quinta-feira, 28 de junho de 2012

A loira que lia Nietzsche


As pessoas são várias. Às vezes penso isto. Portanto, supreendentes. Diga o Jaques, velho amigo, que me contou uma história vivida por ele. Não são poucas as histórias do Jaques, sujeito que mistura vasta cultura com uma personalidade extrovertida. Na maioria das vezes extrovertida, porque de outras fecha-se a concha e o Jaques viaja por seu mundo interior ou constrói erudição em silêncio. Mas ele, nos momentos para fora tem algo de garanhão, de galã, como bicho saído da hibernação. Pois foi um destes episódios de busca ao mel que o Jaques me disse ter marcado para sempre sua carreira amorosa. Deixo o cara falar:

-Eu estava saindo de um período de alta produção. Havia devorado estudos filosóficos e, de repente, tive ganas de sair para a noite, encontrar alguma gata linda, loira e, portanto, de mente leve...Saí de casa, assoviando, lá pela meia-noite e fui até um bar onde só vai gente bonita...e leve. Entrei e pedi uma cerveja, curtindo a música dos oitenta...Olhei em torno, mirando pontarias e, de repente, vi a criatura: uma Marilyn, platinum blonde, com pernas e curvas perfeitas.
Olhou de lado e...sorriu? Cheguei perto, sorri, e...ela me deixou sentar na sua mesa.

-Oooi...(foi o que ela disse).

Pensei: meu Deus, esta deusa, com poucas palavras e uma mente...leve. Deixei para trás os livros e tentei puxar conversa. Disse, até para impressionar, que estava com a cabeça cansada, que tinha lido muito neste dia e queria relax. Ela disse:

-Eu também...

Como assim, foi à academia, fez pilates, dança do ventre, power yoga, eu pensei. E perguntei, não sem um pouco de ironia:

- O que tu fizeste hoje?

A resposta foi inesperada:

-Li.

O que esta deusa leu, pelo amor de Deus? Consegui ver a cena: no cabeleireiro...ela sentada manuseando uma Caras, ou algum romance, ou livro de auto-ajuda. Imaginei o título: Como alcançar o Amor Quântico. Ou ainda melhor: Vida feliz com Tantra Yoga. Comecei a me sentir inquieto. Perguntei, super curioso, o que havia lido.
Ela sorriu com boca e olhos e falou suavemente:

-Hoje eu terminei de ler Os Filósofos Pré-Socráticos...

Pensei: Um resumo? Livro de bolso? Mas ela disse:

-...do Nietzsche.

O que esta gatinha está fazendo com Nietzsche? Me senti traído, não sei bem por qual dos dois!
E ela começou a me contar sobre sua iniciação nitzcheana na adolescência, com Assim Falou Zaratrusta. Bah! O primeiro da sua vida fora Nietzsche: a primeira experiência. Um êxtase total que a levou ao Ecce Homo, e assim por diante. Na verdade ela estava relendo Os Filósofos... para sedimentar sua crítica aos Idealismos, aos platões da vida, mas ela não tem certezas. E por aí fomos, esquecendo o cansaço. Ela falou que os tempos de hoje são um Renascimento do que faziam os pré-socráticos: pensamento a partir dos dados. Lembrou Kant, riu às gaitadas de Hegel. Emocionou-se ao falar de Arendt.
O mais impressionante é que não havia pose, presunção, empáfia...Não! nenhuma grosseria intelectual destas: ela falava apaixonada. Meu Deus: a loira era filósofa!

O Jaques, ao me contar, botava para fora lembranças fortes. Era um segredo entre amigos. Continuou:
-Lá pelas tres da manhã, no auge da excitação, eu perguntei: tá bem, mas e a Astrofísica? E a teoria das Cordas? E...

Ela olhou para o outro lado, sorriu...e eu vi uma outra deusa, mas morena, estonteante, vindo na nossa direção. Se deram beijinhos e a loira me disse:

-Esta é minha orientadora no doutorado. Uma mente brilhante!

Fiquei de quatro, imaginando o que seria esta outra.

-Tenho que ir, me disse a Marilyn. Outra hora a gente se encontra, tá?

E foram-se. Foram-se assim no mais, e eu, babaca, estava tão atônito que não peguei telefone, endereço...nem nome. Eu fora um contato casual, um a mais apenas.
..
O Jaques suspirou fundo, com olhar esgazeado, olhando para o chão.

-Meu amigo, passei a frequentar livrarias, cafés filosóficos...Andava atento, buscando-a, pelos corredores da UFRGS, da PUC, da Unissinos...Nada. Confesso que enchi da noite, mas lá de vez em quando volto àquele bar para ver se encontro a loira que lia Nietsche...para saber se ela acha que a Teoria das Cordas tem sentido ou é uma invasão da mística budista no terreno da Física...
- Ou a sua orientadora (o Jaques é volúvel).

sábado, 23 de junho de 2012

O Tempo e o Mar


Seguimos pela praia e um forte mar espreita...
Em ondas, entre espumas, ele se alarga e  deita
O imenso corpo verde sobre a areia e  as pedras
A inseminar o mundo de umidade e plâncton.

Continuamos ainda, comparsas nesta vida,
Sentindo a maresia trançada no frio vento
Tocar nossas narinas e alma, num momento
Digno de um sonho ou um símbolo profundo.

Deixamos para trás o que nos era excesso
E os olhos aprenderam a devassar  distâncias,
Reconhecendo o Único, o Ser, o Indivíduo
Em ânsias de tornar-se o que é além das ânsias.

Abandonamos sonhos,  brinquedos de criança,
E a pele que nos veste se fez curtido couro
Por tanto Minuano e sol e maresia e tempo:
A vida nos marcou com tons de prata e ouro. 






domingo, 17 de junho de 2012

Diálogo com o silêncio


Silencio. 
Soa a poesia no silêncio:
“A fonte das idéias é a tua mente,
O magma de onde flui a lava ardente.
A Idéia é uma paixão tornada imagem,
Memória transfigurada da paisagem.
Mas e o teu Sentimento, qual a vertente
Desta água que no ardor te dessedenta
E em que tu, barco num rio, te movimentas?“

Eu respondo: 
O que temos são sistemas,
Rabiscos, sonhos, hipóteses, fé  e poemas
E, tendo  obscura visão do que nós somos,
Não sabemos nunca ao certo em quê damos.
Seguimos cegos,  apalpando  vida e  tempos
E acotovelando-nos em luta, por momentos...

“Insuflado por idéias és galé sob fortes ventos,
E nem percebes teu caminho, o Sentimento“,
Diz o poema.



domingo, 3 de junho de 2012

Epifania


Manhã fresca de sol e de concretos
Na Porto Alegre das tortuosas ruas.
Do ar do sul que chega mansamente
O homem olha o azul, e sente o frio.

A mente suave sabe ver suave a vida
E no silencio do vazio a alma se tece.
Toma o café na manhã como em ascese:
Perdoa o mundo e a vida ao aceitar-se.

E isto lhe vem assim fora dos templos
Pois o seu templo é ele e este momento
De um domingo ao sol, casa em silêncio:
A vida vem sussurrar-lhe o que é o céu...

                                                               painting by: Ricardo Fernandez Ortega

sábado, 19 de maio de 2012

Noitinha no Pampa


O Pampa à tardinha emana o perfume
De terra fertilizada pela chuva fina
E às coisas acaricia uma brisa vinda
Da sagrada cordilheira que se eleva ao sul.

Tudo se encurva, enovela-se em sono,
Tudo divaga entre as memórias do dia,
Tudo se aninha, se abraça a algum dono,
Ou pai, ou mãe, ou amor, ou abandono.

A noite vem, lentamente, a lançar veladuras
Sobre o azul prateado das cores do céu
Até cobrir o horizonte com tintas de breu

E então, ah! então  o campo se transfigura
Em cósmica paisagem, em estelar fogaréu,
Desconhecido Mistério, a estância de deus.


domingo, 13 de maio de 2012

A trampa


Na minha Terra, trampa
É armadilha de caça:

Toda arte a tem
Como o Pescar também.

Pesco palavras
Para alimentar a mim
E, talvez, a outro alguém

E me brotam os cardumes
Dos mistérios do que eu sou,
Ao arquitetar poemas
Vou sondando o meu Nous
Descrevendo-me a essência
Com alguma rima e cadência,
Velho cantador de Soul.

Na minha terra uma trampa
Não significa excremento,

Mas um anzol do talento.

sábado, 5 de maio de 2012

Puer Aeternus


Eu deixara meu coração ali plantado
À espera que sol e água o florecessem
Como se futuros brotassem do passado
Independentemente do que eu fizesse.

Veio a Alma, então, dizer-me, em sonho
Que era de não viver a dor que eu sentia,
E que meu coração se exauria, tristonho,
Guardado na cova que eu lhe dera um dia.

Libertei o meu coração nesse momento,
E nos fomos pela vida com suor e talento,
Aceitando o desafio de criar um destino

E o suor derramado ao realizar o Pensamento
Veio adubar a terra da qual brota o alimento
Para o homem que um dia fora eterno menino.





terça-feira, 1 de maio de 2012

Outonal


Imensos cúmulos-nimbos em lenta marcha
Trazem a brisa azul prateada
Que balança as folhas ocres dos plátanos.

Aroma acre de terra molhada:
É Outono em Porto Alegre.

A Natureza suspira e descansa
De tanto sol e luz passados,
A Natureza banha-se em úmidos
E frescos bálsamos,
E, vestida com um manto de camurça,
Respira fundo o vento frio
Brotado no Pampa,
Fecha os olhos e sorri,
Voltada ao Sul.






domingo, 29 de abril de 2012

les rêves bizarres

Il était une fois Porto Alegre au temps jadis
Qui me voyait bizarre enfant rêvant de Paris.

Me parlait Baudelaire
Dans les flots de l’air,
Et dans mon rêve Chopin 
Rêvait de George Sand.

Un peu plus tard j’ai connu le bon Gide
Qui m’a porté aux plaisirs qui sont fous et aussi vides.

J’entendais, enchanté, dans les nuits solitaires
Le discours rythmé de l’élegant Marcel Proust
Racontant du côté des Guermantes
Qui faisait de ma vie quelque chose de plus doux. 

Par ma chambre sont passés plusieurs poètes
Avec ses douleurs qui enchaînaient des mots,
Pour semer la fantaisie dans mon coeur esthète:
Y venait Verlaine, venait aussi Rimbaud.

Et même aujourd’hui, lorsque je suis adulte
La langue française, plus que des lettrés le culte,
Est un voyage vers la reconnaissance 

Je ne sais si vers mon âme
Ou vers l’âme de la France.









sábado, 28 de abril de 2012

Imprecisa palavra

A palavra é imprecisa e
Da sua imprecisão,
Do que ela tem de vago,
A poesia brota, 
Como jogo de ilusão 
De algum mago.
Verte feito um trago
De paixão desconhecida,
Sonho fantasma
Flutuando pela vida,
Vibração de uma corda
Evocando uma cantiga,
Evocação de memórias:

Almas que fomos, esquecidas,
Invocadas como a um antigo, e grego, deus.

A palavra é o ventre
Para um passado perdido.

Mas a palavra a vibrar
Ganha o novo sentido,
Independente do que há
Ou do que haja um dia havido:

A palavra é a vida a criar
No teu ouvido.

A palavra é tua guia, poeta.

Por ela, vais  te desbravando,
Doido esteta, meio cego, tateando,
Meio e fim sintetizando
O que sempre esteve ali
E nem sabias:

Outra face da tua alma
Exposta na poesia.

sábado, 21 de abril de 2012

A deusa


Sonho a vida:
Sigo no antigo templo o cortejo
Em honra a uma deusa antiga.
Respiram-se ali incensos,
Imaginam-se sentidos,
Sondam-se símbolos,
Aspira-se a Eternidade
E silêncio.
Ali, porém, eu
Não vislumbro o meu sentido
E saio do templo, a correr
Indo ao campo colher tuas flores, Gaia,
Ao mundo, Demeter, a colher tuas flores
E a degustar a sucessão das horas,
Abandonando a Unidade
Para perder-me
Entre os opostos,
Delícia e dores
Dos homens e as minhas.
Mas tu, útero imenso, 
Mãe das frutas e do milho,
Dos vermes, do leão e da gazela,
Ventre de todas as crias,
Atávica matriarca das tribos
Também geras a consciência,
O tino de entender o sonho
Ao viver o destino.




 

sábado, 14 de abril de 2012

Berberes


Líbia, língua berbere

Lambendo a areia
Do deserto,
Cozendo-a,
Comendo-a...
Cruzando-a
O nômade 
Por Rumos
Ignorados,
Ave seguindo
O interno ímã.
Pátria do 
Povo livre, 
Do Magrebe, 
Seja Cabila,
Mzabita ou Targui.

És de antes do Islam
E em Cirene
O Berbere sonhou em Grego
E esculpiu o bronze
Como heleno.

Hoje, como heleno,
Descobre a Liberdade.











quarta-feira, 11 de abril de 2012

Como no Bardo Thodol


És mais que a sucessão dos fatos percebidos,
A complexamente concatenar-se nos neurônios.
És mais que um extrato de múltiplos sentidos:
O cérebro é o teu instrumento, Humano gênio!

És capaz de sonhar com lugares nunca vistos,
De perceber o que para os olhos é o negrume,
Reconhecendo templos dos tempos de Cristo
E, ao envelhecer, olhar o mundo desde o cume.

E, quando o corpo vier a ser veste eliminável,
Vais aprender que a realidade é desdobrável
E outro organismo terás, luminoso e mais leve.

Integrarás, num segundo, tua inteira existência
E, transcendendo a outros níveis de consciência,
Seguirás na Grande Arte, cumprida a vita brevis.

(Poema sobre o tema da Near-death experience, em homenagem aos corajosos doutores E. Kübler-Ross, R. Moody e Pin Van Lommel)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

nem deus sabe...

O olho da noite nos mirando,
Perolado olho flutuante, o luar.
Entrelinhas entre fases
Vem a vida livremente versejar.

(Vida livre feita verso).

Fanatismo algum pode reter
A fluidez da alma e dos ventos,
A gestar mundo e pensamento,
Prenhe do que ainda nem deus sabe...

domingo, 11 de março de 2012

as memórias


Aladas,
As coisas seguem a ausência de caminhos
Surgem e se vão assim do nada
E depois disso, ah! coisas aladas
E depois disso, voltam para o Nada,
E aqui nos deixam a sonhar sozinhos?

Ou as amadas coisas desta vida
Brotam de alguma fonte desapercebida
Transmutando-nos no que ainda não sabemos
E, ao o fazerem, cumprem seu sentido:

Ficam em nós, as coisas, sempre vivas,

Como as estrelas mortas do universo
A anos-luz a luzir sempre, vivas.





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Humano, demasiado humano...


Eu te vi bicho lanhado,
Fruta com casca amassada,
Vi-te humana por demais.
Eu te vi alienada,
Desfeito o que foi no passado
Brilho, Gênio, Mente em paz.

Eu te vi com a alma partida
Por resvalar na descida
Da grande lomba da vida
Como viver a todos faz.

(O Tempo a todos o faz!)

Mas ouve: tu és um anjo
Deste mundo, e de algum outro
E tua doce voz ainda ecoa
Bem lá no fundo de mim.

Confia que tua alma boa
De algo melhor se avizinha.

Todos temos a alma partida
Ao resvalar na descida
Da grande lomba da vida:

Há que aceitar-se tombar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O cão perdido

Quando te perdes de ti mesmo
Segues na vida com olhar esgazeado,
Buscando, apressado, o Lar,
A Pátria, Ideologia ou Sentido.

Tentas todos os prazeres
Entre gozos repetidos,
Se te perdes de ti mesmo,
Para afirmar que inda estás vivo.

És o cão que se perdeu
Pelas ruas da cidade,
A buscar, ensandecido,
A casa, o dono, o colo amigo,
Ao te perderes de ti mesmo.


Vieux Port de Marseille (poema de viagem 3)


Lorsque je me demande si la France est encore belle
Dabord reste le doute: la France, qui est Elle?

Je marche dans les rues du Vieux Port de Marseille
Et maperçois que la foule suive sans nom ou patrie,
En parlant des langues de partout au monde,
Ils bavardent, ils rient, ils chantent, ils crient.

Par les rues du Vieux Port je me sens perdu
Dans la vie comme elle est, sans mystére déguisée.
La vie qui est libre, riche et pauvre, conquise
Pour la foule de cette rue qui a la voix de la vie...

Mais un pain aux olives ramène le souvenir
Du parfum dun ancien bois oublié.
Des siècles de culture peuvent être perçus
Dans le goût dun gâteau ou dans le verre dun bon vin.

La France ne rêve plus de Fraternité,
Elle se donne aux affaires que être frère nous impose:
Reconnaître en sois même à ce qui en est le divers,
Permettre, à sois même, de ressentir à linverse.



sábado, 11 de fevereiro de 2012

Filho de Chronos (poema de viagem 2)


O Tempo não nos poupa de mover-se
Na direção adiante enorme e escura,
E vai mudando tudo, devorando
A vida, a cara, a vila, a alma, os tempos.

O que se foi se foi, mas segue, ao ir-se,
Gravada em nós numa imprecisa tela
A imagem fixa de qualquer momento
Em cores débeis, que algum vento esgarça.

Alguma forma de adentrar-se haverá
Neste baú imenso e vivo do que fomos
De modo a reviver mundos e eras?

Ou só nos resta este absoluto agora
Que é olhar de dentro o mundo que está fora
E ao qual, depressa, o Tempo desconjunta?








segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

No atelier de Paul Cézanne


Onde a cor se expande e toma a forma, a linha esmaece.

Para quê a montanha dura e as árvores, se
Delas fluiam tons de siena, ocre, e alguns azuis que só tu,
Paul Cézanne, compreendias?
Ah! hoje eu sei: o azul das sombras, o azul das distâncias de Da Vinci,
O quase simbólico azul que faz profundidades
Veio à frente como pura cor, 
Desfez-se de ser sombra
E as veladuras romperam-se em tons
De claridade, liberando a abstração:
Terias disto a noção, Paul Cézanne?
Saberias que as tuas cores livres despertariam
Uma arte em que a montanha, as árvores e o vale
Seriam dispensáveis,
Tornando-se atributos do poder da cor?

Foi a Arte que nos disse
Por tuas mãos, pintor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Silenciosa essência

Quem reconhece o que é despercebido
Por ser tão pleno em tudo e sempre,
Qual o respirar, o tato, os sentidos,
O pensamento fluindo em nossa mente?

Só percebemos o que vem e vai,
O quê, no tempo, surge, se apresenta
E que, ao fazê-lo, nosso olhar atrai,
E a mente sonda, filtra e fragmenta.

O Essencial é irmão do Inexistente.
E só o poeta, o louco ou o crente
Sabem chegar a perceber o que É.

Porque, no fundo, silenciosamente,
A vida segue imensa e inconsciente
Feito um bater de coração, ou a Fé.



  


sábado, 14 de janeiro de 2012

Ouvindo Chopin

O amor te toma pela mão e vais sonhando
Chegar à imensidão do que tu és:
Animal vagando em verdes pastos e
Anjo que tem asas nos seus pés.

Corpo e alma abrasam-se num beijo,
Confessando que o amor ainda vive.
-Vejo no teu olhar o outro mundo,
A terra onde nós dois somos só um.

O amor te acolhe no seu Reino,
Um lar reconhecido para sempre
Mas escondido, desde sempre, em brumas.

-Daqui eu sou, amor, daqui parti
E, após tornar-me escuríssimos oceanos,
Eu volto a ti, e sou praia, e sou espumas.




sábado, 24 de dezembro de 2011

Ouvindo Chopin no dia de Natal


Oh! tempo, rio fluido que leva nossas vidas, risos, prantos,
Para onde os levas?
Para algum buraco negro de onde não fogem nem as trevas
Ou para algum ignoto e frio céu?
Onde ficaram meus sonhos de criança
E a luminosa árvore de Natal
Na qual meus olhos de menino
Anteviram as maiores esperanças?
E o retinir das taças de cristal, o murmúrio
Das falas dos avós, os sorrisos dos pais,
A correria da piazada pelos pátios
Da antiga casa, e o alarido festeiro dos cães...

E os meus amores, 
Seus primeiros olhares
E últimos beijos,
O convívio secreto,
O gozo e as dores.


Onde, Tempo, transcorrendo
Mundos e Histórias,
Levas a mim
E minhas memórias?






domingo, 13 de novembro de 2011

Andes

Os Andes delineiam elegante curva,
Crista branca sobre negra onda de pedra

E o Inca vê, no cume, Oceano ou selva:
É solitária flor ao vento que na rocha medra.

O Templo bebe a luz e sonha o Universo,
Riscando com um raio o rumo de uma estrela.

Llamas e alpacas, chinchilas e vicuñas:
Tesouros que se movem em sutil camurça.

Vulcão a refletir-se pelas águas verdes
De um lago suave nas altas planuras.

Nos Andes tudo aspira ao eterno e transparente:
O vento frio, o céu, as feras, e a gente.










sábado, 12 de novembro de 2011

Sagração da primavera em Porto Alegre

A primavera em Porto Alegre
É violácea,
É rósea a primavera
Em Porto Alegre.

E há suaves brisas
Perfumadas
Penetrando pelas portas
E janelas.

Há amor brotando
No teu peito
Como brota a flor de laranjeira,
E as idéias soltam-se a voar
Como faz a semente da paineira.

Nos parques
A vida se celebra
Porque a Primavera
Achou seu Porto.
Estás na Primavera
E, como as ruas,
Revives o renascer
De algum deus
Morto.

sonhar e viver

Dentro de cada um há o Futuro
E quase tudo o que se pode é conhecido,
Mas deixa-se passar o tempo esquecido,
Imaginando perfeições vindas do nada.

E nada vinga assim: vida vetada.

Quanto maior o sonho, mais te pede
A semente que gera o sonho, em ti guardada.
O sonho não te basta e tu medes
A dimensão da árvore brotada.


domingo, 16 de outubro de 2011

Divagando sobre as imagens do Hubble

Espaço vazio, Oceano
Onde sutis matérias têm seu Meio
E energias levíssimas elaboram
O Universo que sabemos.
Espaço não-vazio,
Mas pleno
De obscura matéria
A interligar
Multiversos alheios.

Espaço
Falsamente negro,
O quê escondes
Em cores que não vemos?

O quê és, Universo?
Qual tecido, ou corpo, ou mente?
O que és, imensidão harmoniosa,
Povoada de galáxias flamantes,
Flutuantes rosas a girar
Onde mundos, pontos luminosos,
Servem-nos de lar?

Eterno Desconhecido,
De infinitos mistérios,
Qual será o teu Sentido?
E haverá, em nós, um sentido
De, aprendendo contigo,
Para sempre, te revelar?

Talvez, talvez, talvez...

Nos deixamos levar
Pelo anseio de entender-te
Mas cada grande Sistema
É só um flerte
Com o que estás a ocultar.

Talvez, Universo, guardes
Algum singelo segredo,
Que nos libere do medo
Das tuas brutais dimensões,

E então, percebamos o ilusório
Do humano degredo
E que as tuas amplidões
Desfazem-se ante a essência
Que nos deste: Consciência.

Talvez sejamos o Uno
Em suas múltiplas percepções.












Respostas da vida

Silêncio! a vida te responde
Por todos os sentidos:
Pelo tato, pela vista
E ouvidos.
Desatento,
Não perceberás.
Atento! as palavra da vida
São momentos:
Evanescentes
Sons e movimentos.
Trancado em ti
Não sentirás.

Palavras aí
Não servirão jamais:
A vida não responde
Ao que dizes,
A vida te responde
Ao que vives.

E a resposta
É o que tu serás.











sábado, 15 de outubro de 2011

Erastos



Teu vácuo movimenta-me a vida.
Adiante vais: enigmática ida,
Eu vou atrás, descida ou subida,
Aonde vais.
Assim tenho sido:
Deixando-me ir
A rastrear os teus passos
Buscando entender
O fim do caminho,
Nesta profusão de tempos
E espaços.
 Nós somos ainda
 Garotos gozando
A viagem do Sonho
Em dias de sonho,
E em sonhos nas noites:
Paris nos atrai,
Madri é demais,
Bergamo é bela,
O Algarve encanta.
A vida é ainda canção
Na nossa garganta.
 Embora eu saiba fazer o caminho
Com meus próprios passos,
Aasvero sozinho,
 Eu sigo teus passos com a alegria
De um iniciante
Vivendo as delícias
De ser o Amante.



sábado, 24 de setembro de 2011

O Boeing da Luciana



Bom é fugir de vez em quando
E deixar o mundo esperando.

Um Boeing qualquer
Para qualquer ilha ou deserto
E ali andar em camelo
Vestindo um par de Havaianas,
Com flores sobre os cabelos.

Dançar as danças estranhas
Embriagado com raras bebidas
Degustar o mundo
Até suas entranhas
Desconhecidas.

Bom é fugir de quando em vez
Esquecendo o que se fez
E o que se fará um dia,
Ser rei de seu próprio mundo
No mundo da fantasia.




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Portugal




Adentro no Portugal que me aviva reentrâncias
De memórias que não lembro,
Como as carnes de um cozido
Que amava sem o haver ainda comido,
Como a visão dos sobreiros
Das poesias que a avó
Recitava-me ao ouvido.

Todo um Portugal morava-me
Desde sempre no olvido.

E ao cruzar os seus campos de amarelo curtido
Subindo e descendo em Trás-os-Montes
Chego ao Algarve de pele morena,
O Algarve das vilas pequenas.

E mares que eu não sabia
Fizeram sentido,
E falésias de formas estranhas,
E rios talhando a vinhosas terras,
Na imensa nação de pequenas distâncias.

Um canto mourisco ressoa no espaço
No vento que sobe desde o Saara,
Eu vejo outro tempo nos rostos na rua,
E vejo meu rosto nos rostos que vejo.

O Tejo é um talho no corpo da terra,
O Douro é uma veia que drena bom vinho,
E Portugal alimenta aos meus versos
Com as águas do Minho.





domingo, 19 de junho de 2011

Tu



Tu és maior que o teu amor,
Não temas perdê-lo.
Maior que tua fé, tua crença
Ou Partido.
És maior que a tua dor,
Não temas vivê-la.
És maior que qualquer coisa
Que tenhas sofrido.

Tu és maior que o conceito
Que tens de ti mesmo,
Que as tristezas que chegam
E os risos que dás,
És maior do que as lutas
Que enchem teus dias,
Ou que a tranquilidade,
Tu és maior que a tua paz.

Tu és um segredo que a vida revela
E revela em ti mesmo,
Para ti e ninguém mais,

E se vives o que és
Desvendando o segredo
Tu és o Mistério
Com que a Vida se faz.



sábado, 28 de maio de 2011

Porto Alegre e os queridos



Passeio por Porto Alegre
Como quem em si passeia,
Sentindo a cidade
A correr-me nas veias.
E cruzo com Quintana,
Weingartner, Érico, Elis,
Baril, Iberê, Caio Fernando Abreu,
Lupicínio, Ellwanger, Reverbel, Ramil
A criarem História
Com o que a vida lhes deu:
Uma alma sangrando
Os brilhos da Mente.

É grande esta terra porque é
Grande a sua gente.



sexta-feira, 27 de maio de 2011

Há de haver



Porque a carne é forte
Há de haver poesia,
Como é forte a alma,
Há de havê-la.

Porque a vida a rolar
Me desenrola,
Porque a vida é um canto
Eu a canto.

Porque a vida vale
E é bela,
É tão bela a vida,
Ou nem tanto.

Há de haver poesia
Porque há encanto,
No olhar da criança
E do poeta
E no negror da noite
Há uma estrela.



sábado, 21 de maio de 2011

O poder da palavra



A palavra lavra a mente.

Larva de borboleta,
De gente, é a palavra.

Ávida de um ouvido paciente,
Em busca de um novo sentido,
Para encontrar um agente,
Lavra a palavra um ruído:

E um mundo pode ruir,
Um mundo pode surgir, 
Pelo poder da palavra.




sábado, 16 de abril de 2011

enigma


Sou pêndulo, e me movo
Pelo mundo e fora dele,

Sou uma formiga em fila,
Velho cão com cicatrizes.

Sou o homem mais comum
Com meus instintos felizes,

Mas também sou Aasvero,
Um ambíguo forasteiro.

Há momentos em que tenho
O Vazio por meu país
E vasculho a Eternidade
Como um pequeno aprendiz.

Se, às vezes, sei bem pouco
De outras me brilha a mente
E eu descubro as respostas
Sem pensar, feito vidente.

Nos meus sonhos vi países,
Monges, templos e desertos.
Sonhar é um outro espaço
Onde eu sei estar desperto.

Assim, sou como tu,
O Enigma num disfarce,
Céu e terra, água e fogo,
No dia-a-dia a encontrar-se.




silêncios



Silencio, fico quieto
Percebendo-me os cios,
A energia nos fios,
Meus movimentos de rios.

Fico fluindo no mundo
Que corre em mim, eu o sinto.

Calo, pois sei pouco das coisas
E o pouco que sei eu não falo:
Prefiro ferir a vida
Com a sonda do olhar.
Ao tocá-la me reconheço
Uma parte a se perceber.

Sei pela arte que a Vida
Revela-se a pouco e pouco
E é sendo lúcido e louco
Que tenho os olhos de ver.




domingo, 20 de março de 2011

Japão



Círculo vermelho no centro da bandeira branca,
Que o olho oriental pode ver Belo,
Mínimo a expressar totalidade, ou sol e neve.

Japão que me traz perfume leve
De cedros e madeiras,
De maresias costeiras.

Imenso Japão, imerso em história,
Sol sempre nascente,
Imenso Japão
Por sua imensa gente.

Vi pela TV a onda negra
Engolindo-te as carnes,
Até onde a vista discerne.

Vi o sol transformar-se
Em mancha nebulosa de sangue
Sobre a branca neve:
Bandeira manchada.

Mas, feriu-se a pele,
Japão, jamais teu cerne,
Porque o jovem japonês
Deu seu prato de comida
Ao velho faminto,
Esquecendo a própria fome,
E a Alma, conformada
Por antigas crenças
Que os avós deixaram,
Refez com suas mãos de fada
O círculo vermelho
No centro da branca bandeira

Com o que era apenas neve
De sangue manchada.

sábado, 12 de março de 2011

Dança


Para Miriam Toigo–D′Angeli, amiga e bailarina brasileira

Tudo dança
Desde que Shiva,
A mover pernas
E braços,
Lançou o êxtase
Do ritmo
No vazio negror
Do espaço.
Surgiram o vento
De uma corda em movimento
E o seu som
Com um compasso.

As partículas
Tomadas de energia
Congregaram–se
Na dança,
Com quântica euforia..

E, num segundo Movimento,
Veio ao mundo a Bailarina
Para fecundar com sentimento
Aquela dança divina.

La Sylphide, o Quebra-Nozes,
Giselle, Coppellia, Paquita,
O drama humano, dançado,
Torna a loucura bonita.

Dança para nós, bailarina,
Em teu transe de poesia,
Gira como gira o mundo,
Toca nossa alma no fundo
E nos faz também bailar,
Que ao dançar criamos asas
E, tendo o Universo por casa,
Nos permitimos voar.