terça-feira, 12 de abril de 2022

Sobre a cobertura midiática da Invasão à Ucrânia

Quem quer conhecer as justificativas do assassino Putin para a guerra? 


Quem quer assistir os pronunciamentos da gangue que cerca o covarde? Suas marionetes desumanas.

A quem interessa ver hoje este demente dizer que não tem interesse em “ficar com as terras da Ucrânia”? 

Ou seja, era apenas para invadir, destruir tudo e matar…

Quem aguenta ouvir comentaristas explicando  a guerra como se houvesse algo razoável nisto tudo, generais discutindo táticas de batalha como o fazem os amantes dos programas  de crimes? Necrofilias.

Milhares de mortos, incluindo centenas de crianças, um sem número de famílias desfeitas, um país destruído por este criminoso de guerra.

Um anacronismo absurdo, um retorno aos imperialismos obscenos da primeira metade do século XX, uma traição à Humanidade.

Vingança de um país preso a uma interminável idade média, apesar das armas e alguma tecnologia, contra um Continente que soube transcender aos ódios ancentrais entre povos. Povos agora irmãos. 

Vingança contra um mundo que conhece e despreza as ideologias totalitárias.

É bom saber que a república Checa, que sofreu na carne o terror soviético estará no comando da União Europeia a partir da metade de 2022. E irá, como afirma, dar pressa à independência europeia dos combustíveis russos. 

Quem sabe não venha a ser uma nova libertadora Primavera de Praga, desta vez para a Ucrânia.

domingo, 10 de abril de 2022

Gaivota

 

Um dia vou sentar-me nessa praia
Do mar mediterrâneo de um meu sonho
E dar adeus à vida que conheço,
Sem dor, e por que não, até risonho.

Uma canção, talvez La Malagueña*, 
Inspiração para a última poesia,
Memórias de tristezas e alegrias,
Vitórias de uma alma sempre prenha.

Vou te dizer adeus mirando ondas
No sopé onde se vê a Serra Nevada
Lembrando o que amamos em Granada.

Uma gaivota irá do mar até as montanhas
Para trazer, última vez, desde o Albaicín
Uns versos de flamenco para mim.


 
El Albaicín

* La Malagueña- música mexicana de 1947 sobre um amor em Málaga, Espanha. 

Cume

 

Altas montanhas coroadas de neblinas,
Vestes de pedras nos penedos,
Vertentes de onde brotam frias fontes
Geradas nas geleiras em degelo.

Tão altas que as árvores esgotam,
E mesmo o ar é raro e mais precioso,
Cume inclemente ali de onde miramos
A imensa pele verde das planuras.

Em ti também existem as montanhas
Penhascos que escalas com esforço
Em busca da quietude nas entranhas

Onde os gestos são tão raros como o ar,
Nenhuma palavra dita é necessária,
E abarcas vida e mundo sem pensar.


quinta-feira, 7 de abril de 2022

Mentira, verdade

 Ao contrário do que diz o dito popular, a qualidade é a alma do negócio. 

Outro dito, neste caso de um criminoso de guerra inspirador do Putin: uma mentira repetida muitas vezes torna-se verdade. 

Mas, a mentira se destrói com o tempo, a verdade sempre vem à tona. Os mentirosos são óbvios logo, logo. 

Claro, sempre haverá quem consiga negar que reconhece a mentira, esquecendo que mente para si mesmo, mas neste caso é enfermo.

A Rússia vive uma situação lamentável e vergonhosa. Bandidos e mentirosos. É a evidência dos fatos e das fotos! 

Mas há mais do que a mentira russa. A Alemanha e outros ricos europeus, reis da ecologia e do politicamente correto, acusadores do Brasil, gastaram desde o início desta guerra, cerca de 35 bilhões de euros (em pouco mais de um mês), sustentando a monstruosidade russa, para obter os combustíveis fósseis, poluidores. Uma vergonhosa dependência longamente mantida. Enfim, mais uma vez, ninguém viu a realidade antes do crime contra a Humanidade acontecer. Ou fez que não viu. 

Como escrevi num poema há algum tempo:

“Mentira, tua vitória será tua derrota!”

                           ………………

O outro lado da moeda, a Verdade, ela não discursa. Ela não prega ideologias, não filosofa. Com seu silêncio, ela também é óbvia, visível: uma jovem ucraniana, atende a população de uma das cidades devastadas pelos russos. Está feliz porque foram conseguidos alimento e remédios para distribuir à sua gente que há dias não come, não tem eletricidade. Mesmo água falta. 

Ela ajuda aos seus concidadãos. Diz que agora está melhor, pois há o que distribuir aos demais, reconhecendo que há o risco de que voltem os invasores. Isto agora não lhe interessa pois tem algo para oferecer. 

O maravilhoso contraponto: a grandeza da espiritualidade humana que, com seu gesto corajoso,  salva vidas. E, quem sabe, salve a Humanidade.

sábado, 12 de março de 2022

A FACE BANAL DO MAL

Confesso que li quase toda a obra editada da Hannah Arendt (incluindo algumas publicadas post mortem). Li, reli e tive durante anos seus estudos como livros de cabeceira. Além dos meus outros ídolos. 

Há muito tempo estudei com afinco o seu "Eichmann em Jerusalém - relatório sobre a Banalidade  do Mal" editado pela Gallimartd. O livro narra o Julgamento em Israel daquele que foi um SS-tenente-coronel da Alemanha Nazista, e um dos principais organizadores do Holocausto. Ele foi designado por Reinhard Heydrich para comandar as deportações dos judeus para os guetos e depois para os campos de extermínio do leste Europeu. 

O livro da Arendt foi criticado inclusive pelas vítimas e suas famílias por refletir sobre o personagem Eichmann, criado ao longo dos anos em que ele esteve fugitivo na Argentina, protegido pela comunidade de nazistas daquele país latinoamericano. Comportava-se como um discreto marido, pai de família, trabalhador honesto. Pois o Mossad localizou-o e o raptou numa operação genial, levando-o para Jerusalém, onde foi julgado. 

Durante todo o julgamento parecia ser "o mais honesto, o melhor dos homens" e dizia, como mote de defesa: "eu só cumpri ordens". Este que assassinara cruelmente milhões de pessoas, que as comprimia em valas e dava ordem presencial de que as mulheres, crianças, bebês, homens, jovens e velhos, fossem baleados pelas hordas selvagens dos soldados nazistas. Ou nos fornos crematórios.

O livro de Arendt é impressionante nas narrações dos crimes imperdoáveis que ocorreram no leste Europeu, a mando desta criatura.

Como pode este monstro desumano ser o burocrata que apenas cumprira ordens? Pessoalmente, para mim, esta é a acurada visão de Arendt, uma de suas grandes "sacadas" para iluminar a Filosofia Política: os monstros são especialistas em não parecer sê-lo. 

Nos filmes americanos, os monstros cruéis são óbvios: caras horríveis, gritos, feiúra física etc. Mas os verdadeiros monstros falam sorrindo, eventualmente tem uma bela figura, são mestres da sedução mentirosa, mesmo citando a Bíblia (como o Papa Gregório, criador da Primeira Cruzada e do primeiro regime totalitário europeu, que dizimou os Cátaros no Sul da França). E cumprem ordens, dos seus superiores ou de algum Deus. Arendt nos auxiliou a ver a sociopatia assassina na sua cara mais real: o cumprimento de deveres burocráticos. 

Certamente, um das áreas de atuação de sociopatas em todos os países é o campo da Política, onde a mentira deve ser dita sem qualquer tremor na voz, onde os planos vergonhosos devem ser adocicados com uma bela desculpa ideológica. Esta Banalidade do Mal encanta ao público. 

Eventualmente estes sociopatas declaram abertamente seus planos, explorando no seu público os preconceitos sórdidos das massas, as recônditas mazelas humanas e seus interesses, os desejos escusos dos grupos de poder. Hitler dizia claramente o que iria fazer, Stalin idem. E mesmo assim, e talvez por isto mesmo, enfeitiçavam multidões:"pela Alemanha! pela URSS! Pela Nova Ordem Mundial! Têm  mesmo que matar, destruir, fazer sumir deste mundo!". Além dos citados, alguns pequenos psicopatas, líderes e povos de países irrelevantes associaram-se aos criminosos sonhando com os dentes e alianças de ouro, o espólio roubado das multidões de vítimas. 

Mas os monstros em geral não parecem monstruosos, são os pais da Pátria e os minúsculos obreiros da  massa de manobra, cumpridores de ordens. O mundo de modo geral, com raras exceções, só reconhece sua monstruosidade retrospectivamente. 

Mesmo a mídia, dependendo do momento, expõe seus discursos (de maneira geral enfáticos e bem produzidos) e sempre haverá "âncoras" de jornais, comentadores, relativizando os motivos das condutas "aparentemente" bárbaras, ao usar círculos de ideias que parecem cultas mas que são a maquilagem da hediondez. Artistas populares, ingênuos ou espertos, fazem propaganda de suas políticas.

O mundo reconhece o que eles são, somente mais tarde: os povos que conseguiram dividir, através de clima ideológico conflituoso. Expoliando nações, produzindo miséria. Ou criando guerras contra povos mais fracos, invadindo sem qualquer respeito outros países, destruindo tudo por onde passam. Incluindo a Ética e a Lei. 

Facilmente, ao matarem mulheres, homens, velhos e crianças, sorriem, explicam à imprensa ou aos juízes que eles apenas cumprem ordens, que resgatam valores injustiçados. Realmente, o Mal, incluindo o que podemos chamar em termos de consciência humana o Mal absoluto, tem a cara sorridente e a justificativa banal de um criminoso psicopata, que podia ser o seu vizinho ou colega de turma.

Arendt revelou-nos isto com sua aguda percepção para nos tornar menos ingênuos. "Vejam: ele é o mais banal dos homens e é o monstro devorador de vidas".  As ideologias são os instrumentos destes crápulas para confundir e perpetrar os planos criminosos. Frequentemente em nome do "Novo Mundo Possível". 

Pois ontem revi o filme Operação Final (Operation Finale, com Ben Kingsley, Oscar Isaac, e excelente elenco dirigido por Chris Weitz) , sobre a captura do Eichmann em Buenos Aires pelos membros do Mossad mesmo com o forte apoio da comunidade Nazi argentina. 

E recomendo o filme fazendo um desafio: há um só momento em que, na película, Eichmann (Kingsley) mostra sua cara, despe a máscara e diz o quê ele é. Gabando-se, deleitando-se com seu perdido poder destruidor. 

Na vida real, em que não ocultava seu verdadeiro nome, nas festinhas com seu grupo e mesmo com outras pessoas, sabe-se que o monstro dos campos de concentração gostava de repetir "pena que não matei a todos". 

Por outro lado - não outro lado, porque são todos a mesma coisa- Lenin com sua política blochevique, causando o fim das indústrias russas e desestruturando a Economia daquele país levou à Primeira Grande Fome, na qual morreram inumeráveis russos. E Stalin, outro psicopata, causou a Grande Fome na Ucrânia, lúcido e cruel, discursando e produzindo milhões de mortos.  Com apoio do Brecht, Sartre, vários intelectuais franceses, e artistas como o Picasso (da pombinha da paz).

Talvez tenhamos aprendido nestes dias difíceis de hoje a ver claramente a realidade, graças, entre outros, a pessoas com Hannah Arendt e Erich Fromm.

Referências: 

-EICHMANN À JÉRUSALEM : RAPPORT SUR LA BANALITÉ DU MAL. Hannah Arendt, Gallimard.

-AS ORIGENS DO TOTALITARISMO. Hannah Arendt.

- ANATOMIA DA DESTRUTIVIDADE HUMANA. Erich Fromm.






sábado, 26 de fevereiro de 2022

Sobre a pombinha da paz

 Durante a invasão da Polônia pelos nazistas, uma reação internacional atempada contra aquele grupo de facínoras foi imensamente prejudicada pelos pacifistas franceses com suas palavras de ordem e clichês, o que permitiu a ampliação por toda a Europa da tomada de poder por Hitler. E deu no que deu...

Durante as estratégias belicosas e totalitárias da URSS, os soviéticos usaram como símbolo de sua propaganda internacional a pombinha da paz feita por um tolo, ou muito esperto, Picasso.  Também aí os intelectuais europeus, especialmente da França, colaboraram com a ampliação do poder de Stalin, um sociopata sanguinário que dizimou violentamente populações, incluindo os próprios russos, e  matou de fome milhões de ucranianos, no seu afã de conquistar, saquear, destruir. Muitos intelectuais, incluindo Sartre e Brecht fizeram-se de cegos para não macular o avanço dos ideiais socialistas. Este ex-KGB que está aí, cercado por comparsas mafiosos, e dono atual da Rússia, é o herdeiro da insanidade assassina baseada em ideologia.

Defender a Ucrânia é fundamental. Não há paz sem Justiça, liberdade e respeito aos demais.

Tomara que tenhamos aprendido.

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Putin, o amigo do PT, é um dos tantos "seres depuradores", os "dexters" (para quem conhece o personagem) da História, os "criadores no novo mundo".

Ao invadir um país democrático, matar civis, destruir os instrumentos de defesa, separar famílias, criar pânico, fazer ameaças ao resto do mundo, ele tem a mais bela das justificativas: ele vai "libertar a Ucrânia, desnazificá-la e desmilitarizá-la". 

A gente vai aprendendo nesta vida que o discurso de quem não presta diz exatamente o oposto do que o dito marginal planeja, seja o bandido de rua, o marido violento ou o presidente de um país. 

O mundo está cheio de Hitlers, Stalins, e assemelhados. 


quarta-feira, 23 de fevereiro de 2022

pode ser legal, mas é um crime

Na Ética de investigação há regras estritas sobre o uso em pesquisa de animaizinhos, seres sencientes, nossos pequenos irmãos, incluindo hoje em dia até mesmo a defesa dos embriôes animais.

Que lindo, não, querido progressista?

Mas me explique: se protegemos embriões de ratinhos, por que, me diga por que, você defende, em nome da liberdade da mulher, o assassinato intra-útero de seres humanos, também sencientes? Agora não apenas até o terceiro mês de gestação, em alguns países até o 6º mês? 

Cortar em pedaços, desmembrar, e fazer a retirada dos restos mortais de alguém (pois é alguém, único, sensível à dor e ao doloroso processo de morrer) que só esperava amor e cuidado. Não necessariamente destas pessoas que o matam, mas de alguém que o adotasse e tivesse a grandeza de amá-lo.

A morte de um ser humano na 24ª semana gestacional  nem é mais aborto, é infanticídio. Hoje em dia em países europeus "progressistas" isto vai além. Crianças podem ser, legalmente, assassinadas durante todo o período infantil. Nestes países, deixou de ser crime. Uma Ética que tolera e libera algo assim é a ética dos criminosos, mesmo usando complicadas justificativas filosóficas. 

Protejam os embriões de ratinhos, sim, mas também não matem os frágeis, pequenos seres humanos. Uso a palavra proibida pelos ativistas e bioeticistas: não matem os "bebês". Não matem as crianças! Elas não têm culpa de serem apenas humanas. E não serem os amados "pets", ou os roedores.

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2022

versinhos sobre philia


 Passo a passo, mão na mão
De braço dado em compasso.

Lado a lado ser de ninguém,
De ninguém bicho mandado.

Andar em par, e estar consigo,
Cuidando ambos do laço.

Ser do amado o bom amigo,
Seguir adiante enamorado,

Como o amante e o amado
De quem te segue, e teu também

Pois só se ama em liberdade,

E amar alguém é habilidade
Que só obtém quem se quer bem.



domingo, 13 de fevereiro de 2022

o cantor da Andaluzia

 Eu te revi, fina flor da Andaluzia,

Pele morena, pelos crespos negros,

Como os teus olhos, filtros de poesia.

Sorriso doce, terno gesto.


O traje dos berberes que vestias

Era de um passado que conheço.


Voz da pátria gitana por um dia,

E por tal brilho, estrondo, ousadia

A vingativa águia destroçou-te,


Mas Prometeu que és, tu te recrias.


Brilho da Espanha na absurda noite,

Ainda nos guias, mártir do amor, 

Sabor da Andaluzia.


meu jardim

 

Volto quando posso ao meu jardim de dentro, 
Onde planto as árvores e flores de que gosto,
Azaleias, cerejeiras, plátanos, ciprestes,
No amplo espaço dos campos do Centro.

Ali eu silencio e o silêncio diz poesias, 
Com sua voz de brisa e melodia,
Sussurros de amores em cujo templo reentro,
Trinados da passarada em cantoria.

E algumas vezes neste jardim sou visitado
Por amigos que retornam do passado.
Pouco falam, só abraços e sorrisos.

Eu os olho, encantado ao ver que o amor
Está no cerne do meu ser, e não preciso
Buscar além do meu jardim o paraíso.





  


domingo, 30 de janeiro de 2022

minha poesia



Volto a ti, poesia, como quem retorna à casa:

O pátio enorme onde dizes ver a musa a bater asas,

O quarto onde silencias para sonhar o impossível

E a cozinha onde o digeres, nos levando a outro nível.


Trabalhas tanto em silêncio e quando volto tu me falas

Das novas coisas de dentro decorando nossa sala,

Dos caminhos que trilhamos, os rios, montes, cascatas

E ao falares é que percebo como a vida bem nos trata.


Tu és esta voz que me canta, e este coração que aquece

As horas frias da vida, és o sabor de ver que enriquece

O trivial das minhas horas, os pequenos detalhes mudos


Até que os vês, minha poesia, e pões a beleza em tudo.





sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

A Medicina do Novo Mundo (brincando com 1984)

Na distopia chamada 1984 do George Orwell, a Novilíngua (New Speak) era o idioma falado no Novo Mundo pelo IngSoc, o Partido Socialista inglês comandado por um ente, talvez uma pessoa, denominado Grande Irmão (o Big Brother), espécie de "herói do Povo". Entre as várias estratégias delineadas para a manutenção do Sistema, o Partido criou a Novilíngua para alterar não só a realidade, destruir o antigo sistema, como também para criar a Nova Realidade a partir de uma língua com as regras definidas pelo Partido. Deste modo todo o arcabouço que moldou o pensamento da ("arcaica") Civilização Humana seria destruído na sua essência, ou seja, o uso da fala que molda o pensamento, uma característica intrínseca dos seres humanos. Orwell escreveu este livro e criou esta distopia cômica e macabra quando percebeu o que era, na verdade, o Socialismo real. Deprimido, isolou-se e escreveu 1984, até hoje um clássico da Literatura.

Seguem alguns exemplos da Noviníngua que Orwell criou. Um deles é o “Duplipensar” que significa saber que algo é errado e convencer-se de que este algo é certo, a ponto de se esquecer que é errado. Este exercício baseia-se no lema "Inconsciência é Ortodoxia". 

Outra joia da Novilíngua é “Impessoa” ou “Despessoa” que é “alguém que deixou de existir por ordem do Partido sendo todas as referências de sua existência apagadas dos registros históricos”.  Incluindo fotos, e, hoje em dia, manipulação de vídeos e gravações telefônicas, não?

Neste sistema “perfeito”, o “Ministério do Amor” era responsável pela supervisão das leis e da organização do Partido”; o “Ministério da Paz” tratava das questões de cunho militar, sendo fundamental, portanto, a existência contínua da Guerra e a criação sistemática de algum inimigo a ser atacado, embora o inimigo variasse e o de hoje tivesse sido o amigo de ontem.  O “Ministério da Pujança” era responsável pela administração monetária do Partido

Ao povo eram dados uma porção diária de alimentos, uma dose de aguardente,  liberdade sexual e livros com literatura ingênua produzida por escritores fieis ao Partido. As histórias incluíam novelas e romances que variavam quase nada de uma obra a outra.

E ao “Ministério da Verdade” incumbia a tarefa de “organizar as notícias”. A “organização das notícias” era feita pela mídia do Partido, ou seja, pessoas selecionadas para continuamente alterarem a realidade histórica (as notícias) de acordo com os interesses atuais dos dirigentes, em nome do Herói do Povo, o Grande Irmão. Por exemplo, alguns especialistas em imagem retiravam "despessoas" das fotos onde aparecessem membros do Partido. 

Como seria a Medicina neste 1984? Perdoe-me mestre Orwell, mas ouso brincar com isto...sou eu que me divirto:

A Medicina do Novo Mundo estaria "completamente liberada do arcabouço civilizatório arcaico", através do adequado uso da Novolíngua pelos expertos da "Neoética". A Neoética seria um método dialético que incorpora os opostos dos conceitos ao conteúdo dos próprios "conceitos arcaicos", de modo a ampliar o leque de opções de condutas e liberar o Novo Mundo dos desconfortos e impossibilidades gerados pela doença e sofrimento humanos. A situação de doença e sofrimento, neste Novo Mundo, seria um absurdo intolerável e experimentá-la constituiria “uma vida indigna de ser vivida”.

A Medicina Humana, através deste jogo transformador de palavras, seria dialéticamente fundida ("sintetizada", segundo o jargão filosófico) à “Medicina Desumana” (aqui conceituada como o sistema que trata os seres humanos como coisas, objetos, ou animais apenas). Isto com base no Novo Humanismo no qual deixa de existir o conceito arcaico de anima nobilis, um valor específico do Humano que para a civilização arcaica era simbolicamente descrito como "sagrado"

O Homem passa a ser o “animal humano” e a “Nova Medicina Humana” torna-se “Humana-Veterinária”. 

Assim, diante do impasse quanto a alguma “vida indigna de ser vivida”, o doente crônico ou incurável é eliminado, seja na velhice, na juventude, na infância e, mesmo, intra-útero. Uma  conduta valorizada por ser tanto eugênica quanto higiênica. E "piedosa", o quê na Novolíngua médico-veterinária passa a significar "assassinar para evitar o sofrimento" 

 A “alma humana” neste Novo Mundo significa “secreção neuronal”. O “médico” torna-se “um eliminador de vidas humanas”, de acordo com critérios de desejo do "cliente", valorizando exclusivamente o “primado da autonomia segundo a Neoética". Ou mesmo interesses do Partido, no caso de este “ser animal humano” ter algum distúrbio na “secreção neuronal” que o leve a cometer “crimes de ideia” ou de ação contra as regras do Novo Mundo e mereça tornar-se “despessoa”. Esquecer quem sofreu e morreu torna-se um critério de saúde no Novo Mundo. 

E isto em todas as idades. Os conceitos de “amor materno incondicional” e "respeito indiscriminado ao ser humano" são relativizados pelos responsáveis da Neoética passando a ser vistos como “instintos arcaicos” resultantes da “secreção neuronal”. Os expertos em Neoética elegantemente os fundem ao de “liberdade feminina de ser feliz”, ou seja, o direito da mulher, e do casal, de ter uma vida sem maiores sofrimentos, evitando o contato com alguém que tenha uma “vida indigna de ser vivida”.   

O Médico Humano-Veterinário é aquele que elimina este ser que infelicitaria a mãe, a família e no futuro seria fonte de gastos para o sistema e o Ministério da Pujança, enfim o Partido.  Assim, o Médico Humano-Vererinário torna-se um colaborador fundamental do Ministério da Pujança, fiel ao Partido. Nada mais de gastos imensos com pesquisas de doenças raras, de investigação em terapêuticas medicamentosas para morbidades de difícil manejo, em tratamentos paliativos demorados. Tudo muito rápido e sempre eficaz! Pum! Dinheiro sim para os sacrossantos interesses do Partido e dos felizes.

Por aí vai...Irei para algum mato selvagem, mas disto eu escapo!



terça-feira, 7 de dezembro de 2021

Ouvindo Sultans of Swing (e lembrando do primeiro contato com Londres)


Lembro da primeira vez que fui a Londres. Era um guri. 
Cheguei à Victoria Station no fim de tarde e perguntei onde conseguia um hotel. Naquele tempo não tínhamos internet, cartões de crédito, telefones celulares (telemóveis). Era uma aventura total, sozinhos no mundão. O rapaz das informações me indicou um hostel em Stockwell, bairro barato (na época). Frio, chuva, noite às 4 da tarde: enfim, Londres como eu imaginava. Mas o hostel era assustador. Uma residência de muçulmanos, com caras nada amigáveis para um brasileiro loiro, de olhos azuis e com um sorriso feliz, talvez ingênuo. Percebi logo que ali eu não ficava mais que uma noite. No outro dia tentei Knightsbridge, mais chique. Mas a espelunca era ainda pior: quarto compartilhado com vários, gente que morava ali, incluindo trabalhadores de outras áreas do Reino Unido.
Mein Gott! Eu tenho dificuldade de ficar hospedado na casa de conhecidos, mesmo de amigos íntimos. Mas não havia jeito: fui ao telefone público (aqueles vermelhos com janelinhas) e liguei para uns caras que moravam num subúrbio numa casa coletiva e que uma querida amiga havia me recomendado (lembro e agradeço até hoje a ela). Estes subúrbios de Londres onde a gente chega de trem, uma meia hora de viagem. Os ingleses eram legais, exceto um deles que um dia me olhou e diante de alguma coisa que eu disse sobre minha amada Porto Alegre respondeu secamente: “but I am British”…ri por dentro da criatura. Ah! E havia uma garota alemã que saía e entrava do quarto sem falar com ninguém. Pela primeira vez na vida (não a última) fui questionado pelos rapazes sobre o fato de tomar banho diariamente: “do you have any skin disease?”ao que eu respondi: “I take a shower everyday, even twice a day… I am Brazilian”. 

Uma noite, os rapazes, super queridos, me levaram a um clube que até hoje me traz a ideia dos encantos de Londres e sua peculiar Cultura. Um clube de bairro, onde os  vizinhos se reuniam para tocar e cantar jazz. Donas de casa, pais de família, gente da área, quem quisesse, cantando com alma e imenso talento. Eu assisti embevecido, e agradecia emocionado aos meus novos amigos.  Sultans of Swing sempre me leva àquela noite. 

Mas até hoje não sei se era a Grande Arte viva num bairro londrino, ou o efeito da cerveja quente em enormes copos que rolava. 



Long time ago...




Sofisma

 Quando o Dr. Albert Moll, neurologista e psiquiatra precursor da Bioética, em 1902 no seu livro Arzliche Ethik, referindo-se às centenas de experimentos eticamente questionáveis na Alemanha pré-nazista, trouxe à tona que a relação médico-paciente deveria ser um contrato voluntário entre iguais onde o critério fosse a autonomia, o que propunha era que o médico não poderia fazer com o seu paciente o que bem quisesse, necessitando da aprovação autônoma e bem informada do mesmo. Isto é autonomia. 

Porém, um mórbido jogo de palavras, distorção conceitual, transformou este contrato autônomo em alguns países num dever do médico de acabar com a vida de seu paciente caso este último assim o deseje. Contorcionismo pseudo-filosófico, sofisma destruidor da essência da Medicina que é o cuidado do ser humano doente até o fim de sua vida. 

O suicídio é voluntário e cada qual é responsável por uma escolha destas. Se há alguma coragem em dar cabo à própria vida diante das dores que a compõem, que seja então o suicida o responsável único por isto. 

Jamais submeter a Medicina, e a autonomia de um cuidador aos desejos auto-destrutivos de outra pessoa. 

Jamais tornar o médico aquele que empurra pessoas do alto da ponte. O médico deve ser, isto sim, o profissional gabaritado e competente para sedar a dor física e emocional. Tarefa da dimensão que a Medicina merece.


terça-feira, 9 de novembro de 2021

O Pulmão Verde do Mundo

 Metáforas ecológicas.

Costumam os estrangeiros imputar unicamente ao Brasil a responsabilidade de manter o "pulmão verde" do mundo, porque os brasileiros ao longo dos séculos tem evitado destruir sua parte da Amazônia, uma imensa região onde atualmente vivem 23 milhões de pessoas. A região mais carente do nosso país. 

Esta metáfora quase poética transfere ao Brasil a responsabilidade de não utilizar sua vegetação virgem, que hoje em dia mantém-se em cerca de 60% da vegetação do país (o único país que mantém algo assim é o Brasil).  Muito bem, acho lindo e o Brasil tem tentado equacionar com enorme dificuldade a manutenção da floresta Amazônica com um projeto de desenvolvimento que beneficie os povos da Amazônia. 

Contudo, o pulmão verde do mundo não se restringe à Amazônia. Cada árvore plantada, cada floresta que se refaz, em cada região de um país, constitui um "pulmão verde". O pulmão verde deve estar em todo o lado e é responsabilidade de cada país manter seu pulmão verde, com vegetação nativa, não eucaliptos australianos que queimam com facilidade, destruindo a vegetação regional. Como está o pulmão verde europeu? O americano? O australiano? O chinês, indiano, etc.?

Parem de projetar no Brasil sua responsabilidade intransferível. A Amazônia brasileira pertence ao Brasil (!) e atualmente as queimadas são monitoradas pela NASA num projeto conjunto do Brasil com os Estados Unidos pois a tarefa deste controle num continente verde é hercúlea. A atividade de desmatamento e queimada é crônica, tendo chegado a um pico máximo em 2005, mantendo-se, embora em menores níveis, após. Responsabilidade do Brasil, sim.

Mas pergunte-se, europeu, americano, australiano, pergunte-se como está pulmão verde de mata nativa, ou replantada com vegetação nativa, no seu país, na sua região, no seu pátio.

Os programas de TV que assisto aqui acusam meu país, e desconhecem, negam com indiferença, e enorme falta de respeito, sua própria (ir)responsabilidade coletiva na reconstrução do pulmão verde global.

Detesto metáforas, slogans, e palavras de ordem:  emburrecem as pessoas e levam a atitudes lamentáveis.





sábado, 6 de novembro de 2021

O carnaval rancoroso dos ricos


 Ver os europeus e norteamericanos ricos, em suas cidades de asfalto e jardins planificados, comunidades e culturas que ao longo dos séculos destruíram e continuam destruindo tudo o que é floresta nativa, e transformaram sua geografia em intermináveis áreas de agricultura extensiva, a exigir “dos outros” (os que mantêm imensas áreas de vegetação nativa e florestas) mudanças de conduta, é a visão do ridículo, um circo politicamente correto. 

Mãos à obra mundo desenvolvido: replantem florestas com planejamento da flora original, renunciem ao uso da terra como fonte de riqueza, reduzam o uso (intensivo) de plástico, asfalto e concreto!  Fatos para “parecer” verde, como plantar campos de eucaliptos incendiários, milho para produzir biodiesel, jardins no alto de edifícios nas cidades, parques arborizados e elegantes para desfrute dos cidadãos e especulação imobiliária, são nada, ou pior que nada.

Há que repensar o manejo da terra, e refazer as extensas selvas, antes de acusar “os outros” de genocídio por crime ambiental. A História é capaz de sentenciar aos acusadores que transformam em festa televisiva a  inconsciência sobre sua própria (ir)responsabilidade.

Isto sem falar do envio de lixo (tóxico, contaminante) para descarte em países mais pobres. Crime ecológico de lesa-humanidade.

O mundo conhece bem a soberba reguladora dos poderosos sobre os mais humildes.

O resto é politicagem, demagogia, aparências, hipocrisia.

sábado, 9 de outubro de 2021

Visão de Mundo (Weltanschauung)

Crê em tudo o que eleva a alma

E a liberta da submissão ao medo

E aos partidos, crê no segredo

Que a vida te sussura ao ouvido,

 

Nas evidências dos fatos como são

Mesmo os que parecem absurdos,

Ou não se explicam facilmente, crê

Em tudo o que teus olhos veem.


Crê na vida que viveste, na que vem,

Crê na dor com que aprendeste,

Crê cegamente no valor do Bem,

Crê na humanidade do Homem.


Crê no poder incalculável dos atos

Que alteram as visões de mundo

Mais que os tratados de Filosofia


E, sobretudo, crê como um crente

No dom inato e inerente do amor

Que leva para além das ideologias.

 


Thales de Mileto

domingo, 19 de setembro de 2021

Guerreiro


 

O jovem sonha 
As chances todas,
De espada erguida.

Fé em si e na vida
Fazem girar as rodas
Da obscura engrenagem
Que a cada um cabe.

Um tanto cego,
Um pouco tonto,
Lança-se adiante,
Ingênuo confiante,
Inda sem saber
Que ninguém 
Está pronto.

E luta. E tomba.
Sente na alma
A dor da derrota,
 Desconhecida,
Mesclada, incluída
No valor da vitória.

E assim, pela vida.

O tempo escoa 
E o jovem não morre
No homem velho
(Um vencedor
Aos olhos do mundo),
Guerreiro ferido
Em duras batalhas
No fundo.

“O que foi que fiz,
Que história criei,
Vencido, fui rei,
Vencendo, fui pouco,
Na dor saboreei
Alguma alegria
E na euforia
Deixei-me perder.

Minha sabedoria
Incluiu loucura
E foi dessa loucura
Que criei lucidez.

Ao amar, sofri
E a sofrer por amar
Foi que me encontrei.

Não cheguei ao céu
Vivendo infernos,
Não alcancei a luz
Que emana de estrelas.

Mas tenho o coração
Luzindo, tão terno
No abraço ao irmão
Com que sigo no breu
A construir coisas belas,

Que hoje eu sei:
A vitória sou eu."


quinta-feira, 26 de agosto de 2021

Delfim e seus instintos

Longe deixei meus trajes velhos, despi-os,
E os pés descalços tramaram novas rotas.
Meus caminhos foram feitos de desvios
Que uma bússola de nave na alma aponta.

Permito me guiar por esta força interna
Que cria o rumo à frente nos meus olhos,
Retesa-me o corpo, move-me as pernas,
  Como voz em sonhos a odisseia monta. 

Penetro nu em mares não sabidos,
Futuro de um passado morto por vivido,
E nado enfim, delfim que sou, buscando o lar.

Onde, e se, chegarei eu apenas pressinto
Crendo que ser eu mesmo, e eu não minto,
Seja seguir esta força aonde me levar. 



 

quinta-feira, 5 de agosto de 2021

Suicidas (e criminosos) inconscientes

 Em relação à maioria das doenças preveníveis por vacina, a vacinação de uma porcentagem ampla da população protege mesmo os não-vacinados por um processo denominado "imunidade de rebanho". 

Contudo, se decrescem as taxas de vacinação devido, por exemplo, aos movimento anti-vacinas, voltam as doenças a apresentar sua forma epidêmica, que é representada em termos estatísticos pela fórmula R>1.

Este é o caso da recorrência nos últimos anos de extensos surtos de sarampo em populações europeias e da América do Norte, com a volta das mortes por sarampo. Algo inadmissível para uma doença que havia sido eficazmente controlada há décadas. Como dizia um índio personagem de filme: "Too much TV" (hoje, em dia seria "too much internet"). O risco, neste caso, é em primeiro lugar para os não-vacinados. 

Tinha uma amiga, aparentemente inteligente e com curso universitário (se é que estes critérios valem alguma coisa) que quase perdeu os dois filhos e a própria vida por se basear em leituras malfeitas na internet sobre imunização contra o H1N1. Tudo muito "alternativo" e "progressista". Eu havia recomendado vacinar, mas com algumas pessoas não há argumento que resolva. Espero que tenha aprendido.

Pois com o Covid19 está assim: há a manutenção da epidemia entre os não-vacinados nos Estados Unidos e Europa, com mudança do perfil de internações, incluindo  UTI, e óbitos, que passaram a ocorrer entre os mais jovens. As vítimas mais vulneráveis da desinformação. 

Ocorre que os vacinados, mesmo sem sintoma, se têm contato com o vírus podem contaminar aos outros, não-vacinados, pelo menos com variantes virais do tipo delta. Assim, torna-se bastante difícil chegar à desejada imunidade de rebanho.

Para os demais, vacinados, há risco? Se a parte da população não-vacinada mantém o padrão epidêmico, há a possibilidade de surgirem mutações que escapam à prevenção das vacinas disponíveis. Os centros de investigação em epidemiologia e vacinas estão atentos a isto, analisando as variantes que despontam em todos os continentes, e buscam  ampliar o espectro de proteção das vacinas.

Contudo, neste momento da Pandemia seria fundamental buscar condutas governamentais de Precaução, mais baseadas na evitação, ou pelo menos na diminuição, do risco. 

Ou seja, obrigatoriedade da vacinação, pois os riscos à Saúde Pública em situação Pandêmica podem ter prioridade em relação à autonomia individual. Ou, pelo menos, um certificado digital para entrar em restaurantes, meios de transportes e lugares públicos.

(humilde opinião pessoal)...

sábado, 17 de julho de 2021

Os Frutos da Terra (lembrando de Gide)

 « Nathanaël, je t'enseignerai la ferveur.Une existence pathétique, Nathanaël, plutôt que la tranquilité. Je ne souhaite pas d'autre repos que celui du sommeil de la mort. J'ai peur que tout désir, toute énergie que je n'aurais pas satisfaits durant ma vie, pour leur survie ne me tourmentent. J'espère, après avoir exprimé sur cette terre tout ce qui attendait en moi, satisfait, mourir complètement désespéré. »

Les Nourritures Terrestres, André Gide


Desfruto a vida,
Que ela existe
Para ser usufruída,
Ela é fruta 
 A ser comida.
Se fruída ela apetece,
Se não fruída, 
Apodrece
Desconhecida.

Vivo o tempo
E sua relatividade.
Veloz paisagem
Quando o trabalho
É intenso, viagem
De lentos caminhos
Quase eternos
Quando medito
Ou penso.

Adentro
Nos escaninhos
Da alma
Rumo ao centro,
Atravesso Histórias
E países que trago
Dentro,
Até chegar
Onde há como um vazio 
No espaço-tempo
De onde brotam
O que sou e o movimento,
Meus amores,
E os mais
Preciosos dons:

Sementes de frutos
E flores.

Levo afora,
Aos campos da terra,
As sementes.
Planto, rego, colho,
Distribuo o que 
Flui à vida de mim
Com a devoção 
De um crente.

E desfruto 
A vida
Assim.
Intensamente.





quarta-feira, 7 de julho de 2021

Maurice


Um coração

Tão aberto que ali sopraram 

Os ventos de todas as crenças e ideias,

Tão imenso que ali cruzaram

Todos os povos e as pessoas todas,

Um coração profundo, como sabe ser

Quem percebe e perdoa 

A pequenez e as mazelas do mundo.


Eu te (re)conheci,

Pelo olhar agudo, sorriso maroto,

Lá pelos meus catorze anos.


E foram tantas caminhadas

Pelo Menino Deus, 

Tantas conversas,

Questões levantadas

Para que alguém chutasse

E fizesse gol nesta vida.


Anos e anos, e histórias,

E cafés, e livros discutidos,

Pré-socráticos,

Idealistas gregos, 

Nietzsche,

Maçonaria, místicos,

Humanistas, Toynbee,

Wallace, tantos mais,

E (sistemáticas) dúvidas

E (compartilhadas) críticas,

Além de risadas, muitas risadas.


Tempos após

Em rumos distintos,

Ao nos reencontrarmos

Éramos tão próximos,

Talvez tão mais próximos,

Que me contaste de ti

O que eu não sabia,

Os segredos e os medos

Que doam à vida

O que a vida dispõe 

Para haver poesia,

E que só confessamos

Quando existe philia.


Maurice, eu agradeço, 

Por teres sido

Comigo

Um pai, 

E, ao fim, o amigo.



Lembrando de Sambaqui, Florianópolis.

sexta-feira, 28 de maio de 2021

As Origens do COVID 19 na China sem adequada Regulação Ético-legal de Pesquisa


Este texto levanta a questão de algo denominado em Bioética de “conhecimento perigoso”, o qual, segundo HR Potter é “aquele conhecimento que se acumulou muito mais rapidamente que a sabedoria necessária para gerenciá-lo.” O conhecimento torna-se perigoso, por exemplo, nas mãos de ideólogos, burocratas e especialistas carentes de um adequado comportamento ético e moral. 

A Ciência Biomédica é um espaço onde a discussão séria e ampla da regulação ético-legal da investigação científica é fundamental. Sem esta discussão, corremos o risco de nos tornamos o Doutor Frankenstein,  protagonista do espetacular e profético romance de Mary Shelley. Além disto, a utilização ideológica, especialmente pelos regimes de viés totalitário (de qualquer cor), dos conhecimentos e técnicas científicas é um risco sempre presente. 

A “Medicina Desumana” (em alemão, ”Medizin ohne Menschlichkeit") que se tornou evidente para a Humanidade com os experimentos em seres humanos pelos nazistas e que ainda permeia a atuação médica, segundo Dingwall & Rozelle (1) não se limita ao Nacional-Socialismo. Ocorreu e ocorre em diferentes países, facilitada por "...um tipo de pensamento, de uma visão de mundo, em que os seres humanos são “apenas animais”, aglomerados de moléculas e, portanto, coisas, objetos passíveis de serem usados como cobaias”.

Na maioria dos países, incluindo o Brasil, a experimentação Biomédica, a partir do julgamento de Nuremberg, passou a ser estritamente regulada, produzindo um marco não apenas em termos de ética da experimentação em humanos, como também em animais e mesmo em ecossistemas. Ainda assim, como aponta a Dra. Julia Black, "é crucial reconhecer que a presença de regulação ética não implica a ausência de barbarismo no tratamento ou na investigação envolvendo pessoas” (2). 

Um princípio a ser considerado sempre é o da Precaução (3). Segundo Hans Jonas, a existência de “risco de um dano sério ou irreversível requer a implementação de medidas que o possam prevenir”. Este é o trabalho dos bioeticistas e médicos envolvidos com a Ética Médica.

Atualmente, há uma série de experimentos sendo feitos na China que usam o conhecimento científico disponível sem adequada regulação ética, o que torna perigoso este conhecimento, não só para a Saúde, mas também para a integridade da pessoa humana, e mesmo para a continuidade das conquistas da Civilização. Especificamente em relação à Investigação Biomédica, alguns dos conhecimentos perigosos tem gerado experiências dignas de um Dr. Frankenstein, incluindo:

1) o uso experimental de embriões humanos, como por exemplo o emprego de tecido cerebral de bebês abortados para desenvolver produtos médicos, como o faz e apregoa o Dr. Hongyun Huang, neurocirurgião de Beijing, que trata lesões de medula espinal e doenças neurodegenerativas com tecido cerebral de bebês abortados (4). 
O projeto, aprovado localmente pela Direção de seu hospital, passou a ocorrer apesar de ser “proibido” na China, talvez porque naquele país a regulação ética não significa regulação legal. Ou ainda, talvez porque o objetivo do Dr. Huang e das revistas chinesas que divulgam seu trabalho “pioneiro” seja fazer da China o “líder mundial nos transplantes celulares”.

2) outro tipo de experimento em embriões humanos foi realizado por He Jiankui, um biofísico, da Universidade de Shenzen, o qual, com euforia, anunciou em 2018 que havia usado duas meninas gêmeas em estágio embrionário para a edição de genes por “CRISPR-Cas9” visando induzir resistência ao vírus da AIDS. Estas “cobaias embrionárias” não tiveram o direito de assinar um consentimento para o uso desta técnica que pode, com elevada probabilidade, gerar anomalias congênitas não apenas nas meninas, mas também futuramente em sua prole (CHINA NEEDS STRONGER ETHICAL SAFEGUARDS IN BIOMEDICINE - AS THE COUNTRY SEEKS TO BECOME A RESEARCH POWERHOUSE, IT MUST RECTIFY WORRISOME PRACTICES (Scientific American, editors - Outubro de 2019).

3) clonagem de embriões humanos e de animais, as denominadas “Quimeras”. Na Mitologia, as quimeras eram representadas como seres híbridos com cabeça de leão, corpo de cabra e rabo de serpente. Pois hoje, é possível produzí-las através da fusão de células fonte (estaminais) embrionárias humanas com as de animais, com embriões de animais, ou mesclando as células de animais entre si. São produzidos embriões mistos em laboratório. Foi o que se passou recentemente num projeto compartilhado entre China e uma Universidade da Espanha, país no qual este tipo de experimento é proibido tanto ponto de vista ético como legal. Na China, a “clonagem terapêutica e experimental humana” é permitida, desde que sem implantação uterina. MAS (em maiúscula) a implantação destas quimeras animais - humanos poderia ocorrer, pois não há adequada regulação. Assim, “cientistas espanhóis criaram na China um ser hídrido, homem-macaco, utilizando a implantação de células-fonte humanas em embriões de símios. Segundo informações das revistas Galileo e El País, a “quimera” foi sacrificada durante a gestação” (Galileo, El País, 2019). Quem sabe... Estrella Núñez, bióloga e vice-reitora de pesquisa da Universidade Católica de Murcia (UCAM), considerou o experimento importante para que animais de outras espécies possam virar, no futuro, “fábricas” de órgãos para transplantes.

4) Finalmente, o tema deste escrito, diz respeito especificamente, ao emprego de um método denominado “Gain of Function Research” (GOFr), também chamado de “Research involving potential pandemic pathogens" (PPPs) e que consiste no “aumento experimental do potencial infetante e patogênico de um vírus para caracterizar o risco de causar pandemia.

Por que a China?

O PC Chinês lançou o Programa (Agenda) denominado MADE IN CHINA 2025, que visa levar aquele país a liderar as ciências aeroespacial, de robótica, energia limpa, transporte e Ciências da Saúde. Em Medicina, percebemos nos programas digitais de busca como o Pubmed uma enxurrada de artigos produzidos na China, alguns interessantes, mas muitíssimos de qualidade discutível. Não é incomum o uso de revisores falsos nas revistas de investigação científica chinesas.

Este Programa assume uma moral que em Chinês é chamada de “jigong jinli”, traduzível “como sucessos rápidos com ganhos a curto prazo” (5, 6). 
Ou seja, pragmatismo da pior espécie, o "vale-tudo".

A “Regulação Bioética” é ineficaz na China (https://www.scientificamerican.com/article/china-needs-stronger-ethical-safeguards-in-biomedicine/?print=true). As primeiras diretrizes de Ética Médica foram produzidas por lá apenas em 1980, seguindo a proposta de serem “baseadas nos princípios da comunidade científica internacional”, MAS (maiúscula) como descrito acima, não implicam regulação legal. 

Os Comitês de Ética locais são despreparados nas questões regulatórias, bem como os cientistas e médicos pois não têm formação relacionada a princípios éticos e comunicação com pacientes. Não há valorização dos “interesses do paciente” e da autonomia da pessoa. A comunicação médico-paciente costuma ser feita aos familiares, ou mesmo a eventuais "conhecidos".  A solicitação de um Consentimento Informado não é uma prática eticamente recomendada, muito menos uma determinação legal, na China. 

E não há informações adequadas sobre como o Consentimento informado para investigação em ensaios clínicos é obtido na China. 
Um exemplo foram os experimentos da companhia Pukang Biotech, a qual ilegalmente comercializou uma vacina contra hepatite sem ter autorização de qualquer Agência Reguladora chinesa. Testaram a vacina em crianças de escolas da Província de Anhui, tendo causado doença em centenas de crianças e, mesmo, uma morte (7).

Lei R, et al. citam a continuação de um “pensamento eugênico” entre os professores universitários chineses, visto que em livros textos de Medicina publicados recentemente, entre 2010 e 2015, ensina-se que “pessoas deficientes” são (em Chinês) “liesheng”, ou seja, inferiores e um peso para a Sociedade, sugerindo que deveriam ser esterilizadas, mesmo com o uso da força para evitar que tenham filhos (8).

E o que decorre desta “desregulação da investigação bioética na China”? 

Que grupos de cientistas investigadores internacionais associados a colegas chineses, fazem na China experimentos que são proibidos em seus próprios países, como foi o caso das quimeras entre humanos e símios pelos espanhóis.

Um destes experimentos envolveu o uso da técnica de "Gain of function" para potencializar o vírus SARS-COV (https://www.newsweek.com/dr-fauci-backed-controversial-wuhan-lab-millions-us-dollars-risky-coronavirus-research-1500741). Em 2019, o National Institute for Allergy and Infectious Diseases, dos Estados Unidos, sob a liderança do conhecido Dr. Fauci, financiou o trabalho de cientistas do Instituto de Virologia de Wuhan em pesquisa envolvendo “gain of function research” utilizando coronavírus de morcegos. 
O Instituto de Saúde dos Estados Unidos (NIH) em 2019 despendeu milhões de dólares para iniciar e desenvolver estes experimentos em morcegos que haviam sido previamente coletados em outro projeto de Pesquisa com os chineses, financiado pelo NIH e iniciado em 2014. 

Houve críticas de pesquisadores internacionais contra estes experimentos devido ao potencial risco de contaminar seres humanos, mas o Projeto EcoHealth Alliance, dirigido pelo Dr. Peter Daszac, envolvendo "gain of function research", só deixou de ser financiado em Abril de 2020, quando a epidemia já tinha dimensões pandêmicas.
Entre os objetivos do projeto constam (aqui vou manter em Inglês pois são detalhes que, embora fundamentais, não interessam a muita gente a não ser médicos e investigadores biomédicos: 

We will use S protein sequence data, infectious clone technology, in vitro and in vivo infection experiments, and analysis of receptor binding to test the hypothesis that % divergence thresholds in S protein sequences predict spillover potential."

Ou seja, testaram a “capacidade de um vírus modificado por engenharia genética ser transmitido de um animal para um ser humano, o que requer que o vírus seja capaz de ligar-se a receptores das células humanas. O COVID-19, por exemplo, tem a estratégia de ligar-se ao receptor ACE2 nos pulmões e outros órgãos.  

Segundo Richard Ebright, infectologista da  Rutgers University, estes experimentos “aumentam a habilidade do coronavírus de morcego, por engenharia genética, de infectar seres humanos". Ebright foi uma voz de oposição a estes experimentos de “gain of function”.
O debate dura já uma década na Comunidade científica Internacional pelo risco de escape (“spillover”) laboratorial com as consequências devastadoras de uma Pandemia (Newsweek, 28/04/2020).  A Inteligência dos Estados Unidos, após haver originalmente considerado a possibilidade de mutações naturais ocorridas nos vírus de morcego, já em 2020 passou a considerar como provável um escape laboratorial do vírus SARS-Cov-2, o mundialmente conhecido COVID-19, fruto de manipulação genética (Rebecca Ttagger. US FUNDER ENDS CORONAVIRUS RESEARCH WITH WUHAN LAB AMID POLITICAL PRESSURE.  https://www.chemistryworld.com/news/us. 5 MAY 2020).

Traduzo e agrego aqui uma das conclusões do artigo “The proximal orgins of SARS-COV-2” publicado na revista NATURE MEDICINE (2020; 26:450–5), que tem sido citado como a “opinião da Comunidade Científica” favorável a um processo mutacional natural do vírus SARS-Cov: 

“Pesquisa básica envolvendo modificações induzidas nos Coronavirus semelhantes ao SARS-COV de morcegos em culturas celulares e/ou modelos animais tem sido realizadas há muitos anos em laboratórios de nível elevado de Biossegurança em todo mundo, e há relatos documentados de escapes de vírus SARS-CoV de alguns laboratórios. DEVEMOS, PORTANTO, EXAMINAR A POSSIBILIDADE DE UM ESCAPE LABORATORIAL DO SARS-Cov-2 (na origem da Pandemia). Em teoria, é possível que as mutações RBD adquiridas pelo vírus tenham ocorrido durante a adaptação às modificações induzidas na cultura celular, como tem sido observado em estudos com vírus SARS-Cov".

Para mim, pessoalmente, ficou evidente que algo como este escape de um vírus animal adaptado a humanos (spillover) previamente narrado deve ter acontecido, ao ler nesta semana uma reportagem da revista italiana  QuotidianoNazionale, em que se afirma (pela primeira vez) que a doença afetou funcionários investigadores do Instituto de Virologia de Wuhan logo nos primeiros momentos da Pandemia. Ou seja, a infecção já se alastrava entre os funcionários do Instituto de Virologia quando o primeiro surto surgiu, sugerindo que pode ter se originado naquele centro de pesquisa
Este dado ficou ocultado e representa um detalhe fundamental na sequências dos eventos ocorridos em Wuhan.

Tomara que o Presidente Biden tenha sucesso (e poder suficiente) para aclarar esta questão. Temos todos o direito de saber a verdade e exigir que, sendo comprovado o escape de um vírus geneticamente modificado seja a causa de milhões de mortes e de um transtorno incomensurável em todos os países, este tipo de experimento, assim como os outros absurdos citados acima, NUNCA MAIS sejam realizados. Mas, provavelmente, neste momento já seja impossível obter as provas.

E deixo aqui minha homenagem ao Dr. Li Wenliang (foto abaixo - 12 de Outubro de 1986 – 7 Fevereiro de 2020), oftalmologista Chinês que trabalhava no Wuhan Central Hospital, e que ao perceber o surgimento dos casos de infecção por COVID19, denunciou nas redes sociais a existência de uma epidemia ocultada. Acabou preso pelo PC Chinês e morreu devido à doença alguns dias após.



Referências:

1) The Ethical Governance of German Physicians, 1890-1939: Are There Lessons from History? The Journal of Policy History 2011;23:1. Cambridge University Press, 2011.
2) Black, J. Constructing and Contesting Legitimacy and Accountability in Polycentric Regulatory Regimes. Regulation & Governance 2008;2:137-64. 
3) Goldim JR. A Avaliação Ética da Investigação Científica de novas drogas: a Importância da caracterização adequada das fases de Pesquisa. Revista HCPA 2007; 27(1).
4) Cyranoski D. Consenting adults? Not necessarily... Nature 2005; 435: 138–139; Cyranoski D. Fetal-cell therapy: paper chase. Nature 2005; 437: 810–811.
5) Wolfgang Hennig. Bioethics in China - although National Guidelines are in place, their implementation remains difficult. EMBO Reports 2006;7(9):850-4. 
6) Ruipeng Lei, Xiaomei Zhai, Wei Zhu. Reboot ethics governance in China - the shocking announcement of genetically modified babies creates an opportunity to overhaul the nation’s science. Nature 2019; (May);569:184-6.
7) Wolfgan Hennig. Bioethics China. EMBO REPORTS 2006;7(9):850-4).
8) Ruipeng Lei, Xiaomei Zhai, Wei Zhu. Reboot ethics governance in China - the shocking announcement of genetically modified babies creates an opportunity to overhaul the nation’s science. Nature 2019;569:184-6.



quinta-feira, 13 de maio de 2021

a morte do barbudo

 Há uma confusão entre religião formal e espiritualidade humana, de tal forma que a derrocada das crenças religiosas formais tem implicado a decadência da espiritualidade humana. É como se sem a voz do papa, do rabino, do iluminado e do guru, reinasse o "vale tudo", aliás, a cara do nosso Tempo.

No entanto, a espiritualidade humana, a valorização dos potenciais e qualidades específicas do ser humano, a opção consciente pela visão de uma sacralidade da vida humana, a crença na transcendência da pessoa através das experiências da vida, incluindo o sofrimento que é inseparável do viver, são as únicas bases de uma possível  Civilização. 

O não matarás não perde o valor intrínseco se deixa de ser uma lei criada por um deus barbudo. O não matarás é a base fundamental de uma civilização que reconhece o seu passado: o mundo arcaico que tentamos abandonar, o mundo dos filicídios, matricídios, parricídios, o mundo dos genocídios, da selva ou dos regimes totalitários. Diga-se de passagem, os regimes totalitários da primeira metade do século XX são frutos da perda total dos princípios civilizatórios devido à derrocada das bases cristãs formais.

O deus barbudo das tradições talvez apenas seja o símbolo da espiritualidade humana em seu maior nível, a intuição certeira dos mecanismos que regem a psiquê humana profunda e o Universo. Uma visão do "numen" sempre Desconhecido.

Confundir crenças em uma religião formal com amadurecimento espiritual tem lamentáveis consequências. 

O desapego de alguma religião para uma pessoa sábia, letrado(a) ou iletrado(a), pode levar ao cumprimento integral das regras que as religiões tentam impor pelo medo.  Se estas regras são adequadas à manutenção e à saúde de uma sociedade civilizada, devem ser respeitadas, como se fossem "a palavra de deus".

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Religiões formais e espiritualidade humana são coisas distintas. A morte das tradições não necessita ser a morte dos valores humanos essenciais. A necessidade radical de amar ao próximo, de respeitar ao outro não são conceitos que tem dono. 

Há questões cruciais que estão sendo questionadas em nome de um preconceito “anti-religioso” sem nos darmos conta que destruir certos valores (por serem coisa de “religião”) implica na destruição da própria civilização. A liberação de matar, na verdade o dever de matar, gerido pelo Estado, concedido aos médicos em países do norte da Europa com histórico nazista leva ao fim do que conhecemos por Essência da Medicina, e o valor do “ato médico”. Diz-se: sacralidade da vida humana, o tabu de não-matar são coisas de “religiosos”, um atraso nestes “novos tempos”. Não é assim. 

O “não matarás” não é o “primeiro mandamento” à toa. É o passo limítrofe entre a civilização e a barbárie ancestral. Os antigos sabiam, por experiência histórica e intuição, o que diziam.



domingo, 2 de maio de 2021

Exercícios pessoais com a Novilíngua

"The purpose of Newspeak was not only to provide a medium of expression for the world-view and mental habits proper to the devotees of Ingsoc, but to make all other modes of thought impossible."

“And if all others accepted the lie which the Party imposed—if all records told the same tale—then the lie passed into history and became truth. ‘Who controls the past’ ran the Party slogan, ‘controls the future: who controls the present controls the past.'”

George Orwell, 1984 - trechos



Estou treinando para a Novilíngua...é um exercício de criatividade. Podes mudar as palavras como queres e as coisas se transformam...é uma técnica "transformadora da realidade", como dizem os adoradores da "mística quântica" e os professores de Ciências Sociais. Criminoso pode ser injustiçado, homem probo pode ser moleque irresponsável, ladrão pode ser heroi...tudo depende dos fins que tens em mente. Bem legal! Mentira pode ser verdade oculta, fato provado pode ser mentira. Bem (i)legal.

Treinando aqui:

A justiça brasileira é a melhor do mundo. A Lei funciona para todos, principalmente para políticos corruptos, na proteção dos direitos do povo brasileiro. As irregularidades dos governos petistas nunca ocorreram. O BNDES nunca foi usado para favorecer empresas ligadas ao PT. O apartamento não é do exu, ou ele comprou com a aposentadoria da falecida que trabalhava na Avon. Ou ainda, como eu já, ouvi: "rouba mas faz" voltou a valer.  A Dilma é brilhante. O problema são os juízes concursados da PGR que perseguem os melhores governantes que o país já teve, os que acabaram com a miséria que depois voltou.

Sobre o Foro de São Paulo, Castro e Che nunca mataram civis inocentes incluindo homossexuais. Venezuela é uma democracia plena e o país vive a prosperidade idealizada pelo Foro de São Paulo. Os venezuelanos saíram em massa do país de férias, com a grana que a dupla Chavez-Maduro entregou ao povo.

Sérgio Moro e Dalagnol são dois moleques, aliás toda a magistratura (falsamente!) qualificada que julgou os homens probos do PT é composta de moleques. Os bilhões de reais devolvidos aos cofres públicos por empresários ligados ao PT, na verdade são dinheiro de família surrupiado pelos juízes da Lava-Jato a estes nobres empresários devendo ser restituído a eles pelos brasileiros, e com juros!

Os advogados sem concurso colocados pelo PT e PSDB no STF, com a grandeza de um Gilmar Mendes, entre tantos luminares, naquela ágora de homens probos e idealistas, desfizeram a teia criminosa de falsidades que lesou a reputação do mais honesto dos brasileiros.

A roubalheira por via da Odebrecht nunca existiu, nem os vínculos com ditaduras internacionais. Angola é uma democracia, Cuba idem.

Pronto! Estou preparado para o Brasil “dos novos tempos”. Já consigo mentir para mim mesmo e esquecer que minto. Estou pronto para auxiliar na criação do Novo Mundo onde o Bem é sempre vencedor porque a História é reescrita. Isto é maravilhoso!!!

Aliás, Orwell não se referia aos Socialistas no livro 1984 e IngSoc se refere a time de futebol inglês. E Orwell era um crápula (é preciso desclassificar quem te joga a verdade na cara.)

terça-feira, 6 de abril de 2021

Os incuráveis criadores do novo mundo (ou "sonhar mais um sonho impossível")

Sinceramente? Não haveria um forte viés racista e supremacista europeu por trás destes movimentos revolucionários coletivizantes na América Latina? Descendentes de europeus, de classe média alta, insuflados por ideologias originadas do Idealismo Alemão buscam civilizar os “primitivos” povos indígenas e africanos, que não prestam “a criar uma civilização”. Não haveria nisto um revival laico dos evangelismos e das missões jesuíticas que empestaram a história do continente latinoamericano por séculos ? Ao falar com europeus envolvidos nisto, principalmente franceses, sempre percebi algo do tipo “temos que ensinar civilização à gentalha”. Estes ideólogos tem uma espécie de prepotência intelectual, a “Síndrome dos criadores do Novo Mundo”. Pois o resultado final é ainda o mesmo: falta de liberdades, corrupção, opressão e, nestes últimos movimentos coletivistas, miséria avassaladora. Se eu fosse das áreas das Ciências Humanas, pesquisaria isto...

Um dos ícones simbólicos da "Síndrome dos criadores do Novo Mundo" é Dom Quixote de La Mancha, o cavaleiro de triste figura. Pois este romance escrito em poesia realista por Cervantes não idealiza um verdadeiro herói, pelo contrário, é uma paródia aos romances de cavalaria que estiveram em voga décadas antes da escritura do livro. Um homem decrépito, que se entrega ao prazer de "sonhar o impossível" lendo romances de cavalaria e perde o juízo, tornando-se o justiceiro andante. Quixote é uma sátira, uma comédia, produzida pelo grandioso talento de Cervantes. Um personagem tragicômico, a quem o pobre Sancho Panza tem que obedecer como "pessoa comum", ingênuo servidor que é. Na América Latina, daqueles tempos, certamente, o personagem Sancho seria um escravo, o seguidor fiel de uma Ideologia partidária.

Creio que eu usaria a triste figura de Dom Quixote de La Mancha, enlouquecida por leituras e sentimentalismo, como símbolo da "Síndrome dos criadores do Novo Mundo" na minha tese.



domingo, 4 de abril de 2021

Joio e Trigo

Sou do mundo dos sonhos, 

Dos símbolos, das fábulas.

Escuto a voz que ensina

Nas madrugadas,


Em lugares que desconheço

Num real que é seu avesso,


E disto sei que é preciso

Crer e descrer, duvidar

Como quem sonda

Os abismos do mar

Como fez Tales

De Mileto,

A mirar as ondas.


Cifradas mensagens,

Duplo sentido em imagens

Esboços obscuros

De planos futuros,

Desejo escondido

Em nebulosa paisagem,


Aí se confundem

Sombras e luzes

Pois disto

Se é composto,

Como os dois lados

De um rosto,

O Ideal que é o disfarce

Do seu oposto,

E a duração total

De um dia.


Crer e descrer,

Rejeitar profecias,

Sempre mais desvendar

Para chegar a uma fé

Que distingue verdades 

De fantasias.


domingo, 21 de março de 2021

Anatomista do real


Quem sabe ver 

Sabe calar-se

Para dissecar o real,

O que se mostra

Ou se oculta

No disfarce do Ideal. 


Sabe ouvir,

Mais que as essências,

Às gritantes evidências.


E sabe ter o desencanto

Com ícones,

Ídolos, santos,

Gênios, profetas,

Causas, partidos,

Literárias utopias.


Despir a vida

Do ruído

Da militante poesia.


Sabe ver com

Olhos de águia,

Sabe ler

Verso e reverso,


Sabe ser

Um solitário

A dissecar o discurso.







Dias agrestes (em confinamento pela Pandemia)

 



Vidas desfeitas, corpos rotos,
Amor recôndito, em espera
De que o inverno dê seu broto:
Novos tempos, primavera.

Vejo a vida da janela
E pela janela dos olhos
Também a vida me vê.

Separados pelo vidro,
Estamos ambos cativos,
Querendo o vidro romper.

Sem pressa, suavemente, 
Dança a vida nos ciprestes,
É primavera, o sol amansa
Desesperanças agrestes. 


domingo, 14 de março de 2021

Revelação

Dúvidas minhas, 

Dúvidas da vida.

Como se separa o que eu sei

Do que nada se sabe,


Aquilo que pensei 

E o que me cabe 

Fazer?


O que é saber 

Com certeza

Se a própria natureza

Parece não se saber?


Só ao Homem cabe o dever:

Solucionar a dúvida da vida,

Para a vida poder se conhecer.

Salvar o irmão e a criança,

Não matar o irmão e a criança.


É em cada Homem que há 

Salvação

E Esperança,


E nisto não há ateísmo,

Isto é a essência do Cristianismo:

O maior dos Homens

Morreu crucificado, 

Sem haver pecado.


Por isto, cada ser humano,

Embrião, feto, jovem, velho,

É sagrado,


Joia única da Vida,

Consciência única 

A revelar à Vida 

Seu Mistério.