domingo, 29 de abril de 2012

les rêves bizarres

Il était une fois Porto Alegre au temps jadis
Qui me voyait bizarre enfant rêvant de Paris.

Me parlait Baudelaire
Dans les flots de l’air,
Et dans mon rêve Chopin 
Rêvait de George Sand.

Un peu plus tard j’ai connu le bon Gide
Qui m’a porté aux plaisirs qui sont fous et aussi vides.

J’entendais, enchanté, dans les nuits solitaires
Le discours rythmé de l’élegant Marcel Proust
Racontant du côté des Guermantes
Qui faisait de ma vie quelque chose de plus doux. 

Par ma chambre sont passés plusieurs poètes
Avec ses douleurs qui enchaînaient des mots,
Pour semer la fantaisie dans mon coeur esthète:
Y venait Verlaine, venait aussi Rimbaud.

Et même aujourd’hui, lorsque je suis adulte
La langue française, plus que des lettrés le culte,
Est un voyage vers la reconnaissance 

Je ne sais si vers mon âme
Ou vers l’âme de la France.









sábado, 28 de abril de 2012

Imprecisa palavra

A palavra é imprecisa e
Da sua imprecisão,
Do que ela tem de vago,
A poesia brota, 
Como jogo de ilusão 
De algum mago.
Verte feito um trago
De paixão desconhecida,
Sonho fantasma
Flutuando pela vida,
Vibração de uma corda
Evocando uma cantiga,
Evocação de memórias:

Almas que fomos, esquecidas,
Invocadas como a um antigo, e grego, deus.

A palavra é o ventre
Para um passado perdido.

Mas a palavra a vibrar
Ganha o novo sentido,
Independente do que há
Ou do que haja um dia havido:

A palavra é a vida a criar
No teu ouvido.

A palavra é tua guia, poeta.

Por ela, vais  te desbravando,
Doido esteta, meio cego, tateando,
Meio e fim sintetizando
O que sempre esteve ali
E nem sabias:

Outra face da tua alma
Exposta na poesia.

sábado, 21 de abril de 2012

A deusa


Sonho a vida:
Sigo no antigo templo o cortejo
Em honra a uma deusa antiga.
Respiram-se ali incensos,
Imaginam-se sentidos,
Sondam-se símbolos,
Aspira-se a Eternidade
E silêncio.
Ali, porém, eu
Não vislumbro o meu sentido
E saio do templo, a correr
Indo ao campo colher tuas flores, Gaia,
Ao mundo, Demeter, a colher tuas flores
E a degustar a sucessão das horas,
Abandonando a Unidade
Para perder-me
Entre os opostos,
Delícia e dores
Dos homens e as minhas.
Mas tu, útero imenso, 
Mãe das frutas e do milho,
Dos vermes, do leão e da gazela,
Ventre de todas as crias,
Atávica matriarca das tribos
Também geras a consciência,
O tino de entender o sonho
Ao viver o destino.




 

sábado, 14 de abril de 2012

Berberes


Líbia, língua berbere

Lambendo a areia
Do deserto,
Cozendo-a,
Comendo-a...
Cruzando-a
O nômade 
Por Rumos
Ignorados,
Ave seguindo
O interno ímã.
Pátria do 
Povo livre, 
Do Magrebe, 
Seja Cabila,
Mzabita ou Targui.

És de antes do Islam
E em Cirene
O Berbere sonhou em Grego
E esculpiu o bronze
Como heleno.

Hoje, como heleno,
Descobre a Liberdade.











quarta-feira, 11 de abril de 2012

Como no Bardo Thodol


És mais que a sucessão dos fatos percebidos,
A complexamente concatenar-se nos neurônios.
És mais que um extrato de múltiplos sentidos:
O cérebro é o teu instrumento, Humano gênio!

És capaz de sonhar com lugares nunca vistos,
De perceber o que para os olhos é o negrume,
Reconhecendo templos dos tempos de Cristo
E, ao envelhecer, olhar o mundo desde o cume.

E, quando o corpo vier a ser veste eliminável,
Vais aprender que a realidade é desdobrável
E outro organismo terás, luminoso e mais leve.

Integrarás, num segundo, tua inteira existência
E, transcendendo a outros níveis de consciência,
Seguirás na Grande Arte, cumprida a vita brevis.

(Poema sobre o tema da Near-death experience, em homenagem aos corajosos doutores E. Kübler-Ross, R. Moody e Pin Van Lommel)

sexta-feira, 6 de abril de 2012

nem deus sabe...

O olho da noite nos mirando,
Perolado olho flutuante, o luar.
Entrelinhas entre fases
Vem a vida livremente versejar.

(Vida livre feita verso).

Fanatismo algum pode reter
A fluidez da alma e dos ventos,
A gestar mundo e pensamento,
Prenhe do que ainda nem deus sabe...

domingo, 11 de março de 2012

as memórias


Aladas,
As coisas seguem a ausência de caminhos
Surgem e se vão assim do nada
E depois disso, ah! coisas aladas
E depois disso, voltam para o Nada,
E aqui nos deixam a sonhar sozinhos?

Ou as amadas coisas desta vida
Brotam de alguma fonte desapercebida
Transmutando-nos no que ainda não sabemos
E, ao o fazerem, cumprem seu sentido:

Ficam em nós, as coisas, sempre vivas,

Como as estrelas mortas do universo
A anos-luz a luzir sempre, vivas.





domingo, 26 de fevereiro de 2012

Humano, demasiado humano...


Eu te vi bicho lanhado,
Fruta com casca amassada,
Vi-te humana por demais.
Eu te vi alienada,
Desfeito o que foi no passado
Brilho, Gênio, Mente em paz.

Eu te vi com a alma partida
Por resvalar na descida
Da grande lomba da vida
Como viver a todos faz.

(O Tempo a todos o faz!)

Mas ouve: tu és um anjo
Deste mundo, e de algum outro
E tua doce voz ainda ecoa
Bem lá no fundo de mim.

Confia que tua alma boa
De algo melhor se avizinha.

Todos temos a alma partida
Ao resvalar na descida
Da grande lomba da vida:

Há que aceitar-se tombar.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

O cão perdido

Quando te perdes de ti mesmo
Segues na vida com olhar esgazeado,
Buscando, apressado, o Lar,
A Pátria, Ideologia ou Sentido.

Tentas todos os prazeres
Entre gozos repetidos,
Se te perdes de ti mesmo,
Para afirmar que inda estás vivo.

És o cão que se perdeu
Pelas ruas da cidade,
A buscar, ensandecido,
A casa, o dono, o colo amigo,
Ao te perderes de ti mesmo.


Vieux Port de Marseille (poema de viagem 3)


Lorsque je me demande si la France est encore belle
Dabord reste le doute: la France, qui est Elle?

Je marche dans les rues du Vieux Port de Marseille
Et maperçois que la foule suive sans nom ou patrie,
En parlant des langues de partout au monde,
Ils bavardent, ils rient, ils chantent, ils crient.

Par les rues du Vieux Port je me sens perdu
Dans la vie comme elle est, sans mystére déguisée.
La vie qui est libre, riche et pauvre, conquise
Pour la foule de cette rue qui a la voix de la vie...

Mais un pain aux olives ramène le souvenir
Du parfum dun ancien bois oublié.
Des siècles de culture peuvent être perçus
Dans le goût dun gâteau ou dans le verre dun bon vin.

La France ne rêve plus de Fraternité,
Elle se donne aux affaires que être frère nous impose:
Reconnaître en sois même à ce qui en est le divers,
Permettre, à sois même, de ressentir à linverse.



sábado, 11 de fevereiro de 2012

Filho de Chronos (poema de viagem 2)


O Tempo não nos poupa de mover-se
Na direção adiante enorme e escura,
E vai mudando tudo, devorando
A vida, a cara, a vila, a alma, os tempos.

O que se foi se foi, mas segue, ao ir-se,
Gravada em nós numa imprecisa tela
A imagem fixa de qualquer momento
Em cores débeis, que algum vento esgarça.

Alguma forma de adentrar-se haverá
Neste baú imenso e vivo do que fomos
De modo a reviver mundos e eras?

Ou só nos resta este absoluto agora
Que é olhar de dentro o mundo que está fora
E ao qual, depressa, o Tempo desconjunta?








segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

No atelier de Paul Cézanne


Onde a cor se expande e toma a forma, a linha esmaece.

Para quê a montanha dura e as árvores, se
Delas fluiam tons de siena, ocre, e alguns azuis que só tu,
Paul Cézanne, compreendias?
Ah! hoje eu sei: o azul das sombras, o azul das distâncias de Da Vinci,
O quase simbólico azul que faz profundidades
Veio à frente como pura cor, 
Desfez-se de ser sombra
E as veladuras romperam-se em tons
De claridade, liberando a abstração:
Terias disto a noção, Paul Cézanne?
Saberias que as tuas cores livres despertariam
Uma arte em que a montanha, as árvores e o vale
Seriam dispensáveis,
Tornando-se atributos do poder da cor?

Foi a Arte que nos disse
Por tuas mãos, pintor.

sexta-feira, 20 de janeiro de 2012

Silenciosa essência

Quem reconhece o que é despercebido
Por ser tão pleno em tudo e sempre,
Qual o respirar, o tato, os sentidos,
O pensamento fluindo em nossa mente?

Só percebemos o que vem e vai,
O quê, no tempo, surge, se apresenta
E que, ao fazê-lo, nosso olhar atrai,
E a mente sonda, filtra e fragmenta.

O Essencial é irmão do Inexistente.
E só o poeta, o louco ou o crente
Sabem chegar a perceber o que É.

Porque, no fundo, silenciosamente,
A vida segue imensa e inconsciente
Feito um bater de coração, ou a Fé.



  


sábado, 14 de janeiro de 2012

Ouvindo Chopin

O amor te toma pela mão e vais sonhando
Chegar à imensidão do que tu és:
Animal vagando em verdes pastos e
Anjo que tem asas nos seus pés.

Corpo e alma abrasam-se num beijo,
Confessando que o amor ainda vive.
-Vejo no teu olhar o outro mundo,
A terra onde nós dois somos só um.

O amor te acolhe no seu Reino,
Um lar reconhecido para sempre
Mas escondido, desde sempre, em brumas.

-Daqui eu sou, amor, daqui parti
E, após tornar-me escuríssimos oceanos,
Eu volto a ti, e sou praia, e sou espumas.




sábado, 24 de dezembro de 2011

Ouvindo Chopin no dia de Natal


Oh! tempo, rio fluido que leva nossas vidas, risos, prantos,
Para onde os levas?
Para algum buraco negro de onde não fogem nem as trevas
Ou para algum ignoto e frio céu?
Onde ficaram meus sonhos de criança
E a luminosa árvore de Natal
Na qual meus olhos de menino
Anteviram as maiores esperanças?
E o retinir das taças de cristal, o murmúrio
Das falas dos avós, os sorrisos dos pais,
A correria da piazada pelos pátios
Da antiga casa, e o alarido festeiro dos cães...

E os meus amores, 
Seus primeiros olhares
E últimos beijos,
O convívio secreto,
O gozo e as dores.


Onde, Tempo, transcorrendo
Mundos e Histórias,
Levas a mim
E minhas memórias?






domingo, 13 de novembro de 2011

Andes

Os Andes delineiam elegante curva,
Crista branca sobre negra onda de pedra

E o Inca vê, no cume, Oceano ou selva:
É solitária flor ao vento que na rocha medra.

O Templo bebe a luz e sonha o Universo,
Riscando com um raio o rumo de uma estrela.

Llamas e alpacas, chinchilas e vicuñas:
Tesouros que se movem em sutil camurça.

Vulcão a refletir-se pelas águas verdes
De um lago suave nas altas planuras.

Nos Andes tudo aspira ao eterno e transparente:
O vento frio, o céu, as feras, e a gente.










sábado, 12 de novembro de 2011

Sagração da primavera em Porto Alegre

A primavera em Porto Alegre
É violácea,
É rósea a primavera
Em Porto Alegre.

E há suaves brisas
Perfumadas
Penetrando pelas portas
E janelas.

Há amor brotando
No teu peito
Como brota a flor de laranjeira,
E as idéias soltam-se a voar
Como faz a semente da paineira.

Nos parques
A vida se celebra
Porque a Primavera
Achou seu Porto.
Estás na Primavera
E, como as ruas,
Revives o renascer
De algum deus
Morto.

sonhar e viver

Dentro de cada um há o Futuro
E quase tudo o que se pode é conhecido,
Mas deixa-se passar o tempo esquecido,
Imaginando perfeições vindas do nada.

E nada vinga assim: vida vetada.

Quanto maior o sonho, mais te pede
A semente que gera o sonho, em ti guardada.
O sonho não te basta e tu medes
A dimensão da árvore brotada.


domingo, 16 de outubro de 2011

Divagando sobre as imagens do Hubble

Espaço vazio, Oceano
Onde sutis matérias têm seu Meio
E energias levíssimas elaboram
O Universo que sabemos.
Espaço não-vazio,
Mas pleno
De obscura matéria
A interligar
Multiversos alheios.

Espaço
Falsamente negro,
O quê escondes
Em cores que não vemos?

O quê és, Universo?
Qual tecido, ou corpo, ou mente?
O que és, imensidão harmoniosa,
Povoada de galáxias flamantes,
Flutuantes rosas a girar
Onde mundos, pontos luminosos,
Servem-nos de lar?

Eterno Desconhecido,
De infinitos mistérios,
Qual será o teu Sentido?
E haverá, em nós, um sentido
De, aprendendo contigo,
Para sempre, te revelar?

Talvez, talvez, talvez...

Nos deixamos levar
Pelo anseio de entender-te
Mas cada grande Sistema
É só um flerte
Com o que estás a ocultar.

Talvez, Universo, guardes
Algum singelo segredo,
Que nos libere do medo
Das tuas brutais dimensões,

E então, percebamos o ilusório
Do humano degredo
E que as tuas amplidões
Desfazem-se ante a essência
Que nos deste: Consciência.

Talvez sejamos o Uno
Em suas múltiplas percepções.












Respostas da vida

Silêncio! a vida te responde
Por todos os sentidos:
Pelo tato, pela vista
E ouvidos.
Desatento,
Não perceberás.
Atento! as palavra da vida
São momentos:
Evanescentes
Sons e movimentos.
Trancado em ti
Não sentirás.

Palavras aí
Não servirão jamais:
A vida não responde
Ao que dizes,
A vida te responde
Ao que vives.

E a resposta
É o que tu serás.











sábado, 15 de outubro de 2011

Erastos



Teu vácuo movimenta-me a vida.
Adiante vais: enigmática ida,
Eu vou atrás, descida ou subida,
Aonde vais.
Assim tenho sido:
Deixando-me ir
A rastrear os teus passos
Buscando entender
O fim do caminho,
Nesta profusão de tempos
E espaços.
 Nós somos ainda
 Garotos gozando
A viagem do Sonho
Em dias de sonho,
E em sonhos nas noites:
Paris nos atrai,
Madri é demais,
Bergamo é bela,
O Algarve encanta.
A vida é ainda canção
Na nossa garganta.
 Embora eu saiba fazer o caminho
Com meus próprios passos,
Aasvero sozinho,
 Eu sigo teus passos com a alegria
De um iniciante
Vivendo as delícias
De ser o Amante.



sábado, 24 de setembro de 2011

O Boeing da Luciana



Bom é fugir de vez em quando
E deixar o mundo esperando.

Um Boeing qualquer
Para qualquer ilha ou deserto
E ali andar em camelo
Vestindo um par de Havaianas,
Com flores sobre os cabelos.

Dançar as danças estranhas
Embriagado com raras bebidas
Degustar o mundo
Até suas entranhas
Desconhecidas.

Bom é fugir de quando em vez
Esquecendo o que se fez
E o que se fará um dia,
Ser rei de seu próprio mundo
No mundo da fantasia.




segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Portugal




Adentro no Portugal que me aviva reentrâncias
De memórias que não lembro,
Como as carnes de um cozido
Que amava sem o haver ainda comido,
Como a visão dos sobreiros
Das poesias que a avó
Recitava-me ao ouvido.

Todo um Portugal morava-me
Desde sempre no olvido.

E ao cruzar os seus campos de amarelo curtido
Subindo e descendo em Trás-os-Montes
Chego ao Algarve de pele morena,
O Algarve das vilas pequenas.

E mares que eu não sabia
Fizeram sentido,
E falésias de formas estranhas,
E rios talhando a vinhosas terras,
Na imensa nação de pequenas distâncias.

Um canto mourisco ressoa no espaço
No vento que sobe desde o Saara,
Eu vejo outro tempo nos rostos na rua,
E vejo meu rosto nos rostos que vejo.

O Tejo é um talho no corpo da terra,
O Douro é uma veia que drena bom vinho,
E Portugal alimenta aos meus versos
Com as águas do Minho.





domingo, 19 de junho de 2011

Tu



Tu és maior que o teu amor,
Não temas perdê-lo.
Maior que tua fé, tua crença
Ou Partido.
És maior que a tua dor,
Não temas vivê-la.
És maior que qualquer coisa
Que tenhas sofrido.

Tu és maior que o conceito
Que tens de ti mesmo,
Que as tristezas que chegam
E os risos que dás,
És maior do que as lutas
Que enchem teus dias,
Ou que a tranquilidade,
Tu és maior que a tua paz.

Tu és um segredo que a vida revela
E revela em ti mesmo,
Para ti e ninguém mais,

E se vives o que és
Desvendando o segredo
Tu és o Mistério
Com que a Vida se faz.



sábado, 28 de maio de 2011

Porto Alegre e os queridos



Passeio por Porto Alegre
Como quem em si passeia,
Sentindo a cidade
A correr-me nas veias.
E cruzo com Quintana,
Weingartner, Érico, Elis,
Baril, Iberê, Caio Fernando Abreu,
Lupicínio, Ellwanger, Reverbel, Ramil
A criarem História
Com o que a vida lhes deu:
Uma alma sangrando
Os brilhos da Mente.

É grande esta terra porque é
Grande a sua gente.



sexta-feira, 27 de maio de 2011

Há de haver



Porque a carne é forte
Há de haver poesia,
Como é forte a alma,
Há de havê-la.

Porque a vida a rolar
Me desenrola,
Porque a vida é um canto
Eu a canto.

Porque a vida vale
E é bela,
É tão bela a vida,
Ou nem tanto.

Há de haver poesia
Porque há encanto,
No olhar da criança
E do poeta
E no negror da noite
Há uma estrela.



sábado, 21 de maio de 2011

O poder da palavra



A palavra lavra a mente.

Larva de borboleta,
De gente, é a palavra.

Ávida de um ouvido paciente,
Em busca de um novo sentido,
Para encontrar um agente,
Lavra a palavra um ruído:

E um mundo pode ruir,
Um mundo pode surgir, 
Pelo poder da palavra.




sábado, 16 de abril de 2011

enigma


Sou pêndulo, e me movo
Pelo mundo e fora dele,

Sou uma formiga em fila,
Velho cão com cicatrizes.

Sou o homem mais comum
Com meus instintos felizes,

Mas também sou Aasvero,
Um ambíguo forasteiro.

Há momentos em que tenho
O Vazio por meu país
E vasculho a Eternidade
Como um pequeno aprendiz.

Se, às vezes, sei bem pouco
De outras me brilha a mente
E eu descubro as respostas
Sem pensar, feito vidente.

Nos meus sonhos vi países,
Monges, templos e desertos.
Sonhar é um outro espaço
Onde eu sei estar desperto.

Assim, sou como tu,
O Enigma num disfarce,
Céu e terra, água e fogo,
No dia-a-dia a encontrar-se.




silêncios



Silencio, fico quieto
Percebendo-me os cios,
A energia nos fios,
Meus movimentos de rios.

Fico fluindo no mundo
Que corre em mim, eu o sinto.

Calo, pois sei pouco das coisas
E o pouco que sei eu não falo:
Prefiro ferir a vida
Com a sonda do olhar.
Ao tocá-la me reconheço
Uma parte a se perceber.

Sei pela arte que a Vida
Revela-se a pouco e pouco
E é sendo lúcido e louco
Que tenho os olhos de ver.




domingo, 20 de março de 2011

Japão



Círculo vermelho no centro da bandeira branca,
Que o olho oriental pode ver Belo,
Mínimo a expressar totalidade, ou sol e neve.

Japão que me traz perfume leve
De cedros e madeiras,
De maresias costeiras.

Imenso Japão, imerso em história,
Sol sempre nascente,
Imenso Japão
Por sua imensa gente.

Vi pela TV a onda negra
Engolindo-te as carnes,
Até onde a vista discerne.

Vi o sol transformar-se
Em mancha nebulosa de sangue
Sobre a branca neve:
Bandeira manchada.

Mas, feriu-se a pele,
Japão, jamais teu cerne,
Porque o jovem japonês
Deu seu prato de comida
Ao velho faminto,
Esquecendo a própria fome,
E a Alma, conformada
Por antigas crenças
Que os avós deixaram,
Refez com suas mãos de fada
O círculo vermelho
No centro da branca bandeira

Com o que era apenas neve
De sangue manchada.

sábado, 12 de março de 2011

Dança


Para Miriam Toigo–D′Angeli, amiga e bailarina brasileira

Tudo dança
Desde que Shiva,
A mover pernas
E braços,
Lançou o êxtase
Do ritmo
No vazio negror
Do espaço.
Surgiram o vento
De uma corda em movimento
E o seu som
Com um compasso.

As partículas
Tomadas de energia
Congregaram–se
Na dança,
Com quântica euforia..

E, num segundo Movimento,
Veio ao mundo a Bailarina
Para fecundar com sentimento
Aquela dança divina.

La Sylphide, o Quebra-Nozes,
Giselle, Coppellia, Paquita,
O drama humano, dançado,
Torna a loucura bonita.

Dança para nós, bailarina,
Em teu transe de poesia,
Gira como gira o mundo,
Toca nossa alma no fundo
E nos faz também bailar,
Que ao dançar criamos asas
E, tendo o Universo por casa,
Nos permitimos voar.




quarta-feira, 9 de março de 2011

Uruguay




Alarga–se a vista até o mar e suas entranhas
E a brisa ondula–se em cabelos e areias.
Abrem–se os porões dos sonhos e das sanhas
E eu aspiro o aroma de maresias nas idéias.

Uruguay, onde minha alma vai achar morada,
Despida de temores e em busca de si mesma,
Se ao andar por tuas praias, matas e estradas,
Eu caio em mim por águas turvas ao abismo,

Em ti, eu desemboco por uns rios no mar
E, sem pensar, sou poemas a se alinhavar
E a poetar me ponho quieto e iluminado.

Tu és o espaço–tempo em que eu, enfim, me vejo
El viejo poeta, intenso de verbo e desejos,
Em algum outro destino que haverei traçado.



Punta del Diablo, aldeia de pescadores, Uruguay

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Sofia de Hallis



Este silêncio que anda pela casa
É uma gatinha perolada,
De patinha aveludada,
Ronronando a me buscar,
Sempre a mirar fundo nos olhos
Girando em torno,
Tocando o rosto,
Tentando afago.

Era a mais doce presença,
com olhos de azul–água,
Hoje, ausência amada.




quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Las palomas de Puebla


¿Vendrán de España
Las palomas del Zócalo de Puebla?
Me parece que vuelan
En España todavía,
En lo fastuo del paisaje
Que entorna catedrales.

Asimismo, en Zaragoza volarían.

En el aire fresco dan volteretas
Y posan una tras otra en las ramas del laurel.

Vuelan en paz las palomas de Puebla
Y de España, o de El Cairo en otros días,
La preciosa paz para las palomas
Niños, viejos y, nada más, la Poesía.





terça-feira, 11 de janeiro de 2011

um homem qualquer



Um homem é o Homem.

Sua vida equivale
A tudo que é.

Sua vida desde
O ventre até
O último suspiro
Do homem velho.

Nada maior
Para quem é humano
Nenhuma teoria,
Força histórica,utopia,
Moda, justificativa
Regra ou lei,
Tem mais valor
Que uma única
Vida humana.




quinta-feira, 23 de dezembro de 2010

Um dia qualquer



Sim, o Natal é um dia qualquer

E como em qualquer dia,
O sol cruzará o horizonte
Reinaugurando a vida, e das fontes
Brotarão água e poesia.

Pelas ruas do Bom Fim,
Mil vezes respirarás
Sem dar-te conta
E, sem dar-te conta
Serás mais sábio
E mais profundo.

Na Bela Vista verás
A Terra transformar-se
A cada giro
Que ela gira desde que
O mundo é mundo.

Sem dar-se conta,
No Parcão,
Surgirão mais flores
E, em silêncio,
Vingarão em frutos .

Crianças chegarão
Aos seus primeiros passos
Nas casas do Moinhos
E amores produzirão
Beijos, abraços,
E, (por que não?), alguns espinhos.

Sem que nos demos conta
Triunfará a vida,
A silenciosa,
E desapercebida,
Gerando mais vida em mutação,
Com átomos que não vemos
E cordas e dimensões
Que nós desconhecemos,
Em plena Redenção.

E aí repousa o Mistério
Deste Natal, como de qualquer um:
Os mais preciosos bens
Que em ti vivem, vivem por ti
Sem que nem te dês conta
De tão perenes, humildes e comuns.



quarta-feira, 24 de novembro de 2010

A verdade

A verdade:
Por ela já morreu um hebreu,
Um ateu, já se prendeu
Alguém como eu.

Por ela já se matou
Na Revolução, ou se desfez
O que esta fez
Quebrando o Muro
Aos murros.

Todo discurso burro
Pensa dizê-la,
(Ela, sobre a qual
O sábio cala).

E qualquer idiota
Quer ensiná-la
Com a força dum decreto
Ou à bala.

A verdade,
Tão diversa,
Complexa,
Incompleta.
Tão pessoal
Como impulso
Ou idéia.

A verdade é  
Inatingível ideal.

Se te impõem
Uma verdade,
Destroem-te
Algo de valor igual:

A Liberdade.

E é nisto que consiste
O Mal.












sábado, 20 de novembro de 2010

À busca de Marcel

Sinto a luz coada pelo vidro baço
Tocar-me a alma mais que o braço,
E as cores, os perfumes, tomar um sentido
Que é como uma memória de já os ter vivido.
Onde já percebi este aroma suave
Que vem bater à porta da memória?
E aquela cor alaranjada
Que deixa de ser quase nada
E torna-se crucial evento de minha história?
E são os tons, toques de cor numa retina,
Ou, então, os sons: ventos e passarinhos,
As marcas de tantos anos e caminhos
A se mesclarem em uma poção divina.




Realidade

Os meus olhos perderam-se de ir
Seguindo a terra até onde ela termina:
Ali, o horizonte é a última esquina
E restam o abismo e o negror com estrelas.

Além, tudo se passa sem que a gente saiba
E somos observadores do que não sabemos.
Não cabemos no espaço onde o Todo caiba,
E é neste ínfimo intervalo que então vivemos.

É preciso olhar de novo para minha terra,
Nela reconhecendo o que sonha e erra,
Mas que, por ser meu igual, eu compreendo

Em toda dor e júbilo, prazer ou desgraça.
Somos plantas com raízes no que vem e passa,
Neste pequeno mundo, a seguir crescendo...







sábado, 30 de outubro de 2010

Para não dizer que não falei...versão 2010


Como dizia o velho Carlos,
A História só se repete como farsa.
Os companheiros tornaram-se comparsas,
Mudou a professora da USP: foi-se a economista
Que chorava, veio a filósofa irada.
Uns raros poetas ficaram, e alguns outros globais.

Mudaram os inimigos: a boa imprensa
Agora é fascista, e calunia.
Após longos oito anos de dirceus, genoínos,
Erenices, e toda a rede conhecida,
E a, talvez para sempre, desconhecida,
Entre cenas hilárias como o dinheiro
Nas cuecas, voltam sorrindo
Feito virgens vestais
Defensoras da democracia
Sem as quais, como disse o Rei-Sol,
O dilúvio, não Delúbio, adviria...

Oito anos de discursos idiotas,
Metáforas “que nem” má filosofia,
A história se repete, e o país,
Como de costume, dá de graça.

Crêem que cremos em tal farsa
(E impressiona, pois ainda há quem creia):
Pelas ruas de miséria sempre cheias,
Perambulam as crianças exploradas
Apesar de um estatuto que as protegeria.

Favelas em cósmica expansão,
Escolas da pior categoria.
Esmolas brasilienses não serão
Para o Brasil a terapia.

E o Rei a marginais se (nos) associa:
Um que planeja usinas nucleares,
Após amordaçar Venezuela;
Outro que mantém prisões políticas
Naquela ilha sempre mais raquítica
Por ideológica anemia;
Outro além, que à "adúltera" sacrificaria
E planeja varrer deste planeta
O antigo povo de Israel.

Se crêem, que seu voto deles seja,
Porém, atentos como o insone!
Se houver, da parte desta corte,
A idéia de nos calar a voz,
A História desta terra pede a nós
Que em algum momento do futuro
Desfaçamos, por favor, a espúria farsa.



sábado, 9 de outubro de 2010

Momento simples


Onde o ar expande-se mais amplo
Em brisa aberta sobre o campo,
Levando o fruto das lavandas,
Adiante, mais adiante,
O teu sorriso esboça-se: diamante,
Por que há a paz de andar e a de ser,
Eu sou feliz aí e neste instante.
Arándanos colorem a paisagem,
As vacas pastam em qualquer paragem,
Cavalos correm livres no horizonte,
A água brota de uma humilde fonte
E tu sorris num pôr-de-sol rubi:
Neste instante, eu sou feliz aí.

Ah! coisas simples, sumo desta vida,
Eu vos percebo quando sou feliz.







segunda-feira, 27 de setembro de 2010

Akousate (Ancient Greek Music)




Ecôa em ti: escutas?
O som primal que vem no vento,
Na concha, na folha em movimento,
Na estrela e na galáxia
Na tua alma pelo sonho e pelo anseio,
No ritmo do mar?
O que te diz (diz a poesia):
-Ecoo em ti: me escutas?




sábado, 18 de setembro de 2010

Tempos 1

Houve um tempo em que a vida
Vinha como punhalada,
E o rosto do tempo era duro,
Uma escura veladura
De Caravaggio.
Eu tinha, aqui, neste peito
Uma chaga dolorida
E havia uma doida varrida
Zanzando nas minhas ruas.
Eu lia então Pasolini,
Genet e o bom André Gide.

Depois me veio outro tempo
Em que do fundo do peito
Fluíram deuses e sonhos
Frutificando o meu cio,
Trazendo rumo ao meu rio,
E dentro de mim revivi

Terras e tempos diversos.

Também fora eu os conheci
E estiveste comigo, amante,
Ao carvão tornar-se diamante,
(Estava também Marcel Proust).

Tu ainda segues comigo,
Namorando em Barcelona,
Embasbacando-se em Naxos,
E no grande frio, bem ao Sul.
Hoje me encantam o Espaço,
Os amplos campos e o dia,
Sigo lendo Thomas Mann,
Ciência e filosofias,
Eu vou ainda te amando,
A esboçar vida e poesia.



Tempos

No tempo em que havia a Poesia
O dia era mais do que um dia:
Era algo inexplicável.
E teu corpo tocando o meu
Era a vida tornada imóvel.
Imóvel, imutável, indefinível, inalcançável:
Havia tantas palavras
Que sentimentos diziam
Quando havia a Poesia.

E agora, quando não há a Poesia
Como fala o sentimento?

sábado, 11 de setembro de 2010

Poesia fractal

Tamborilam gotas no telhado:
A chuva marca o ritmo do dia.
Na mente também ressoa um ritmo
Que vai dançando poesia,
Que vai lançando cantoria,
Que vai somando tons e dia,
Num som-de-fundo que se amplia.
Basta atentar-se ao silêncio
Para o som da alma vir a ser:
Gera-se o ritmo feito de palavras
E o que não havia vem nascer.
Nasce de uma estranha matemática
Em que o caos revela-se em fractais:
O que nós somos impregna-se nos versos
Mesmo que não saibamos o que ser jamais.





sábado, 4 de setembro de 2010

Metafísica

(Não há um caminho,
Há caminhos).

Viste passar por aqui
Aquela menina Vida?
Ela buscava por ti
Nas suas idas e vindas...

Ela passou por aqui
E ninguem lhe deu boas-vindas.

Mas não há uma vida,
Há vidas.

sábado, 21 de agosto de 2010

Como se fosse uma oração

Deus,
Ópio natural que me permite
Não depender de exógenas morfinas,
Venerável Desconhecido: meu meta-sentido,
Liberta-me da religião, a tua sombra.
Afasta-me dos idealistas
Que queiram moldar-me
Ao que eles crêem.
E dos que seguem um Livro Sagrado.
Liberta-me, Senhor,
Do líder, do guru e do pastor.

Ilumina minha crítica
E que, ao crer na Aparência
- A face de um fato -,
Eu saiba transcendê-la
E aprofundar-me no Real.

Tu, que dás vida a anjos e a vermes,
Liberta-me dos puristas e fiéis aos Partidos,
Crentes de que a Teoria é a Verdade.
E também dos bonzinhos revolucionários
Que, recorrentemente,
Dedicam-se a inventar a roda,
Acabando por amordaçar as liberdades.
São fantoches de fantoches de fantoches
De sei lá mais quem,
Que, ao fim, deve ser fantoche também.

(Mas, não sendo mais fantoche,
Que Eu não desmonte ao me livrar dos fios...)

Tu, senhor dos agnósticos,
Que, ao criar infinitos caminhos
Produziste as esquinas e,
Portanto, as incontáveis dúvidas,
Liberta-me do tormento
Das certezas absolutas.




domingo, 8 de agosto de 2010

O eterno exíguo (ou a memória)

Lenta, a memória acerca-se na mente,
É cheiro reconhecido, antiga voz a vibrar no ouvido e:
Visão!
Lá está o que era e ainda é
Pedaço do Universo onde eu fiquei
E a tua voz de então...
No peito entorna-se
Um calor de brasas:
Tu ainda aqueces minha casa,
Paixão.
Somos para sempre dois meninos,
Olhares dados e corpos atados
Mas mais que dois corpos,
Dois irmãos.
Será esta memória estar vivo
Num outro tempo que, embora exíguo,
É eternidade numa aparição?

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Um poeta

Disse-me o poeta:
Não espere que eu seja raro,
Ou lhe diga palavras belas.
Sou uma coisa comum
Como o céu cheio de estrelas.
Passo em silêncio no mundo
Mesmo ao viver nas palavras.
Sou como um brilho que cega,
E o barro que cobre a lava.
Sou e serei para sempre
Um distante desconhecido:
Metade e o dobro do Homem,
O Completo e o Dividido.
Não me peça sabedoria
Pois o que eu tenho são versos:
Eu nada sei deste mundo,
Sou eu o meu Universo.

domingo, 18 de julho de 2010

Facetas do real

Silenciosa caverna, cova,
Paraíso onde enfurnar-se
No qual arqueia-se um teto:
O ancestral útero em disfarce.

Lá fora é frio e há neblinas,
Crianças esmolam nas esquinas,
Ainda, como aqui nos é fadado.
O povaréu desvaira em orgias
De coca, ruído, fumo e álcool,
E há o pivete que nos sequestraria.

Mas cá, aromas de café e pão na mesa,
Um coro entoa Bach para eu ouvir,
Falo com Borges, Goethe e Pessoa,
Ou, se quiser, eu sonho Debussy.

Aqui, tomo o Caminho dos Guermantes,
Vou com Marcel redescobrir o Tempo,
Ou eu me lanço em precipício simbolista,
A decifrar, extasiado, a Mallarmé.

Aqui, ouso correr o risco imenso
De amar a vida assim como eu a queria,
Posso dizer que te amo, ou o que penso:
Que o Homem é bom, que em tudo há Poesia.









sábado, 17 de julho de 2010

Um sonho

Do tempo, que nasce por que o espaço respira,
Vieste dizer-me que há mais do que eu via.

Estrela vestida de manto açafrão,
Voamos na noite da urbe dormente.

Cruzamos paredes de aço e cimento,
E entramos no Templo da Iniciação.

Falavas no cerne da minha caixa craniana
E era sem palavras que tu me dizias:

"Há um tempo sem tempo além deste tempo
E a vida é mais ampla se a alma se amplia".

Queria voltar contigo no tempo,
Queria manter-me para sempre no Templo,

Mas já era hora de arar, e o sol
Dourava teu manto, e tinhas de ir-te.

E assim tu partiste, e eu só e eu triste,
E eu a buscar te rever toda a vida.

Mas a tua imagem ainda ressoa:
De manto açafrão,
Grande alma, alma boa.


sábado, 3 de julho de 2010

antigo segredo

A vida que flui é a mesma que fica:
A flor que tu vês é uma flor e a Flor.

Os passos que dás são o Rumo e os teus passos
E os teus abraços são uns braços e o Amor.

Há mais que o que vês no que vês ou que és,
Há um fundo sem fundo que é como uma Fé,
Em qualquer momento fluindo a passar.
Há todo o mistério do mundo no olhar.

Se olhas o breu que nos encima o céu
Com os olhos de ver já não verás o breu
Mas ninhos de estrelas em púrpura seda
E palcos de vida, e mais seda e mais céus.

E como no Espaço, o infinito se esconde
Num grão de poeira, tão vasto qual o céu.

E este é um segredo que emana de tudo:
Se tu queres ver, tens que retirar véus.

a cigana (ou la gitana)

Deixo o olhar preso numa roda de dança
Onde a cigana enfurna-se em fundas cavernas
E o fogo crepita no meio de tudo.
Girando e girando, cantando e cantando.

Em torno, há a secura de terra crestada
E mil oliveiras, e o breu entre estrelas.
Em torno há a vida e a morte, e em torno
Há todo o silêncio que escuta o cantar.

Perfumes de noite e de terra orvalhada
E o sabor do vinho, e o vinho na mente.
Ali estou eu num viver diferente,
A mirar la gitana na dança fremente.

Eterna memória vivida para sempre.

domingo, 6 de junho de 2010

Atenção!

Nem tudo se relativize:
Entronar ao criminoso
É também crime.
Ser amigo do tirano
Também o é.
Eu te vi de mãos dadas
Com quem desfez Venezuela,
Dividindo um país,
A semear medo e silêncios.
Eu te ouvi cooptar
Com quem mantém Cuba
Atrás das grades...
Relativizaste
A verdade por ideologia,
A mesma que matou milhões de russos,
chineses,cambodjanos,
Atormentando homens
Ao limitar a liberdade.
-Delírio idealista que
espalha crueldades_.
Não nos é dado a tudo relativizar:
Conivente com o crime
És criminoso.
Que meu povo não o seja.

domingo, 2 de maio de 2010

Aos iniciados (pintores, porto-alegrenses e agregados)

Pensaram que a Redenção de Iberê
Fosse metáfora:seria, Iberê?
Mas,
Por ali ainda passeiam os ciclistas
E, nas alamedas, infiltra-se um sol
Com poesia e pinta no chão terroso
Deliciosas manchas como as de Monet
-tons amarelos em violáceo pano-
As quais Baril viu ser geniais.
As copas das árvores tecem filigranas
Em colunas de azul cerúleo.
Cães passeiam exibindo os donos e
Os garotos buscam mistérios onde já
Não os há, ou talvez, ei-los por lá,
Pois tudo, ou quase, depende do olhar.

Seria a Redenção uma metáfora?

Vida

Que a vida flua: lânguida luz lunar 
Ou raio suave de um sol de dentro, 
Que flua a vida botando broto em crescimento, 
Mente e corpo em movimento, 
Sentido em sentimento, ou, sem sentido, 
Que flua como som no meu ouvido: 
Declarações de amor em espanhol. 

 Que venha a vida como queira, a conhecida, 
A misteriosa, pedra mais preciosa. 
Que venha a que medra, a que espreita no vazio 
Até que surja a hora, feito um cio, 
E a tudo desabroche. 

 Que venha, apolínea e dionisíaca, 
A regrada e a sem regras, 
A lúcida e a doida, 
A que eu entendo, e a que eu nem sei sequer. 

Que fluas, vida, sempre nova 
E inesperada, fazendo um fogo 
No meu peito, deixando sêmen 
No meu leito, trazendo sonho 
Às noites e visões aos dias. 

 E sobretudo, vida, 
Quando já não houver mais jeito 
 Que me mates 

De poesia.


segunda-feira, 19 de abril de 2010

Igrejinha em Vivlos


Templo antiquíssimo,
Onde as almas dos avós
Proclamam ainda o amor do Cristo morto.
Igreja, porto
Aos que, barcos atingidos
Pelos ventos dos tempos modernos,
Buscam mirra, incenso, salmodias.

Vozes entrecruzam-se
Em colunas manuelinas
Recitando em grego antigo
As palavras divinas.

Igreja antiquíssima,
No alto do monte,
Diante dos tres moinhos
Que sustentaram a Vivlos pequenina.

Portal ao mundo arcaico,
Onde o Ícone vivo
Semeia e colhe
Em um homem
O Logos do Homem.