sábado, 15 de setembro de 2012

Dúvidas

Tenho ganas de dizer poesia
Porque tenho dúvidas
E as dúvidas são poéticas.

Se não tenho as respostas
Deixo as dúvidas
À cargo da vida.

A vida é ávida
De dúvidas,
E vive a decifrá-las
A produzir respostas.

Sabe-se lá se, ao viver,
A vida se me decifra.

Ou, se nem a Vida
Responde,
Quem sou eu
Com minha
Pequena idéia
Para tudo de tudo,
Ao certo, saber?


sexta-feira, 17 de agosto de 2012

azul


Irmão do verde e do violeta, azul
Fruto de preciosíssimos pigmentos
-Lápis lazuli, índigo, cobalto,
Turquesa, azurita, ultramarina-
E das mais poderosas energias:
A intensíssima estrela luz azul.

Azul de todos os matizes
Desde o escuro quase negro
Até os tons flamantes de um
Céu bordado em prata e ouro:
O azul da imensidão pampeana
Profundo e tão plano
Quanto a terra plana,
Imenso azul, maior
Que o campo, o tempo,
O gado e o Humano.

Azul desde o mais frio
Ftalociano, azul
Do fundo oceânico
E da gaze de ar que vela
A paisagem: azul do distante,
Ou cerúleo azul
Das portas e janelas
Das casinhas gregas.

Na tua imagem
Brilha o azul
Nos olhos diamantes,
Tendendo ao violeta,
A vibrar os tons
Cambiantes
De uma idéia.


domingo, 5 de agosto de 2012

tu e a vida


A aparência sustenta a idéia
E a idéia conduz à essência,
Como se fosses o mundo 
A tomar de si consciência.

Olhas e o que vês reconstrói
Todo sistema que explicava um fato.

Na solidão de perceber o novo
Levas teu braço a cometer o ato.

A vida É, mas tu a transfiguras
No que nem deus ainda conhecia.

Nisto reside teu dom, criatura:

Sonhas a vida quando a vivencias,
Recrias o mundo como tu bem queiras.

segunda-feira, 30 de julho de 2012

devir


Há um tremor na vida a cada instante,
Um frêmito que podes perceber
Se tens a mente quieta,  vaga mente,
E a ingenuidade de o reconhecer.

A cada instante ela dá o último suspiro
Mas se oferece renascida ao fenecer
Gerando o novo do velho, giro a giro:
Ar que no peito vem entrar após sair.

A vida a si acrescenta o que não era
Levando a fera a ser o oposto à fera,
A fluir e refluir, motor (in)consciente.

O quê vive este fremir  universal,
Qual deus, qual o mistério abissal
A refazer-se, desconhecida Mente?




segunda-feira, 23 de julho de 2012

nossos elementos


Ressoa o ancestral murmúrio do mar,
Voz rouca a ecoar desde o horizonte.
Mar, filho do infinito espaço e mar fonte
De todo corpo vivo da terra e do ar.

Fogo do céu, o sol ao mundo amorna
E doma com sua luz a sombra espessa,
Tramando as cores que o olhar devassa
E que, nas mãos do artista, a arte entorna. 

Disto surgimos, do amálgama medonho
Entre o mar e a terra, e o fogo e o ar,
Vindo o peixe a ser fera e esta a se tornar      
O Ser Humano, onde algum anjo sonha.

Em nós há sal e espuma, nuvem e poeira
Rosnar de fera, cios, amor e a chama
Que é o anjo infante a inventar poemas.

domingo, 8 de julho de 2012

O real e as odisseias

"Outro mundo é possível..." (clichê populista)

Para traduzir do grego paideia: "...não se pode evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez." (Jaeger, 1995)


Outro mundo não é possível e tu existes neste,
Feito dos conhecidos norte e sul e leste e oeste
Entre os quais crias caminhos, poemas e traços,
Trabalhos, erro e acerto, pela força dos teus braços
E pela Ideia, esta sim livre e de natureza obscura,
Fonte de vida e beleza a transmutar a matéria dura.

Esta essência misteriosa que te conduz para diante
E vai te tornando Humano, produzindo um diamante,
Independe de quaisquer crenças, partido, ideologia:
Ela não é o resultado, mas a Dinâmica que os cria.
Ela é gana, libido, ideal, é um fogo moldando a lama,
Escondida e inconsciente exceto ao que cria ou ama.

Ela é a alma do mundo, a produzir eras  e povos
E  a soprar sonhos e poemas, e temas  e tempos novos.
E vem à vida por ti, pelas tuas mãos e de tua mente
Como o fruto de uma gestante e em cada obra nascente.
Ela não escolhe o profeta, o iluminado, ou o gênio,
Mas é magma comum às gentes fluindo pelos neurônios.

O outro mundo com que sonhas quem sonha é esta Ideia
E a tua dor pela realidade é o germen de uma Odisseia:
Aprende a sentir o vento a encher-te de força as velas
E, vivendo, transforma o sonho na tua própria Paideia.





sexta-feira, 6 de julho de 2012

sem planos

Nada a dizer, senão tudo o que sei.  Nada
A fazer, senão o que eu fizer, sem planos,
Sem perder tempo, a não ser todos os anos
Que há de haver, se é que Deus permita.

O que eu sei do que haverá é quase nada:
A vida planta e colhe em meus silêncios,
Enquanto eu nada faço e em nada penso.
Para o futuro rumam passos e estradas.

Dentro de mim sempre haverá paleta e cores,
Trinam, para mim, todos os pássaros cantores,
E em mim está o que transforma noite em dia.

Pelas pupilas, retorna ainda a tua imagem
Que é companheira e destino desta viagem.
Com o que mais, além do amor, eu sonharia?




quinta-feira, 28 de junho de 2012

A loira que lia Nietzsche


As pessoas são várias. Às vezes penso isto. Portanto, supreendentes. Diga o Jaques, velho amigo, que me contou uma história vivida por ele. Não são poucas as histórias do Jaques, sujeito que mistura vasta cultura com uma personalidade extrovertida. Na maioria das vezes extrovertida, porque de outras fecha-se a concha e o Jaques viaja por seu mundo interior ou constrói erudição em silêncio. Mas ele, nos momentos para fora tem algo de garanhão, de galã, como bicho saído da hibernação. Pois foi um destes episódios de busca ao mel que o Jaques me disse ter marcado para sempre sua carreira amorosa. Deixo o cara falar:

-Eu estava saindo de um período de alta produção. Havia devorado estudos filosóficos e, de repente, tive ganas de sair para a noite, encontrar alguma gata linda, loira e, portanto, de mente leve...Saí de casa, assoviando, lá pela meia-noite e fui até um bar onde só vai gente bonita...e leve. Entrei e pedi uma cerveja, curtindo a música dos oitenta...Olhei em torno, mirando pontarias e, de repente, vi a criatura: uma Marilyn, platinum blonde, com pernas e curvas perfeitas.
Olhou de lado e...sorriu? Cheguei perto, sorri, e...ela me deixou sentar na sua mesa.

-Oooi...(foi o que ela disse).

Pensei: meu Deus, esta deusa, com poucas palavras e uma mente...leve. Deixei para trás os livros e tentei puxar conversa. Disse, até para impressionar, que estava com a cabeça cansada, que tinha lido muito neste dia e queria relax. Ela disse:

-Eu também...

Como assim, foi à academia, fez pilates, dança do ventre, power yoga, eu pensei. E perguntei, não sem um pouco de ironia:

- O que tu fizeste hoje?

A resposta foi inesperada:

-Li.

O que esta deusa leu, pelo amor de Deus? Consegui ver a cena: no cabeleireiro...ela sentada manuseando uma Caras, ou algum romance, ou livro de auto-ajuda. Imaginei o título: Como alcançar o Amor Quântico. Ou ainda melhor: Vida feliz com Tantra Yoga. Comecei a me sentir inquieto. Perguntei, super curioso, o que havia lido.
Ela sorriu com boca e olhos e falou suavemente:

-Hoje eu terminei de ler Os Filósofos Pré-Socráticos...

Pensei: Um resumo? Livro de bolso? Mas ela disse:

-...do Nietzsche.

O que esta gatinha está fazendo com Nietzsche? Me senti traído, não sei bem por qual dos dois!
E ela começou a me contar sobre sua iniciação nitzcheana na adolescência, com Assim Falou Zaratrusta. Bah! O primeiro da sua vida fora Nietzsche: a primeira experiência. Um êxtase total que a levou ao Ecce Homo, e assim por diante. Na verdade ela estava relendo Os Filósofos... para sedimentar sua crítica aos Idealismos, aos platões da vida, mas ela não tem certezas. E por aí fomos, esquecendo o cansaço. Ela falou que os tempos de hoje são um Renascimento do que faziam os pré-socráticos: pensamento a partir dos dados. Lembrou Kant, riu às gaitadas de Hegel. Emocionou-se ao falar de Arendt.
O mais impressionante é que não havia pose, presunção, empáfia...Não! nenhuma grosseria intelectual destas: ela falava apaixonada. Meu Deus: a loira era filósofa!

O Jaques, ao me contar, botava para fora lembranças fortes. Era um segredo entre amigos. Continuou:
-Lá pelas tres da manhã, no auge da excitação, eu perguntei: tá bem, mas e a Astrofísica? E a teoria das Cordas? E...

Ela olhou para o outro lado, sorriu...e eu vi uma outra deusa, mas morena, estonteante, vindo na nossa direção. Se deram beijinhos e a loira me disse:

-Esta é minha orientadora no doutorado. Uma mente brilhante!

Fiquei de quatro, imaginando o que seria esta outra.

-Tenho que ir, me disse a Marilyn. Outra hora a gente se encontra, tá?

E foram-se. Foram-se assim no mais, e eu, babaca, estava tão atônito que não peguei telefone, endereço...nem nome. Eu fora um contato casual, um a mais apenas.
..
O Jaques suspirou fundo, com olhar esgazeado, olhando para o chão.

-Meu amigo, passei a frequentar livrarias, cafés filosóficos...Andava atento, buscando-a, pelos corredores da UFRGS, da PUC, da Unissinos...Nada. Confesso que enchi da noite, mas lá de vez em quando volto àquele bar para ver se encontro a loira que lia Nietsche...para saber se ela acha que a Teoria das Cordas tem sentido ou é uma invasão da mística budista no terreno da Física...
- Ou a sua orientadora (o Jaques é volúvel).

sábado, 23 de junho de 2012

O Tempo e o Mar


Seguimos pela praia e um forte mar espreita...
Em ondas, entre espumas, ele se alarga e  deita
O imenso corpo verde sobre a areia e  as pedras
A inseminar o mundo de umidade e plâncton.

Continuamos ainda, comparsas nesta vida,
Sentindo a maresia trançada no frio vento
Tocar nossas narinas e alma, num momento
Digno de um sonho ou um símbolo profundo.

Deixamos para trás o que nos era excesso
E os olhos aprenderam a devassar  distâncias,
Reconhecendo o Único, o Ser, o Indivíduo
Em ânsias de tornar-se o que é além das ânsias.

Abandonamos sonhos,  brinquedos de criança,
E a pele que nos veste se fez curtido couro
Por tanto Minuano e sol e maresia e tempo:
A vida nos marcou com tons de prata e ouro. 






domingo, 17 de junho de 2012

Diálogo com o silêncio


Silencio. 
Soa a poesia no silêncio:
“A fonte das idéias é a tua mente,
O magma de onde flui a lava ardente.
A Idéia é uma paixão tornada imagem,
Memória transfigurada da paisagem.
Mas e o teu Sentimento, qual a vertente
Desta água que no ardor te dessedenta
E em que tu, barco num rio, te movimentas?“

Eu respondo: 
O que temos são sistemas,
Rabiscos, sonhos, hipóteses, fé  e poemas
E, tendo  obscura visão do que nós somos,
Não sabemos nunca ao certo em quê damos.
Seguimos cegos,  apalpando  vida e  tempos
E acotovelando-nos em luta, por momentos...

“Insuflado por idéias és galé sob fortes ventos,
E nem percebes teu caminho, o Sentimento“,
Diz o poema.



domingo, 3 de junho de 2012

Epifania


Manhã fresca de sol e de concretos
Na Porto Alegre das tortuosas ruas.
Do ar do sul que chega mansamente
O homem olha o azul, e sente o frio.

A mente suave sabe ver suave a vida
E no silencio do vazio a alma se tece.
Toma o café na manhã como em ascese:
Perdoa o mundo e a vida ao aceitar-se.

E isto lhe vem assim fora dos templos
Pois o seu templo é ele e este momento
De um domingo ao sol, casa em silêncio:
A vida vem sussurrar-lhe o que é o céu...

                                                               painting by: Ricardo Fernandez Ortega

sábado, 19 de maio de 2012

Noitinha no Pampa


O Pampa à tardinha emana o perfume
De terra fertilizada pela chuva fina
E às coisas acaricia uma brisa vinda
Da sagrada cordilheira que se eleva ao sul.

Tudo se encurva, enovela-se em sono,
Tudo divaga entre as memórias do dia,
Tudo se aninha, se abraça a algum dono,
Ou pai, ou mãe, ou amor, ou abandono.

A noite vem, lentamente, a lançar veladuras
Sobre o azul prateado das cores do céu
Até cobrir o horizonte com tintas de breu

E então, ah! então  o campo se transfigura
Em cósmica paisagem, em estelar fogaréu,
Desconhecido Mistério, a estância de deus.


domingo, 13 de maio de 2012

A trampa


Na minha Terra, trampa
É armadilha de caça:

Toda arte a tem
Como o Pescar também.

Pesco palavras
Para alimentar a mim
E, talvez, a outro alguém

E me brotam os cardumes
Dos mistérios do que eu sou,
Ao arquitetar poemas
Vou sondando o meu Nous
Descrevendo-me a essência
Com alguma rima e cadência,
Velho cantador de Soul.

Na minha terra uma trampa
Não significa excremento,

Mas um anzol do talento.

sábado, 5 de maio de 2012

Puer Aeternus


Eu deixara meu coração ali plantado
À espera que sol e água o florecessem
Como se futuros brotassem do passado
Independentemente do que eu fizesse.

Veio a Alma, então, dizer-me, em sonho
Que era de não viver a dor que eu sentia,
E que meu coração se exauria, tristonho,
Guardado na cova que eu lhe dera um dia.

Libertei o meu coração nesse momento,
E nos fomos pela vida com suor e talento,
Aceitando o desafio de criar um destino

E o suor derramado ao realizar o Pensamento
Veio adubar a terra da qual brota o alimento
Para o homem que um dia fora eterno menino.





terça-feira, 1 de maio de 2012

Outonal


Imensos cúmulos-nimbos em lenta marcha
Trazem a brisa azul prateada
Que balança as folhas ocres dos plátanos.

Aroma acre de terra molhada:
É Outono em Porto Alegre.

A Natureza suspira e descansa
De tanto sol e luz passados,
A Natureza banha-se em úmidos
E frescos bálsamos,
E, vestida com um manto de camurça,
Respira fundo o vento frio
Brotado no Pampa,
Fecha os olhos e sorri,
Voltada ao Sul.






domingo, 29 de abril de 2012

les rêves bizarres

Il était une fois Porto Alegre au temps jadis
Qui me voyait bizarre enfant rêvant de Paris.

Me parlait Baudelaire
Dans les flots de l’air,
Et dans mon rêve Chopin 
Rêvait de George Sand.

Un peu plus tard j’ai connu le bon Gide
Qui m’a porté aux plaisirs qui sont fous et aussi vides.

J’entendais, enchanté, dans les nuits solitaires
Le discours rythmé de l’élegant Marcel Proust
Racontant du côté des Guermantes
Qui faisait de ma vie quelque chose de plus doux. 

Par ma chambre sont passés plusieurs poètes
Avec ses douleurs qui enchaînaient des mots,
Pour semer la fantaisie dans mon coeur esthète:
Y venait Verlaine, venait aussi Rimbaud.

Et même aujourd’hui, lorsque je suis adulte
La langue française, plus que des lettrés le culte,
Est un voyage vers la reconnaissance 

Je ne sais si vers mon âme
Ou vers l’âme de la France.









sábado, 28 de abril de 2012

Imprecisa palavra

A palavra é imprecisa e
Da sua imprecisão,
Do que ela tem de vago,
A poesia brota, 
Como jogo de ilusão 
De algum mago.
Verte feito um trago
De paixão desconhecida,
Sonho fantasma
Flutuando pela vida,
Vibração de uma corda
Evocando uma cantiga,
Evocação de memórias:

Almas que fomos, esquecidas,
Invocadas como a um antigo, e grego, deus.

A palavra é o ventre
Para um passado perdido.

Mas a palavra a vibrar
Ganha o novo sentido,
Independente do que há
Ou do que haja um dia havido:

A palavra é a vida a criar
No teu ouvido.

A palavra é tua guia, poeta.

Por ela, vais  te desbravando,
Doido esteta, meio cego, tateando,
Meio e fim sintetizando
O que sempre esteve ali
E nem sabias:

Outra face da tua alma
Exposta na poesia.

sábado, 21 de abril de 2012

A deusa


Sonho a vida:
Sigo no antigo templo o cortejo
Em honra a uma deusa antiga.
Respiram-se ali incensos,
Imaginam-se sentidos,
Sondam-se símbolos,
Aspira-se a Eternidade
E silêncio.
Ali, porém, eu
Não vislumbro o meu sentido
E saio do templo, a correr
Indo ao campo colher tuas flores, Gaia,
Ao mundo, Demeter, a colher tuas flores
E a degustar a sucessão das horas,
Abandonando a Unidade
Para perder-me
Entre os opostos,
Delícia e dores
Dos homens e as minhas.
Mas tu, útero imenso, 
Mãe das frutas e do milho,
Dos vermes, do leão e da gazela,
Ventre de todas as crias,
Atávica matriarca das tribos
Também geras a consciência,
O tino de entender o sonho
Ao viver o destino.




 

sábado, 14 de abril de 2012

Berberes


Líbia, língua berbere

Lambendo a areia
Do deserto,
Cozendo-a,
Comendo-a...
Cruzando-a
O nômade 
Por Rumos
Ignorados,
Ave seguindo
O interno ímã.
Pátria do 
Povo livre, 
Do Magrebe, 
Seja Cabila,
Mzabita ou Targui.

És de antes do Islam
E em Cirene
O Berbere sonhou em Grego
E esculpiu o bronze
Como heleno.

Hoje, como heleno,
Descobre a Liberdade.











quarta-feira, 11 de abril de 2012

Como no Bardo Thodol


És mais que a sucessão dos fatos percebidos,
A complexamente concatenar-se nos neurônios.
És mais que um extrato de múltiplos sentidos:
O cérebro é o teu instrumento, Humano gênio!

És capaz de sonhar com lugares nunca vistos,
De perceber o que para os olhos é o negrume,
Reconhecendo templos dos tempos de Cristo
E, ao envelhecer, olhar o mundo desde o cume.

E, quando o corpo vier a ser veste eliminável,
Vais aprender que a realidade é desdobrável
E outro organismo terás, luminoso e mais leve.

Integrarás, num segundo, tua inteira existência
E, transcendendo a outros níveis de consciência,
Seguirás na Grande Arte, cumprida a vita brevis.

(Poema sobre o tema da Near-death experience, em homenagem aos corajosos doutores E. Kübler-Ross, R. Moody e Pin Van Lommel)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

nem deus sabe...

O olho da noite nos mirando,
Perolado olho flutuante, o luar.
Entrelinhas entre fases
Vem a vida livremente versejar.

(Vida livre feita verso).

Fanatismo algum pode reter
A fluidez da alma e dos ventos,
A gestar mundo e pensamento,
Prenhe do que ainda nem deus sabe...

domingo, 11 de março de 2012

as memórias


Aladas,
As coisas seguem a ausência de caminhos
Surgem e se vão assim do nada
E depois disso, ah! coisas aladas
E depois disso, voltam para o Nada,
E aqui nos deixam a sonhar sozinhos?

Ou as amadas coisas desta vida
Brotam de alguma fonte desapercebida
Transmutando-nos no que ainda não sabemos
E, ao o fazerem, cumprem seu sentido:

Ficam em nós, as coisas, sempre vivas,

Como as estrelas mortas do universo
A anos-luz a luzir sempre, vivas.





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Humano, demasiado humano...


Eu te vi bicho lanhado,
Fruta com casca amassada,
Vi-te humana por demais.
Eu te vi alienada,
Desfeito o que foi no passado
Brilho, Gênio, Mente em paz.

Eu te vi com a alma partida
Por resvalar na descida
Da grande lomba da vida
Como viver a todos faz.

(O Tempo a todos o faz!)

Mas ouve: tu és um anjo
Deste mundo, e de algum outro
E tua doce voz inda ecoa
Bem lá no fundo da minha.

Confia que tua Alma boa
De algo melhor se avizinha.

Todos temos a alma partida
Ao resvalar na descida
Da grande lomba da vida:

Há que aceitar-se tombar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O cão perdido

Quando te perdes de ti mesmo
Segues na vida com olhar esgazeado,
Buscando, apressado, o Lar,
A Pátria, Ideologia ou Sentido.

Tentas todos os prazeres
Entre gozos repetidos,
Se te perdes de ti mesmo,
Para afirmar que inda estás vivo.

És o cão que se perdeu
Pelas ruas da cidade,
A buscar, ensandecido,
A casa, o dono, o colo amigo,
Ao te perderes de ti mesmo.


Vieux Port de Marseille (poema de viagem 3)


Lorsque je me demande si la France est encore belle
Dabord reste le doute: la France, qui est Elle?

Je marche dans les rues du Vieux Port de Marseille
Et maperçois que la foule suive sans nom ou patrie,
En parlant des langues de partout au monde,
Ils bavardent, ils rient, ils chantent, ils crient.

Par les rues du Vieux Port je me sens perdu
Dans la vie comme elle est, sans mystére déguisée.
La vie qui est libre, riche et pauvre, conquise
Pour la foule de cette rue qui a la voix de la vie...

Mais un pain aux olives ramène le souvenir
Du parfum dun ancien bois oublié.
Des siècles de culture peuvent être perçus
Dans le goût dun gâteau ou dans le verre dun bon vin.

La France ne rêve plus de Fraternité,
Elle se donne aux affaires que être frère nous impose:
Reconnaître en sois même à ce qui en est le divers,
Permettre, à sois même, de ressentir à linverse.



sábado, 11 de fevereiro de 2012

Filho de Chronos (poema de viagem 2)


O Tempo não nos poupa de mover-se
Na direção adiante enorme e escura,
E vai mudando tudo, devorando
A vida, a cara, a vila, a alma, os tempos.

O que se foi se foi, mas segue, ao ir-se,
Gravada em nós numa imprecisa tela
A imagem fixa de qualquer momento
Em cores débeis, que algum vento esgarça.

Alguma forma de adentrar-se haverá
Neste baú imenso e vivo do que fomos
De modo a reviver mundos e eras?

Ou só nos resta este absoluto agora
Que é olhar de dentro o mundo que está fora
E ao qual, depressa, o Tempo desconjunta?








segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

No atelier de Paul Cézanne


Onde a cor se expande e toma a forma, a linha esmaece.

Para quê a montanha dura e as árvores, se
Delas fluiam tons de siena, ocre, e alguns azuis que só tu,
Paul Cézanne, compreendias?
Ah! hoje eu sei: o azul das sombras, o azul das distâncias de Da Vinci,
O quase simbólico azul que faz profundidades
Veio à frente como pura cor, 
Desfez-se de ser sombra
E as veladuras romperam-se em tons
De claridade, liberando a abstração:
Terias disto a noção, Paul Cézanne?
Saberias que as tuas cores livres despertariam
Uma arte em que a montanha, as árvores e o vale
Seriam dispensáveis,
Tornando-se atributos do poder da cor?

Foi a Arte que nos disse
Por tuas mãos, pintor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Silenciosa essência

Quem reconhece o que é despercebido
Por ser tão pleno em tudo e sempre,
Qual o respirar, o tato, os sentidos,
O pensamento fluindo em nossa mente?

Só percebemos o que vem e vai,
O quê, no tempo, surge, se apresenta
E que, ao fazê-lo, nosso olhar atrai,
E a mente sonda, filtra e fragmenta.

O Essencial é irmão do Inexistente.
E só o poeta, o louco ou o crente
Sabem chegar a perceber o que É.

Porque, no fundo, silenciosamente,
A vida segue imensa e inconsciente
Feito um bater de coração, ou a Fé.



  


sábado, 14 de janeiro de 2012

Ouvindo Chopin

O amor te toma pela mão e vais sonhando
Chegar à imensidão do que tu és:
Animal vagando em verdes pastos e
Anjo que tem asas nos seus pés.

Corpo e alma abrasam-se num beijo,
Confessando que o amor ainda vive.
-Vejo no teu olhar o outro mundo,
A terra onde nós dois somos só um.

O amor te acolhe no seu Reino,
Um lar reconhecido para sempre
Mas escondido, desde sempre, em brumas.

-Daqui eu sou, amor, daqui parti
E, após tornar-me escuríssimos oceanos,
Eu volto a ti, e sou praia, e sou espumas.




sábado, 24 de dezembro de 2011

Ouvindo Chopin no dia de Natal


Oh! tempo, rio fluido que leva nossas vidas, risos, prantos,
Para onde os levas?
Para algum buraco negro de onde não fogem nem as trevas
Ou para algum ignoto e frio céu?
Onde ficaram meus sonhos de criança
E a luminosa árvore de Natal
Na qual meus olhos de menino
Anteviram as maiores esperanças?
E o retinir das taças de cristal, o murmúrio
Das falas dos avós, os sorrisos dos pais,
A correria da piazada pelos pátios
Da antiga casa, e o alarido festeiro dos cães...

E os meus amores, 
Seus primeiros olhares
E últimos beijos,
O convívio secreto,
O gozo e as dores.


Onde, Tempo, transcorrendo
Mundos e Histórias,
Levas a mim
E minhas memórias?






domingo, 13 de novembro de 2011

Andes

Os Andes delineiam elegante curva,
Crista branca sobre negra onda de pedra

E o Inca vê, no cume, Oceano ou selva:
É solitária flor ao vento que na rocha medra.

O Templo bebe a luz e sonha o Universo,
Riscando com um raio o rumo de uma estrela.

Llamas e alpacas, chinchilas e vicuñas:
Tesouros que se movem em sutil camurça.

Vulcão a refletir-se pelas águas verdes
De um lago suave nas altas planuras.

Nos Andes tudo aspira ao eterno e transparente:
O vento frio, o céu, as feras, e a gente.