23, No. 1, 2011.

Marchetti F. Autismo, paracetamolo e vaccini: quando la retorica politica sfida le evidenze scientifiche [Autism, acetaminophen, and vaccines: when political rhetoric challenges scientific evidence]. Recenti Prog Med. 2026 Feb;117(2):83-86. Italian. doi: 10.1701/4649.46622.

Medical Research Ethics: Challenges in the 21st Century. Zima T & Weisstub DN (eds.). Springer Verlag (2023) 






domingo, 2 de agosto de 2026

Ares do Norte (no câmbio climático)



Desde o mar, lentas nuvens a mover-se

Empurradas do Atlântico por brisas

Sobrevoam as ruas de Valença

Para arejar a ardente Ibéria sem camisa.


O rio Minho vem cantando em galego

As canções dos celtas em seus castros,

Destas terras frias e enevoadas,

Num Portugal-Espanha sem divisa.


Respiro fundo a sorver a aragem fresca.

Nestes calores, o ar do Minho nos refresca...




quarta-feira, 8 de julho de 2026

Canção dos 70 anos


Brotam as horas, eu sigo a fluir na sua corrente,

Rio que não vejo e que nasceu de húmido ventre,

Fruto do amor, nunca apagado, a acompanhar-me

Na correnteza que, ao me levar, sobe montanhas.


Sina estranha é deste fluxo estarmos conscientes,

Como quem sabe o que se esconde, futuramente.

Mas quando atracaremos segue a ser mistério,

(Eterno enigma a nos desafiar com seu império.) 


Sei dos caminhos tortuosos, confusos, destas rotas.

Batalhei em tantas lutas, provei vitórias e derrotas,


Conheço cada cicatriz marcada na pele e na alma. 


Posso ver, à distância, o vulto do porto prometido,

Aves litorâneas já vêm gorjear aos meus ouvidos...


Nauta que sou, manobro ao cais, com toda a calma.


Ria de Combarro, Galiza, 2026

domingo, 14 de junho de 2026

Sobre o Cemitério de Pardais

"Os jovens sonham com o futuro, os velhos com o passado. Na minha avançada idade, eu sonho com a Marina, aquela que foi a mulher da minha vida. Tenho oitenta e oito anos e sonho ainda com o nosso primeiro encontro, na Plaza Mayor de Madrid, junto à estátua do rei Filipe III. No seu espanhol melodioso, disse-me que a estátua equestre tinha sido um verdadeiro cementerio de gorriones. Um cemitério de pardais que entravam pela boca do cavalo, mas que, depois, não conseguiam dar com a saída. O pescoço era estreito - ficavam presos naquele soberbo costil. Só em 1931, aquando da implantação da República, após um atentado à bomba que destruiu parte da estátua, se descobriram pequenos ossos de pássaros no ventre do cavalo."

Parágrafo inicial de Cemitério de Pardais, do autor João Morgado

" A idade é o menor sintoma da velhice..."

Mário Quinata, A Vaca e o Hipogrifo




sábado, 13 de junho de 2026

Desconhecidas rias

Rias de Combarro, sul de Galícia


Ser um homem comum

É o que me basta,

Sujeito ignorado,

Sem temer julgamentos 

Como os sofri no passado,

Sem tramar impossíveis futuros,

O exequível presente já  me chega.

Não programar os meus dias:

Que me venham as linhas, tintas, 

Cores, ideias, livros e poesia.

Não planear desconhecidas rotas,

Andar pelos rumos de onde estou

Por ignoradas ruas, sempre novas,

Verdes rios, azul-mar, montanhas, inarráveis rias.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Cumpriu-se Portugal

Portugal,  Ilha de São Miguel, nos Açores

Entre as incontáveis coisas que amo em Portugal: ao passar por alguém, mesmo desconhecido, ou entrar numa sala com várias pessoas, aqui se diz Bom dia! E a resposta sempre vem, e com sorriso no rosto. Diante de coisas gentis que dizemos ou fazemos, receber um Muito Obrigado. Ou, ao receber algum pedido, mesmo simples, escutar “se faz o favor”.

Andar pela rua sempre em segurança, de dia ou à noite; sentir-se seguro também nas estradas perfeitas e com tráfego suave. Ao por o pé na faixa de pedestres, literalmente “parar o trânsito”. O clima ameno, as incontáveis andorinhas fazendo festa nesta época do ano, as águas dos rios verdes e transparentes, as flores silvestres por todo canto, mesmo nos terrenos baldios e nas beiras dos caminhos. A qualidade incomparável dos vinhos, das frutas e do café. A potabilidade da água da torneira na Covilhã, cidade em que moramos (100%) e Valença, onde vamos morar (99,8%). 

Não é de estranhar que multidões do norte da Europa estejam vindo a residir em Portugal, criando, sim, por isto um problema importante, a subida dos preços dos imóveis. Pensávamos que não conseguiríamos comprar um novo imóvel por aqui, e começamos a buscar no norte da Espanha, de clima parecido, mas com preços bem mais baixos. Felizes, agora, por termos conseguido uma boa casa no distrito de Viana do Castelo!  

É tanta coisa que me faz amar Portugal, que fico silencioso ao apreciar o grande presente da vida: ter-me tornado português. 

Aliás, quando fui buscar o documento da cidadania portuguesa, a senhora que me recebeu, antes de entrega-lo, me perguntou: -Qual a sua nacionalidade? E eu, surpreso, respondi: - Sou brasileiro… Ela, então, mostrou um grande sorriso e me disse: -Não, o senhor agora é Português! Emocionante. Coisas de Portugal.

sábado, 9 de maio de 2026

O fundamental


O lugar de nascimento, o ambiente cultural, a família, o genoma quase sempre determinam um destino. Mas fundamental mesmo é o Quase.



Minha família no Rio Grande do Sul, lá por 2016.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Cidade e as Serras (humilde homenagem em versos, literalmente livres, ao grande Eça de Queirós)

Deixo para lá as guerras recriadas por religiosos e ideólogos fanáticos.

Arcaico reino dos infernos a reerguer-se com as almas dos seus crentes infelizes. 

Abdico ao Novo Mundo e suas máfias, destruidoras de homens e países,

Desconheço o blá-blá-blá televisivo e os youtubers propagandistas desses crimes,


E, finalmente, olho as montanhas, 

Aspiro o aroma dos campos portugueses,

Sorrio às boas gentes que sorriem,

Sigo rios de memoráveis nomes, a fluir:

Tejo, Douro, Zêzere, Minho, 

Guadiana,  Mondego, Côa, Lima,

A desfrutar a Primavera a me florir

Nestes nossos sempre novos dias

Pelos rumos misteriosos do Devir. 



Campo nos Açores, Portugal


segunda-feira, 20 de abril de 2026

Conversa com a Vida

 


Édipo e a Esfinge, c.1806-08 | Francois-Xavier Fabre



Revela-se a vida e, apesar dos caminhos previsíveis,

Chega enigmática, a esquina de múltiplas saídas.


Como sempre tem sido, olha-me e aponta com o dedo

O rumo que é de todos, mas lentamente, vai girando o braço  


E, ao mostrar as trilhas incontáveis, diz:  como bem queiras.


Assim temos sido, eu e a vida. 

Eu, o aprendiz a decifrar os seus mistérios,

Ela, a antiquíssima esfinge, a repetir que 

Eu sou o Enigma. 


segunda-feira, 16 de março de 2026

A riqueza nas pessoas

 Todo sistema político-econômico coletivista aniquila a riqueza, e assim aniquila-se, por tentar destruir o que há de mais engenhoso e deslumbrante neste mundo: a diversidade dos seres humanos. 

Magnífico é perceber que cada pessoa é única. E este é o maior tesouro da humanidade: o valor intrínseco de cada pessoa, a heterogeneidade entre os humanos. 
Eu diria que não só entre os humanos, pois também os animais têm características específicas que aprendemos a amar. Mas na humanidade, esta riqueza potencializa-se e cada pessoa é uma dádiva única da Criação, revelando a Sacralidade da Pessoa e o valor da Liberdade.
Nossas características pessoais, nossa riqueza, bem como os nossos potenciais em processo de desenvolvimento, ou seja, nossas fraquezas, são dádivas da vida. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mercado (texto de 1990, sobre coisas do Brasil, antes da IA)

Vendem-se aprofundamentos interiores, técnicas de cura, auto-cura, auto-estima, auto-erotismo, auto-hipnose, auto-diagnóstico. Vendem-se automóveis. 

Vendem-se terapias reichiana, freudiana, lackaniana, junguiana, disponibilizadas, a um bom preço se for sem recibo, a discutir com a doutora Fulana.  

Vendem-se nasoplastias, mamoplastias, lipoesculturas, abdominoplastias e tatuagens de corpo inteiro.

Vendem-se filosofias, ideologias, “mirações” de Maria, caldos mágicos, plantas amazônicas, ervas curativas, cannabis, e que algum deus, se puder, te ajude depois disto. 

Vende-se o método completo de liberação libidinal, com direito a participação em cursos de farras grupais (sem envolvimentos neuróticos passionais).

Vende-se o céu sem esforço e a salvação de todos os pecados no templo da esquina da rua onde moras.  

Vendem-se bilhetes de ingresso em grupos de Somaterapia, constelações familiares, Bioenergética, Biodança, e também  de Biologia sem vestibular.

Vendem-se manuais para envolvimento afetivo, profilaxias para carapaças emocionais e terapêuticas  para traumas de infância e/ou de outras vidas.

Vendem-se a abertura dos chakras para novas realidades, e uma coleção completa da revista Realidade (da década de 70). 

Vendem-se coleções de apostilas sobre hata, tantra e raja iogas, ocultismo dos povos nômades do deserto de Gobi, prefaciadas por um mestre sufi. 

Vendem-se santinhos de um político pernambucano, e uma fotografia do Che Guevara, com frases proferidas pelo dito cujo lá pelos tempos em que matava homossexuais em Cuba.  

Vendem-se os segredos das pirâmides e cristais. Vendem-se contatos com espíritos luminosos e os mestres ascensionados, vendem-se sessões de shiatsu e reiki, além de uma fita cassete com a gravação de “Delírios espirituais” do Gilberto Gil.

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Dispõe-se ainda de alguns valores antigos, a escolher, incluindo bom gosto, seriedade, lucidez, esforço intelectual, crítica, autocrítica e respeito à Ética (estes, em liquidação devido a procura limitada).


Falo dos elementos (poema de 1990)

 Derramem-se as águas estancadas,

Rompam-se diques, desfaçam-se represas,

Chovam as nuvens carregadas,

Fluam as fontes da pedra dura,

Desagüem os córregos, os rios, no mar.

Massas de tecido transparente,

Libertem-se, movam-se!

O coração desperta dum longo sono.


Ventos, movam as pás dos moinhos,

Ondulantes trigais, cabelos,

Levantem saias.

Façam cantar as folhas das árvores,

As grandes amplidões, os buracos,

As janelas mal-fechadas, os becos,

Limpem as ruas cheias de papéis

E de coisas inúteis jogadas fora.

Façam curvas, ventos,

Grandes movimentos aerodinâmicos,

Purifiquem o ar!

O coração desperta dum longo sono.


Fogo, brota das entranhas da terra

Em transbordante lava e traz 

 O sêmen do mundo à superfície .

Funde metais, solda, transforma substâncias,

Produz vapor, movimento, calor, amorna a vida

Que é fria.

Dá-nos a temperatura certa,

Recompõe a face do mundo,

Dissolve o que tem sido!

O coração desperta dum longo sono.


Terra,  recebe as sementes e as germina,

Come o que é podre, desagrega o que contamina,

Engole o que foi e produz o que será.

Apóia os pés, dá firmeza,

Grande força horizontal

Que sustenta a realidade.

Move-te pelos oceanos, muda a face do planeta,

Coagula-te em maiores partículas,

Agrega e dissemina, 

Acolhe raízes e frutifica-as,


Pois esta é a hora esperada

Para que os elementos indistintos,

Recobrem a potência adormecida,

Represada, quase sumida,

Mas viva,

Homem ereto!




Viagens - (poema de 1997)

Paris é tão chique,

Tão megalópole, densa,

Tão tensa, funda, 

E imensa,

Que é como se nossa alma

Houvesse ainda ali,

Que é como andar pelo tempo

Além de andar pelo espaço

E tocar o passado do mundo

Com a ponta do nosso braço.


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É de entranhas feita Madri:

Fogo dos céus e dos infernos.

Mas sendo leve, me sorri:

Flamencos ternos.


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Lisboa, Alfama à noite,

E eu sonho com uma mulher em chamas.

Talvez o cheiro do mar

Traga lembranças 

De outros tempos 

E camas.

Mas é provável

Que seja apenas delírio,

Por ver Alfama.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Flamenco (poema de 1993)

Inigualável par de olhos negros,

Fundos, sombrios,

Vales frescos, rios,

Nuvens estelares,

Arabescos,

Danças de bailarinas

 Árabes, flamenco,

O teu olhar 

De Espanha à noite,

E eu o comendo 

De tanto olhar

Que eu entendo

Porque é oblíquo 

O teu olhar,

Exíguo em tempo,

É só um flerte,

Algo no ar

Por um segundo,

Mas como é enorme 

O teu olhar

E como é fundo.






Onde (poema 1995)

Onde está ser feliz?

O quanto e quando?


Ser feliz é ser

Ao estar buscando.


Não é o porto que busco,

Mas ser barco navegando.

Não é o quadro que eu quero,

Mas usar as aquarelas.


Mesmo o amor perfeito,

Encontrar é menor

Que querê-lo.