domingo, 14 de junho de 2026

Sobre o Cemitério de Pardais

"Os jovens sonham com o futuro, os velhos com o passado. Na minha avançada idade, eu sonho com a Marina, aquela que foi a mulher da minha vida. Tenho oitenta e oito anos e sonho ainda com o nosso primeiro encontro, na Plaza Mayor de Madrid, junto à estátua do rei Filipe III. No seu espanhol melodioso, disse-me que a estátua equestre tinha sido um verdadeiro cementerio de gorriones. Um cemitério de pardais que entravam pela boca do cavalo, mas que, depois, não conseguiam dar com a saída. O pescoço era estreito - ficavam presos naquele soberbo costil. Só em 1931, aquando da implantação da República, após um atentado à bomba que destruiu parte da estátua, se descobriram pequenos ossos de pássaros no ventre do cavalo."

Parágrafo inicial de Cemitério de Pardais, do autor João Morgado

" A idade é o menor sintoma da velhice..."

Mário Quinata, A Vaca e o Hipogrifo




sábado, 13 de junho de 2026

Desconhecidas rias

Rias de Combarro, sul de Galícia


Ser um homem comum

É o que me basta,

Sujeito ignorado,

Sem temer julgamentos 

Como os sofri no passado,

Sem tramar impossíveis futuros,

O exequível presente já  me chega.

Não programar os meus dias:

Que me venham as linhas, tintas, 

Cores, ideias, livros e poesia.

Não planear desconhecidas rotas,

Andar pelos rumos de onde estou

Por ignoradas ruas, sempre novas,

Verdes rios, azul-mar, montanhas, inarráveis rias.


quinta-feira, 21 de maio de 2026

Cumpriu-se Portugal

Portugal,  Ilha de São Miguel, nos Açores

Entre as incontáveis coisas que amo em Portugal: ao passar por alguém, mesmo desconhecido, ou entrar numa sala com várias pessoas, aqui se diz Bom dia! E a resposta sempre vem, e com sorriso no rosto. Diante de coisas gentis que dizemos ou fazemos, receber um Muito Obrigado. Ou, ao receber algum pedido, mesmo simples, escutar “se faz o favor”.

Andar pela rua sempre em segurança, de dia ou à noite; sentir-se seguro também nas estradas perfeitas e com tráfego suave. Ao por o pé na faixa de pedestres, literalmente “parar o trânsito”. O clima ameno, as incontáveis andorinhas fazendo festa nesta época do ano, as águas dos rios verdes e transparentes, as flores silvestres por todo canto, mesmo nos terrenos baldios e nas beiras dos caminhos. A qualidade incomparável dos vinhos, das frutas e do café. A potabilidade da água da torneira na Covilhã, cidade em que moramos (100%) e Valença, onde vamos morar (99,8%). 

Não é de estranhar que multidões do norte da Europa estejam vindo a residir em Portugal, criando, sim, por isto um problema importante, a subida dos preços dos imóveis. Pensávamos que não conseguiríamos comprar um novo imóvel por aqui, e começamos a buscar no norte da Espanha, de clima parecido, mas com preços bem mais baixos. Felizes, agora, por termos conseguido uma boa casa no distrito de Viana do Castelo!  

É tanta coisa que me faz amar Portugal, que fico silencioso ao apreciar o grande presente da vida: ter-me tornado português. 

Aliás, quando fui buscar o documento da cidadania portuguesa, a senhora que me recebeu, antes de entrega-lo, me perguntou: -Qual a sua nacionalidade? E eu, surpreso, respondi: - Sou brasileiro… Ela, então, mostrou um grande sorriso e me disse: -Não, o senhor agora é Português! Emocionante. Coisas de Portugal.

sábado, 9 de maio de 2026

O fundamental


O lugar de nascimento, o ambiente cultural, a família, o genoma quase sempre determinam um destino. Mas fundamental mesmo é o Quase.



Minha família no Rio Grande do Sul, lá por 2016.

sexta-feira, 1 de maio de 2026

A Cidade e as Serras (humilde homenagem em versos, literalmente livres, ao grande Eça de Queirós)

Deixo para lá as guerras recriadas por religiosos e ideólogos fanáticos.

Arcaico reino dos infernos a reerguer-se com as almas dos seus crentes infelizes. 

Abdico ao Novo Mundo e suas máfias, destruidoras de homens e países,

Desconheço o blá-blá-blá televisivo e os youtubers propagandistas desses crimes,


E, finalmente, olho as montanhas, 

Aspiro o aroma dos campos portugueses,

Sorrio às boas gentes que sorriem,

Sigo rios de memoráveis nomes, a fluir:

Tejo, Douro, Zêzere, Minho, 

Guadiana,  Mondego, Côa, Lima,

A desfrutar a Primavera a me florir

Nestes nossos sempre novos dias

Pelos rumos misteriosos do Devir. 



Campo nos Açores, Portugal


segunda-feira, 20 de abril de 2026

Conversa com a Vida

 


Édipo e a Esfinge, c.1806-08 | Francois-Xavier Fabre



Revela-se a vida e, apesar dos caminhos previsíveis,

Chega enigmática, a esquina de múltiplas saídas.


Como sempre tem sido, olha-me e aponta com o dedo

O rumo que é de todos, mas lentamente, vai girando o braço  


E, ao mostrar as trilhas incontáveis, diz:  como bem queiras.


Assim temos sido, eu e a vida. 

Eu, o aprendiz a decifrar os seus mistérios,

Ela, a antiquíssima esfinge, a repetir que 

Eu sou o Enigma. 


segunda-feira, 16 de março de 2026

A riqueza nas pessoas

 Todo sistema político-econômico coletivista aniquila a riqueza, e assim aniquila-se, por tentar destruir o que há de mais engenhoso e deslumbrante neste mundo: a diversidade dos seres humanos. 

Magnífico é perceber que cada pessoa é única. E este é o maior tesouro da humanidade: o valor intrínseco de cada pessoa, a heterogeneidade entre os humanos. 
Eu diria que não só entre os humanos, pois também os animais têm características específicas que aprendemos a amar. Mas na humanidade, esta riqueza potencializa-se e cada pessoa é uma dádiva única da Criação, revelando a Sacralidade da Pessoa e o valor da Liberdade.
Nossas características pessoais, nossa riqueza, bem como os nossos potenciais em processo de desenvolvimento, ou seja, nossas fraquezas, são dádivas da vida. 


sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

Mercado (texto de 1990, sobre coisas do Brasil, antes da IA)

Vendem-se aprofundamentos interiores, técnicas de cura, auto-cura, auto-estima, auto-erotismo, auto-hipnose, auto-diagnóstico. Vendem-se automóveis. 

Vendem-se terapias reichiana, freudiana, lackaniana, junguiana, disponibilizadas, a um bom preço se for sem recibo, a discutir com a doutora Fulana.  

Vendem-se nasoplastias, mamoplastias, lipoesculturas, abdominoplastias e tatuagens de corpo inteiro.

Vendem-se filosofias, ideologias, “mirações” de Maria, caldos mágicos, plantas amazônicas, ervas curativas, cannabis, e que algum deus, se puder, te ajude depois disto. 

Vende-se o método completo de liberação libidinal, com direito a participação em cursos de farras grupais (sem envolvimentos neuróticos passionais).

Vende-se o céu sem esforço e a salvação de todos os pecados no templo da esquina da rua onde moras.  

Vendem-se bilhetes de ingresso em grupos de Somaterapia, constelações familiares, Bioenergética, Biodança, e também  de Biologia sem vestibular.

Vendem-se manuais para envolvimento afetivo, profilaxias para carapaças emocionais e terapêuticas  para traumas de infância e/ou de outras vidas.

Vendem-se a abertura dos chakras para novas realidades, e uma coleção completa da revista Realidade (da década de 70). 

Vendem-se coleções de apostilas sobre hata, tantra e raja iogas, ocultismo dos povos nômades do deserto de Gobi, prefaciadas por um mestre sufi. 

Vendem-se santinhos de um político pernambucano, e uma fotografia do Che Guevara, com frases proferidas pelo dito cujo lá pelos tempos em que matava homossexuais em Cuba.  

Vendem-se os segredos das pirâmides e cristais. Vendem-se contatos com espíritos luminosos e os mestres ascensionados, vendem-se sessões de shiatsu e reiki, além de uma fita cassete com a gravação de “Delírios espirituais” do Gilberto Gil.

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Dispõe-se ainda de alguns valores antigos, a escolher, incluindo bom gosto, seriedade, lucidez, esforço intelectual, crítica, autocrítica e respeito à Ética (estes, em liquidação devido a procura limitada).


Falo dos elementos (poema de 1990)

 Derramem-se as águas estancadas,

Rompam-se diques, desfaçam-se represas,

Chovam as nuvens carregadas,

Fluam as fontes da pedra dura,

Desagüem os córregos, os rios, no mar.

Massas de tecido transparente,

Libertem-se, movam-se!

O coração desperta dum longo sono.


Ventos, movam as pás dos moinhos,

Ondulantes trigais, cabelos,

Levantem saias.

Façam cantar as folhas das árvores,

As grandes amplidões, os buracos,

As janelas mal-fechadas, os becos,

Limpem as ruas cheias de papéis

E de coisas inúteis jogadas fora.

Façam curvas, ventos,

Grandes movimentos aerodinâmicos,

Purifiquem o ar!

O coração desperta dum longo sono.


Fogo, brota das entranhas da terra

Em transbordante lava e traz 

 O sêmen do mundo à superfície .

Funde metais, solda, transforma substâncias,

Produz vapor, movimento, calor, amorna a vida

Que é fria.

Dá-nos a temperatura certa,

Recompõe a face do mundo, a transmutá-lo.

Dissolve o que tem sido assim!

O coração desperta dum longo sono.


Terra,  recebe as sementes e as germina,

Come o que é podre, desagrega o que contamina,

Engole o que foi e produz o que será.

Apóia os pés, dá firmeza,

Grande força horizontal

Que sustenta a realidade.

Move-te pelos oceanos, muda a face do planeta,

Coagula-te em maiores partículas,

Agrega e dissemina, 

Acolhe raízes e frutifica-as,


Pois esta é a hora esperada

Para que os elementos indistintos,

Recobrem a potência adormecida,

Represada, quase sumida,

Mas viva,

Homem ereto!




Viagens - (poema de 1997)

Paris é tão chique,

Tão megalópole, densa,

Tão tensa, funda, 

E imensa,

Que é como se nossa alma

Houvesse ainda ali,

Que é como andar pelo tempo

Além de andar pelo espaço

E tocar o passado do mundo

Com a ponta do nosso braço.


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É de entranhas feita Madri:

Fogo dos céus e dos infernos.

Mas sendo leve, me sorri:

Flamencos ternos.


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Lisboa, Alfama à noite,

E eu sonho com uma mulher em chamas.

Talvez o cheiro do mar

Traga lembranças 

De outros tempos 

E camas.

Mas é provável

Que seja apenas delírio,

Por ver Alfama.



quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Flamenco (poema de 1993)

Inigualável par de olhos negros,

Fundos, sombrios,

Vales frescos, rios,

Nuvens estelares,

Arabescos,

Danças de bailarinas

 Árabes, flamenco,

O teu olhar 

De Espanha à noite,

E eu o comendo 

De tanto olhar

Que eu entendo

Porque é oblíquo 

O teu olhar,

Exíguo em tempo,

É só um flerte,

Algo no ar

Por um segundo,

Mas como é enorme 

O teu olhar

E como é fundo.






Onde (poema 1995)

Onde está ser feliz?

O quanto e quando?


Ser feliz é ser

Ao estar buscando.


Não é o porto que busco,

Mas ser barco navegando.

Não é o quadro que eu quero,

Mas usar as aquarelas.


Mesmo o amor perfeito,

Encontrar é menor

Que querê-lo.








 

O amor desatento (poema de 1995)

 O amor desatento

Vai deixando os seus rastros:

Pedaços de ilusão,

Usados e esquecidos.

Brasas da paixão,

Chamas consumidas.

Botes de salvação,

Entradas e saídas.

Brisas de emoção

Que já foram tempestades.

Palavras ditas em vão

Que calaram mil verdades.

Fotos em preto-e-branco

Que já foram coloridas.


Bilhetes, cartas,

Presentes, e as coisas 

Escondidas

Dentro de caixas guardadas

A sete chaves, no armário.


Ursinhos de pelúcia, bombons, 

Os santos sudários,

Manchados com o sangue quente

Dos amantes incendiários.


O amor desatento

Vai deixando os seus rastros,

Que têm a tristeza da terra

E o fogo eterno dos astros




sábado, 31 de janeiro de 2026

A desinformação dos tempos da "inteligência" artificial (ou os que usam a internet para cuidar da saúde e da sua vida, ou ainda, os que "seguem" o youtube):


Nestes tempos de superprodução de informações sem qualidade, recria-se a realidade das conversas baseadas em opiniões da sociedade. O que perde valor, no fim, é o instrumento digital, as redes, incluindo a assim chamada “Inteligência Artificial”. Haverá sempre as vítimas, infelizmente: a multidão dos desinformados, os incultos, os iludidos. Os mesmos que têm sido os crentes das informações da TV, das novelas, como já o foram os do noticiário do rádio, e os leitores das revistas populares, os consumidores de propaganda. E há também os crentes cegos na leitura de má literatura; os egos inflados de filosofia e ciência malfeitas e as almas fanatizadas por cultos religiosos ou politicagem. 

Não se deve bloquear estes processos numa tentativa totalitária de controlar a sociedade, mas sim instruir as pessoas com o melhor conhecimento disponível e desenvolver sempre nosso próprio espírito crítico baseado em estudo sistemático. A ciência bem feita e adequadamente analisada é o instrumento para isto. 

Educação de boa qualidade.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2026

Esperanças metereológicas



Chove forte lá fora e, forte, de novo, venta.

Sol nenhum nos vem para aquecer as ventas.

Caudais inundam ruas a escoar pelas ladeiras,

O gelo gera águas; a brisa, as tormentas.


Se isto segue adiante, no mundo a adaptar-se

Às novas condições de um clima em catarse,

Então, que ao fim, no árido Sahara, assim despertem

Os riachos, rios, lagoas ou o mar, que dos céus vertem.















domingo, 4 de janeiro de 2026

Venezuela Libre? (e a Política Charmosa)

Tem sido vergonhosa a atitude de negação ideológica e desinteresse dos países “livres” e organismos internacionais sobre a Venezuela. Foram cerca de oito milhões de pessoas a abandonar aquele país, que tornou-se outra miserável ditadura socialista latinoamericana. 

Do Brasil, que deixou de ser um país livre e hoje é uma ditadura do Poder Judiciário nas mãos de um partido co-responsável direto pela tragédia humanitária no país-irmão, não se podia esperar outra atitude. Mas dos governos e instituições internacionais era esperada alguma resposta, compatível com a gravidade da questão humanitária óbvia, que fosse mais contundente que o Prêmio Nobel à corajosa dissidente Sra. Corina Machado.

Uma excessiva bondade com criminosos de “esquerda”, um elegante “deixa prá lá”. O mesmo com a Rússia e o seu psicopata de plantão: comércio, negócios, sorrisos em eventos, até que torna-se óbvio o bandido que frequenta a tua casa; ele demonstra claramente que vai tomar para si e os seus a tua riqueza. Ele despreza os teus ideais. Ele te mete medo ao ameaçar-te com bombas nucleares, e assim humilha-te. Ele tem sido um criminoso a quem sustentas.

Não há como ser favorável a uma invasão estrangeira num país latinoamericano. Mas pior, muito pior, é ser conivente com corruptos, criminosos internacionais associados ao narcotráfico, tiranos destruidores de Economias e países em nome de um idealismo “à gauche”, irresponsável, que já  criou regimes totalitários e matou milhões de pessoas (há menos de um século).

(Vide, por favor, a segunda parte de As Origens do Totalitarismo, da Hannah Arendt. Em versão reduzida, Le Système Totalitaire, da mesma autora).

sábado, 20 de dezembro de 2025

A certeza e o oposto



De onde eu sou, se nem sequer, ao certo, eu sei

O meu endereço, ou o rumo dos meus passos?

Sei, sim, de um rio que nasce por Galícia e 

Beija Valença, Cerveira, Monção e Melgaço,


Indo a esvair-se, lentamente, no Oceano imenso.

Onde eu nasci não mais pertenço, aquilo que vivi

Eu nem mais penso, do quê eu fui sou o avesso.

Mas ao meu berço, roto casulo, eu tenho apreço.


Ainda assim e, talvez justo por isto, agora eu sei

Que sou um filho meu, o meu país e a sua Lei, 

Sem partido, ideologia, religião, ou qualquer grei,


Demasiado humano, o anti-herói, mas nunca avaro,

Hoje senhor só do meu Tempo, reverso Aasvero, 

Grato à vida pelos dons, sonhos e sendas, eu não paro. 




sexta-feira, 5 de dezembro de 2025

intenção e ato

 

Um novo passo: outro espaço.

Um outro dia a morte adia.


Uma palavra e o mundo é outro.

Abres a mão: dá-se o encontro.


Soa a tua voz e surge o verso.


Tu pensas “nós” do que é diverso:

Eras um só, nasce o universo.


sexta-feira, 7 de novembro de 2025

Por estes dias, no Minho (ou estes días no Miño)



Olho da janela as montanhas portuguesas, 

Como olho as de Espanha.

Ali estás, Tui,

Aqui moro, Valença.


E o Minho lentamente flui 

A nutrir sagrados vinhedos,

De alvas uvas alvarinhas.

Meus pés estão entre mundos

Tão distintos e fundidos,

Tão iguais e cindidos

Pelas águas de um rio 

Apenas.


Logo ali eu vou a Vigo,

Feliz ainda por viajar contigo.


Logo além, Ourense,

Pontevedra, Sanxenxo,

E adiante a Compostela, de Santiago.


E amo as nuvens que esfriam

Este mundo a arder,

Que mantém a vida verde e

A crescer, frutífera.


Amo o frio e as neblinas,

E sou o vizinho de dois povos,

Irmãos que se abraçam, 

Sorrindo, 

Nesta aquífera esquina.


sexta-feira, 17 de outubro de 2025

Sobre a mortalidade infantil no Brasil (ou "a falência das políticas públicas no Brasil", ou "as décadas perdidas")

 Ontem fiquei feliz quando o IBGE divulgou, isoladamente, a curva da mortalidade infantil desde 2010 (ou seja, desde o governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, incluindo os governos petistas). Esta curva está a circular nas redes. Por que será? Eu pensei: talvez o PT não seja tão ruim. Sim, sou ingênuo, mas graças ao bom Deus, tenho alguma capacidade crítica. Então, hoje, recuperado da informação vinda através das redes sociais, eu refleti:

-Espera lá...mas e antes de 2010? Como foi a evolução temporal deste processo de decréscimo? 

Fui atrás dos dados do IBGE anteriores a 2010 (vejam a curva ao final) e...dei-me conta de que o PT é mais do que politiqueiro, coisa comum em todas as democracias, é mitômano e adona-se das realizações alheias, das capacidades dos próprios brasileiros de gerar desenvolvimento e mudanças...E jamais reconhece ou revela sua incompetência. Tenta ocultar ou fraudar os dados. Fiquei sabendo que o decréscimo virtuoso da mortalidade infantil  iniciou-se na década de 60, durante o período dos militares no poder, tendo esta tendência da bem-vinda redução das mortes infantis desacelerado a partir de 2013.

O decréscimo da mortalidade infantil no Brasil desde 1960 dependeu de múltiplos fatores, incluindo as campanhas internacionais para o uso da reidratação oral no tratamento das diarreias infantis, especialmente nos países em desenvolvimento.  Além da vacinação massiva para doenças transmissíveis como o sarampo, e melhorias das condições de saneamento básico e moradia, bem como da qualidade do atendimento público à Saúde. O Sistema Único de Saúde (SUS),  criado em 1990, foi desenvolvido e aperfeiçoado ao longo de décadas, num esforço suprapartidário, envolvendo os diversos agentes políticos que governaram o Brasil neste largo período, vindo a tornar-se uma referência internacional de sucesso. Por exemplo, durante o governo do Prof. Dr. Fernando Henrique Cardoso iniciou a distribuição de medicamentos genéricos, que vieram beneficiar o atendimento da população em geral. Além disto, o Brasil conta com as Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, a qual, como tem sido ao longo da História desde a conversão do Imperador romano Constatino, lá por 300 dC, funciona como fonte inspiradora e dinamizadora de toda a ajuda e proteção aos desfavorecidos, às crianças, aos doentes crônicos. Conste aqui que eu não sou católico, não sigo uma religião formal.  No Brasil, através da "Pastoral da Criança", sob a coordenação da pediatra Zilda Arns, falecida no Haití em 2010, ocorreu um grandioso esforço popular de atendimento às regiões mais carentes do país, com a ajuda de inúmeros brasileiros voluntários, indo de casa em casa, pesando as crianças e levando tratamento à desidratação recorrente e à desnutrição calórico-proteica que ainda mata os menores do Norte e do Nordeste do País. 

Estão distorcendo informações ao mostrar os dados de modo incompleto, e incorreto. Tomam para si os resultados do esforço de milhares de brasileiros, independente de partidos e ideologias, entre os quais eu, humilde pediatra, orgulhosamente, me incluo, e não discute as evidências da realidade nacional. A realidade é que, conforme estudo recente produzido no Rio Grande do Sul, houve uma estagnação no decréscimento da mortalidade infantil e, portanto, nos índices de qualidade de vida do Brasil, desde o governo da Dilma Roussef, e que tem-se mantido. Ainda mais, a mortalidade infantil brasileira, especificamente nas regiões mais pobres do país, continua a ser mais elevada em comparação a uma boa parte dos demais países latino-americanos.  Enquanto as regiões brasileiras com maior desenvolvimento econômico apresentam, nestes tristes tempos, um incremento da favelização e a estagnação do decréscimo da mortalidade infantil.

Eu saí do Brasil justamente em 2014 durante o governo lamentável da Dilma Roussef,  quando iniciou a estagnação da curva virtuosa de redução da mortalidade infantil, num momento em que o governo brasileiro, mandava dinheiro (nosso) para Cuba através do Programa Mais Médicos. Fui chamado, nas redes, de "coxinha", burguês, fascista. Eu, que escolhi Pediatria, para atender as crianças dentro do serviço público, ao invés de optar por especialidades onde talvez eu obteria mais dinheiro. Esta escolha que fiz é uma das maiores honras da minha vida: sou Pediatra, um "protetor das crianças" como denominam algumas tribos africanas.

Esta propaganda fraudulenta, por selecionar informações e mentir na mídia, de modo a recriar a realidade, em torno da mortalidade infantil é um vergonhoso lance no jogo político, especialmente por usar uma instituição que já foi das mais confiáveis do Brasil, o IBGE. 

Mas, ao fim, a verdade sempre vem à tona, enquanto houver quem seja honesto.

Referência (uma de muitas):
https://ftp.ibge.gov.br/Tabuas_Abreviadas_de_Mortalidade/2010/tabuas_abreviadas_publicacao_2010.pdf.

Fundamental:

Marcos Otávio Brum Antunes. Desaceleração na redução da mortalidade em crianças menores de cinco anos: Evidências de estagnação em regiões desenvolvidas do Brasil. Tese de Doutorado em Pós-Graduação em Pediatria e Saúde da Criança. Orientador: Marcus Herbert Jones. Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul. 2025.