Há Inteligência no Universo
E por havê-la,
O Espaço será caminho,
O Tempo, memória.
Tempo e espaço, realidade
E História.
Há Inteligência no Universo
E por havê-la
Há de haver um lar
A circum-navegar
A cada estrela.
Há Inteligência no Universo
E por havê-la,
O Espaço será caminho,
O Tempo, memória.
Tempo e espaço, realidade
E História.
Há Inteligência no Universo
E por havê-la
Há de haver um lar
A circum-navegar
A cada estrela.
O Rio de Janeiro adora glamourizar a miséria e o crime. Como disse o carnavalesco Joãozinho Trinta, “quem gosta de pobreza é intelectual". E Dona Zica, esposa do grande músico Cartola, quando perguntada se amava a vida na favela Mangueira, respondeu furiosa: "se eu tivesse condições, saía hoje mesmo deste inferno". Na verdade, quem ama a miséria são os músicos populares, os estudantes das ciências humanas, os poetas apreciadores de um bom malt whisky, ou de alguma droga (segundo eles "porque ninguém é de ferro"). Esta cultura, aparentemente liberal, na realidade, uma selvageria, fez com que o tráfico de drogas se instalasse em algumas das regiões mais lindas e miseráveis do Brasil, em nome da "Liberdade" levando ao caos a Segurança Pública de algumas partes do país. Com o apoio charmoso de uma dúzia de artistas populares ricos e famosos. Uma epidemia que até hoje mata e alucina. A moda agora é o alucinógeno ("natural") amazónico ayauhuasca, o qual tem posto muita gente no manicómio ou no crime (vide o filme chileno “Antares da Luz”)
Tenho assistido, não sem desgosto e náusea, um ou outro episódio, de uma série brasileira, criada pelo grupo "Conspiração Filmes", de tão sugestivo nome. Chama-se Dom (de 2021), cujo texto foi escrito pelo roqueiro pró-liberação das drogas Tony Bellotto, membro da alta classe média paulista, conhecido por formar a banda Titãs e ter-se casado com Giulia Gam e a lindíssima Malu Mader. Eita, biografia!
O texto, que seria "baseado em fatos reais" é, na verdade, uma livre recriação sobre notícias da imprensa relacionadas à tragédia vivencial de um jovem carioca, Pedro Dom, e a sua desestruturada família de classe média no Rio de Janeiro. A história é a de tantos garotos e garotas que desde cedo tornam-se drogaditos, escalando da cannabis para outras porcarias, e tornando-se lixo humano. Mas a história real do Dom, mais que isto, é o apogeu da criminalidade, envolvendo grupos que invadiam residências na cidade do Rio, portando armas pesadas e granadas, com as quais faziam reféns às famílias, incluindo bebés e crianças. Em alguma destas situações o enlouquecido Pedro Dom, colocou uma granada junto à cabeça de um bebê diante de sua desesperada família ameaçando explodir a criança. Para roubar o que havia de valioso na residência. Parece filme de terror americano, um alien do crime, mas é apenas a realidade brasileira.
Pois é este criminoso que o filme, apesar de mostrar a desgraçada vida em que se meteu (tão longe dos confortos e satisfações burgueses), tenta "humanizar". Entre um crime bárbaro e outro, o jovem e "ítalo-bonitão" criminoso, chorando, se queixa: "eu erro, mas quem não erra?". Imagine meia dúzia destas "vítimas do sistema" cometendo "erros humanos" na nossa vizinhança e pondo em risco as nossas crianças e pessoas amadas.
E há acusações veladas no filme, tiradas sei lá de onde, relacionando o Exército Brasileiro e as igrejas evangélicas, nas décadas de 70 e 80, com ações criminosas na Amazónia. A recriação ideológica da realidade a destrutir reputações. Já conhecemos bem...
Ou seja, a série tem o texto criado pelo roqueiro Bellotto, foi produzida pela Conspiração Filmes, e tenta mostrar o lado humano de um dos criminosos mais cruéis que infernizou a vida dos trabalhadores brasileiros, e impunemente. Enfim, mais um "samba do crioulo doido" como dizia o genial Stanislaw Ponte Preta, num deboche sobre a cultura carnavalesca.
Com laivos culturais de um governo que financia este tipo de produção.
Eu fico pasmo!
De onde surgem os laços
Que sendo invisíveis fios
Atraem desconhecidos
A formar duplas, trios,
De tão diversos genomas?
Alguma matéria obscura
A tecer rede entre (os) nós,
Que no passado distante
Entrelaçou nossos avós
E como o fluxo dos rios
Leva os seres humanos
Ao mar
A amar
O fim diverge de um para outro.
Tudo o que foi o viajante, tudo o que fez
Vige nele sempre vivo,
Pesa ou sem peso o eleva.
Pode ser o viajante
O miserável da mais triste estrada,
Ou o rico comerciante endinheirado.
Ou o gênio afamado, ou outro mal-amado,
Qualquer um pode ser,
O que foi feliz com o que teve ou teria,
O que sofreu o que podia e não podia,
O fim se revela
No que fez do que havia.
Se houver alguma seriedade nas intenções e propostas dos atuais governantes federais, estaduais e municipais, a reconstrução do magnífico Estado do Rio Grande do Sul, deveria constar de um projeto de planejamento a longo prazo que envolvesse eficaz prevenção continuada e adequado manejo das calamidades meteorológicas que recorrentemente afetam esta região de transição climática: cumprimento estrito de regras ambientais e urbanísticas, de recuperação e manutenção sistemática das barragens, rede de drenagem e esgoto nas cidades, drenagem da rede fluvial, estruturação de programas de prevenção de desfechos fatais e de atendimento em regime de urgência no caso de enchentes e deslizamentos. E os votos dos gaúchos deveriam ter em vista o cumprimento destes projetos.
Sinceramente, pelo que vi, nada funcionou: nem os muros de contenção, os quais permitiram o vazamento do Guaíba para o centro de Porto Alegre, o sistema de esgoto que se mostrou inútil, ou mesmo prejudicial. No Estado, o espanto com os resultados da construção urbana na beira de rios em vales estreitos, entre outras questões...
O que se viu foi um governo federal desajeitado, retardatário na ação (apesar da conhecida demagogia do discurso), tentando fazer (uma vergonhosa) propaganda para a imprensa nacional e internacional. Um desrespeito à inteligência aos gaúchos. A Marinha que chegou ao estado uma semana após o morticínio de centenas de pessoas. Exército pífio (o que é uma má novidade)... E governos estadual e municipal totalmente despreparados para a dimensão de qualquer tragédia.
A grande, espetacular realidade da capacidade de superação e apoio entre gaúchos e demais brasileiros foi consoladora e de uma nobreza rara, incluindo o resgate e adoção de animais, e incontáveis doaçôes. Quem salvou os gaúchos foi o povo do Rio Grande e do Brasil. Isto é inegável.
A partir desta calamidade, tudo em termos de Engenharia, Urbanismo, Logística na prevenção e manejo de enchentes e deslizamentos deveria alterar-se!
Mas conhecendo os que governam este país, o foco deve estar nas próximas eleições, na destruição da reputação dos inimigos "fascistas" (sic). E no reforço das relações com Venezuela, Cuba, Irã, Rússia e Hamas...
Por algum motivo, acordei pensando sobre os meus inícios na Medicina. Quando mais garoto, trazia um forte viés filosófico, artístico e religioso. Mas dei-me conta, logo ao entrar no Curso de Medicina na Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que o que eu viveria a partir daí, pelos próximos seis anos, era um verdadeiro "processo iniciático", não numa ideologia, mas nos processos de descoberta da mais dura realidade da vida. Muito difícil, intenso, profundo. Algo que seria em português do Brasil: "ou vai, ou racha". Pois resolvi seguir.
Eu era um aluno esforçado, desde que me conheço por gente. Mas nunca o "certinho" das turmas. Sabia confraternizar, falar nas aulas, fazer festa. E, confesso, que dava "cola" aos colegas. Por espírito de rebeldia e diversão. Pois, ao iniciar a Medicina, jurei a mim mesmo nunca mais fazer isso. Porque Medicina trata da vida humana, e todo o conhecimento, nas cadeiras básicas, ou depois nas clínicas, era meu novo "Sagrado".
A Escola de Medicina é um processo de Iniciação, refleti novamente hoje pela manhã.
Por outro lado, tive, não sem sofrimento, de deixar os meus livros de filosofia, ciências gerais, e outros de Literatura na estante. E os meus pincéis, meus papéis e telas. Não havia espaço... Eu, que era um aluno "de primeira" nos anos de formação primária e secundária, sofri os reveses de tirar notas, não diria baixas, mas "na média". Sentia-me envergonhado e despendia enorme esforço para conseguir abarcar os assuntos e as complexidades da formação médica. Buscava estudar nos livros, diretamente, e não em "anotações de colegas" que circulavam na turma. Jurei que eu estudaria nos livros, mesmo que as notas não fossem as melhores pelo volume de material. E lá ficavam os prazeres das artes da juventude.
A Medicina é um cônjuge ciumento, pensei hoje, pela manhã, como alguém no passado me disse.
E, ao longo dos anos, percebi que em Medicina, estamos sempre, e a cada dia, diante de desafios para os quais temos que atuar da melhor forma, sem estar "totalmente" preparados. Cada paciente, e alguns deles de forma muito intensa e especial, exige-nos resolver questões que escapam ao que até aquele momento havíamos estudado. Cada paciente coloca-nos diante do desafio de estudar, de criticar informações, de checar referências. O que hoje se sabe pode ser distinto do que há um ano se sabia. Passei a estruturar os meus próprios protocolos para as diversas situações que atendia: grandes queimados, dor, nutrição, asma de difícil tratamento, sepse e mais tarde, doenças gastroenterológicas e hepáticas. Ler, reler, anotar, ler, buscar... Modificando condutas a partir do surgimento de novas evidências, e sempre analisando a qualidade dos dados. E isto, diariamente.
Na Medicina, nunca estamos prontos, refleti esta manhã.
Lá pelos inícios deste processo, sentia grandes dúvidas sobre "o quê eu estava fazendo da minha vida"... Podia ter feito outras opções, mais fáceis e com mais encanto, talvez. A minha escolha levou-me a ter que lidar com os sofrimentos mais básicos e profundos, deste mundo, a realidade sem máscara, saídas fáceis, explicações prontas, ou ideias preconcebidas. Pés no chão, e estudo ao longo dos anos, incluindo pouco sono, muita ansiedade por lidar com as dores dos semelhantes. Em especial, das crianças e os seus familiares.
No meio destes questionamentos, ainda na Faculdade, tive um desses sonhos que sempre nos ajudam a definir caminhos. No sonho, um médico, um senhor com uma longa barba branca, disse-me, carinhosamente: "esta é tua história... E vais trabalhar é com Medicina até o teu último dia". Pois daqui à meia hora tenho aulas a dar... de Medicina.
Como escreveu Fernando Pessoa, no poema O CONDE D. HENRIQUE:
Todo começo é involuntário
Deus é o agente,
O herói a si assiste, vário
E inconsciente.
À espada em tuas mãos achada
Teu olhar desce.
«Que farei eu com esta espada?»
Ergueste-a, e fez-se.
Je veux le vaste bruit de toutes les vagues
Et les sons des mots que je lis sur les lèvres,
Les sens qui animent les thèmes communs
Ou profonds de nos proses triviales.
Restaurer en Bach son originel accent
Les aigus mélodieux vibrants de Chopin
Les oiseaux gazouillent, et les feuilles
Des arbres, bruissement, en dansant.
Presque quand je le perds, j'apprends la valeur
Parmi les bénédictions que la vie m'a données :
La lumière pour les yeux, les sons pour l'idée
L'étreinte de la parole qui nous rend humains
Avec le sentiment qui naît entre nous
Quand j'entends ta voix ou que je vois tes yeux.
Quero o som amplo de todas as ondas
E os detalhes sonoros que leio nos lábios,
Os seus sentidos que animam os tolos
Ou profundos temas das triviais prosas.
Repor o som exato de Bach que havia,
As finas melodias de Chopin a vibrar,
O chilreio da revoada, e as folhas
Das árvores, farfalhando, ao dançar.
Quase ao perdê-lo, é que aprendo o valor
Das humildes bênçãos que vida me dá:
A luz pelos olhos, os sons para a ideia,
O abraço da fala que nos torna humanos,
Com o sentimento que brota entre nós
Quando vejo teus olhos, ou ouço tua voz.
Penetro no escuro que me habita
E, aos poucos, acende-se e desvela
O que pulsava obscuro, e gravita
O Grande Atractor que me constela.
Pareço ver, mas de fato eu o sinto:
Foco ofuscante a brilhar no centro,
Aquilo que eu sou e me é distinto
Mas deixa de ser o Outro se adentro.
Digo sentir porque a luz é amor,
E fluxo de consciência, e sentimento,
Gerado em mim pelo Grande Atractor
Em resposta ao horizonte dos eventos.
Ao abeirá-lo, segundos tornam-se eras,
Ilusões são transmutadas em verdades
Pois eu me amplio, dilata-se a Esfera,
E, ao dilatar-se, o Tempo é Eternidade.
Referências para o poema:
"O que está dentro é como o que está fora". (princípio Hermético)
“The Great Attractor is a region of gravitational attraction in the intergalactic space”
“Horizonte de eventos é o limite exterior de um buraco negro ”
"Increasing Gravity dilates time". (Teoria da Relatividade)
אני מה שאני (Eu sou o que sou")
E a gente vai pensando, aprendendo e mudando. Eu era o guri mais extrovertido e ingênuo deste mundo, como muitos de vocês. Dava-me com todos, era o amigão de todos, o eterno confiante. Mas ao longo dos anos, identifiquei um traço de personalidade em algumas pessoas que foi me tornando um tanto "bicho arisco". Chamavam antigamente as pessoas com este tipo de personalidade, pelo menos em Porto Alegre, de "linguarudas", adjetivo ou substantivo para designar o atento observador e crítico da vida alheia. Este detalhe é importante: especificamente da vida alheia, pois o linguarudo ou linguaruda (hoje sei que a doença afeta ambos os sexos) não consegue ver um palmo diante do nariz sobre sua "própria casa". O sinônimo hoje seria fofoqueiro.
Lembro de uma "linguaruda", que passeava todo o dia pela rua Rodolfo Gomes, no Menino Deus. Chamava-se Dona Mosmé. Que Deus a tenha. Minha mãe tinha a paciência de ouví-la. Chegava de mansinho, muito suave e sorridente, e se aproximava da Dona Rosa (la mamma mia) e passava a falar baixinho, como que para ocultar as novidades que trazia sobre a vida de alguns vizinhos, como se não fosse repassar adiante o relatório para a vizinhança toda. Ela era uma "fofoqueira full time". Não fazia nada mais que fosse. Pois Dona Mosmé, ia falando e puxando uns fios do casaco da minha mãe, ou limpando o ombro da sua paciente ouvinte com o dedinho indicador, trazendo à tona alguma mazela oculta da vizinhança: "Rooosa, tu sabes que a desquitada está de namorado novo? sabes que o seu Manoel anda pelos bares da Azenha? Que o Chiquinho é...?...etc., etc., etc.). Nunca ouvi minha mãe passar as observações atentas da Dona Mosmé (espero, mas eu era pequeno...)
Uma realidade que a vida ensina é que para cada um de nós há sempre um cortejo de linguarudos, estes intermediários da desinformação, ou da informação transmitida fora do seu contexto real (como sempre o é um dado que diz respeito à experiência -intransferível- de outra pessoa).
Ao longo da vida, tenho sido, de algum modo, vítima de linguarudos, que projetam seus defeitos mais secretos nesta pessoa aqui, cuja vida não lhes diz qualquer respeito. E é interessante que a fofoca sobre nós mesmos, as vítimas, sempre nos chega aos ouvidos, ou aos olhos, por informantes atacados pelas Mosmés desta vida. Porque, como li em algum lugar:
"Quem fala mal da vida dos outros para ti, fala mal da tua vida para os outros".
Passei a deletar pessoas assim, e a ir com calma nas novas relações, buscando identificar o tal traço psicológico nos viventes, um tipo de ansiedade invasiva...Cheguei a dizer, numa ocasião, a algumas colegas que vieram me repassar más histórias da vida alheia: "-olhem, vocês estão perdendo tempo comigo. Ninguém nunca saberá do que vocês me contam. Eu não tenho o mínimo interesse. Nisto, sou um inútil assumido." Vi seus olhares de desapontamento.
Este é um dos meus defeitos: sou (não apenas) metaforicamente um surdo para os juízes da vida alheia. Graças ao bom Deus.
Deixo meu coração depositado
Sobre o altar de algum deus
Ainda e sempre amado.
O que me fala nos silêncios,
Aconchega-me em seu berço,
E me diz: sou o amigo.
Deus que desconhece crenças,
Religiões, ideologias,
Deus a brotar em minha alma
Dia a dia.
E assim é desde menino:
Este templo interno e vivo
Onde surgem-me os sonhos
E eu desperto renascido.
Ninguém te dirá se tua Arte
Vale tanto, ou menos que isto, ou mais.
Tua Arte é da tua vida,
A escrita tua, a tua voz própria,
O trêmulo ou seguro traço
Só traçável por tua mão,
Com gesto do teu braço.
Autêntico como um cheiro,
Ou forma de falar, olhar único
De esgueira.
Crias de ti mesmo uma bandeira.
Andas só, em tua sabida rua,
Expões tua história em arte e verso,
A imperfeita anatomia da tua alma nua,
Astronomia do teu (uni)verso.
Bem, a verdade é que nos últimos anos, Porto Alegre desgovernou em termos de violência, eu mesmo fui agredido e roubado. O Bonfim (algo inacreditável para mim) foi palco de assaltos armados, etc...tudo o que empesta e impossibilita uma vida tranquila em qualquer grande cidade brasileira.
Mesmo assim, tinha além de dúvidas, 59 anos bem vividos. Pensava em ir para o Uruguai, onde temos uma casa na região de Colonia. Amo o Uruguai, amo a região de Colonia. Pensei em montar meu ateliê de Pintura e Poesia, dedicar meus anos futuros a ler filosofia, e caminhar pelas ruas seguras (naquela época) de Carmelo...O Gustavo, lúcido, porém, me disse: -"tu tens uma atividade intelectual continuada na área da Pesquisa Médica. Em seis meses, o Portoalegrense aí vai estar deprimido."
Pois bem, nos acertamos: vamos tentar Portugal, terra dos meus avós paternos, cujo sotaque eu trazia nas memórias da infância e da adolescência, assim como o gosto por comer filhozes, bacalhau, beber bom vinho e ler Fernando Pessoa, Eça, et caterva…
Antes disso, nos reunimos com o amigo querido Fernando Baril para um jantar no Barranco. Contei a ele minhas dúvidas: o pequeno ateliê de Pintura em Colonia, ou continuar no batente em Portugal. Ele me disse, com aquele olhar maroto que tinha: -"talento tu sabes que tens, e eu reconheço, mas qual teu curriculum vitae em Pintura? Achas que vais te fechar num ateliê a pintar e ficar famoso em Colonia de Sacramento? Se optares por isto, eu estarei contigo e te darei toda a força, mas pensa bem". Foi uma opinião verdadeira e bem vinda como a picanha que comíamos.
Então, montei minha saída, enviei currículo de médico pesquisador para a Universidade onde trabalho porque vi que dispunha de um baita laboratório, onde eu podia seguir com meus projetos, o CICS-UBI - Health Sciences Research Centre. Além de ensinar, como ensinava na UFRGS, desta vez integralmente, na Graduação e Pós-Graduação. Recebi resposta depois de duas semanas: sim, temos interesse em que venha.
Gustavo e eu pensávamos: como será morar numa "pequena" cidade (pelos moldes brasileiros) de 60 mil habitantes no interior do país? Tínhamos dúvida se nos adaptaríamos.
Houve um evento internacional sobre Colestase Neonatal, com presença de colegas de todo o Brasil e de outros países, em minha homenagem...e um jantar inesquecível na residência da querida mestra (para toda a vida) Themis Silveira. Joias guardadas no coração. Pois viemos, inclusive o Paquito, que viajou umas 20 horas na sua caixinha. Longas histórias.
Aqui chegamos e nos encantamos com o tal "interior de Portugal". Interior que nos coloca no centro de uma infinidade de rotas por estradas perfeitas, circulando a Lisboa, Porto, Coimbra, de imensos tesouros culturais. Menos de duas horas a Salamanca, quatro de Madrid. Visitas recorrentes à Galícia, Astúrias, Cantábria...Paris e todas as cidades europeias a preços baixíssimos. E as milhares de pequenas cidades, aldeias e vilas de Portugal e fronteiras de Espanha, cada uma mais maravilhosa e surpreendente que as outras...E num ambiente de segurança pública sem defeitos...Senti como se tivesse tirado um peso de insegurança das minhas costas. Cuidados de Saúde que nunca imaginei: um Ambulatório Hospitalar na frente da casa, onde são realizados exames sofisticadíssimos solicitados por nosso "médico de família". Vacinação planejada pelo Serviço Nacional de Saúde, que nos envia datas para todas as vacinas, incluindo a Moderna que fiz ontem na farmácia ao lado de casa, obviamente gratuita. E piscinas, e SPAs, e lindos parques e uma boa casa com amplas vistas.
Enfim, a "pequena" Covilhã revelou-se uma metrópole linda e espetacular para se viver, cercada de campos deslumbrantes. Portugal, a Europa, foram maternais e gentis conosco, e Gustavo e eu recebemos a Cidadania Portuguesa em menos de 6 meses.
Continuo minhas pesquisas, enquanto houver desafios.
Mas de uma coisa não abro mão: vou montar meu pequeno ateliê de pintura e poesia, desta vez aqui pela Península Ibérica. Aguardem!
Obrigado Covilhã, obrigado Portugal, obrigado União Europeia! O Canceriano aqui reencontrou seu berço e está feliz.
Eu me levo pela mão nesta manhã
Porque é hora de me deixar levar
Sem esperanças,
E conhecer
O que me desconheço,
Num brinquedo de criança.
Sem escavar teorias ter respostas,
Sem ideologias ver o Sentido
Que me conduz sempre que brota
Novo verso ao ser tecido.
Foram-se as mágoas e os medos,
Rixas internas e externas,
Que me cegavam para o enredo
De verdades óbvias e mais ternas.
Calam-se os livros, os filósofos,
Os gurus, calam-se os ídolos,
Os curas, os papas, os imãs,
Calam-se os políticos e ideólogos,
Cultos e incultos, calam-se todos,
Na minha única manhã.
Amo as cores a combinar-se recriando o Espectro,
Ou a exibir-se com as nuanças dos matizes puros,
E amo o cinza em todos os tons, de chumbo ou prata,
Cinza de névoas a proteger-nos do sol duro.
Cinza das nuvens, cinza crômio, cinzas Outonais
Em que o rosa, por amor, irmana-se com os grises
E entretons de amarelo nas bordas quase brancas
De imensos cúmulos-nimbos desfazendo o calor.
Cinzas grafite das pedras, paredes, ruas, estradas,
Enfeitiça-me o cinza que se torna azul ao longe
Ao dar volume às distâncias colorindo-as com ar.
Amo o cinza nas vestes, neutra cor das elegâncias,
Nebuloso oposto das ânsias, tesões da cor a berrar.
O humilde cinza que some para o conjunto brilhar.
Eu e os meus "causos", como diz o gaúcho. São algumas das minhas experiências de vida.
Boa parte da minha vida adulta, morei no Bom Fim, o “Bonfa”, bairro judeu de Porto Alegre, um tanto boêmio e intelectual, com seu imenso parque, a Redenção. Cruzava diariamente com a dona Sarah, o seu Jacó, o músico tal, o artista plástico X, enfim...Ali vivi experiências difíceis como todo ser humano, e também tive vivências maravilhosas e enriquecedoras.
Ali fiz minhas teses de mestrado e doutorado, criei meus bichos amados, tive amores e fui amado.
Enfim, um bairro inesquecível, com piscinas, gente a andar pela rua, agito, passeatas, bons dias, olás, cafés e restaurantes...vizinhos e vizinhas tantos que chegavam a ser passantes desconhecidos. Uma das vizinhas, dona Esther, que morava atrás de nosso apartamento na Fernandes Vieira, um dia, quando eu cheguei do trabalho, estava sentada no banco à frente do edifício, e me olhou sorridente e curiosa e perguntou, com seu sotaque que eu diria de iídiche:
- o senhor é alemão, não?
Eu a olhei, curioso, e lhe disse:
- Dona Esther, eu sou uma mescla de italianos da Lombardia que na verdade eram em parte austríacos, e de portugueses. Alemães, alemães não somos.
Ela sorriu, seu rosto suave, e me disse:
- Ah! austríacos...eu "era" alemã. Nasci e passei boa parte da minha vida na Alemanha; lá viveram meus familiares por muitas gerações. Até que houve a guerra...
E dona Esther puxou um pouquinho a manga da blusa e mostrou-me o frágil pulso direito onde havia um número escrito:
-Eu fui prisioneira de Auschwitz.
Uma revelação que me deixou perplexo, ao ver a delicadeza desta vizinha alemã a compartilhar comigo, seu vizinho de porta, as memórias dolorosas que ela guardava e revivia. E a vergonha do mundo inteiro.
Por falar em vergonha do mundo, numa outra vez foi a vizinha do andar de cima. Uma jovem mulher, muito bonita, divorciada, que vivia com suas duas filhas, também lindíssimas. Eram muito simpáticas e eu acompanhava, mesmo sem querer, o crescimento da mais jovem, que já tinha um namorado, todo atlético e bonitão. À medida que amadurece, a gente fica preocupado com o futuro da garotada nestes tempos caóticos, em que os valores da civilização vão sendo consumidos por ideologias selvagens. E ficamos torcendo para que estas joias lindas não percam o rumo, e não se destruam nelas os bens mais preciosos que a vida pode oferecer. Pois bem, um dia, a mãe desta família pediu-me algum tempo para conversarmos. Concordei.
Nos reunimos em sua casa e ela se abriu.
- Jorge, queria falar contigo...como médico.
-Por favor, fale comigo como médico e amigo.
-Pois bem, minha menina, a mais jovem, está grávida.
Quase sorri pela bela revelação, mas evitei. Ela continuou:
-Meu ex-marido é um homem rígido, um tanto grosseiro, e por isto nos separamos.
-E?
- Ele é deprimido crônico, usa medicação, faz tratamento.
-Sim...
- Ele não vai suportar a notícia de que nossa filha está grávida. O rapaz é um irresponsável, dependente dos pais e nem quer saber. Sumiu. Meu ex-marido pode se matar ou fazer uma loucura. Eu queria saber se tu podes indicar algum colega teu para fazer o aborto...
Algo subiu à minha cabeça e eu fiquei, digamos, muito indignado, por ser colocado numa posição decisória quanto à destruição de uma vida humana, por causa de um namorado "vagabundo" e de um pai "violento e deprimido". Mas como tenho anos de traquejo em ser o que sou independente do que os outros esperam, independente da “persona” que os demais impingem a um "médico liberal", disse-lhe com carinho:
- Amiga, eu sou um Pediatra, que significa ser o “protetor das crianças”. Eu não faria algo assim com sua filha, nem com o bebê que pede para vir ao mundo. Independente de qualquer questão religiosa, como médico que ama as crianças, e adolescentes como tua filha, eu não sou a pessoa que pensas que sou, que procuras, eu não posso te ajudar. Se pudesse te dizer algo, é: assumam juntas este bebê, sejam apoio umas a outras. E dane-se o rapaz irresponsável. Quanto ao teu ex-marido, que ele vá mesmo se tratar e não incomode neste momento tão especial de vocês como família. Que busque um psiquiatra melhor. Se quer se suicidar, uma pena, mas ele é adulto. O bebê que vem é o mais frágil.
Ela sorriu, triste e um tanto surpresa, e me disse apenas:
-Vamos pensar. Mas obrigado.
Saí dali sentindo-me afetado, quase um culpado por complicar ainda mais a situação daquele grupo de pessoas. Um insensível, rígido. Mas refleti para mim mesmo: é o que eu sinto em profundidade; esta é a minha palavra verdadeira e eu seria um farsante se fizesse diferente.
O tempo passou e houve um silêncio na nossa relação de vizinhança. Até que um dia vi a linda filha curtindo sua barriguinha ao sol da manhã. Quase chorei, mas me mostrei impassível e desapegado:
- Bom dia, eu disse.
E a garota, sorrindo, respondeu me olhando nos olhos:
- Bom dia.
Vários meses depois, fiquei sabendo do nascimento e conheci aquela bebê tão linda como a avó e a jovem mãe, digamos também, com uns bons traços do belo avô.
A mãe um dia chamou-me para outra conversa de vizinhos:
-Jorge, eu queria te agradecer. Não sabes o bem que nos fizeste. Tomei coragem e falei com o ex-marido. Fui forte, firme, empoderada. Ele inicialmente ficou furioso, mas dois ou três dias depois veio visitar-nos e passou a mão sobre o ventre da filha.
Jorge, o nascimento da nossa neta foi a maior bênção para nós todos...e especialmente para o meu ex-marido. Ele é apaixonado pela neta, como o é pelas nossas filhas. A neta é a alegria da vida dele.
O poeta aqui tremeu nas bases e, emocionado, respondeu:
-Que alegria imensa saber disso, ter feito parte da história de vocês.
Soube que o bonitão, irresponsável e vagabundo, voltou a buscar a belíssima jovem mamãe, mas ela nem quis saber. Havia coisas melhores neste mundo, incluindo algum pretendente trabalhador e amoroso. E o amor de sua família. Ela já trabalhava e cuidava da sua filha. Assim é a vida, rapazes. Hesitou, perdeu a joia!
Estas situações fazem a vida de um médico valer a pena. E não deixar que a profissão torne-se terreno do crime, mais uma vergonha para este mundo triste, cada vez mais medíocre.
“Árvore alguma será conhecida ou amada pelas aparências exteriores, mas sim pelos frutos, pela utilidade, pela produção.”
Lucas
A Verdade, sobre a qual o Sábio cala
Traz poder a um mentiroso quando fala.
A Verdade, a qual estuda um sábio,
É o lucro do embusteiro em sua lábia.
Às vezes, quem predica as virtudes
Ambiciona, com discurso, as serventias.
Mais vale conhecer(-se) e ser bom Homem
Que seguir um impostor a aproveitar-se.
Para haver a Alquimia eis o procedimento:
Tecemos a vida de dentro para fora
E a vida nos tece de fora para dentro.
Então nasce, no mundo, a obra da História.
Maestria e memórias, o Ouro, no centro.
Assisti um documentário no Netflix que me fez refletir sobre a grandeza diferenciada de certos povos, certos países, e sobre a Revolução dos Cravos, data hoje comemorada em Portugal.
O filme que vi e recomendo é Drottningen Och Jag, realizado pela famosa cineasta Iraniana-Sueca Nahid Persson.
Para o filme, durante longo tempo, Nahid entrevistou aquela que foi imperatriz do Irã por 30 anos, a ainda bela Farah Diba, até que o regime monarquista sob o comando do Xá Reza Pahlevi foi substituído pelo dos aiatolás, a começar pelo Khomeini.
Durante a minha juventude, a informação das mídias internacionais descreviam o regime corrupto da monarquia iraniana, o que tinha algo de verdade, e não houve família mais execrada em termos midiáticos e políticos que os Pahlevi. Até que a oposição desencadeou a "Revolução Gloriosa", destituiu o xá, e a família Pahlevi teve que buscar exílio em diversos países. Os responsáveis pelo golpe constituíam-se de um bando heterogêneo formado por fanáticos islâmicos, socialistas incendiários e criminosos sob às ordens da URSS que tinha interesses em alargar seu poder e território, com a ingerência de alguns países ocidentais poderosos. Pois a revolução resultou num Totalitarismo religioso, que dura décadas naquele país e executa mais que torturas, também assassinatos em massa de opositores e abolição das liberdades individuais. Isto se sabe e se divulga agora, mas naqueles tempos estes criminosos eram os heróis dos intelectuais de esquerda. A velha história.
Pois a cineasta era uma jovem comunista que lutou pela Revolução e foi sua vítima logo após, tendo conseguido fugir do Terror para Suécia. Farah Diba (Pahlevi) e Nahid Persson, duas iranianas confrontam seus passados e presentes com uma grandeza emocionante. O carisma de Farah Diba mantém-se inalterado. Recomendo o filme.
Mas o que refleti não foi só isto.
As revoluções recorrentemente têm prometido concretizar o céu na terra e acabam empurrando países ao inferno (vide a América Latina de hoje). A intelectualidade tem sua responsabilidade nisto por amar as ideologias mais que a realidade possível, dentro de um idealismo quixotesco.
Pois o que me encanta neste dia é a grandeza de um país que nos recebeu como lar: Portugal.
Sua Revolução dos Cravos é ímpar, única na História desde a primeira das grandes revoluções da Idade Moderna, a Francesa.
Uma revolução pacífica, com seus ideais socialistas libertando os portugueses de uma ditadura prolongada, sem armas, sem mortes coletivas. E os resultados prometidos, claro, depois de grandes dificuldades e mesmo erros (como não haver erros?) foi realmente Liberdade.
A União Europeia trouxe a Portugal, como à maioria dos países da Europa, a garantia de um clima de respeito às diferenças e de progresso coletivo, concretizando a estabilidade numa vasta parcela do mundo. Uma imensa comunidade de países, em um contexto de Liberalismo com fortes políticas sociais. Nada a ver com o socialismo coletivista da primeira metade do Século XX, que gerou (e ainda gera) miséria, tirania e exílio às populações.
Como refletiu Arendt: "a Comunidade da União Europeia só surgiu quando os socialistas finalmente desistiram do Comunismo". Eu humildemente acrescentaria: quando a força dos fatos obrigou a uma ação Política que visa o melhor da realidade e abandona a "mentira sistemática".
Quem incomoda neste momento é aquela mesma URSS, ainda transvestida de democracia, ainda a ditadura da Mentira.
Portugal, e a Comunidade Europeia, souberam conjugar o que há de melhor até agora dos ideais Humanistas aplicado à Política e à Economia.
Portugal tem exatamente este espírito: um grandioso (pequeno) país que soube cumprir o seu melhor destino. Lembrando o poeta, Portugal cumpriu-se.
Parabéns, querido Portugal, pela Liberdade e o bem-estar social!
Viva a incrível, benigna Revolução dos Cravos.
Depois de grande polêmica sobre Lula discursar numa celebração do maior valor para Portugal, eu me pergunto:
- Como pode um ex-presidiário, julgado e condenado em 3 instâncias pela Justiça Brasileira (a porção realmente qualificada da Justiça), liberado apenas num esquema político por um tribunal formado por indicação política, discursar em uma das festas máximas de Portugal?
- Como pode discursar o ex-presidiário, após as declarações em que ataca as condutas excelentes (do ponto de vista ético e legal) da União Europeia e dos Estados Unidos, e dos demais países realmente democráticos, em relação à criminosa invasão da Ucrânia pela Rússia.
Sabe o governo Português o que está por trás disso, em termos de interesses comuns dos criminosos russos e os dos países latino-americanos talvez mancomunados?
Além da mediocridade intelectual do falastrão brasileiro criador de cizânia, de suas opiniões toscas, de seu mau uso da língua Portuguesa, o que se esconde por trás deste discurso absurdo e incorreto? Quais suas verdadeiras intenções de Poder?
As relações políticas deste sujeito têm sido os Castro, Chavez, Maduro, Ahmadinejad, al-Gaddafi, a corrupta família Santos de Angola.
Admiro o presidente Marcelo Rebelo de Souza, mas vê-lo literalmente curvando-se para fazer honras a essa pessoa me pareceu uma fraqueza por demais ingênua.
E eu tenho me perguntado nestes últimos dias:
-Como podem os Portugueses, entre os quais eu agora me incluo, compactuarem com um discurso que tenta dividir os europeus e os norte-americanos, aliados numa causa justa de libertação da Ucrânia invadida por criminosos das máfias russas?
Como um homem desse tipo discursará ao digno povo Português?!
Eu não esperaria outra postura de alguém como aquele sujeito, mas confesso que jamais esperava uma posição assim de Portugal e de sua imprensa.
Os europeus devem despertar desta fantasia de imaginar Lula um grande homem injustiçado por "fascistas". Ele não é um injustiçado, nem são fascistas mais da metade dos brasileiros incluindo os mais lúcidos, os quais merecem respeito.
Torço pelo Brasil, torço por Portugal e pela Ucrânia.
Vejo-me a envelhecer.
As mãos que eram as minhas
Amarrotaram-se, e manchas marcam a pele.
Dói-me joelho, dói-me anca, dói-me às vezes
O pensamento.
Mas canta igual, com o versejar que tinha
Ele mesmo, o infante a festejar nos meus poemas.
Voz de cristal, criando estrofes, sondando temas,
Em Arte e Ciência, ele mesmo,
O eterno piá que, ao não crescer,
É bem verdade, deu-me problemas,
Mas vejam só, a criança interna,
Tão sonhadora e inda pequena,
É que, ao criar, sempre a brincar,
Faz-me sorrir, a cada dia,
Nas minhas penas.
Desde que me conheço por gente
Era um piá escrevente,
Leitor faminto
Um tanto descrente,
Buscando palavras
Para expressar
O que vinha à mente
Ao observar esta vida
E tentar desvendar
Os segredos
Da eterna mutante.
Além das escritas
Produzia rabiscos, esboços,
Desenhos, manchas,
Pinturas,
De cada mão, cada olhar,
Sorriso, ou postura,
Céu, rio, rua,
Sentimento,
Para alguma folha
Ou tela nua.
E ainda sou
O rabiscador
Do que vai neste mundo,
Com a alma na lua.
Para contextualizar aos amigos que se perguntam porque escrevo tanto. Por um lado, pelo gosto que tenho desde guri de pensar, ler e escrever. E, com a existência destas redes sociais, passei a publicar no Face book e neste blog que tenho.
Mas neste caso específico, escrevo porque em 1993 criei no Hospital Cristo Redentor de Porto Alegre, um hospital de Trauma que atende as zonas mais carentes de minha cidade, o "Grupo de Proteção à Criança e ao Adolescente". O grupo tornou-se e se manteve uma realidade por décadas, incluindo profissionais da saúde como psicólogos (maravilhosos), enfermeiras (excelentes), técnicos de enfermagem e assistentes sociais, tendo apoio dos agentes do Ministério Público do Brasil, com base na regulação do Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). Cada paciente vítima de trauma, ou em qualquer sugestão de abuso, era criteriosamente acolhido e investigado, obviamente com atenção às questões éticas, para identificar violência ou abuso sexual extra- ou intrafamiliar. E assim fizemos, encaminhando inúmeros casos ao Ministério Público e Conselho Tutelar. Foram décadas de trabalho, envolvendo a coleta de história clínica e psicológica, exames físicos e de imagem, investigação do meio comunitário das famílias pelo Serviço Social, da situação real em que as crianças viviam.
Confesso aos amigos que até hoje sinto que esta tarefa, que iniciou sem muita expectativa, tornou-se a coisa mais linda e valiosa que fiz como profissional médico e pessoa.
Centenas de casos encontramos e encaminhamos.
Como dizia o querido amigo Prof. Mosca, embasado nas suas leituras do Budismo Tibetano: "Os médicos não vão para o Céu porque conhecem o Segredo dos deuses". Uma frase lapidar.
Aqueles anos de trabalho no Grupo de Proteção aos menores abriu nossos olhos para a realidade, além da cotidiana violência, sobre o abuso sexual dos pequenos dentro de casa, com a conivência das suas mães dependentes emocional e financeiramente de maridos ou "companheiros". Esvaiu-se a ingenuidade sobre a sacralidade da família.
A realidade é trágica e o pior é que, após o processo judicial, as vítimas eram frequentemente re-encaminhadas ao "sacrossanto reduto do lar", ou seja, aos seus abusadores, por juízes despreparados, que pareciam desconhecer, ou negar, que a pena para o abuso sexual de menores no Brasil é cadeia.
Por falar em sacrossantas, este "médico que não vai para o Céu" aqui, ficou sabendo que, havendo-se trazido à tona a questão dos abusos sexuais na Igreja em Portugal, houve pelo menos 4.800 queixas de abusos perpetrados por padres da "Santa Madre".
E por que a Igreja? Por que não os pastores protestantes, os monges zen budistas? Por que a Igreja, vocês não se perguntam?
Um motivo pode ser que não se investiga nos outros grupos religiosos, mas sinceramente não creio. Ou seja, a causa não se relaciona a uma crença religiosa, à crença em Deus, ou ao Cristianismo especificamente, mas sim a uma questão particular relacionada à Igreja Católica.
E aí trago uma referência importante, publicada em 1946 pelo filósofo Bertrand Russell, intitulada "A History of Western Philosophy".
Eu, por curiosidade, tentava antes entender onde e porque o Celibato obrigatório tornou-se uma regra fundamental da Igreja Católica, e só na Igreja Católica. Os apóstolos de Jesus tinham vida sexual, filhos. Quanto a Jesus não se tem certeza, nem deve ser uma questão relevante, ainda mais se sabendo que os textos do Evangelho foram retorcidos, recriados, visando a produção de um tipo de ideologia, a tal ponto que Maria, mãe de Jesus, foi "tornada virgem". Eu tentava desvendar isto e consegui a resposta com o grande Russell.
Pois bem, deixando o lado "sacrossanto", descobri que a obrigatoriedade do celibato na Igreja só surgiu no século XI, uma era terrível para a fé cristã, quando a Igreja, por exemplo, utilizou o Terror totalitário contra populações consideradas hereges como os Cátaros, dizimando-os. E obrigou os padres e freiras ao Celibato. Portanto, o celibato obrigatório para padres e freiras na Igreja foi instaurado no século XI por interesses econômicos, visando a evitar que as heranças das possíveis famílias dos religiosos (muitos deles oriundos da Nobreza) passassem para as proles de herdeiros. As fortunas permaneceram na Igreja, para o bem "da causa".
Ou seja, há 10 séculos um grupo imenso de seres humanos passou a ser proibido de amadurecer sexual e emocionalmente através da experiência dos amores familiares e, por que não, extra-familiares (direito concedido pela vida a cada um de nós, seres humanos).
Esta tragédia humanitária que envolve a estruturação da Igreja Católica pode ser a causa de que pessoas, apesar de serem devotadas sinceramente ao Sagrado, tornem-se agentes de atos perversos contra vítimas indefesas, os menores, a grande maioria com até 11 anos de idade. É lamentável. Obviamente, cada um destes adultos abusadores é responsável por seus atos e deve ser julgado e, conforme, condenado.
Mas o mais triste é reconhecer, como bem sabem os que "conhecem os segredos dos deuses", que a Santa Madre Igreja, não vai, muito provavelmente, abrir mão da obrigatoriedade do infamante Celibato Obrigatório, um de seus "pecados institucionais".
Quanto aos demais, especialmente os colegas e alunos, vamos proteger os menores da ação nefasta dos abusadores, tanto os das famílias quanto os das Igrejas!
Lembrando de Rumi
Tesouro de todas as cores a emanarem brilhos:
Um curso de água
A fluir lentamente
Tocado pelo Sol.
Qual joia preciosa, qual coroa de rei
Imita aos sentidos a beleza
De um riacho lentamente a mover-se
Beijado pela luz do Sol?
(Lembrando de Luchino Visconti e seu La Caduta degli dei,
traduzido no Brasil como “Os deuses malditos”)
Deixei de crer nos deuses malditos,
Os tais "gênios" devoradores de valores,
Ao decifrar meus próprios mitos
Revelados pelos sonhos e amores.
Calei a lábia desses "deuses decaídos"
Destiladores de ideologias
Que confrontavam nos meus ouvidos
Cacofônicas filosofias.
Pude ver na realidade os frutos podres
Da criação de um Novo Mundo:
Crimes, Terror, arbítrio e fome.
Os ativistas destruidores do que existe,
Jamais atingem algum oposto desejável
Pois arrasam o melhor que há no Homem.
Sou do tipo incomum
Que fica feliz
Quando há neblinas
Numa tarde gris.
Nuvens flutuando
Nas ruas comuns
Pintam de mistério
Qualquer esquina,
E os horizontes
Despercebidos
São como a presença
Só pressentida
Das coisas divinas.
Mas eu amo também
As cores pintadas
Por suaves chamas
De alguma brasa
Que ao se desfazer
Dá vida à casa.
Alegrias tão simples
De quem ama o inverno
Como decifrar sonhos
E sussurrar versos.
"…Whatever proportions these crimes finally assumed it became evident to all who investigated them that they had started from small beginnings. The beginnings at first were merely a subtle shift in emphasis in the basic attitude of physicians. It started with the acceptance of the attitude ... that there is such a thing as life not worthy to be lived.... Gradually the sphere of those to be included in this category was enlarged to encompass the socially unproductive, the ideologically unwanted, the racially unwanted, and finally all non-Germans.... It is, therefore, this subtle shift in emphasis of the physicians' attitude that one must thoroughly investigate..."
Dr. Leo Alexander, assistente de acusação no julgamento de Nuremberg
(fonte- https://www.ufrgs.br/bioetica)
Algo novo, algo novo!
Uivam os gênios,
Os ídolos, os doidos,
Gozam os políticos espertos
E idiotas acoplados,
Seus ideólogos.
Clamam todos: algo novo
Que comova multidões,
Gere frêmito e paixões,
E se imponha às gentes:
Combustível
Para queimar o Presente!
E se falta no mercado
Quem crie o Novo
Que se importe
De algum povo
Amoral
Que o invente.
Novo? O mundo crê que o ignora
Mas a memória o recorda, ou pressente:
Revolução que mata e não cura.
Eutanásias!
Ainda que se danem
Nas enfermarias,
Os doentes, malcuidados
E sem analgesia.
Infanticídios!
Que as mulheres sejam
A massa de manobra
A destruir, com autonomia,
Bocas inúteis,
Suas “inúteis crias”.
Novo! Novo!
Que se transforme a Medicina
No ofício que, como esmola,
Assassina.
Este Novo,
Tempero secreto dos totalitarismos,
Renasce de atavismos,
Fruto podre da selva arcaica,
Dos filicídios, parricídios,
Avós e crianças
Ao relento, repudiados.
Doentes ou dementes
Piedosamente eliminados.
Novo, que devora
O mais belo símbolo
Um dia sonhado
Pela Humanidade:
Não matarás
Como regra de ouro,
A Primeira Verdade.
Vitória desesperada
Da miséria moral de umas gentes
Amnésicas,
Desumanas,
Toscas,
Endinheiradas.
Quando paro, olho na janela envidraçada
O que é a vida que flui, sem pensar nada
E vejo claro o que me dá este momento:
Montes coroados pelas nuvens, e o vento.
Como posso só agora olhar a paisagem,
-Perdido que eu estava em mil trabalhos-
Para eternizar em mim a foto de viagem,
Tela do mundo exposta aos sentimentos.
Que ruído me impedia este acasalamento
Com a vida a dançar em pleno Outono?
Sou todo olhar agora, todo apenas ver
As prendas impermanentes que se tecem
Bordadas, sem palavras, qual se fossem
Silenciosas mensagens do que é Ser.
Sobre "sacralidade" da vida humana: um ateu culto pode dar-se conta de que o "não matarás" representa a base da Civilização Humana, que se desenvolveu ao transcender da Barbárie Original. A expressão "valor sagrado" tem o significado de valor fundador, fundamental, sem o qual não há Lei. É tão precioso que tornou-se o símbolo de "Primeira Ordem" na Lei Mosaica (uma das civilizações mais antigas e, portanto, experientes da Humanidade). Isto vale para reflexões sobre eutanásia, pena de morte, aborto, infanticídio. Matar degrada pessoas e comunidades ao nível mais primitivo e bárbaro.
Sobre o embrião, o mesmo ateu sabe que ele não representa um "aglomerado de células", que pode vir idêntico numa nova tentativa. Quem conhece um pouco de Embriologia e Genética, sabe perfeitamente, que um ovo humano, tem em si um arranjo genético ÚNICO, graças a todas as transformações moleculares, os crossing-overs, as influências intrônicas e modificações exômicas.
Do ponto de vista biológico, aquele embrião que se desenvolve não ocorrerá nunca mais, ou seja, ao matá-lo ele será eliminado da vida e da História Humana. É um Ser Humano, esta palavra que deveria ter um valor símbólico de "religioso", numinoso (de Numen), "divino" (independente de se crer num deus) para uma Civilização que se preze. Assassiná-lo significa retirar do futuro da Humanidade algum gênio, santo, ou qualquer pessoa, que merece ser recebida de braços abertos. Do ponto de vista biológico (e isto não tem a ver com fantasias transcendentais ), esta pessoa (única, específica) foi definitivamente descartada do futuro. Independente de ela vir ao mundo com saúde ou doença. Pior ainda, eviscerar fetos plenamente senscientes após a 12ª semana é um crime covarde do pior tipo. Assim como o infanticídio ("after-birth abortion") recentemente legalizado na Holanda.
Hoje em dia há leis da Alemanha protegendo embriões de frangos! E os humanos?
De 1973 a 2017 foram assassinados intra-útero 40 milhões de seres humanos nos Estados Unidos (seria população de país inteiro) pelo uso "anticonceptivo" do aborto. A discussão técnica adequada a algumas situações deve ser feita para liberar abortos quando há risco de vida de uma mulher adulta ou adolescente, com certeza.
O resto é hedonismo grosseiro, insensibilidade desumana, conduta eugênica cujos resultados conhecemos bem desde o lema nazista da "vida indigna de ser vivida" (Vernichtung lebensunwerten Lebens) de tão triste memória.
O Brasil sempre teve eleições difíceis. Votei uma vez apenas com satisfação, e foi num social-democrata, o Prof. Fernando Henrique Cardoso.
A presente eleição é atípica, incompatível com uma nação democrática (que se preze). Se as estatísticas estão certas, a imensa maioria dos que votarão no PT vota sabendo que farão presidente do país a um homem adequadamente julgado e condenado pela Justiça, envolvido com um partido sabidamente corrupto. Esta maioria vota mesmo assim nisso, o que é algo gravíssimo em termos ético-legais, individual e coletivamente. Os brasileiros restantes serão governados por esse homem, na verdade por esse grupo, de delinquentes. Um grupo em que a metade do brasileiros não confia, cujo teor de política tem destruído países latino-americanos nas últimas décadas.
E desconfia, não por "espírito de ódio", por interesses de algum imperialismo estrangeiro, sequer por luta ideológica direita x esquerda. É pela percepção clara do real, independente de partidos. Tememos o pior: o óbvio.
De minha parte, desejaria que meu temores fossem infundados.
Que o país mantenha sua trajetória de crescimento econômico, equilíbrio fiscal, liberdade de imprensa e de Justiça. Que não haja violência nas ruas, vandalismo, destruição e mortes. Que não lutem, entre si, os brasileiros por esta máfia.
Eu votarei em Lisboa neste Domingo, como cidadão brasileiro que ainda sou, e torço por um caminho luminoso para o meu país. Conforme, nem me interessarei mais por Política Brasileira. O país, ao optar, merece o seu futuro.
Deu prá ti, como diz o gaúcho.
Eu me lembro de uma senhora professora da USP discursando num jantar do PT na presença das figuras históricas do Partido. Pois a tal senhora do alto de sua grandeza intelectual berrava para a plebe rude dos brasileiros "Morte aos burgueses, morte aos fascistas". O lula e sua gangue sorriam extasiados. Ela, feliz , até por demonstrar à "cumpanherada" e demais ignóbeis que sabia como dizer fascista em Italiano. Isto filmado e documentado. Recebi hoje uma mensagem de um músico (mais um dos "gênios" nacionais) informando que comprou numa feira um livrinho escorraçando os "fascistas". Ou seja, na cabeça desta gente, os brasileiros "comuns" merecem ser classificados em comunistas ou fascistas. Isto é de um anacronismo impressionante, um retorno ao passado, o tempo das guerras civis por ideologias. Na Europa, embora se leia alguma frase em alguma parede (escrita por adolescentes desocupados) usando esta palavra, isto é visto como uma deselegância intelectual e uma traição ao espírito de liberdade. Eram as palavras que se encontravam escritas nas paredes das igrejas que foram queimadas lá por 1920 - 1930 pelos doidos da época para estimular o ódio alheio. E estimularam. Acabaram gerando regimes absurdos de exceção e muitas mortes. Por exemplo, numa região católica por excelência como Andalusia, Espanha. Um dia antes da morte do Lorca queimaram uma catedral antiquíssima em Granada e assim andavam os ânimos. Ódios entre famílias, disputas por dinheiro e poder, antagonismos das aldeias, fofocas e intrigas plantadas geraram o que se viu. Morreram milhões de inocentes. As sombras de nosso passado recente.
Se querem o poder decentemente, respeitem a inteligência e a integridade alheias, respeitem a fé ou a descrença alheia. Respeitem o patrimônio de todos e de cada um.
Parem de se imaginar europeus anarquistas do século passado. E deixem de apontar o dedo aos demais chamando-os de burgueses fascistas.
Isto é cafona, medíocre, fora de época. Uma grosseria de terceiro-mundo, digna de um Putin.
O Brasil não merece isto.
A Política, com honrosas exceções, é um campo de trabalho dos psicopatas, os que amam apenas o poder.
Assassinos sorridentes seduzindo vítimas com suavidade, corruptos esbravejando ou enaltecendo a honestidade. Destruidores compulsivos discursando sobre um novo país, um novo mundo. Psicopatas são os especialistas da mentira, da sedução. Há quem se apaixone por um deles. Ou passe a "seguir" um deles.
O discurso deixa perceber às vezes o que lhes vai na cabeça: a liberação do infanticídio e drogas, a destruição de valores fundamentais, divisão entre "nós e eles", criação de um clima de ódio contra uma pessoa ou grupo. Mas é na ação que mais se revelam: tomada de poder, apropriação do dinheiro público para si (e seu grupo), destruição da Justiça e da liberdade de expressão. Inviabilização de Economias e países. São gangues: Venezuela, Cuba e...
Mas os culpados do desfecho trágico são sempre "os outros".
O povo que, num espírito de torcida de futebol, escolhe um destes, na verdade uma gangue destas, os merece...
A água mansamente vai fluída.
Do largo rio a pele se arrepia
E chilreios soam, suaves pios
De alguma passarada escondida.
A brisa é a cortina a mover-se,
O coração a manter-se é a vida
E a alma emociona-se ao ver-se
Finalmente fonte despoluída.
Tudo valeu, o veneno consumido
Tornou-se o bálsamo da cura,
Tesão gerou amor e sua memória,
Lucidez destilou-se da loucura,
A Obra prometida veio à História
E minha sede bebe a água pura.
Eu te via, linda figura, alma ampla,
Joia de outras terras, outros tempos,
Regando os brotos que cresciam no jardim:
Os teus amores, com amores para mim.
Teus olhos de um azul mediterrâneo,
Recordavam paisagens de altos montes
Enquanto cozinhavas horizontes
Aos teus amores, com sabores para mim.
E com as histórias da vida que sofreste,
Teceste os bordados de um contexto
A atapetar os vazios do meu caminho.
E foi tanto teu amor, tão liberado,
Que esta cria que educaste no passado
Pode voar ao seu melhor fora do ninho.
No caminho para uma praia fluvial hoje em meio a estas paisagens incríveis de montanhas e campo do interior Português, vi algo pela primeira vez e me tocou. Num grande terreno dourado onde se fazia a colheita do trigo, estavam centenas de cegonhas recolhendo os restos da colheita e levavam para alimentar os seus recém-nascidos os grãos que coletavam. Nesta região, como em toda península, sobre antigas construções, torres de Igrejas, chaminés de pedra de alguma empresa abandonada, as cegonhas constroem imensos ninhos de palha. Migram entre África e a Península Ibérica - e creio que em toda a Costa Mediterrânea-, voltando ao antigo ninho naquela lembrada torre onde foram alimentados por seus pais para alimentar aos seus filhotes gerados aqui. Algum tipo de memória ancestral, ou nem tão ancestral, que mantém estes seres alados belíssimos, brancos, enormes, envolvidos no dever “sagrado” de migrar para gerar e manter a espécie, seus filhos, e proteger os recém-nascidos acima de tudo. Aqui percebi profundamente o símbolo belíssimo da cegonha em relação à geração dos bebés. As cegonhas e seus bebés que são amados e protegidos aqui, como deve ser.
"Eu sou uma galáxia, você é uma galáxia".
Vangelis
Somos galáxias,
Em nós convivem os bilhões de seres,
Cada qual minúsculo e imenso,
Que existem
Para que existamos.
Complexos seres
Que ao viver em nós
Dão-nos a vida.
Interligados por
Matéria obscura,
Desconhecida.
Somos galáxias,
E no centro da cabeça
Pulsa o círculo de fogo
Que alguns crêem ser
Negro buraco,
Monstro devorador,
O Nada apenas.
Silencioso círculo de fogo,
Ovo de onde brota
Plenitude:
Eu em torno ao qual
O cosmos gira.
Sagrado círculo
Onde se calam tempo e espaço,
Nossa vertente
Onde Shiva dança,
E no fundo deste fundo,
Há passagem de
Outros mundos:
Fonte de sonhos
E mudança.
Senhores e senhoras, meninas e meninos,
Caros clientes,
Somos uma empresa inovadora que presta serviços dentro do Novo Sistema de Saúde. O Sistema Arcaico, baseava-se num pensamento mágico-religioso e sofria os entraves da regulação por valores judaico-cristãos, os quais restringiam o empoderamento d@ cliente na gestão de sua própria terapêutica. Tudo mudou desde que em 1973 você, cliente, passou a determinar o que deve ser feito.
O então denominado “Médico” era um profissional todo-poderoso que disfarçava o Paternalismo de suas condutas ao impingir preconceitos e valores contra a vontade d@ cliente.
O Novo Sistema de Saúde, surgido nos países desenvolvidos após ampla discussão entre técnicos, filósofos, juristas, pesquisadores e políticos, libertou-se dos valores até então considerados civilizados e lançou o atual adaptado aos novos tempos do Niilismo Libertador. Não mais impedimentos ao desejo d@ cliente, cuja vida e a vida de suas crias, dizem respeito somente a ele/a mesm@.
E, fundamental, livrou o Sistema de Saúde de imensos gastos inúteis de dinheiro.
As opções da NEO-MED para você
Apresentaremos nossas novas opões neo-terapêuticas para que você, cliente, chegue a usufruir das benesses do Novo Sistema de Saúde.
Nossos serviços incluem um bem elaborado protocolo, feito especificamente para cada cliente, por Filósofos e Eticistas capazes de justificar as escolhas d@s clientes de acordo com as melhores e mais atualizadas referências bibliográficas da área da Neo-Saúde, Filosofia e Neo-Direito Global. Estes protocolos que devem obrigatoriamente ser enviados às instâncias superiores de Regulação em Saúde, serão julgados quanto a qualidade discursiva dos argumentos para adaptação ao total respeito à vontade d@ cliente, dentro de critérios isentos de valores arcaicos e, portanto, dentro da abordagem contemporânea do Niilismo Libertador.
Entre as opções independentes de gênero, @ cliente poderá solicitar:
1. Suicídios assistidos, realizados por eutanasistas experientes, em confortáveis SPAs onde você pode usufruir de uma morte como @ cliente NEO-MED merece, rápida e indolor.
(Obs.- Caso haja a presença de parentes e amigos para os festejos de desfecho induzido, os preços serão acrescidos de 20%. Bufês especiais, incluindo peruano, japonês, francês com espumantes acréscimo de 60% nas despesas. Suicídios assistidos de pessoas apenas deprimidas, ou em situações de crise ideológica, com vontade de experimentar, ou ainda por questões pessoais que não interessam a outrem terão acréscimo às despesas de 15%).
-além das eutanásias-padrão em situações de fim-de-vida na vigência de sofrimento realizadas também em hospitais a serviço do Estado Progressista, a NEO-MED oferece as "Eutanásias Liberadoras" pelas quais os familiares poderão libertar-se em um dos nossos SPAs de um parente que considerem com "vida indigna de ser vivida".
(Obs.- Caso @ padecente tenha alguma situação considerada pelo Neo-Direito Global como “indigna de ser vivida”, incluindo doenças crônicas com incapacidade de comunicação, esquizofrenia, retardo mental, demências, ou qualquer condição que o ponha nas mãos dos interesses e vontades familiares, a NEO-MED considerará como clientes os seus responsáveis legais, os familiares, e libertará a família da “situação indigna de ser compartilhada”. Neste caso, o processo de transferência dos bens do paciente aos familiares poderá ser realizado pela NEO-MED envolvendo pagamento para a empresa de apenas 1% do total do valor do espólio, bem abaixo dos 5% exigidos pelo Estado Progressista.)
2. Para as mulheres especificamente que, por serem as recetoras obrigatórias e obrigadas dos embriões das crias humanas, a NEO-MED garante condutas perfeitamente adaptadas ao seu empoderamento, oferecendo todas as liberdades que uma cliente NEO-MED merece:
-abortos em nossos SPAs, com todas as comodidades (caso a mulher libere os embriões ao Serviço de Saúde para investigação científica, haverá redução das despesas do aborto em 5%);
-infanticídios de crias após a 12ª semana de vida gestacional até o fim da gestação inclusive (5% adicional no preço, devido aos procedimentos cirúrgicos de destruição e descarte das crias);
- infanticídios de crias cronicamente doentes, com incapacidades, independente da idade (neste caso, os gastos podem ser debitados ao Neo-Sistema de Saúde);
(Obs.- no caso de adolescentes, estes são automaticamente considerad@s clientes NEO-MED e poderão solicitar suicídios assistidos, realizados por nossos eutanasistas.)
Como percebe, oferecemos o que de melhor o Novo Serviço de Saúde pode prover para valorizar a autonomia d@ cliente, de modo confortável, cercad@ de todas as vantagens de ser cliente de uma empresa com a tradição NEO-MED, sob os cuidados de técnicos e servidores da Saúde, técnicos eutanasistas e infanticidas qualificados nos cursos NEO-MED (os trabalhadores do Sistema de Saúde que substituíram os profissionais arcaicos, antigamente denominados “Médicos”).